Wednesday, May 09, 2007



Jon Wozencroft estudou no London College of Printing, trabalhando para várias gráficas e editoras antes de criar a empresa de multimédia ‘Touch’ em 1982. Desenvolveu actividade de freelancer como escritor, desenhador, editor, etc. Uma série de contribuições ‘Touch’ com Neville Brody deixaram uma participação mais próxima, primeiramente ajudando a criar o set-up do estúdio de Brody em 1987, mais tarde como autor 'da língua gráfica de Neville Brody'. Em 1990, começaram o projecto FUSE, de que Wozencroft é o editor. Jon Wozencroft começou o ensino na escola St. Martin’s School of Art and Design em Londres em 1992, onde desenvolveu um curso novo para o BA Graphic Design. Em 1994 foi nomeado tutor principal e assistente do MA Interactive Multimedia no Royal College of Art. É actualmente Senior Tutor no departamento de Comunicação de Arte e Design do Royal College of Art.

Comissário_Andrew Howard, ESAD
Organização _ESAD 2007
ESAD Escola Superior de Artes e Design_Av Calouste Gulbenkian_4460-268
Senhora da Hora_Matosinhos, Portugal
T +351 229 578 750_F +351 229 552 643_www.esad.pt

Tuesday, May 08, 2007




Foi lançado, quase em simultâneo, o primeiro número de duas novas revistas electrónicas ambas ligadas a centros de investigação nacionais: o The (RADICAL) Designist e a Communication Studies. A primeira é uma publicação dirigida por Eduardo Côrte-Real, publicada pela UNIDCOM/IADE focada no campo da história e da teoria do design; em relação à Estudos de Comunicação/Communication Studies é dirigida por João Carlos Correia e trata-se da publicação semestral do LABCOM-UBI centrando-se no campo, cada vez mais transdisciplinar, dos estudos de comunicação e media.

Tratam-se de dois projectos indiscutivelmente estimulantes, o primeiro número de ambas as publicações permite-nos encontar ensaios consistentes e actuais dentro de publicações electrónicas mais que correctas do ponto de vista de interface e usabilidade.
REACTOR ENTREVISTA MÁRIO MOURA

Mário Moura é designer gráfico, professor de design gráfico e multimédia na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e um dos mais pertinentes e insistentes críticos do design portugueses. O seu blog (http://ressabiator.blogspot.com) é um exemplo do que um blog de reflexão crítica sobre o design deve ser.

REACTOR: No primeiro post do Reactor afirma-se que "não há design sem diálogo", enquanto profissional do design que diálogos lhe interessam estabelecer? Com quem? Sobre o quê?

MÁRIO MOURA: Se pensarmos no discurso do design como um diálogo, só costuma haver duas personagens: o Designer e o Cliente. É assim que as coisas se passam na escola, onde o cliente é invocado como uma figura retórica, um espantalho para treinar os estudantes a reconhecer o “inimigo”. Curiosamente, não se fala muito do Público. Só quando o cliente não existe ou não é fácil de definir – quando o Designer trabalha para si mesmo, ou para um país, para um partido politico (situações consideradas excepcionais, de resto). Durante o Modernismo, assumia-se que o Público deveria corresponder idealmente à Humanidade, mas este era um Humanismo preguiçoso, preconceituoso, um Humanismo por defeito. Não havia muita consideração pela Diferença, pela ideia de Local por oposição a Universal – tudo isto eram apenas problemas a resolver. Mas como pode o designer falar em nome da Humanidade, o que lhe dá essa legitimidade? Às vezes, justifica-se isso fazendo do design uma ciência, mas isso é apenas uma metáfora – usar Helvetica não torna as coisas mais científicas. Outras vezes, diz-se que o designer foi treinado, ou tem talento, para usar as suas percepções em nome do resto da humanidade. Fala-se de ter olho, do “saber de experiência feito” – no fundo, uma forma de senso comum –, apontando para o design como um conhecimento instintivo ou pragmático. No entanto, na formação do designer existe sempre um treino cultural, mas dizer que o design é uma coisa cultural nos dias de hoje implica ter em conta que existe mais que uma cultura, mais do que um público. Portanto, esta pergunta “Com quem o designer dialoga” é particularmente importante, deve ser posta constantemente e a resposta não deve ser óbvia ou automática.

R: A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Como vê esta indefinição em torno da disciplina?

M.M.: Acho a indefinição pouco produtiva, porque se tornou uma coisa decidida à partida – uma prescrição, portanto. Já não se trata de dizer “o design é indefinido” mas “o design deve ficar indefinido”. Nos últimos anos, as coisas indefinidas estiveram na moda, conotando liberdade, agência, nomadismo, etc. mas a indefinição acabou por ser uma maneira confortável de manter tudo num estado provisório, adiando conclusões óbvias, adiando a crítica, trivializando finalmente todas as decisões possíveis. Acabou por se tornar uma forma de conformidade, refugiada numa falsa ideia de diversidade.

R: Se lhe pedisse uma definição de design…

M.M.: Uma definição clássica de designer é “aquele que dá formas a conteúdos”. No entanto, esta definição parte do princípio que a relação entre forma e conteúdo é historicamente estável. A divisão entre forma e conteúdo, forma e função, ou aquilo que pertence ao designer e aquilo que pertence ao cliente (também pode ser dito desta maneira), é também uma divisão laboral, uma divisão ética e uma divisão política que os designers concretizam a cada trabalho que fazem. É uma fronteira que não se limita a reproduzir uma divisão prévia, mas é refeita a cada momento, com um sem número de negociações, de conquistas e de cedências. Negociar com alguns clientes não é difícil porque eles não entendem nada de design, mas porque a língua portuguesa, a economia, a engenharia, etc., já têm a sua própria maneira de lidar com as formas que não corresponde à dos designers.

R: O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto "agente social" e uma interpretação do designer enquanto um "agente do mercado", parece-lhe haver sentido nesta distinção?

M.M.: Uma das fronteiras de que falei mais atrás surge também aqui: entre o mercado e a intervenção social. Sem querer cair em denúncias fáceis, ser agente social é fazer parte do mercado. Neste momento, sair do mercado é uma falsa questão. Se em algum lado precisam de um designer é porque, de uma forma ou outra, há mercado. E isto não é uma contradição ou uma desvalorização. Somos levados, através da maneira como se pratica o design, a acreditar que o social e o político são situações excepcionais – que estão mais do lado dos conteúdos do que das formas. Mas em todos os actos de design, em todos os objectos é redefinido a cada momento aquilo que separa o social do económico.

Uma das ambições do design foi sempre a objectificação do sujeito, uma crença de que há um equivalente no plano das formas para a ética, para a política, para a economia. Em consequência, acreditamos que existem temas, clientes e objectos sociais, políticos ou éticos por oposição a tudo o resto, que acaba por ser considerado neutro.

R: Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante mostrarmos que existe uma diferença profunda entre a "ética individual" e a "ética disciplinar"? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais…

M.M.: Poder-se-ia também definir o design como a tentativa de produzir uma ética da produção e consumo de objectos. Neste aspecto, a tendência do design foi sempre objectificar a ética, acreditar que pode estar contida nos objectos. Na verdade, as decisões éticas, – se são realmente decisões éticas –, são sempre difíceis e são sempre pessoais. Não se pode cair no erro de ter uma ética pronto a vestir, de acreditar que os nossos objectos decidem por nós. Podem informar as nossas decisões, mas não podem tomar as decisões por nós. Da mesma maneira, uma ética disciplinar pode informar as nossas decisões, mas não tomá-las por nós.

R: Ainda há espaço para utopias no design? O Enzo Mari dizia que o design é um "acto de guerra" e o Brody, há umas semanas atrás, dizia que usamos poucas vezes a palavra revolução

M.M.: É curiosa a associação da ideia de utopia com a ideia de revolução ou guerra, mas o design como grande remodelação utópica da realidade já aconteceu. Segundo Hal Foster, desde os jeans aos genes agora tudo é design. Curiosamente, os designers são as pessoas que mais se queixam desta designificação do mundo. A única revolução possível é a dos designers contra o design.

R: Qual é a sua "utopia pessoal"?

M.M.: Haver uma crítica de design mais regular sobre design em Portugal. Conseguir editar uma revista, por exemplo.

R: Parece-lhe que a blogosfera tem contribuído para o desenvolvimento de um debate sobre em torno do design?

