Friday, June 22, 2007




OS HOMENS-MÁQUINA DE FRITZ KAHN

A partir dos anos 20 começam a ser publicadas as extraordinárias ilustrações do alemão Fritz Kahn que, em 1926, serão reunidas no seu fabuloso Der Mensch als Industriepalast. Nos anos 20, a indústria Quimica e as ciências médicas estavam particularmente avançadas na Alemanha. Em 1895 é publicada a conhecida fotografia da mão da mulher de Wilhem Roentgen visualizada através do Raio-X. Ezra Pound dirá mais tarde que "a ciência contemporânea se faz a partir da observação das sombras". Imaginário biológico e imaginário tecnológico são assim tensionados através da prática científica e das suas ferramentas de visualização e análise do corpo humano. Contemporâneo das transformações ditadas pelas vanguardas históricas, assimilando referências que nos remetem quer para o futurismo, quer para o construtivismo, quer para (com a sua forte lógica de representação analítica) o movimento moderno, Fritz Kahn explora graficamente as possibilidades de representação do corpo humano como máquina e da máquina como organismo. Trata-se de uma obra infelizmente pouco trabalhada e a exigir esse trabalho de recuperação e estudo.



Thursday, June 21, 2007



EVERYTHING I KNOW ABOUT DESIGN I LEARNED FROM THE SOPRANOS.

Vale a pena ler o breve artigo de Michael Bierut que acaba de ser colocado no Design Observer. Trata-se de uma transposição, irónica e inteligente, da "filosofia Tony Soprano" para o campo do design. Os ensinamentos acerca da relação com os clientes, a criatividade, a ética profissional, entre muitos outros, mesmo partindo de uma perspectiva caricatural conseguem ser de uma pertinente actualidade.





TRAVESSIA DE FRONTEIRA: A LUZ QUE TECE O ESPAÇO


1. Quando, após uma ausência, se regressa a casa é habitual começarmos por abrir as janelas. Permitir, num gesto simultaneamente concreto e simbólico, que a luz entre no espaço e ilumine, numa fantástica aparição, tudo aquilo que permanecia na penumbra esperando a ocasião em que de novo pudesse ser vivenciado. Há nesse gesto a vontade de não deixar que o espaço se feche em nós, abrir o espaço iluminando-o é rasgar um horizonte para o olhar, prolongando a presença do corpo (e da casa que se foi fazendo corpo) para além de nós.

2. Quando visitamos a instalação site-specific que Marta Traquino desenvolveu na Sala do Veado apercebemo-nos que as janelas foram abertas. Esta mesma sala acolhera os vários elementos expositivos trabalhados por Paulo T. Silva no primeiro momento de Travessia de Fronteira. Aí (apercebemo-nos agora mais do que então) intencionalmente as janelas foram fechadas, a iluminação controlada, o espaço isolado e de modo a melhor nos a dar a ver as obras. Agora, pelas seis janelas, a luz – vinda do jardim, vinda da rua, vinda do céu – entra e parece não apenas iluminar tudo o que o espaço acolhe mas, de certa forma, auto-iluminar-se. O primeiro momento encantatório que a instalação de Marta Traquino nos oferece é este: dar-nos a ver a luz. Esta luz natural – trabalhada, como alguns arquitectos o fazem, como uma material arquitectónico – surge-nos espelhada nos tabuleiros de água, reflectida sobre as linhas brancas, sombreada, aqui e ali, no chão e nas paredes fazendo as suas próprias travessias. De certa forma é a luz que aqui funciona como guia, tecendo percursos entre duas paredes de fio, gerando diálogos e permutas entre o interior e o exterior, mobilizando ritmos, envolvendo os sentidos, aquecendo os corpos, norteando os passos, iluminando os espaços. É também a luz que nos permite aceder a um “lá fora” e, deste modo, o dispositivo de instalação proposto por Marta Traquino apropria-se da Sala do Veado e parece rasgar a parede que a tende a isolar do exterior, a privar do contacto, a esconder do outro. Lá fora, há vida, terra e seiva, lá repousam a estrondosa Ginkgo Biloba, os Dragoeiros, as Canfoeiras, as Gramíneas Japonesas e, no alto, a gigantesca Washingtonia. Vêm todas de um tempo anterior a nós e todas nos irão sobreviver. Fechar as janelas é, talvez, uma forma de nos resguardarmos: da vida e da morte.

3. Plotino dizia que a arquitectura é aquilo com que ficamos quando retiramos a uma construção todos os seus elementos materiais, isto é, uma lógica de sentido que define acerca da disposição desses elementos materiais num determinado espaço. A prática arquitectónica e, também, a prática artística modernas tornaram explícito que esta disposição de sentido no espaço não opera apenas com elementos materiais (e menos ainda, exclusivamente, com elementos estruturais) mas igualmente com elementos imateriais, ou seja, tal como os teóricos da espacialidade social (Foucault, Henri Lefebvre, Edward Soja) deixaram claro, a arquitectura está envolvida num processo de construção e de disposição dos corpos e dos seus ritmos, das mentalidades e dos seus processos de organização, das emoções e das suas lógicas de controlo, das formas de imaginário e das suas ritualizações no espaço.

4. A partir da década de 1980, os processos dominantes de intervenção no espaço praticados nos anos de 1960 e 1970 – a performance, o happening, a crítica das instituições, a desagregação conceptual do objecto, o carácter linguístico do trabalho artístico – são recuperados em forma de objectos (e sistemas de objectos) colocados no espaço. A questão da construção do lugar (e a integração do espectador dentro de um lugar e já não diante de um objecto) – o conceito de sculpture as place de Carl André – e da relação com um lugar – a site specificity ou site construction segundo a expressão de Rosalind Krauss – conservando a sua influência, vão sofrendo desenvolvimentos significativos a partir de então. Artistas como Isa Genken, Pedro Cabrita Reis ou Robert Grosvenor realizam configurações retiradas de modelos arquitectónicos ou passíveis de serem relacionadas (mesmo que conflitualmente) com esses modelos arquitectónicos. É igualmente sobre os modelos arquitectónicos, enquanto expressão de espacialidade social, que se desenvolvem os trabalhos de Smithson, Matta-Clark ou, ainda mais claramente, em Thomas Schütte com as suas instalações evocadoras de lugares de ausência, fortemente desumanizados.

É, também, sobre os modelos arquitectónicos que opera o trabalho de Marta Traquino. A sua instalação concebe uma arquitectónica efémera que habitando uma pré-existência arquitectónica, sólida e permanente, dela se apropria e nela gera transformações. O dispositivo de arquitectura móvel (que funciona, antes de mais, como um corpo que relaciona com um espaço pré-existente) performa a estrutura de arquitectura permanente, mobiliza-a ao mesmo tempo que nos permite (espectadores convidados a serem habitantes) relacionarmo-nos com ela de uma outra forma.

Se a instalação trabalha (conceptualmente e fisicamente) percursos, travessias, ritmos, devires, ela não o faz, contudo, como se o espaço funcionasse como um palco (tipologia espacial tendencialmente neutra) no qual os elementos cénicos – desde logo os corpos - são agenciados, aqui é o próprio espaço que é tomado como corpo agenciavel, no qual os elementos que nele se instalam (dados na sua naturalidade, na sua quase neutralidade) operam processos de devir, deste modo a Sala do Veado é atravessada por inúmeras “intensidades” que a colocam num processo de devir: devir-jardim, devir-casulo, devir-rua, devir-casa. É esta relação activa com a arquitectura e a relação activa que a arquitectura estabelece connosco (num caso como noutro relações de interconstrução) que Travessia de Fronteira nos propõe.