M.M.: Sim, embora se torça o nariz aos blogues (às vezes, quando me apresentam em eventos de design, dizem “Este é o Mário Moura, que tem um blog” – consegue-se mesmo ouvir o itálico). Mais recentemente tem havido também cobertura regular nos jornais, embora seja um discurso demasiado promocional: o design é fixe, o designer é muito cool, o evento tal é estimulante, mas não se analisa as coisas com profundidade. Promove-se o design, mas esse discurso positivo acaba por lhe dar um ar superficial e pouco sério. O design custa dinheiro, tem consequências, nem sempre positivas, e é isso que o torna interessante, não o facto de existir numa esfera irrealista de coolness cosmopolita e inovadora, que está sempre um passo à frente da realidade.

R: Quais são os seus blogues de referência?

M.M.: O designobserver.com, o underconsideration.com/speakpup ou o imomus.livejournal.com. Cá em Portugal gostava de ler o DesignerX, que acabou, gostava também de ler o SOSD1, que também acabou. Gosto do “Isto Não é Uma Tese”, que é um blogue misto, meio pessoal, meio de investigação.Tenho pena que não haja mais produção regular e sobretudo uma produção mais crítica. A tendência é os blogues serem apenas afirmativos. Coloca-se imagens de que se gosta, música e citações e isso dá origem a blogues-lista ou blogues-agenda (como o Quipsologies ou o Coconut Jam) que podem ser muito viciantes, mas ainda assim não são crítica.

R: Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

M.M.: Nem sempre consigo responder a uma pergunta com uma pergunta (mesmo quando também há uma resposta envolvida).

Friday, May 04, 2007

O UNIVERSO DE BABS SANTINI

No próximo sábado, no âmbito do ciclo "Anos 80: Lastro e Rasto", vão actuar no auditório de serralves os Nurse With Wound. Criados em 1978 (por Steven Stapleton, John Fothergill e Herman Pathak) no interior do campo (largo) na No-wave, o projecto NwW, há semelhança de projecto com os quais partilhavam colaborações e afinidades como os Current 93 ou os Sol Invictus, caracterizou-se sempre pela mutabilidade de orientação e pela exploração de diversas referências culturais (do romance Gótico ao Surrealismo) daí resultando a criação de ambientes densos e obscuros. A principal referência dos NwW Steven Stapleton é, habitualmente, o responsável pelo design gráfico dos discos e pela realização dos videos. Como designer Stapleton assume o alter-ego Babs Santini tendo desenhado imensas capas de discos, quer dos NwW quer de várias outras bandas.

Sol Invictus "Lex Talionis" (1993)


Nurse With Wound & Stereolab "Crumb Duch" (1996)


Current 93 "Dogs Blood Rising" (1984)

Aqui fica o video "I've plummed this whole neighborhood" um bom cartão de visita do insólito universo de Santini e dos NwW.


Wednesday, May 02, 2007

THE LONG WAY HOME


Confiar na memória como guia é uma forma de nos perdermos pois, nessa viagem de regresso, ela opera fantásticos desvios. O que havia lá estado, o que devia lá estar, quase nunca nos aguarda e se o passado esperar por nós será ainda na memória que ele se cumprirá e, por fim, restará, talvez, apenas uma imagem. Mesmo agora o rasto que a memória de mim deixa é um rasto de imagens. É esse rasto que, de seguida, irei percorrer convosco.



Não é apenas o véu a cobrir, suavemente, o rosto de Annette Peacock. Há algo mais que o vela e que permanece, para vós, invisível: o meu olhar. “I belong to a world that’s destroying itself” dizia ela e eu seguia-a – até às estrelas.



Estávamos, suponho, no fim do Outono de 1987, tinha 15 anos e uma saudade vaga de tantas coisas que não posso agora descrever. Havia comprado o mini-LP dos Ban “Alma Dorida” uns meses antes e percebia bem o porquê dos dias serem cinzentos. É um retrato dos Ban a imagem que vêem e é extraordinário. Recortei-o e guardei-o dentro de um livro – “Do fim do Mundo” de Nuno Bragança – encontrei-o quando já o havia esquecido e o trabalho da memória recordou-me que foi mesmo assim.



Vi este filme ao teu lado e nunca mais te vi. A estrada terminou e mal sei quanto de mim deixei pelo caminho.



Tinha oito anos quando vi pela primeira vez “I Kow Where I’M Going” de Michael Poweel e Emeric Pressburger e lembro-me tão bem. Lembro-me tão bem da agitação do vento e da certeza das marés e lembro-me bem de Wendy Hiller a resistir com todas as forças a essa força irresistível de se ser tocado pela paixão. Nesse dia decidi que, em adulto, iria procurar Wendy Hiller promessa que cumpri quando tinha 22 anos. Coloquei-lhe um narciso sobre a campa e durante alguns dias não me apeteceu falar.



A fotografia é de John Vachon (“Fredericksburg”, 1936) recortei-a de um jornal que encontrei no comboio. No verso do recorte há uma data – “06 de Maio de 91”- e uma frase – “não voltes atrás” - escrita na minha caligrafia da altura.



Tenho uma memória difusa de ter ido ao CAM ver “Interiores” de Rui Horta. Terá sido, salvo erro, em 88 ou 89. Era uma obra para seis bailarinas com música de Ettienne Schwartz, pondo em cena um dormitório de raparigas. Não havíamos combinado ir juntos mas encontrámo-nos à saída. Era tão de noite quando atravessamos o largo do cauteleiro em direcção a tua casa. Por vezes ainda penso no que no poderia ter acontecido se não nos tivéssemos desencontrado.



Mal sabemos o que deixa nas imagens o tempo que por elas passa. Cada vez que as vemos é possível nelas encontrar qualquer coisa que não havíamos detectado no olhar anterior. Mas esse trabalho dos dias, que deixa sobre e leva das imagens uma quase-sombra, exige ser reconhecido e devolvido, pelo nosso olhar, sobre as imagens. A imagem é de um filme de que gosto muito, “Little man what now?” de Frank Borzage.



Uma das características do trabalho da memória é operar permanentes transgressões de fronteiras: o que havia sido definido, compartimentado, isolado é recuperado de um modo que suscita novas e imprevisíveis tensões, afinidades e relações.
Vem isto a propósito do meu trabalho da memória sobre o belíssimo filme de Vitali Kanevski “Não te mexas, morre e ressuscita”. Vi-o aquando da sua estreia em Portugal no cinema King no início de 1991. Desde então não o revi embora me recorde muito bem dele e a recordação convoca uma série de figuras e fragmentos que, numa espécie de dança, se envolvem entre si. E assim, as imagens, pujantes, do filme de Kanevski, misturam-se com imagens de um filme de Dovjenko (seria A Terra ?), com o silêncio de Lisboa, numa noite de Inverno, contemplada de uma janela do Príncipe Real na demora de um cigarro indiano, com o espanto com que vi (nesse mesmo dia) “David Lynch: Don’t Look at Me” um notável documentário de Guy Girard e, por entre o que a memória monta, há ainda o teu rosto iluminado no meio da noite pelo fogo do isqueiro e no embalo de uma canção de Julee Cruise (Floating into the Night) há uma voz que diz: “percam-se e não regressem”.


Mesmo não sendo cedo ainda não é tarde. Nunca será tarde demais para um dia acontecer. A imagem é de Regarde La Mer de François Ozon. Vi-o sozinho no 222. Pertence a um tempo em que ainda não era teu.
Designers Republic - "Citizen Bird"

Saturday, April 28, 2007

REACTOR ENTREVISTA DIOGO VALÉRIO

Diogo Valério é um dos mais estimulantes designers gráficos portugueses encontrando-se de há uns anos a esta parte a trabalhar em Oslo, primeiro naBleed e, actualmente, no estúdio Jimmy Royal.


REACTOR: No primeiro post do Reactor afirma-se que “não há design sem diálogo”, enquanto profissional do design que diálogos lhe interessam estabelecer? Com quem? Sobre o quê?

DIOGO VALÉRIO: Todos os possíveis. Especialmente em design de comunicação não faz sentido não haver diálogos. Quer com os clientes, quer com profissionais de qualquer outra área que o designer sinta relevância em consultar para o desenvolvimento de um projecto.


R:A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Como vê esta indefinição em torno da disciplina?

D.V.:Acredito que, mesmo que assim o seja, ainda haja um mínimo denominador comum que é o projecto e que vem responder a uma questão/problema sugerido ou real. Há sempre lugar para repensar qualquer solução já existente, por mais sólida que seja, mas por outro lado e talvez a prática mais comum será a resposta a um briefing normalmente com uma preocupação comercial.

Simultaneamente acredito que seja uma questão de semiótica. Não me parece possível existir uma disciplina, com uma forte presença social, e que seja tão díficil de traduzir um significado claro.


R: Se lhe pedisse uma definição de design…

D.V.: Disciplina projectual.


R: O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?

D.V.: Não, de todo! Penso que esta separação só ajudou a criar uma maior indefinição em torno da disciplina. É-me extremamente difícil interpretar o design em pólos. O Design é por natureza uma disciplina inclusiva e não exclusiva; extremamente influente na sociedade, quer a nível cultural quer a nível do conforto. Se pensarmos em arquitectura será atroz dizer que o arquitecto não tem responsabilidade cultural, social, tecnológica.


R: Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante mostrarmos que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais.

D.V.:Acho extremamente relevante ser levantada esta questão. Há dois níveis que acho de particular serem desenvolvidos. O primeiro será que muitos dos profissionais em design operam em grupo ou entidades comerciais, que se distinguem pelos seus valores corporativos (não querendo abordar questões de qualidade nem estéticas). Simultaneamente são constituídos por indivíduos, estes com valores e referências distintas ainda assim compatíveis com a entidade corporativa.

Por outro lado, existe uma prática de autor que normalmente reflecte um maior grau de experimentação que podem resultar num confronto directo entre o que possa ser uma ética disciplinar e uma ética pessoal. Uma vez que as fronteiras do projecto podem ser dissimuladas pela utilização de novas tecnologias, práticas sociais, etc., sendo arriscado um julgamento de valores prematuro.

Recentemente, enquanto designer de comunicação num atelier, foi-me entregue um projecto para redesenhar o website de um partido de direita (equivalente no seu posicionamento político ao CDS) ao qual eu renunciei imediatamente. Isto deixou-me extremamente desconfortável durante bastante tempo, não por ter renunciado ao projecto mas por estar envolvido num atelier onde vê qualquer "trabalho" claramente como um oportunidade comercial falhando uma qualquer estrutura ética profissional.

Há poucos meses em Portugal, em relação ao referendo, recordo um artigo de Frederico Duarte para o jornal “O Público” onde escrevia uma observação extremamente relevante: " O Estado Português, representado neste referendo pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE) do Ministério da Administração Interna, apela ao nosso voto através de, entre outros meios, um “cartaz anunciador do referendo” (termo oficial), que se encontra afixado em locais e transportes públicos por todo o país. No entanto, estará o Estado, com este discreto cartaz, a cumprir de facto com a sua parte do processo eleitoral? Não deverá um “cartaz anunciador de referendo” ter como objectivos fundamentais não só informar, mas sobretudo cativar e mobilizar a opinião pública" Mais à frente no artigo o autor referencia um exemplo onde a comunidade de designers não é tão apagada como em Portugal: "a iniciativa "Get Out the Vote" da AIGA (associação profissional dos designers de comunicação americanos), que começou após o escândalo dos boletins de voto da Florida na eleição presidencial de 2000. Sob o lema "Good design makes choices clear", vários dos seus associados conceberam cartazes com um único objectivo: apelar ao voto."




R: Ainda há espaço para utopias no design? O Enzo Mari dizia que o design é um “acto de guerra” e o Brody, há umas semanas atrás, dizia que usamos poucas vezes a palavra revolução.

D.V.: Sempre haverá espaço para utopias, mesmo que seja utilizar a palavra revolução mais regularmente e talvez um dia, em breve, tenhamos a coragem de fazer uma. Recentemente fiquei muito surpreendido com o trabalho de alguns estudantes de design e recém licenciados, que numa época pós revolução digital, vêm trazer uma frescura ao design de comunicação com uma linguagem extremamente naif mas simultaneamente sólida. O colectivo Yokoland, dois colegas de universidade que recentemente acabaram a licenciatura em design de comunicação em Oslo, diziam numa entrevista à revista I.D. que a maior parte dos designers de comunicação tentam apenas simplificar a comunicação de forma a deixar a mensagem clara. Eles por sua vez fazem exactamente o contrário, criam mais problemas e tornam as coisas mais complicadas. Não será esta uma estratégia para se perceber se o problema está no design de comunicação ou na mensagem a ser comunicada?...

R: Qual é a sua “utopia pessoal”?

D.V.: Continuar a acreditar...


R: Parece-lhe que a blogosfera tem contribuído para o desenvolvimento de um debate sobre em torno do design?

D.V.: Sem dúvida que sim, mas ao mesmo tempo a tecnologia tornou as nossas vidas mais cheias, desconfortavelmente cheias. É necessário um filtro maior e é sempre difícil ganhar afinidade, intelectual e estética, de uma forma regular e crescente com tantos blogues emergentes. Eu preciso sempre algum tempo para sentir segurança e reconhecer qualidade nos conteúdos disponibilizados.


R:Quais são os seus blogues de referência?

D.V.: Reactor (http://reactor-reactor.blogspot.com/index.html)
Design Oberver (http://designobserver.com/)
Typeradio (feed://www.typeradio.org/podcast.php)
Generator X (feed://www.generatorx.no/feed/atom/)
Pasta and Vinager (http://tecfa.unige.ch/perso/staf/nova/blog/)
Eyebeam (feed://www.eyebeam.org/reblog/atom.xml)
Precious Forever (http://www.precious-forever.com/weblog/)

R: Muito obrigado.
FICÇÕES NO PAÍS DOS “GRAPHICS”



Com o desenvolvimento da indústria discográfica no pós-guerra um número considerável de designers norte-americanos e europeus, muitos deles refugiados durante o conflito, encontram aí um espaço privilegiado para desenvolverem uma nova linguagem gráfica, com maior espaço de experimentação, envolvendo, em muitos casos, públicos receptivos a novas formas de comunicação gráfica.





Nos anos 50 o design gráfico Norte-Americano encontra-se, essencialmente, dominado por profissionais ligados ao New Advertising como Alvin Lusting, muitos dos designers suiços que a partir dos anos 30 chegam aos EUA são "relegados" para um mercado que, só na aparencia, é menor a "indústria cultural" onde se destaca, entre outros, Erik Nitsche que nos anos 50 é o director de arte da 20th Century-Fox.






Para a indústria discográfica trabalharão muitos dos melhores, como Chermayeff, Geismar ou Steinweiss, no entanto o design, por vezes muito revolucionário, das editoras independentes foi assegurado por uma galeria de notáveis e quase desconhecidos designers gráficos como Frank Gauna (notável a cover para o disco de Al Caiola "Sounds for Spies"), Peter Whorf ou Marcel Russell.





Nas capas de vários destes discos encontramos sinais de uma linguagem tendencialmente híbrida, expressão da aproximação entre uma cultura popular e um mercado, por vezes selectivo, que mistura e apróxima diferentes referências culturais.







Friday, April 27, 2007

WORLD GRAPHICS DAY 2007



O REACTOR convidou alguns designers a associarem-se a este WGD'07. Eis as suas mensagens:

"Mess is bore"
Nuno Coelho

Alexandre Rola

Tiago Carneiro

REACTOR

Ricardo Almeida

Ricardo Leite

André Barradas & Anabela Abreu

Maria Manuel Rola

Monday, April 23, 2007



Gerard Unger nascido em Arnhem, Holanda, em 1942. estudou design gráfico, tipografia e design de tipos de 1963 a 67 na Gerrit Rietveld Academy, Amesterdão. Como Professor Visitante ensina na University of Reading, Inglaterra, Departamento de Tipografia e Comunicação Gráfica, e ensinou na Gerrit Rietveld Academy até 2007. Desde Setembro 2006 é professor de Tipografia na Universidade de Leiden._Designer independente desde 1975, desenhou selos, moedas, revistas, jornais, livros, logótipos, identidades corporativas, relatórios de contas anuais, outros objectos e muitos tipos. Em 1984 recebeu o prémio H. N. Werkmann pelo conjunto do seu trabalho tipográfico, em particular o design de tipos digitais, e pelo modo como reconciliou a tipografia com a cultura tipográfica. Em 1988 ganhou o prémio Gravisie pela concepção de “Swift”, e em 1991 recebeu o prémio internacional Maurits Enschedé por todos os seus designs de tipos._Escreveu artigos para a imprensa comercial e várias outras publicações, tais como “Landscape with Letters” (1989), relacionando o normalmente limitado âmbito da tipografia com uma muito mais vasta perspectiva cultural. O seu livro “Terwijl je leest” – acerca da leitura – foi publicado em 1995 e uma edição completamente renovada foi publicada no Outono de 2006, estando em preparação as versões em inglês, alemão, italiano e espanhol. Com frequência faz conferências na Holanda e no estrangeiro sobre o seu próprio trabalho, design de tipos, processo de leitura, design de jornais e outros assuntos relacionados.