5. Da Poética do Espaço de Bachelard, bem como das obras de alguns fenomenólogos (desde logo Bergson), aprendemos que não vivemos num espaço homogéneo, terraplanado, mas, pelo contrário, num espaço pleno de irregularidades, diferenças e singularidades, num espaço também, lembra-nos Foucault, assombrado pelos seus fantasmas. “O espaço da nossa percepção primeira, o dos nossos devaneios, o das nossas paixões detém em si qualidades como que intrínsecas; é um espaço ligeiro, etéreo, transparente, ou então é um espaço obscuro, pedregoso, atulhado; é um espaço de cima, é um espaço de cumes, ou é, pelo contrário, um espaço de baixo, um espaço da lama, é um espaço que pode correr como a água dum rio, é um espaço que pode ser fixado, rígido como a pedra ou como o cristal.” No entanto, estas reflexões, dirigem-se, sobretudo ao espaço de dentro. A instalação de Marta Traquino questiona, também, o espaço de fora, questiona as fronteiras, as vedações, os muros, que as separam, questiona, também, as passagens, as fissuras, os canais que as aproximam.

Não é só “cá dentro” que o fantasma habita. Ele agita-se, também, como o vento se agita, “lá fora”, entre as gramíneas e os Ciprestes-do-México, além mais, nas casas térreas que resistem ao avanço do betão, nas pontes, dos arranha-céus.

Nos nossos dias, afirmou Foucault, a colocação substitui-se à extensão, a qual destronou ela própria a localização. A cidade estende-se, arquitectónica extensiva, que permanentemente invade e fecha, cinde e isola. A erosão do espaço coincide com a erosão da vida. A nossa vida tal como a existência da cidade descreve-se, agora, por um feixe de relações, entre colocações de paragem provisória: o café, o cinema, a praia; a casa, o quarto, a cama. Vai-nos faltando espaço para viver e espaço para morrer. Necessitamos de abrir as janelas.
CONCURSO ELECTROLUX/DESIGN LAB



Até 01 de Agosto estão abertas propostas para o DESIGN LAB '07.

Monday, June 18, 2007

REACTOR ENTREVISTA RUI SILVA

Rui Silva é designer de comunicação, formado pelaFaculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Desenvolve a sua actividade projectual no estúdio Alfaiataria do qual é fundador.


REACTOR: No primeiro post do Reactor afirma-se que “não há design sem diálogo”, enquanto profissional do design que diálogos lhe interessam estabelecer? Com quem? Sobre o quê?

RUI SILVA: Design e diálogo faz-me pensar em memórias descritivas e apresentações de trabalhos a clientes. É comum ouvir dizer que o cliente é por vezes um obstáculo à realização de um bom trabalho, castrando a criatividade do designer (mau cliente), ou pelo contrário potencia o trabalho do designer dando-lhe total liberdade de acção (bom cliente). Deste modo seria possível dizer que um bom cliente permite um bom design, e que um mau cliente não, concluindo por final, que é necessário educar a figura do cliente. Considero esta afirmação falaciosa, pois considero que a capacidade de argumentação, diálogo, e racionalização são preponderantes para a realização de um trabalho competente em design. Acho fundamental a capacidade de verbalizar uma construção visual, não dando nada como um dado adquirido, pois só assim poderemos falar em profissionalismo e justificar a existência de cursos superior em design. Este é o único modo possível de evitar situações embaraçosas em que o discurso designer-cliente tem o nível da escolaridade mínima, através da promoção de um diálogo racionalizado e intelectual da parte do designer.

R: A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Como vê esta indefinição em torno da disciplina?

R.S.: A maior parte das definições de design não são mais do que esforços aforísticos pouco consequentes e mal elaborados. É recorrente encontrar definições vagas com desejos de abrangência divina, ou pelo contrário, frases contundentes e tendencialmente redutoras baseadas numa análise simplista da prática de design como actividade profissional. Existe também uma paixão niilista e romântica que insiste em conjugar design e multidisciplinaridade numa mesma frase vezes sem conta, ainda que o resultado seja por norma uma afirmação evasiva e inconsequente.
Design está implicado na conjugação de três factores: tecnologia, articulação de um discurso político, e integração cultural. As características e limitações da tecnologia aplicada são preponderantes para definir o alcance de cada trabalho de design, assim como a capacidade de organizar informação através de um discurso visual consequente, e articulado, que demonstre uma ideia integrada ou em oposição, ao seu contexto cultural local e contemporâneo. A estética é transversal a estas três variáveis, reflectindo as conjugações possíveis de cada um dos seus valores.
A ausência de um campo definido de criação em design, deve-se à permutabilidade e expansão progressiva dos três factores enunciados, assim como à elasticidade estética derivada da sua conjugação. Esta indefinição não constitui em si um problema, mas gera interpretações erróneas, por excesso e por defeito, do alcance do design como disciplina.

R: Se lhe pedisse uma definição de design…

R.S.: Sinceramente não procuro uma definição concreta para design, agrada-me poder estar num processo de investigação contínuo, e tirar partido deste estatuto de fora-da-lei, sem ter que definir uma actividade ou uma carreira segundo um processo burocrático.

R: O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?

R.S.: A distinção não é real, cada designer tem necessariamente um pouco dos dois em maior ou menor quantidade, e todo o trabalho tem um impacto tanto social como ao nível do mercado, portanto a diferença é raramente efectiva. Existem indivíduos mais interessados em ganhar dinheiro do que salvar o mundo e vice-versa. Sucesso em design não é um valor garantido, pode ganhar eleições, vender milhões, evitar dores de costas, impedir miopias, ou proporcionar falências, literacia e até genocídios. Ninguém cumpre somente o seu trabalho como se tratasse de um dever burocrático linear, cada um é portador de uma responsabilidade moral e ética, todavia existe muita irresponsabilidade em design que anda nua pela rua...

R: Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante mostrarmos que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais…

R.S.: Um pensamento socialista pode facilmente atribuir responsabilidade à ética disciplinar, mas existe uma escolha que cada designer pode fazer de integração ou segregação da mesma. O design corporativo, burocrático, produzido pelas grandes empresas publicitárias e ateliers de média e grande dimensão, revê-se na ética disciplinar, pois esta permite dissolver a responsabilidade e legitimar a sua actividade. Cada designer nesta situação contratual aceita implicitamente, ou explicitamente, trabalhar segundo a ética disciplinar da empresa em que trabalha. Deste modo a ética disciplinar é uma espécie de seguro contra todos os riscos que salvaguarda uma posição confortável a quem a pratica. Quem faz design individualmente ou em pequenos grupos, design criativo de autoria, não tem porque invocar uma ética que não a individual, pois a responsabilidade é-lhe directamente imputável.

R: Ainda há espaço para utopias no design? O Enzo Mari dizia que o design é um “acto de guerra” e o Brody, há umas semanas atrás, dizia que usamos poucas vezes a palavra revolução…

R.S.: Utopia é uma palavra perigosa quando usada em associação com design. Design não é etéreo, é um gerador de consequências orientado para a concretização. Deste modo a eficácia é tanto uma resposta como um problema para a prática do design, uma vez que é uma propriedade amoral da disciplina. Como pensamento abstracto design é a ferramenta ideal para realização de uma utopia, devido à sua relação estreita com a eficácia, no entanto as tentativas conhecidas de implementação de uma utopia foram bélicas, burocráticas, dogmáticas, totalitaristas, enfim, desastrosas. Durante a ocupação nazi, numa carta ao seu superior, um oficial alemão desculpa-se por não ter conseguido atingir o número de execuções sumárias para o sistema por si desenhado. O design não é todo igual, é tanto um acto de guerra como um acto de submissão.