Gerard Unger born at Arnhem, Netherlands, 1942. Studied graphic design, typography and type design from 1963–’67 at the Gerrit Rietveld Academy, Amsterdam. He teaches as visiting Professor at The University of Reading, UK, Department of Typography and Graphic Communication, and taught at the Gerrit Rietveld Academy, Amsterdam, till January 2007. From September 2006 he is Professor of Typography at the University of Leiden. Free lance designer from ’75. He has designed stamps, coins, magazines, newspapers, books, logo’s, corporate identities, annual reports and other objects, and many typefaces._In ’84 he was awarded the H.N.Werkman-prize for all his typographic work, for digital type designs in particular and for the way he reconciled technology and typographic culture. In ’88 he won the Gravisie-prijs for the concept of Swift, and in ’91 he was awarded the international Maurits Enschedé-Prize for all his type designs. He wrote articles for the trade press, and several larger publications, such as ‘Landscape with Letters’ (1989), linking the usually limited scope of type and typography with a much wider cultural view. His book ‘Terwijl je leest’ — about reading — was published in ’95 and a completely new edition has been published in the autumn of 2006. English, German, Italian and Spanish versions are in preparation. He lectures frequently in Holland and abroad, about his own work, type design, the reading process, newspaper design and related subjects.

Comissário_Andrew Howard, ESAD
Organização _ESAD 2007

Saturday, April 21, 2007

COMEMORAÇÕES DO WORLD GRAPHICS DAY



No dia 27 de Abril os designers gráficos e de comunicação e as associações de design espalhadas pelo mundo celebram o World Graphics Day. Este dia marca o nascimento do Icograda (International Council of Graphic Design Associations) em 1963. O WGD será assinalado em diversos locais, incluindo aqui no REACTOR que lhe vai dar um destaque particular no próprio dia. Destaque, igualmente, para as iniciativas promovidas pela FBAUP e pela UA e que terão lugar no dia 26 no espaço das Belas Artes com o seguinte programa:

10h30
Sessão de Boas-Vindas / Champagne Breakfast
com selecção musical matinal pelos estudantes DD-FBAUP
(Pavilhão Carlos Ramos)_11h30
Visita guiada à exposição "Museu do Abate"
(Galeria da Cozinha)__12h00
Acção colectiva "Design Against The Clock"
Coordenação: Equipa [up]arte
(Bar FBAUP)__15h00
Sessão na Aula Magna
Intervenção pelo Presidente do Conselho Directivo da FBAUP
Prof. Doutor José Vaz
"Portugal precisa de Design"
Henrique Cayatte, Presidente do Centro Português de Design
Manifesto: O que precisa de ser dito sobre Design em 2007?
Design Marathon
Estratégias de Desenvolvimento para o Design em Portugal
DD-FBAUP e DeCA-UA
Debate__17h00
Mixtape DD
Selecção musical comentada e ilustrada pelo DD-FBAUP
(Aula Magna)

Thursday, April 19, 2007

THE DESIGN 100




A Revista TIME publicou uma lista das 100 referências (entre designers, empresas, publicações, etc., etc.) mais influentes da actual cultura do design. Vale o que vale!
REACTOR ENTREVISTA EDUARDO CÔRTE-REAL


Eduardo Côrte-Real é um dos nomes mais destacados da reflexão e do ensino do design em Portugal. A sua tese de Doutoramento em Arquitectura (“O Triunfo da Virtude. As Origens do Desenho Arquitectónico”, Livros Horizonte, Lisboa, 2001) propõe uma reflexão do “pensamento enquanto desenho”, tese que Eduardo Côrte-Real tem desenvolvido em inúmeras publicações nas quais os processos de “configuração” e “interpretação” do mundo através do desenho são postos em evidência. Da sua ligação ao ensino (iniciada na Faculdade de Arquitectura) destaca-se o seu marcante contributo na afirmação nacional e internacional da Escola Superior de Design do IADE, instituição da qual é, actualmente, presidente do Conselho Científico e editor do Journal publicado pela unidade de investigação (UNIDCOM).

REACTOR: Há um post no Reactor intitulado “O estado do design”. O que é que este título lhe sugere actualmente?

EDUARDO CÔRTE-REAL: O "estado" sugere uma relação com os estados gerais? Clero, Nobreza e Povo? Ou os estados naturais? Líquido, gasoso, sólido e plasmático? Assim seria Popular e Plasmático.

R: A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Corresponderá isto a um fracasso ou a triunfo do design sobre a cultura contemporânea?

EC-R: Porque haveria o Design de triunfar sobre a cultura contemporânea? A pergunta não faz sentido especialmente relacionada com a afirmação anterior. A palavra design nunca identificou um campo disciplinar definido, sempre remeteu para campos híbridos e difusos e nem sempre de criação. Quando o momento em que quase que se autonomizou como disciplina, aproveitou as sobras da arquitectura da escultura das artes gráficas, da fotografia, da ilustração, da pintura, das artes em geral para operar em interstícios projectuais ou sem nome ou com nomes de pouca dignidade. O Design é a infraestrutura da cultura contemporânea por muitas razões. Se isto se pode por em termos de triunfos... venha a bolacha Maria.

R: Há um conceito estruturante do pensamento projectual do Walter Gropius que é o conceito de “design total”, a ideia é, em síntese, a de que ao designer compete a definição intencional das modalidades de relação social, o design seria, assim, uma disciplina de definição politica. Não lhe parece que este “exercício político” do projecto é tão mais eficaz quanto mais imperceptível for e, neste sentido, o carácter difuso do design não poderá ser um sinal da sua eficácia?


EC-R: Não me parece que se possa inferir o exercício político da expressão de Gropius a não ser pelo truísmo de que todos os actos sociais são políticos. Quando se fala em eficácia está-se a falar da eficácia do Design ou do exercício político? Só pode ser o do exercício político projectual. Não concordo. Parece-me que o exercício político do projecto beneficia do carácter difuso do design que aqui se parece confundir com discrição. Noto que a difusão não implica a imperceptibilidade. Coisas muito difundidas, como o Benfica, são muito perceptíveis. Algumas coisas muito difundidas são também discretas e julgo que é sobre isso que perguntas. Voltando ao design global de Gropius parece-me mais que é qualquer coisa que antecipa a sistémica, que alerta para os feixes de consequências sociais que os objectos criam (criariam). Gropius esquece que o Social expurga e aceita e recompõe, edita, por assim dizer, os objectos recriando os sistemas. Gropius era um senhor mal-humorado com vocação demiúrgica e totalitária, devemos julgá-lo pela sua produção e pela genealogia da sua produção e não pelas suas propostas teóricas.

R: Se lhe pedisse uma definição de design…


EC-R: Pediria.

R: O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?


EC-R: Parece-me que há todo o sentido em fazer distinções do ponto de vista analítico. Sabemos que o agente social e o agente do mercado estão amalgamados, são um só mas distingui-los analiticamente dá jeito.

R: Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante os designers mostrarem que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais…


EC-R: Não sei o que se quer dizer com projecto moderno. Projecto modernista? O Projecto da Modernidade? O Projecto do Modernismo? Tenho uma certa dificuldade em aceitar a existência de uma ética individual tal como é colocada. Aceito a possibilidade de uma ética individual para além da profissão. Uma ética profissional é sempre uma ética social que, em dado momento, se pode desfasar daquilo que se chama ética disciplinar e é aí que as novas disciplinas surgem, porque houve um desfasamento.

R: Historicamente, o design foi sendo pensado como uma disciplina de “dimensão utópica”. Ainda há espaço para utopias no mundo contemporâneo?


EC-R: Acho que historicamente não foi nada pensado como uma disciplina de dimensão utópica. Foi pensado como uma disciplina de dimensão prática virada para a produção de coisas realizáveis e isto é muito mais inerente às disciplinas do Design do que a dimensão utópica. Primeiro, acho que a disciplina do design não se chegou a constituir. Existe sim um enorme grupo de actividades humanas entre a ciência, embora participando da técnica, e a arte, embora participando da estética que designamos (a aliteração é irresistível) por design. Em geral lidamos com os aspectos antecipação controlada de artificialidade a produzir e com a reflexividade desses aspectos no produzido. Este domínio é incomensurável. (Creio que, em breve a palavra design cairá por excesso de universalidade). Sendo assim, o Design não tem dimensão utópica mas, em certa medida tem-na Profética. Há sempre uma dose de profecia envolvida. Aliás acho que era isso que o Gropius quereria dizer se fosse menos programático.
As Utopias existem sempre na contemporaneidade. Aí é que encontram toda a sua pujança. Nunca a Utopia foi mais Utópica do que no tempo de Thomas More. Agora, por definição, as Utopias não têm lugar. Na Renascença muitas utopias eram regressivas. As visões arcadianas correpondiam a uma espécie de regresso. Um bom exemplo é a Hypnerotomachia Poliphili. Os sonhos de Polifilo eram o perfeito "setting" utópico. Depois, com More, vieram as viagens, das quais, obviamente o Swift é o expoente máximo e tristemente conhecido apenas por Lilliput.

R: Recordo-me de uma utopia particular, “Xanadu” do G. Nelson. Como olha para o actual estado do ciberespaço e da blogosfera em particular?


EC-R: Xanadu? A capital de Kublai Kahn? Acho que o ciberespaço é um conceito esgotado. Cibernetica lida com o estudo dos processos automáticos de controlo. Depois passou a significar tudo o que lida com computação. Sendo assim criou-se a ideia de um ciberespaço correspondendo ao conjunto das comunicações electronicamente e digitalmente assistidas que hoje são muitíssimo variadas. Em breve o electrónico e digital será tanto que ciberespaço será quase um sinónimo de espaço e consequentemente inútil como conceito. Posso comparar o sistema de controlo de fornecimento de gás natural com o messenger dos meus filhos, apesar de se passarem no "mesmo espaço"?
Quanto à blogosfera sei apenas que se assemelha, vá-se lá saber porquê, a uma esfera. Não blogo a não ser por acidente quando procuro alguma coisa (aliás nunca entendi o conceito de surfar) uso sempre a internet ou com um propósito de comunicação (email) ou para encontrar coisas determinadas. Uso o computador para escrever ou desenhar e não por desfastio (perfiro a RTP Memória). Agora noto que quando faço buscas, cada vez mais me aparecem resultados em blogues. O problema é que uma esfera de prosápia e auto-exposição se pode vir a sobrepôr aos verdadeiros sítios do conhecimento e um dia todo o ciberespaço será bloguico e consequentemente inútil para a produção de conhecimento. De repente é como se o projecto Gutemberg se transformasse em tagarelice.

R: Quais são os seus blogues de referência?

EC-R: Não tenho blogues de referência

R: Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

EC-R: Pode, agora, dar-me uma definição de Design? Agora não posso.
REACTOR | ENSAIO

Revelação e Ocultação
As Mediações na Cultura Visual Moderna

José Manuel Bártolo


1. Introdução

“A nossa divindade, a história, encomendou-nos um túmulo do qual não há ressurreição.”
Ingborg Bachman, O Tempo Aprazado

Só do invisível podemos ansiar manifestação. A história dos media é, em grande medida, a história desse anseio e do modo dele se declinar num processo no qual a revelação nunca se dá sem mediação e onde o saber se constrói a partir da sua própria interpretação. Esta é, também, uma história de espectros, de projecções, que começou, talvez, com o abeirar-se de alguém junto da água para nela, surpreendentemente, ver um rosto que nunca havia visto. Várias são as ilações que, do mito de Narciso, se podem retirar para o plano da medialogia: que o medium transforma o eu num outro, ou seja, que o plano da identidade é nele co-relacionado com o da alteridade; que o medium agencia a mensagem o que pressupõe que não existem suportes semioticamente neutros; muitas outras interpretações se poderiam formular, mas, nesta introdução, preferimos salientar esta, a de que o medium, esse nosso intermediário, nos confronta com uma realidade que, aparentemente, não podemos receber sem espanto, porque a história dos media é, também, uma história de espantos e da sua procura. Se a história, a história de cada um, nos encomendou um túmulo do qual não há ressurreição, essa mesma história nos motiva, de cada vez, em cada morte, a olha-la e a fixa-la numa imagem que lhe poderá perdurar. As imagens que nos mediam são a nossa forma de esperar a morte tornando a vida esperançosa.

O que é esperado deve ser, também, temido. A palavra “espanto” deriva de expaveo, expectativa temerosa, mas está, também, próxima de expando, abertura ou revelação. A revelação não ocorre sem mediação. O medium é o intermediário que permite ao invisível a manifestação, ao indizível a enunciação, ao vindouro a anunciação, mesmo que a visibilidade do invisível, a enunciabilidade do indizível ou a presentabilidade do porvir se dêem simbolicamente, essa é, aliás, a forma do oculto se manifestar mediunicamente, esse é o carácter fantasmático dos meios, quer dos velhos quer dos novos. Além do mais, se existem diferentes gerações de media, a verdade é que nenhum medium é completamente substituído por outro, algo permanece, mesmo que fantasmaticamente, nos novos media digitais que descende, por exemplo, das lanternas mágicas ou das fantasmagorias.

Só se desenvolve o medium quando há um saber que tem de ser mediado. Na modernidade, a mediação dos saberes desenvolve-se no interior da nova racionalidade instrumental que faz evoluir meios, instrumentos e dispositivos impondo uma nova cultura técnica na qual as relações de saber e de poder vão sendo tecnicamente mediadas. São essas relações, tomadas na perspectiva da cultura visual, o objecto de análise do presente ensaio.


2. A razão instrumental

No limiar da modernidade há três heranças pré-modernas que determinam o seu destino futuro: a Reforma que expropriando as ordens eclesiásticas desenvolve o duplo processo de expropriação individual e acumulação de riqueza social; a descoberta da América e a subsequente exploração da terra; a invenção do telescópio e o desenvolvimento de uma nova ciência instrumental que relativiza o lugar da terra passando a considerá-la do ponto de vista do universo. Quando estes três processos – laicização e capitalização; projecto taxinómico e desenvolvimento de uma racionalidade instrumental – se vêm ancorados pela matemática moderna ganham possibilidades de crescimento que lhes permitiram chegar ao actual estádio de desenvolvimento do capitalismo, do arquivo e da telemática digital contemporâneos.

Uma arqueologia da cultura visual moderna levar-nos-á, insuspeitamente, ao final do século XVI, período no qual se produz uma transformação fundamental na história do Ocidente, a criação da matemática moderna que irá impor à técnica medieval as regras de precisão e de rigor da ciência matemática. A técnica torna-se, então, técnica de precisão, de medida e de cálculo, entrando no universo científico veiculada à categoria da universalidade (cientifica e social) que determinará a sua vocação futura.

A ciência moderna forma-se pela derrocada do modo “grego” de produção de conceitos, efeito da nova matemática e da sua importação pelas ciências da natureza. A revolução científica não resulta tanto do facto de se de declarar o mundo matematizável – o que pelo menos desde o Timeu não era novidade – mas, antes, do facto dessa declaração poder ser feita a partir de uma forma universal de representação, rigorosa e manipulável até ao infinito, a partir da qual a matematização abstracta do mundo vai sendo concretizada através da matematização da vida, dos corpos, dos comportamentos, dos desejos e das memórias, matematização esta que se faz directa e indirectamente, através de meios de cálculo e controlo, através de processos de representação e educação, através, finalmente, do desenvolvimento de aparatos instrumentais e da introdução de politicas instrumentais aplicadas aquém e além do funcionamento estrito dos instrumentos.

Os instrumentos que nos aparecem no final da idade média e no início da idade moderna são na sua maioria invenções artesanais reinterpretadas no interior do espaço científico, integrados como instrumentos de laboratório, e novamente devolvidos para o plano quotidiano. Assim parece acontecer com a luneta astronómica de Galileu, o telescópio criado por Leeuwenhoeck, o microscópio de Swammerman ou o barómetro de Torricelli. Todos estes instrumentos parecem possuir uma quádrupla aplicação: permitem a verificação de certas hipóteses científicas; na medida em que fixam, na sua estrutura e na sua função, uma “verdade teórica” concretizada, eles tornam-se modelos de investigação científica fornecendo perspectivas conceptuais e metodológicas. Assim, por exemplo, as questões da “divisão ao infinito” do cálculo infinitesimal, não são pensáveis sem o microscópio que as concretiza; instrumentalizam a linguagem tradicional modificando-a, os instrumentos científicos são, então, agentes activos de modificação da linguagem; instrumentalizam e funcionalizam os comportamentos quotidianos, funcionando como instrumentos mediadores e fornecendo linguagem mediadora da nossa relação com a realidade.