R: Qual é a sua “utopia pessoal”?

R.S.: Prefiro associar design a distopia. Sou adepto do erro por princípio com sendo necessário para uma vivência confortável. O desvio milimétrico na dobra, o avanço ligeiro do corte, contribuem para uma humanização do processo de design, aproximando-o da problemática da vivência quotidiana.

R: Parece-lhe que a blogosfera tem contribuído para o desenvolvimento de um debate sobre em torno do design?

R.S.: Sim. Creio que a crítica de design em língua portuguesa só ganhou expressão e interesse com o aparecimento da "blogosfera".

R Quais são os seus blogues de referência?

The ressabiator, isto não é uma tese, speak up e BibliOdissey

Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

P: Tem a certeza de que não devia estar a fazer outra coisa qualquer?

R: Sim, tenho a certeza.

Saturday, June 16, 2007

TRIUNFO E A ESPANHA POP DOS ANOS 60

Durante as décadas de 60 e início de 70, dominadas em Portugal pela ditadura de Salazar e em Espanha pela ditadura de Franco, a revista Triunfo foi um projecto editorial absolutamente singular na península Ibérica. Tendo nascido como uma revista sobre cinema, com edição semanal, transformou-se em 1962 na principal revista ibérica capaz de integrar correntes contraculturais do pensamento europeu e constituíndo-se num símbolo de resistência ao franquismo. Se vista hoje a revista Triunfo, num primeiro olhar, parece combinar desequilibradamente preocupações de uma revista de LifeStyle com algumas "inquietações" de uma sub-cultura pop intelectualizada, a um olhar mais atento encontramos na Triunfo não só uma forte coerência e resistência editorial mas, igualmente, uma interessante galeria sob a qual, evolutivamente, desfilam ideias e tendências (do Situacionismo à Pop Art, da Op Art ao pensamento cultural e político gerado sobre influência de Frankfurt), que mostram a actualidade da revista numa altura em que "ser-se do seu tempo" era difícil em Espanha e perfeitamente impossível num Portugal onde a pobreza e o isolamento forçados se agitavam como opcção deliberada de um país "orgulhosamente só".

Documentamos, com mais pormenor, o número de 9 de Novembro de 1963 e apresentamos algumas das óptimas capas da Triunfo.










Thursday, June 14, 2007

LONDRES 2012: DESIGN, DINHEIROS PÚBLICOS E EPILEPSIA



O logo do Jogos Olímpicos de Londres-2012 tornou-se tema central de debate no Reino Unido e um pouco por todo o mundo. No Reino Unido a discussão está longe de se limitar a uma questão de design sendo agora uma questão claramente politizada. O interesse do debate passa, de resto, um pouco por aqui, pelo modo como o poder mediático da "imagem" de um grande evento se torna num espaço de abrangente discussão politica.



Entre as inúmeras iniciativas que procuram levar à alteração da imagem gráfica desenhada por Wolff Olins destaca-se uma petição on-line que já conta com mais de 40.000 assinaturas.



Um bom acompanhamento do debate, dando voz às posições a favor e contra o logo, está a ser feito pela Creative Review Blog. O debate permanece em aberto e promete manter-se aceso.
REACTOR ENTREVISTA GONÇALO PENA

Gonçalo Pena é um dos mais fascinantes pintores portugueses da sua geração. Mas para além disso é também um dos mais heterodoxos pensadores da pintura, do desenho e da prática do projecto. Professor da ESAD das Caldas da Rainha entre 1995 e 2005 vive actualmente entre Lisboa e Hildesheim e a sua obra como ilustrador vai aparecendo com regularidade no Independente, Público, Ler ou Egoísta.



REACTOR: Há um post no Reactor intitulado “O Estado do Design”. O que é que este título lhe sugere actualmente?

GONÇALO PENA: Sugere-me a ideia do multinacionalismo dominante, por oposição a outros conceitos possíveis de relacionamento trans-cultural. Poder-se-ia ler o estado do design tomando este estado como um lugar paralelo ao Estado-nação, forçando e sublinhando assim a natureza “colaboracionista” de um certo conceito de Design no instituir do supra-estado multinacional como um sistema efectivo infraestrutural no relacionamento entre indivíduos, ou seja; sublinhar-se-ia assim a natureza política alienante das formas de conceber, projectar e realizar submetidas a esse sistema dominante.
Numa segunda leitura desta questão, colocando-a mais próxima da própria intenção da pergunta e de um lugar, este “estado” (agora com letra pequena) do Design em Portugal sugere-me um certo estado de desorientação e uma grave lacuna de investimento tanto no campo da formação como no da investigação, tanto nos sectores públicos como no sector das iniciativas privadas. Parece-me que continuamos agarrados apenas a uma concepção académica “pevsneriana” do design, ou seja, que considera a actividade do designer a incidir no lugar da razão “criadora” atenta aos modos de usar, usufruir e consumir objectos e na “estética” (entendida como o lugar na concepção para o “aspecto” ou o estilo) destes. Fora da esfera estritamente profissional, no entendimento geral sobre a importância do design, é sobretudo a mais-valia estética que confere aos objectos onde “actua” que é importante, tanto na perspectiva do empresário como do consumidor. Tal reflecte não só a falta de debate sobre esta matéria a todos os níveis, como a timidez empreendedora das forças produtivas em Portugal e a geral falta de educação do consumidor.
Interessaria sobretudo pensar ou cartografar caminhos, acções, praticas para todo o tecido produtivo colocando o projecto no lugar central como o verdadeiro condutor de produção de realidades e experiências. Neste contexto a perspectiva da actividade do designer transcenderia largamente o espectro da mera concepção de objectos.

R: A palavra “Design” identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para um campo de criação híbrido e difuso. Corresponderá isso a um fracasso ou a um triunfo do Design sobre a cultura contemporânea?

G.P: A palavra Design, historicamente, nunca se fixou na abrangência a um grupo definido de práticas ou disciplinas. A academia criou, ou tentou criar espaços definidos que no entanto são permanentemente questionados pela natureza constituinte de realidade das estruturas produtivas. Mas a verdade é que a palavra “design” foi infiltrando-se no vocabulário comum como essa mais-valia funcional e estética sobre o objecto. À expansão do termo correspondeu e corresponde o aumento gradual do tipo de objectos e produções onde este se aplica e com isto, a quantidade de variantes, ramos e raminhos, por onde a academia orienta a investigação, não tanto com o objecto de questionar a produção, o consumo e a cultura material mas com o fito de colocação de profissionais, sobrevivência económica e conquista de poder exactamente do mesmo modo que o faria qualquer empresa privada. Se aumentou o número de profissionais que exercem esta actividade e se generalizou o uso e o abuso desta palavra dificilmente se poderá considerar tal uma vitória. Se o for, será então uma vitória pírrica, ganha à custa da perda de espaço de crescimento sustentado num verdadeiro pensamento crítico vertido sobre a natureza mesma dessa cultura contemporânea, onde “design” deveria funcionar como uma actividade essencial e não como um mero elemento auxiliar e acessório na lógica fria dos números e dos negócios.

R: Há um conceito estruturante do pensamento projectual de Walter Gropius que é o conceito de “Design Total”. A ideia é, em síntese, a que ao designer compete a definição intencional das modalidades de relação social; O design seria, assim, uma disciplina de definição política. Não lhe parece que este “exercício político” do projecto é tão mais eficaz quanto mais imperceptível for e, neste sentido, o carácter difuso do design não poderá ser um sinal da sua eficácia?

G.P.: Eu diria que em Platão já se poderiam entender as raízes deste conceito totalitário de regulamentação social, embora, obviamente ainda não aplicadas à realidade industrial; Seguindo esta linha de pensamento temos a utopia inversa (regressiva) à de Gropius, no pensamento de William Morris mas igualmente totalizante, no modo como entende o novo papel do artista/craftsman na Londres do seu News from Nowhere.
O conceito de Gropius, progressista, surge e baseia-se exactamente na tomada de consciência importância condicionadora dos objectos “na era da sua reprodução industrial” para a experiência do real, constituindo-se essa produção como uma realidade própria e totalizante como no mundo dado a olhar por Fritz Lang em metropolis. Esta tomada “total” de poder do objecto industrial materializa a chamada de “vitória” da cultura, produto de um logos tornado infinitamente poderoso no seio do dispositivo técnico e tecnológico, sobre o mundo natural. A natureza totalitária deste dispositivo condicionou tudo à sua passagem, como bem o demonstrou Foucault com a sua arqueologia institucional, a começar pelo uso da língua, dos signos e estendendo-se esta nova ordem disciplinar ao uso público do corpo e da sexualidade.
Todos os modos de relacionamento social são permanentemente moldados pelas necessidades do dispositivo. A consciência disto originou no seio do pensamento projectual utopias ditas progressistas ou regressivas, mediante a sua sintonia com o projecto moderno e muito particularmente perante a vertente dita “científica” da kulturkritik marxista. Todas estas utopias entenderam a actividade do designer, fosse ele artista, craftsman ou arquitecto como devendo ser ela própria, pelo menos largamente abrangente perante as condições materiais de produção e consumo. Porém como perante todas as utopias, as tentativas de as realizar fracassam no choque natural com a imponderabilidade daquilo que está inscrito no sistema mas ainda não expresso ou patente. Se Michelet afirmava que cada época sonhava a seguinte também aqui se poderia dizer que cada época contem já em si códigos ou rotinas funcionais que determinam realidades apenas expressas no futuro. Esta expressão toma a forma frequente do fracasso ou a catástrofe como resultado previsível ou imprevisível dos planos mais arrojados, mas também da realização plena dos projectos desde que inscritos dentro das regras do jogo, ou seja; a eficácia gerada de uma presença difusa e imperceptível do design, na enormíssima maior parte das vezes verifica-se devido à circunscrição prática e crítica do designer (um tipo de obediência que frequentemente assume forma do lúdico ou do irónico) aos dados preexistentes nas actuais condições materiais de produção. Esta dita eficácia do design “difuso” segue deste modo, sendo-o então apenas ao nível de se constituir quase meramente um sustentáculo à ordem económica, técnica, comunicacional existente e os seus desenvolvimentos inscritos e quase nunca construindo alternativas sociais efectivas a essa ordem.
Muito dificilmente, nos modos como se colocam habitualmente os designers perante a realidade dispositivada (minada?), se conseguiria a realização deste projecto político e messiânico do design, que consistiria em, numa posição obliqua, crítica e sistematicamente transgressora às regras do jogo, utilizar progressivamente as forças materiais do mundo, dirigindo os modos de realização (a poética) em direcção ao reposicionamento equilíbrio dinâmico entre cultura e natureza.

R: Se lhe pedisse uma definição de Design…

G.P.:Eu definiria “design” como uma actividade intrinsecamente humana e não limitada a um determinado círculo profissional. A capacidade de agir ou projectar e produzir com um determinado sentido e significado é, no fundo, como se caracteriza a actividade do designer e essas capacidades estendem-se a todos os seres humanos. Ficar-me por aqui não explicaria o facto do surgir de uma disciplina ou profissão do designer, identificada como tal, nas academias de artes ou arquitectura em meados do século XX. Tal profissão não existia antes da revolução industrial. A actividade do design, aplicando-a aqui à produção de objectos, estava então embebida numa outra designação profissional mais ampla; a do artesão. Foi a criação das manufacturas por volta de 1780 que introduziu a necessária divisão de tarefas (e as divisões modernas de classe) entre patrão, investidor ou capitalista, projectista, supervisor, operário especializado e comum. Na prática, a profissão do designer industrial nasce aí, antes do debate que surgiu por volta de 1851, data da grande exposição universal de Londres.
Já por volta de 1830 discutia-se no parlamento inglês sobre a qualidade do “design” dos produtos industriais nacionais em face o desenho superior e refinado das manufacturas francesas. O design é já aí um factor de competição estratégica suficientemente importante para ser discutido ao mais alto nível. Assim observa-se que as definições dadas à palavra “Design” possuem elas próprias, paralelamente à evolução do design propriamente dito, uma evolução histórica e, como em tantos outros fenómenos culturais, essas definições são quase sempre expressões mais ou menos claras de um determinado ângulo de exploração ou instrumentalização do projecto perante determinados fins.
Design generalizou-se rapidamente a muitos outros sectores dentre e fora do tecido industrial de tal modo que em breve a esta designação era adicionada uma outra como complemento indicativo da área de aplicação; “industrial”, “gráfico”, “multimédia”, “web”, “de produto”, “de ambientes”, “de serviços” e tantas outras. Na verdade estas designações complementares não são concomitantes. Antes combatem-se, subtraem-se, negam-se e originam debates, ferozes e intermináveis. Estes combates reflectem a própria natureza conflituosa do estado do capitalismo liberal. Estas designações de Design designam frequentemente estratégias e são então expressões dos naturais interesses oriundos da estrutura material produtiva que as origina.
Num país como Portugal, por exemplo, com uma tímida estrutura industrial, a actividade do designer dito “industrial” organiza-se na sua maior parte à volta de pequenas produções, objectos de luxo ou pelo menos de limitada distribuição. Fará sentido fazer uma historiografia do design em Portugal centrada em Pevsner, como se faz habitualmente nos programas de teoria do design e como se a realidade histórica inglesa, alemã, americana ou japonesa fosse a nossa? Ou dever-se-ia pelo contrário reflectir sobre os desafios que tal actividade enfrenta num tipo contextual como o nosso? Como definir então na generalidade “design” quando confrontados com tamanha diversidade de contextos e interesses? George Nelson definiu design como o verbo divino da criação. Entender, pelo menos, o design como uma actividade essencial a agir humano sobre o mundo e a natureza coloca a responsabilização de todo o debate, não apenas nos “profissionais” mas no zoon politikon sem excepções.

R: O Design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos; a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nessa distinção?