O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica, radicalmente, a organização epistemológica da cultura medieval. Conhecemos alguns instrumentos de abertura, que possibilitam tal revolução, desde as lunetas e demais aparelhos ópticos que abrem ao olhar humano ao mundo do infinitamente pequeno e no infinitamente distante aos aparelhos médicos, como os alicates e os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII, abrindo os corpos cadavéricos, deixam entrar, pela incisão, um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes, de fazeres e de poderes.

Os escalpelos, as pinças, os alicates, utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas, mais importante, revelam a importância de uma nova lógica instrumental. De facto, tão importante como escalpelo é a mão ou olho, também eles instrumentos que devem ser “afinados”, “apurados”, e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”, definirá igualmente o operado, fazendo do cemitério onde, ocultamente, se praticam dissecações, do laboratório, do teatro anatómico, dos gabinetes de curiosidades, “máquinas instrumentais” complexas onde uma lógica instrumental que se vai impondo, semioticizando de um modo determinado cada objecto e cada sujeito.


A imagem usada por D’Ambert, do saber moderno como um rio que rompe as suas barragens , é ilustrativa do modo como, em largura e em profundidade, a nova lógica instrumental reinterpreta o saber antigo e medieval. O corpo humano que os anatomistas abriram e desmontaram era um “pequeno mundo”, microcosmo inseparável do macrocosmos, ao dissecarem um, necessariamente, estariam a dissecar o outro. Newton expressa-o bem ao concluir a sua Opticks, publicada em 1704, afirmando que com o alargamento da filosofia natural os limites da filosofia moral são também alargados.

A ciência moderna é suportada instrumentalmente. Invenção instrumental, experimentação instrumentalmente apoiada e teorização desenvolvem-se em paralelo. Assim acontece na física com o desenvolvimento de dispositivos instrumentais complexos para estudar a velocidade ou a força dos corpos, como os famosos dispositivos de Giovanni Poleni e de Willem ‘sGravesande para demonstrar as leis da colisão; os conceitos da mecânica analítica – como os de “força viva” e “acção” – foram trabalhados experimentalmente por William Hamilton ou Carl Gustav Jacobi a partir da utilização de instrumentos técnicos por si inventados ou adaptados; assim acontece no campo da ciência natural com a invenção do microscópio que permitirá a Leeuwenhoeck, em 1667, descobrir “animáculos” no esperma humano ou o de Robert Hooke, dois anos antes, elaborar a primeira noção da organização celular; também noutras áreas os instrumentos ganham uma importância decisiva, como se constata com a invenção de novos instrumentos utilizados pelos físicos em termodinâmica, electrodinâmica, energetismo ou os utilizados no campo da óptica, onde a evolução teórica é suportada por instrumentos que permitem a observação e a experimentação como os instrumentos ópticos de Francesco Algarotti; no campo da astronomia uma série de instrumentos desempenham um papel decisivo; sabe-se que as famosas observações de Marte feitas por Tycho Brahe sem telescópio tinham uma precisão de cerca de dois minutos de arco; por volta de 1725, os arcos graduados adaptados a miras telescópicas e os micrómetros de traços (usados por Johann Tobias Mayer ou Jean-Baptiste Delambre) tinham uma precisão inferior a 8 segundos de arco, e no final do século, a precisão aumentara para menos de um segundo de arco. Da mesma forma, a equação que tinha de ser aplicada a todas as observações para corrigir a refracção provocada pela atmosfera da terra melhorou ao longo do século, passando de uma incerteza de até 10 segundos de arco para menos de um segundo. Estas melhorias técnicas significavam que as observações podiam aferir a teoria e vice-versa.

No século XVIII, um pouco por toda a Europa existem fabricantes de instrumentos científicos, capazes de responder às crescentes encomendas que traduzem o aumento e melhoria qualitativa dos laboratórios de química, dos cabinets de física, dos laboratórios de ciência natural, dos hospitais ou, ainda, das expedições científicas. Alguns fabricantes ficaram justamente famosos, tal como o inglês John Cuthbertson que fabricou o gigantesco gerador electrostático que, em 1785, equipou o laboratório de Martinus van Marum. Sabemos, também, que o laboratório de Lazzaro Spallanzini era sofisticado ao ponto de nele ter realizado as primeiras fecundações in vitro.

O aumento da quantidade e da qualidade da informação obtida pelos novos instrumentos científicos colocava problemas ao nível do tratamento, classificação, ordenação, representação, legendagem, arquivo e difusão dessa informação. A tentativa de Thomas Moffett de classificação dos gafanhotos revelava, esclarecedoramente, os perigos do excesso de informação:

«Alguns são verdes, alguns pretos, outros azuis. Alguns voam com um par de asas, outros com mais do que um; aqueles que não possuem asas, saltam, os que não podem voar ou saltar, andam; alguns têm pernas mais longas, outros pernas mais curtas; há alguns que cantam, outros são silenciosos; E existem muitos tipos na natureza, e assim os seus nomes são praticamente infinitos.»

Percebe-se assim a importância de um projecto taxinómico de classificação, ordenação e arquivo de saberes, fazeres e poderes que mobilizará transversalmente a cultura moderna.

As taxinomias assumem uma grande importância, mas também os mapas e os atlas – dos atlas anatómicos ao atlas astronómicos como o de William Herschel, passando pelos atlas geológicos como o que Jean-Etienne Guettard desenvolveu com a ajuda de Lavoisier – através deles desenvolve-se uma nova linguagem gráfica traduzida não apenas na técnica de ilustração mas, igualmente, na forma de legendar e nos processos de representação simbólica.

O projecto taxinómico que domina a modernidade é, antes de mais, um projecto de estabilização do saber, de integração da informação produzida dentro de um sistema epistemológico que o classifica e arquiva. Mas também aqui, é importante percebermos a circulações que se dão entre o sistema dos saberes e o sistema do fazeres e dos poderes, eles estão interligados e a máquina taxinómica deverá estabilizar os três separando e fixando o que se pode e o que não se pode, o que se deve e o que não se deve saber e fazer.

Com o desenvolvimento dos media, com o aperfeiçoamento instrumental, com a estabilização de linguagens de representação gráfica e com a aplicação de princípios de cálculo, evoluções que se dão solidariamente, as taxinomias vão sendo, progressivamente, mais ambiciosas e integrantes. No início do século XVII, Gaspar Bauhin, descreveu cerca de seis mil espécies no seu herbário, no final desse século John Ray na sua Historia plantarum generalis incluía mais de 18 mil espécies. Tornava-se, então, essencial um sistema de classificação capaz de ordenar um tal conjunto de dados. Em 1750, quando o trabalho de Lineu é publicado, marcando uma viragem nos procedimentos taxinómicos, já haviam sido propostos cerca de meia centena de diferentes sistemas.

Se o êxito das taxinomias botânicas se restringiu, sobretudo, a plantas com o padrão familiar de raízes, caules e folhas – formas mais complexas como as algas e os musgos representavam enigmas mais difíceis de resolver e foram afastadas como sendo plantas imperfeitas – a zoologia deparava-se com uma multiplicidade de formas que não podiam ser evitadas, como os quadrúpedes, as aves, os répteis, os peixes, os crustáceos e os insectos, aos quais se acrescentou, progressivamente ao longo do século XVII, a vida microscópica.

Com o desenvolvimento dos instrumentos observacionais, a modernidade vai-se dando conta de que existem formas de vida, desconhecidas do mundo antigo e medieval, acima de nós (reveladas pelo telescópio), à nossa volta, mas, também, dentro de nós, vida infinita pequena revelada pelo microscópio. À nova ciência instrumental cabe, assim, ordenar o saber visível e invisível a olho nu, ordenar o que está infinitamente distante e infinitamente pequeno, ordenar a vida biológica e o mundo inanimado das máquinas, ordenar o cadáver e o corpo vivo, ordenando, ainda, as formas de viver.

A taxinomia fornecia o quadro amplo no qual se organizava o conhecimento biológico e social. Mais do que um simples instrumento científico os projectos taxinómicos constituíam-se como projectos bio-politicos de constituição de formas integradoras e controladoras da vida individual e colectiva.