G.P.: Sim. Para mim faz sentido esta distinção e a razão para tal advém daquilo que foi dito anteriormente. A questão e muito pertinente porque se refere aos dois grandes pólos discursivos da modernidade, à oposição entre uma atitude de submissão e colaboração activa com a lógica fria do mercado em relação a uma outra que defenderia, pelo contrário, um cuidado militante pelas questões sociais, pelos direitos e justiça, pelas questões ecológicas. Estes dois pólos envolvem-nos a todos definindo simultaneamente a nossa posição política, passiva ou activa. Os consensos políticos obtiveram-se até hoje na ditadura fosse esta “caudilhista” ou do proletariado ou mais vulgarmente ainda nas práticas quotidianas e predominantes no mercado. É esta segunda geração de consensos, a do mercado (e embora tal dificilmente se admita) que permanentemente induz a uma prática consensual do designer sustentada num vocabulário ou slogans, como o é, por exemplo o da rapidez de acesso ou o do “user friendliness”. Produz-se permanentemente facilidades para os vencedores, novos factos de consumo e dificilmente se contraria o enorme poder de dupla face faustiana da realização ou reificação do sistema através da face lúdica e brilhante do gadget com o lado negro e letal da arma ou do dispositivo de exploração inumana. Mesmo acções como as originadas no conceito de “design inclusivo” procuram melhorar determinados aspectos da habitabilidade contemporânea sem nunca procurar explorar e questionar alternativas sociais radicalmente outras. Esquecemo-nos também frequentemente do poder intrínseco dos objectos, da força efectiva que possuem ela sua própria forma e performatividade, visível e secreta. Os objectos vão-se depositando e criando uma camada opaca de realidade (a cultura), que replica e sustenta a narratividade da lógica fria dos números. Mas a superfície ilude. Tal é o conceito de desaparição do mundo através do simulacro (Baudrillard) e o designer é um dos artífices essenciais neste processo. O espectro das experiências políticas é curto na prática contemporânea dos profissionais de design. Tal, talvez se deva ao facto da existência de uma desorientação geral sobre percursos críticos a percorrer após a falência das chamadas “metanarrativas”. O perigo do consenso é tanto mais real quanto maior a falência dos profissionais em lançarem-se em debates críticos fundados em novos vocabulários rigorosos e efectivos, novas estratégias de solidarização e associação. Exige-se o exercício da solidão intelectual e posteriores confrontos com o “outro” e com o meio por parte do designer. Exige-se sempre isso da cidadania.

R: Perante o relativismo de valores (e em particular, do valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante os designers mostrarem que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais.

G.P.:Esta questão está ligada à anterior. Existirá uma ética disciplinar no Design? Creio existirem éticas consoante os contextos. A possibilidade de comunicação entre práticas far-se-ia por intermédio do projecto, ele próprio. Entendo a produção de realidade que é a cultura como um organismo vivo, algo próximo do conceito de “mecanosfera”, o mundo que recobre e condiciona cada vez mais a biosfera. A possibilidade de se arquivar para além da morte do corpo biológico, confere a supremacia do poder decisivo à esfera dos objectos tornados cada vez mais sujeitos. A criação de avatares é um bom exemplo disto. A possibilidade, ou melhor, a democratização furiosa da possibilidade de produzir, difundir, multiplicar, realizar coloca a questão da ética profissional do designer num patamar muito diferente daquele de onde habitualmente se faz este questionamento.
Acredito que uma das mais importantes tarefas do designer hoje, será não tanto recuperar, ou negar ou criar alternativas ao discurso moderno do projecto, mas estudar, experimentar, difundir, provocar culturas de uso. O designer será então não tanto um “criador” (se é que alguma vez o foi) mas fundamentalmente um tradutor, uma ponte que propõe experiências, actualiza o arsenal crítico colectivo na deambulação pelas virulentas metamorfoses da pele da cultura. Sublinho aqui a palavra “crítico”; o exercício da crítica, independentemente onde seja focada, é a linha condutora que produz consciência perante o real.
A ética só se compreende como consciente no processo de decisão. As disciplinas críticas seriam então salvaguarda para o exercício das éticas impostas pelas várias plataformas de realidade efectiva.

R: Historicamente, o Design foi sendo pensado como uma disciplina de “dimensão utópica”. Ainda há espaço para utopias no mundo contemporâneo?

G.P.: A utopia é um género discursivo. Há sempre lugar para o espaço de experiência e desejo provocado pela evocação desses lugares sem lugar. E também é verdade que o design terá sido ao longo da sua história, uma disciplina de “dimensão utópica” na medida em que o projecto no seu modo de questionar o passado, o presente e o futuro pela presentação de alternativas, manobra dentro da utopia. Mas a questão é outra. Não será tanto certificar-nos hoje da existência de um último reduto para a “escrita” utópica mas saber, pelo contrário, até que ponto se vulgarizou este género, não na sua forma literária, mas sim como discurso multi-dimensional sobre suporte digital. Também aqui requerer-se-á uma actualização. O conceito de “Heterotopia” (Foucault) poderia, de um modo mais efectivo do que uma utopia, colocar-nos perante a pertinência de plataformas outras de onde se poderia, no silêncio, repensar o agir. Um destes lugares por inventar é sem dúvida um lugar de experimentação de utopias. A escola?

R: Recordo-me de uma utopia particular, “Xanadu” de G. Nelson. Como olha para o actual estado do ciberespaço e da blogosfera em particular?

G.P.: O ciberspaço é, como afirmei na questão anterior, o lugar; e o hipertexto, a forma, da construção das utopias, mas também da sua difusão e consequente desaparição indiferente. São duas realidades diversas, a do livro, cuja civilização foi a dos séculos revolucionários (e do triunfo da burguesia) e a do “hipertexto”, cuja civilização ainda estará para dar os seus frutos reconhecíveis como tal. A experiência e a distribuição dos afectos são campos já afectados. A emergência de novas classes laborais com modos próprios de agir, produzir e auferir rendimentos obrigam à actualização dos modelos de crítica materialista. Por exemplo, começa a reconhecer-se hoje o modo de vida da “classe” artística como um modelo laboral do futuro; nómada, liberal, urbano, flexível, instável. Não se pode deixar de perceber aqui algum fascínio idealista por uma ideia de glamour que se revela na maioria dos casos falsa.
Aqui vou envolver-me pessoalmente.
Pertenço à civilização dos livros. A vanguarda poética, a existir, está já nas capacidades dos programadores. A vanguarda revolucionária e um poder de tipo “fascista” continuam a sua luta de morte, rivalizando tecnologicamente, no controlo de visibilidade e de acesso, no turbilhão veloz dos fluxos de informação. A desumanização e a exclusão brutal, temo, é o resultado desta guerra. A nova ordem será mais policial do que militar. Ao contrário dos militares (que tinham de ser isolados do povo para que nos momentos decisivos não hesitassem em atirar sobre a multidão) a nova policia será totalmente obediente, “servomotora” de uma agenda de exploração global. O poder estará na cadeia de transmissões tanto na coordenação decisória supra individual e na relação desta com a execução policial.
Gostaria de reflectir muito mais sobre os processos de combate, estratégias de submissão e emancipação que se desdobram sobre os novos suportes. Não é este decerto o lugar ainda. O que queria aqui sublinhar é a diferença ontológica entre texto e hipertexto; as utopias no universo hipertextual diferem já enormemente na sua efectividade perante aquelas que revisitamos nos livros, a começar pelos seus diferentes modos de recepção, mas também pelas formas que tomam. A autoria desaparece em favor da interactividade “onde todos somos autores”; na verdade a autoridade está submersa na “user friendliness” da interface, como um submarino em vigília. É uma agência sempre disponível como canal de inspecção policial. Os utilizadores jogam segundo regras estabelecidas de antemão.

R: Quais são os seus blogues de referência?

G.P.: A Wikipédia. Não é um blogue, eu sei; mas é um site que consulto permanentemente à mais pequena dúvida ou curiosidade. A minha “blogosfera” ainda se pauta muito pelas minhas relações pessoais. Naturalmente gosto dos blogues dos meus amigos por muito disparatados que sejam. Para mim um blogue pessoal de referência continua a ser o “Underworld” da Alice Geirinhas. Um blogue profissional exemplar é o “Doc Log” da Leonor Areal. Acho também piada ao “boom” epidérmico, no sentido profundo do termo à quantidade de blogues que surgem à volta da Isabel Carvalho entre o Douro e o Minho. Há um outro site que visito muitas vezes; o de Marcel van Eeden, onde todos os dias se publicam novos desenhos.