O grande crescimento do conhecimento físico, associado ao, ainda maior, crescimento do conhecimento biológico, provocou uma reorganização do mundo medieval. A nova geografia física e humana às quais se poderia acrescentar uma nova geografia epistemológica, produz toda uma nova geo-estratégica que reinterpreta saberes, fazeres e poderes agora integrados num esquema de maior complexidade que aquele do mundo medievo. O biopoder moderno, detalhadamente trabalhado por Michel Foucault, insere-se, precisamente, nesta nova ordem geo-estratégica que deve ser capaz de construir uma semiótica, uma axiologia e uma epistemologia que estabilize o novo, que imponha processos normativos, que estabeleça classificações, que possua uma lógica arquivística que seja capaz de integrar e dominar o novo e, ao mesmo tempo, requalificar o antigo.

Assim, novos instrumentos, novos lugares, novos corpos, novos saberes, novas práticas e novos poderes são integrados numa ordem sistemática que parece capaz de impor a sua ordenação, a sua classificação, a sua legenda, a sua arquivística a uma nova natureza da vida.

Progressivamente a partir do século XVI, saber e poder passam a estar associados a partir de um operador comum: o olhar. As diferentes modalizações do olhar determinam diferentes graus de saber e diferentes ordens de poder. O controlo dos media e dos instrumentos significa, também, a possibilidade de ver, de ver mais longe, de ver melhor, de ver o “invisível”, de ver sem ser visto, de ver repetidas vezes. O telescópio e o microscópio o demonstram, mas dentro desta lógica podemos incluir também, e entre tantos outros exemplos possíveis, a arquitectura panóptica ou, posteriormente, a invenção da fotografia. Agora é claro, o olhar é o primeiro instrumento e, por isso, também ele deverá ser “afinado”, também ele deverá ser semioticizado, ganhando um sentido determinado dentro do sistema de saber-fazer no qual se integra. E nesta constatação vamo-nos apercebendo como aqueles mesmos que inventam e utilizam os novos instrumentos vão sendo instrumentalizados, como aqueles mesmos que dissecam os corpos vão sendo dissecados, como aqueles mesmos que desenvolvem taxinomias vão sendo ordenados.

3. As imagens e o espanto

As imagens mediadas são imagens espantosas. O espanto localiza não só um problema estético mas, igualmente, um problema científico ao confrontar-nos com uma imagem ambígua e pairante. Na Micrographia, publicada em 1667, Robert Hooke reconhecia que o microscópio subvertia as normas de lucidez, coerência e estabilidade dos corpos ao transformar objectos comuns, como simples grãos de milho, em imagens misteriosas, irreconhecíveis e inquietantes. A racionalidade instrumental do século XVIII confrontou-se largamente com este problema, o do estatuto identitário de tudo aquilo que não é “nem uma coisa nem outra”. A geografia, a mineralogia, a química, a óptica, a medicina confrontaram-se com esses inter-seres, espécie de fantasmas cuja aparição depende de condições de possibilidade extraordinárias e cujo lugar no mundo, a despeito na sua permanente presença entre nós, não é reconhecido. O estatuto dos invisíveis (esses seres apenas perscrutados instrumentalmente) está, de certa forma, próximo do estatuto das imagens projectadas que parecem pairar visíveis mas incorpóreas como acontecia com as diabruras de Giovanni Battista della Porta usando a Câmara Obscura ou com as fantasmagorias de Robertson usando a lanterna mágica.

Os media sejam eles quais forem – a máscara do xamã ou o dispositivo de tomografia axial computorizada do médico contemporâneo – despertam o espanto na medida em que intermediam o visível e o invisível, o ausente e o presente, o manifesto e o oculto. O espanto é, essencialmente, a consciência de que o objecto identificado não é inteiramente identificado, há no que se vê algo que se esconde, que se deve conservar escondido, que se deve saber escondido permitindo admirar no que se manifesta o que se oculta. O espanto das imagens mediadas coloca-nos, assim, em contacto com uma zona de não-conhecimento, possibilita-nos algo que de outra forma poderíamos nunca saber, que o que se sabe, que o que se vê, sabe-se em escorço, remetência para algo que é evocado mas nunca fixado. Tal não significa que essas imagens nos remetam para um outro plano ou para uma outra vida, pelo contrário, o espanto é a nossa vida, naquilo que não nos pertence.

A história da fotografia descreve-nos como perante os primeiro daguerreótipos, os espectadores se sentiam perturbados ao ponto de desviarem o olhar. A perturbação nascia do facto de se sentirem olhados pela pessoa retractada, olhados como nunca ninguém os olhou, olhar fixo, sem demora, presente e, contudo, inquietantemente, ausente.

Nas palavras de Agamben, “A imagem fotográfica é sempre mais do que uma imagem; é o lugar de uma separação, de um dilaceramento sublime, entre o sensível e o inteligível, entre a cópia e a realidade, entre a recordação e a esperança.” Era este mesmo dilaceramento sublime que a ciência natural do século XVIII reconhecia nesses seres tão sublimes que para eles não podia haver um nome que definitivamente os nomeasse. Eles teriam de ser nomeados metaforicamente e não apenas por uma imagem mas por inúmeras para que no final, da reunião desses nomes, pudesse surgir uma imagem com um certo sentido identitário, uma imagem que como eles estivesse aquém e além deste mundo. Chamavam-lhes invisíveis, viajantes, vacillators, animáculos. Rapidamente, os instrumentos ópticos tornaram possível descobrir esses inter-seres em todas as coisas sólidas, líquidas ou gasosas, eles estavam nas folhas das plantas e nos caules, numa mão humana e no ventre de um animal, eles estavam no esperma e no ar que respiramos, eles estavam no corpo vivo e na matéria morta, eles representavam a vida que se está permanentemente a perder.


4. A Cultura panóptica

A partir da segunda metade do século XVII verificamos o desenvolvimento de uma nova cientificidade instrumentalmente sustentada. O final do século XVII coincide também com o desenvolvimento do que L. Stewart designa de “Public Science”. Esta public science resulta de dois fenómenos: o estabelecimento por parte dos cientistas de laços entre o interior e o exterior do laboratório, na medida em que se o laboratório é o espaço de análise, ordenação, classificação e arquivo da informação, o exterior é o espaço de observação e registo. Desta forma instrumentos e procedimentos de utilização passam a integrar o espaço público; por outro lado, a orientação utilitarista da nova ciência leva a que muitos dos instrumentos sejam construídos para terem uma aplicabilidade primária nos transportes, na agricultura e na indústria; finalmente, é sabido que os instrumentos científicos eram rapidamente adaptados a funções de entretenimento popular. Desse modo estabelece-se um mercado, um comércio e uma cultura de utensílios, instrumentos, máquinas, manuais de instrução, todo um comércio científico que transporta os objectos e formas de conhecimentos técnicas e cientificas para a esfera pública ao longo do século XVIII.

Impõe-se assim uma nova racionalidade definida a partir das possibilidades oferecidas pela mecanização ao nível da produção material e mental. As novas legislações, que um pouco por toda a Europa vão sendo redigidas, têm bem presente toda a lógica desta razão instrumental e o modo como a mecanização pode ser ajustada ao desenvolvimento de uma nova economia politica. Esta nova racionalidade constrói, alicerçada sobre os princípios da ciência observacional, constrói toda uma cultura da visibilidade.

Torna-se difícil identificar, com rigor, qual o domínio no qual esta nova filosofia da visibilidade surge: podemos identifica-lo nos tratados de politica onde a corrupção e o desperdício são percebidos como efeitos do secretismo, identificamo-lo nas doutrinas morais e no pensamento dos higienistas onde o vicio e a degradação estão associadas à marginalidade ao que acontece no escuro e às escondidas; encontramo-lo numa nova lógica de comércio onde a exposição, a visibilidade de produtos e mercadorias surge garantia de honestidade e rigor; identificamo-lo também, claramente, na observação do funcionamento da máquina metáfora de um funcionamento perfeito, útil, eficaz, sem desperdício, no qual as varias peças colaboram com um objectivo comum e cujo funcionamento está visível, exposto aos olhos de quem o quiser observar. A nossa racionalidade passa à associar o erro, o vício, a doença, a corrupção, o crime, a ignorância ao que está obscuro, ao que é escondido ou mantido em segredo ao mesmo tempo que dignifica o que é iluminado, revelado, manifestado, exposto. O novo valor da exposição, a eficácia da visibilidade, exige no entanto, para ser aplicado ou para ser maximizado, ordenação, normalização, racionalização. Estabelecem-se assim séries de visibilidade e de invisibilidade, por vezes relacionáveis, por vezes permutáveis, esquemas que se vão tornando progressivamente mais complexos, que perpassam pelo pensamento filosófico de Kant na separação entre fenómeno e númeno, que circulam pela literatura fantástica agora dominada por espiões, agentes duplos, seres mutáveis, que atravessam a nova filosofia da natureza atenta à mudança, à metamorfose, mas também à simbiose ao mimetismo, que se materializam enfim com o desenvolvimento de toda uma panóplia de instrumentos auxiliares dos sentidos que ver para além do humanamente visível, ouvir para além do humanamente audível, palpar para além do humanamente palpável, registar para além do que a memória humana consegue registar.