R: Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

G.P.: Acho este grupo de perguntas muito bem estruturado. Encontrou-se com facilidade com as minhas preocupações e objecto crítico. Talvez adicionasse uma pergunta orientada para a crítica da transmissão de uma cultura de projecto nas escolas de arte, design, arquitectura e engenharia (e em outras talvez). A minha resposta mais completa sobre este problema surgirá com o tempo. Insisto por agora que a escola é o centro de experimentação e ensaio, por excelência, de formas de cultura. O investimento e lutas sobre o quotidiano do futuro deveriam concentrar-se no lugar e no tempo da formação (bildung) dos produtores e utilizadores; Terá de ser a escola o lugar correcto para o desenvolvimento ético de novas formas de habitar e co-habitar. Nada disto é novo, mas é esquecido com demasiada facilidade não apenas pela tutela mas pelos corpos ditos científicos das próprias escolas.

Tuesday, June 12, 2007



Conferência 15 jun 2007, às 15h no auditório da ESAD

Experimental Jetset é uma empresa de design gráfico de Amesterdão fundada em 1997 por Marieke Stolk, Erwin Brinkers e Danny van den Dungen. Focalizando a sua actividade em trabalhos de impressão e instalações, os seus clientes incluem o Amstersam Stedelijk Museum (SMCS), Centre Pompidou, Colette, Dutch Post Group (TPG), Réunion des Musées Nationaux (RMN) e DE Theatercompagnie. O seu trabalho foi mostrado em exposições colectivas como Terminal Five (JFK Airport, Nova Iorque, 2004) e The Free Library (Riviera Gallery, Nova Iorque, 2004), e em exposições individuais como Kelly 1:1 (Casco Projects, Utreque, 2002) e Ten Years of Posters (Kemistry Gallery, Londres, 2006). Desde 2000 ensinam na Gerrit Rietveld Academy, Amesterdão.

Experimental Jetset is an Amsterdam graphic design unit founded in 1997 by Marieke Stolk, Erwin Brinkers and Danny van den Dungen. Focusing on printed matter and installation work, their clients have included the Amsterdam Stedelijk Museum (SMCS), Centre Pompidou, Colette, Dutch Post Group (TPG), Réunion des Musées Nationaux (RMN), and De Theatercompagnie. Their work has been featured in group exhibitions such as Terminal Five (JFK Airport, New York, 2004) and The Free Library (Riviera Gallery, New York, 2004). Solo exhibitions have included Kelly 1:1 (Casco Projects, Utrecht, 2002) and Ten Years of Posters (Kemistry Gallery, London, 2006). Since 2000, they teach at the Gerrit Rietveld Academy (Amsterdam).

About Personal Views

Now in its 4th year, Personal Views is a unique series of conferences that brings together an unparalleled group of designers, writers and educators from the world of graphic design. Coordinated by Andrew Howard, and taking place at the Escola Superior de Artes e Design in Matosinhos, Portugal, the series aims to examine contemporary definitions of graphic design by asking these professionals to talk about the values and objectives that have value for them. It is an attempt to explore where the boundaries of contemporary practice lie, to discuss what we might expect of ourselves, and to examine what social and cultural objectives we seek to fulfil.
Visit Personal Views Webpage


ESAD Escola Superior de Artes e Design
Av Calouste Gulbenkian
4460-268 Senhora da Hora
Matosinhos, Portugal
T +351 229 578 750
F +351 229 552 643
www.esad.pt

Sunday, June 10, 2007

ENTREVISTA ABERTA

O Reactor convidou vários designers, historiadores e teóricos do design a reflectirem sobre a importância da história do design relativamente à sua prática. Aqui fica o convite agora alargado a todos os leitores. As entrevistas começam a ser publicadas no início de Julho.

Dear All

Reactor (http://www.reactor-reactor.blogspot.com), a portuguese blog dedicated to the design culture, is questioning a series of designers, historians and theorists on the importance of the knowledge of design history in relation to its practice.
So, we'd like you to answer the following questions:

1. How important is the knowledge of design history for a good design practice?
2. How important is the knowledge of design history for your own work?

We would appreciate it if you send your answers to this email address until June 21th.

Thanks for your cooperation,

José M. Bártolo/Reactor

Monday, June 04, 2007

JAMES VICTORE

Uma interessante apresentação do trabalho do designer gráfico James Victore feita na primeira pessoa.

Sunday, June 03, 2007

MINGERING MIKE: A FABULOSA CARREIA DE UMA ESTRELA SOUL IMAGINÁRIA

Hipótese 1: Entre 1968 e 1977 a estrela da música soul Mingering Mike produziu, para a sua própria editora, mais de 50 álbuns e outros tantos singles de 45rpm. Actuou em salas esgotadas e participou em 9 filmes.

Hipótese 2: Mike um adolescente natural de Washington criou em meados dos anos 60 a personagem Mingering Mike (na verdade um seu alter-ego). Juntamente com o seu irmão, uma espécie de manager musical de bairro, fez algumas actuações ao vivo e chegou mesmo a gravar algumas canções, gravações essas que, contudo, nunca chegaram a ser comercializadas. A partir de 1968 e tendo escapado à guerra do Vietname concentrou a suas energias da construção de uma editora fictícia e da sua principal estrela: Mingering Mike. Desse “invenção” resultou uma enorme produção gráfica que acabou por dar origem à colecção Mingering Mike, adquirida em 2003 pelo coleccionador Dori Hadar, actualmente alvo de crescente culto.

Hipótese 1.1 Em 2003 Dori Hadar adquiriu a colecção Mingering Mike. Essa colecção era constituída por centenas de discos da editora Fake Records e da Mingering Mike; registos em Super 8 de concertos; imenso material gráfico incluindo os desenhos originais das capas dos discos e dos posters promocionais dos concertos; e ainda centenas de gravações originais do próprio Mingering Mike, dos Outsiders, de Joseph War e outras estrelas da Soul das décadas de 60/70. Este fabuloso acervo será em breve divulgado num livro editado por Dori Hadar intitulado “Mingering Mike - The Amazing Career of an Imaginary Soul Superstar'” a publicar em breve pela Princeton Architectural Press.

Hipótese 2.1 Em 2003 Dori Hadar adquiriu numa loja de segunda mão uma colecção constituída por centenas de desenhos e ilustrações marcadas por uma linguagem sedutoramente naïf e desequilibrada. Ao estudar a colecção apercebeu-se que ela “documentava” uma suposta editora discográfica e, em particular, o trabalho da sua principal estrela Mingering Mike. Dori Hadar conseguiu localizar Mike e reconstituir o fantástico trabalho de invenção de uma estrela da música soul que, afinal, nunca existiu. A partir daqui Dori Hadar lançou-se num ambicioso projecto: concretizar a fantasia de Mingering Mike dando-lhe a oportunidade de gravar as suas velhas canções e de actuar ao vivo em várias salas norte-americanas. Com o apoio de várias editoras conseguiu, entre 2003 e 2007, tornar Mingering Mike numa verdadeira estrela da música soul. A vida e a obra de Mingering Mike será brevemente publicada num livro, editado por Dori Hadar para a Princeton Architectural Press, intitulado “Mingering Mike - The Amazing Career of an Imaginary Soul Superstar'”.






Saturday, June 02, 2007







UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DA ARTE CONTEMPORÂNEA (VISTA DA INTERNET)

O projecto de Hanne Mugaas e Cory Arcangel ART SINCE 1960 (ACCORDING TO THE INTERNET), uma espécie de história da arte a partir dos vídeos disponíveis no YOUTUBE, possibilita uma interessante reflexão sobre as possibilidades da Internet enquanto espaço de arquivo e difusão informativa. Se o “arquivo” (conceito decisivo para se compreender o projecto de ordenação e controlo associado à modernidade) contemporâneo é, como anotava Lyotard, um “arquivo audiovisual” ele representa bem as possibilidades de “gestão” e “simulação” informativa a partir das quais o “saber de que dispomos” é controlado.

A história da arte que é “uploaded” para a Internet é, seguramente, uma entra várias, possíveis histórias da arte. Se é certo que qualquer “história” resulta de uma construção historiográfica que “produz” os factos históricos, se é certo que toda a historiografia “conta a história” a partir de uma determinada perspectiva, se é igualmente certo que a história é sempre uma “tradução” (e nesta medida uma “traição”) de um complexo processo que se vê assim “simplificado”, não deixa de ser verdade que a história da arte na internet oferece-nos, quase sempre, informação imprecisa, errónea, mal contextualizada (por vezes mesmo descontextualizada) e superficialmente interpretada.

Ao contrário das histórias de arte escritas por um autor (ou autores) competente, os conteúdos da internet baseiam-se, a maior parte das vezes, em conteúdos “user generated” como é o caso da Wikipedia.
Se a ideia de uma “diluição” do estatuto do autor e do leitor é sedutora, se é inegável que a Internet é o único espaço onde a responsabilidade de identificar e corrigir falhas é de da responsabilidade do “leitor” que desse modo se torna autor (ou parte de uma autoria colectiva) para “acrescentar” conhecimento, a verdade é que esta construção está ainda longe de ser eficaz do ponto de vista científico.





Tuesday, May 29, 2007

REACTOR ENTREVISTA EMANUEL BARBOSA

Emanuel Barbosa é designer de comunicação e professor de design de comunicação na Esad, a par da sua actividade projectual na empresa Vestigio e docente tem dinamizado algumas iniciativas das quais encontramos um bom exemplo da recente semana Art Chantrypor si organizada.



REACTOR: No primeiro post do Reactor afirma-se que “não há design sem diálogo”, enquanto profissional do design que diálogos lhe interessam estabelecer? Com quem? Sobre o quê?

EMANUEL BARBOSA: Desde muito cedo no meu percurso de (permanente) aprendizagem como designer me apercebi que esta disciplina permitia uma grande variedade de experiências e cruzamento de informações multidisciplinares - essa foi a grande motivação para escolher uma área que acabou por dominar completamente a minha vida. Assim, digamos que entendo o design como uma forma versátil de resolução de problemas - e não é possível resolver problemas sem diálogo (verbal ou não verbal). Interessam-me sobretudo diálogos entre as diferentes disciplinas de projecto (que na minha opinião são artificialmente separadas): design industrial, gráfico, interiores, arquitectura, hipermedia e também as ligações com a arte, cinema, música, etc. Penso que as complexas ligações existentes na sociedade em que nos movemos não podem ser de forma alguma cortadas, pelo que o diálogo acaba por ser constante e inevitável: política, religião, ética, arte, ciência, comércio, indústria, design, etc...

R: A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Como vê esta indefinição em torno da disciplina?

E.B.: Como já referi antes, não podemos isolar as áreas de projecto como componentes químicos em laboratório. O mundo é híbrido e difuso - vivemos numa época em que se torna difícil ter uma visão clara de quem somos e qual é o nosso papel na sociedade, sabemos que somos manipulados constantemente para acreditar, para consumir, para alimentar o sistema que está rapidamente a esgotar o planeta. Onde encaixar a disciplina de design? dependendo da formação ética de cada profissional e de cada consumidor, os níveis de estanquicidade do design vão variando. Basta olhar em redor: apropriações de sons e músicas de diferentes autores dão lugar a uma nova música; filmes e séries de TV remexem a propriedade intelectual alheia e geram produtos "originais"; designers de equipamento "reinterpretam" modelos industriais do passado e assumem-se como autores dos resultantes "clones"; designers gráficos utilizam software que não compraram para gerar trabalhos que recorrem a tipografias e imagens adquiridas ilicitamente, de forma a ter um resultado "original" próximo ao de outro designer gráfico... na arquitectura, na arte, na moda, este fenómeno não é ocasional. Bastam alguns minutos na internet para nos apropriarmos de textos, músicas, filmes, tipografias, conteúdos de todo o género. No meu ponto de vista, a melhor forma de encarar o design e o seu papel na sociedade é através de uma formação cultural e moral muito consistente.

R: Se lhe pedisse uma definição de design…

E.B.: Eu gosto de pensar que o design é uma forma de resolução de problemas e não uma forma de criação de novos problemas. Costumo dizer aos meus alunos que enquanto designers devem tentar resolver os problemas dos clientes e não os seus próprios problemas. Podemos identificar os problemas dos clientes e tentar contribuir de uma forma honesta para a resolução dos mesmos ou então (infelizmente esta é uma abordagem comum) utilizar os problemas dos clientes para resolver os nossos problemas de afirmação pessoal e gerar um produto que satisfaz os nossos objectivos de auto-promoção mas não resolve os problemas do nosso cliente e chega mesmo a criar-lhe novos problemas.

R: O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?

E.B.: Uma vez mais, é uma questão de ética e de formação. O mercado existe porque a sociedade o criou. Antes de tudo, temos de pensar no designer como cidadão, a sua formação base (moral, social, cultural) vai exercer uma grande influência no seu comportamento. Se um cidadão é suficientemente informado para perceber a diferença entre comprar um produto numa loja de comércio justo (o Comércio Justo e Solidário contribui para o desenvolvimento sustentável oferecendo melhores condições de comércio tendo em conta os direitos dos produtores e trabalhadores marginalizados, especialmente no Sul do mundo) ou numa grande superfície (comércio injusto), então, esse cidadão enquanto designer também consegue facilmente optar por projectos socialmente mais aceitáveis. Não é muito provável que um designer nascido no seio de uma sociedade de consumo tão exagerada como a nossa compreenda a sua responsabilidade ao aceitar, por exemplo, promover uma empresa que utiliza mão-de-obra infantil, esgota as reservas naturais ou destrói para sempre os terrenos e todo o equilíbrio ambiental na zona onde produz os seus vegetais com fertilizantes químicos. Provavelmente, por desconhecimento total e por estar desde sempre integrado nessa sociedade até vai sentir-se orgulhoso por ter como cliente uma multinacional - o que lhe proporciona a possibilidade de consumir mais produtos desprovidos de consciência ética. Não existe um mercado mas vários mercados. Não podemos esperar ingenuamente que toda a gente aja ou pense da mesma forma sem manipulação.

R: Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante mostrarmos que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais

E.B.: Penso que essa diferença não pode existir, é importante que todos os profissionais tenham uma profunda noção daquilo que a sua actividade provoca na sociedade bem como no meio ambiente e que ajam de acordo com os seus princípios. Um exemplo exagerado: não estou a ver um vegetariano a trabalhar uma empresa de processamento de carne, por muito sentido que possa fazer a ética disciplinar nesse caso. Não me estou a ver a aceitar paginar a versão portuguesa do "Mein Kampf" ou a fazer algum trabalho gráfico para um partido político que defenda ideais diferentes dos meus. O designer é acima de tudo um cidadão, assim o seu comportamento enquanto profissional deve reflectir a sua postura enquanto cidadão. O problema do design como profissão é que não é possível de "desligar" no final do dia - acompanha-nos constantemente.