Constrói-se deste modo, em vários domínios que progressivamente passam entre si a cooperar uma máquina de exposição que disciplina espaço, tempo, corpos, objectos de modo a expô-los à uma determinada visão que não apenas o olha mas que os observa com tudo o que a observação moderna passa conter de registante, analisante, ordenante, instrumentalizante.

Esta máquina pode com toda a propriedade ser designada de panóptica. A sua presença tende a criar micro-máquinas que a replicam. São máquinas que integram peças e são máquinas que se reduzem a peça integrando-se noutras máquina.

Encontramos o principio em algumas máquinas de James Watt, encontramo-lo a partir dos anos 80 do século XVIII nos panoramas de Barker, com mais clareza ainda encontramo-lo na fábrica do porto de Portsmouth concebida por Samuel Bentham e que impõe toda uma lógica de visibilidade. Samuel Bentham concebe todo um plano que prevê a distribuição de máquinas e operários garantido uma visibilidade gradante: a máquina é visível para o operário, os operários e máquinas são visíveis para os fiscais que percorrem o corredor a partir do qual se dá a distribuição, por sua vez máquinas, operários e fiscais podem ser observados pelo engenheiro ou pelo industrial a partir de uma plataforma superior. O princípio de visibilidade está também presente na abertura da fábrica aos visitantes, estes podem ser atraídos por simples curiosidade ou por interesse científico. Entre o final do século XVIII e o início do século XIX visitar as fábricas britânicas eram tão popular e tão cientificamente estimulante como ler as descrições geológicas ou zoológicas de um determinado filósofo, observar a lua através de um telescópio ou examinar um pedaço de tecido ao microscópio. Os próprios industriais ganham um novo estatuto científico, o caso de William Strutt, dono de uma fábrica de algodão em Derby e membro destacado da Philosophical Society, é um exemplo entre vários.

A importância dos dispositivos públicos enquanto elementos ordenadores defendida por Samuel Benthan é igualmente sublinhada pelo seu irmão Jeremy na sua obra epistolar onde apresenta a ideia de um novo princípio de construção aplicável a qualquer local onde as pessoas devem ser mantidas sob observação, prisões, fábricas, asilos, hospitais e escolas.

O princípio arquitectónico é bem conhecido, na periferia uma construção em anel; no centro uma torre; esta é rasgada por largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em selas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; cada cela tem duas janelas, uma abre para o interior correspondendo à janela da torre; outra abre para o exterior permitindo a iluminação da cela. Para que um sistema de vigilância funcione basta colocar um vigia na torre central e em cada cela trancar um prisioneiro, um louco, um doente, um operário ou um escolar. O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. Quem observa não pode ser observado e quem é observado só pode observar alguém que lhe é igual: um operário observa um operário mas não observa o fiscal que pode observar outro fiscal; o leproso observa outro leproso mas não observa o médico que o observa e que pode observar e ser observado por outro médico. A partir deste olhar que sublinha, dir-se-ia por repetição mecânica, identidade e alteridade, desenvolve-se toda uma lógica funcional normalizadora e instrumentalizadora da vida.


5. CODA

Toda a revelação é desesperante. Há, no que se oculta, no que permanece secreto ou desconhecido, uma extraordinária possibilidade de esperança, que decorre do facto de nos ser permitido imaginar isso que ainda não se manifestou, pura promessa de ser. Mas quando isso se manifesta, irremediável, irrepetível, sabemos que a manifestação conduziu o ser ao seu túmulo e o tornou impossível de voltar a ser.

Adolf Portmann advertia-nos para a diferença, radical diferença, entre dois tipos de manifestações: as manifestações autênticas seriam aquelas que nos aparecem naturalmente, brilhando à luz, sem que o nosso poder operatório as provoque, e as manifestações inautênticas corresponderiam aquelas manifestações que se escondem do nosso olhar e que apenas se revelam à força, através da violência exercida pelos nossos instrumentos.

Forçar a realidade a mostrar-se foi o grande projecto da modernidade que a contemporaneidade prolonga e intensifica. Não deixar nada por revelar, próximo ou distante, nas superfícies ou nas entranhas, e não apenas expor ao olhar, mas cartografar, dissecar, legendar, classificar e arquivar. O arquivo contemporâneo manifesta a actualidade do grande projecto taxinómico moderno, actualizando-o num arquivo multimédia, parcialmente consultável em rede e que nos permite visitar o interior da galáxia ou o interior do nosso corpo, a evolução de um vírus ou o funcionamento do nosso cérebro.

Com os novos media tornamo-nos espectadores que se confrontam com imagens cujo carácter sedutor resulta da extraordinária ausência de correspondência com qualquer fenómeno do mundo natural. O que implica reaprendermos a experiência de ser espectador, apreendermos uma nova técnica da observação e uma nova gramática visual que nos permita fazer a leitura dessas imagens extraordinárias. Este fenómeno tende a estar presente em variadíssimas situações, ele caracteriza o olhar do visitante de um site científico ao observar as imagens do cérebro obtidas por tomografia axial computorizada ou olhar do visitante de um site pornográfico ao observar imagens, obtidas com micro-câmara, do interior de uma vagina. Estas imagens, obtidas através de novos media, possibilitam-nos a mediação com uma realidade unicamente acessível instrumentalmente, uma realidade absolutamente estranha onde é impossível não vermos senão fantasmas, imagens que podem vir a ser revestidas de sentido mas que naturalmente nada são, porque se o acesso é mediado, o saber sobre aquilo a que se acedeu carece, igualmente, de mediação. Que os fantasmas sejam agora tão orgânicos, tão viscerais, menos etéreos e mais carnais, que os fantasmas sejam agora menos incorporais e mais coisas em carne viva é, talvez, um elemento distintivo da nossa época. Como se os fantasmas estivessem dentro de nós e os media – os media digitais e os biomedia – apenas os revelassem.

Wednesday, April 18, 2007



Vendo-me envolvido nestes Thinking Blogger Awards cabe-me agora nomear cinco blogs "bem pensantes". A minha lista:

  • Miniscente

  • Quiet Not Safe

  • Ressabiator

  • Designio

  • Instituto Futurista


  • OZ MAGAZINE




    O OZ MAGAZINE nasceu em Sydney em 1963 passando depois a ser editado em Londres, onde foi publicado entre 1967 e 1973 marcando a cultura psicadélica de então. Editado, na sua fase mais criativa, por Richard Neville em colaboração com Martin Sharp e Richard Walsh, contribuiu, de forma decisiva, para a definição do movimento de contra-cultura conhecido por "Underground Press".














    Sunday, April 15, 2007

    Cadernos de Tipografia

    Conforme o nome indica, os «Cadernos de Tipografia» incidem sobre temas relacionados com a Tipografia, o typeface design, o design gráfico, a análise social e cultural dos fenómenos relacionados com a edição, publicação e reprodução de textos e imagens. Os « Cadernos», publicados em português, dirigem os seus temas ao mundo lusófono, concretamente a leitores em Portugal e no Brasil. Os «Cadernos» estão abertos à mais ampla participação de colaboradores, quer regulares, quer episódicos, que queiram ver os seus artigos difundidos por este meio. Os artigos assinalados com o nome do(s) seu autor(es) são da responsabilidade destes mesmos autor(es) – e também sua propriedade intelectual.

    A distribuição é feita grátis, por divulgação da versão PDF posta à disposição do público interessado em
    http://www.tipografos.net/cadernos


    Nr. 1 (PDF DIN A4, 2 MB): Temas

    Camões, Didot e Bomtempo
    Para que é que precisamos da Helvetica?
    Dino dos Santos, typeface designer
    A fonte Andrade, de Dino dos Santos
    Livros técnicos sobre Tipografia publicados em Portugal
    A «tipografia vernacular» brasileira
    Books on Demand – já!
    Revisão e Edição de Texto
    Download: http://tipografos.net/cadernos/cadernos-1.pdf

    PERFIL

    REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com