R: Ainda há espaço para utopias no design? O Enzo Mari dizia que o design é um “acto de guerra” e o Brody, há umas semanas atrás, dizia que usamos poucas vezes a palavra revolução

E.B.: Sinto uma grande empatia por Enzo Mari - foi 1 dos nomes do design que mais prazer me deu ver ao vivo na ESAD (fiquei divertidíssimo ao saber que nasci no mesmo dia que ele). Eu acho que vou reforçar a afirmação de Enzo Mari e dizer que a vida é um acto de guerra e as revoluções acontecem todos os dias em casa, no atelier, na nossa cabeça. Quando se acredita verdadeiramente em algo nada nos impede de o concretizar... senão nada nos resta senão a distopia.

R: Qual é a sua “utopia pessoal”?

E.B.: Sempre tive problemas com isso, continuo à procura de algo que não sei se existe. Neste momento tento não pensar muito nisso e limito-me a tirar alguma satisfação das aulas que lecciono e dos projectos que desenvolvo.

R: Parece-lhe que a blogosfera tem contribuído para o desenvolvimento de um debate sobre em torno do design?

E.B.: A democratização da internet tornou possível ao comum dos mortais publicar e divulgar as suas opiniões sobre qualquer assunto. Já assisti a algumas polémicas sobre design que surgiram na blogosfera mas confesso que não as acompanhei até ao final.

R: Quais são os seus blogues de referência?

E.B.: Não é que seja a minha referência, mas costumo consultar o www.underconsideration.com/speakup/

Monday, May 28, 2007



Ellen Lupton, na sua conferência de hoje na ESAD, retomou o tema da importância de um movimento "free font". Recuperamos 5 boas razões, dadas por Ellen Lupton no blog Free Font Manifesto para, pelo menos, o debate sobre as free font acontecer.

Why would a typeface designer want to give a font away?

1. To make a selfless gift to humanity.
2. To raise global awareness of typographic excellence.
3. To create a visual resource that will be used by students, citizens, amateurs, and professionals all over the world.
4. To contribute to a global design vocabulary.
5. To seed the world with a visual idea that could be built on and enriched by other designers serving smaller linguistic communities.
O Estado do Design.
Reflexões sobre teoria do design em Portugal*


1.

A introdução do design em Portugal e, bem vistas as coisas, a sua gradual consolidação faz-se a pretexto de outra coisa, isto é, o design não foi assumido como disciplina autónoma, território definido (ou pelo menos polemicamente definível) considerado em si mesmo, mas como um meio de afirmação de uma outra coisa.

Na interessante entrevista que António Sena da Silva deu ao Jornal Expresso em Agosto de 1994 o, então, presidente do Centro Português de Design afirmava que o esforço de afirmação do design nos anos 60 foi desenvolvido assumindo-se o design como “pretexto de interdisciplinaridade”.

Um campo interdisciplinar não é uma disciplina (muito menos uma ciência como lembra Pierre Rastier), é uma zona de trocas, no interior da qual não se trata de conjugar, nem tão pouco de confrontar disciplinas autónomas, mas de produzir conhecimentos novos a partir dos níveis de organização da estrutura de cada disciplina e do jogo transaccional dos fluxos que as atravessam. Mais, importa lembrar que tratando-se, a interdisciplinaridade, de uma prática flutuante, ela só poderá ser garantida a partir da sólida definição dos campos disciplinares autónomos que, tal prática, irá percorrer.

O envolvimento do design a pretexto da introdução de procedimentos interdisciplinares, sendo anterior à clara definição do design enquanto campo disciplinar, não só condiciona essa definição como, definitivamente, fragiliza qualquer experiência interdisciplinar que além ou aquém do design o queira envolver.

Os últimos quarenta anos manifestam essa fragilidade de base que condicionou quer o desenvolvimento de práticas sustentadas, quer a construção de uma teoria crítica capaz de pensar o design português.

Em relação ao difícil desenvolvimento de práticas sustentadas (expressão que tende para a redundância mas que deveria expressar, muito simplesmente, a existência de uma teoria e de uma prática capazes de autonomizar o design), a resposta procurou ser dada através de uma orientação redutoramente economicista do design, aliás, bem expressa por Sena da Silva – “Aceitei esse cargo [Presidente do Centro Português de Design] em Agosto de 89 para tentar sensibilizar a indústria portuguesa a pagar melhor aos produtores directos e para que os investidores e empresários ganhem dinheiro. Como presidente do centro, o “design” é fundamentalmente isto.” – e continuada na gestão de José Pedro Martins Barata e de Pedro Brandão. Além do mais, esta politica de mercado que se pretendia orientadora do design, revelava uma absoluta ausência de interdisciplinaridade, na qual o design era quase sempre associado à produção industrial (ignorando-se, assim, a importância do design de comunicação e as dinâmicas, muito claras já nos anos 80, da industria cultural), e, simplistamente, tomado como “alavanca” para a modernização (que, como se sabe, foi muito tardia) da indústria portuguesa, privilegiadamente, nos sectores do mobiliário, dos têxteis ou do vidro (1).

Em relação à insípida construção de uma plataforma que permitisse a exposição, comunicação e reflexão sobre o design, nenhuma resposta foi sequer esboçada. Se desde o início dos anos 90 se ia afirmando que “o design está na moda” (2), se os cursos proliferavam e o mercado, efectivamente, reagia, a verdade é que esse crescimento foi sendo dado de uma forma claramente desequilibrada. Na verdade, o desenvolvimento do mercado de design possibilitou o crescimento quantitativo de clientes e estúdios mas o correspondente desenvolvimento de uma prática de projecto integrada não se fazia acompanhar do, necessário, desenvolvimento de experiências de projectos menos dependentes do mercado e, por isso, potencialmente mais críticos e criativos, não se fazia acompanhar, também, do desenvolvimento de meios de divulgação e exposição, de espaços e eventos para a discussão do design, de produção teórica sobre a disciplina.

Se, em consonância com uma maior aposta na formação em design desenvolvida por várias escolas superiores (e aqui encontramos experiências bem sucedidas de ensino privado em Portugal), a partir de meados dos anos 80 foi-se dando a afirmação de uma série de novas empresas (como a Novodesign e a Protodesign), se a comunicação se actualiza e se introduzem novas linguagens (como Cayatte, Jorge Silva ou a Arte Final mas, sobretudo, como Ricardo Mealha ou a Flúor), se se manifestam clientes culturais – Gulbenkian, Serralves, Museu do Chiado, Companhia Nacional de Bailado, Moda Lisboa ou Centro Português de Fotografia – que permitem uma outra gestão de clientes capaz de garantir a qualidade das propostas (o trabalho de Sebastião Rodrigues para a Gulbenkian ou, mais recentemente, o de trabalho de Andrew Howard para o CPF e o de João Faria para o Teatro Nacional de S. João são a este título reveladores), se o design se especializa (aparecendo excelentes designers de tipos como Mário Feliciano, Dino Santos ou, recentemente, Ricardo Santos), a verdade é que o enquadramento do design em Portugal continua a manifestar uma incrível pobreza editorial (Os Cadernos do CPD foram sempre vazios, experiências generalistas como a Page de João Tovar acabaram por fracassar, os casos mais interessantes eram experiências demasiado low-budget – como a Bíblia ou a OP – para se não confinarem a franjas muito reduzidas de público), os eventos de design continuam a ser uma raridade (o USER organizado em 2003 pelo CPD confirma-se como excepção na regra de invisibilidade que marca as acções do Centro; as bienais organizadas pela Experimentadesign, marcando definitivamente uma viragem na visibilidade do design em Portugal, surgem muito centralizadas em Lisboa e apresentam essa limitação flagrante de não serem capazes de produzir meios – Catálogos, Publicações críticas, Vídeos – de memória, ficando, assim, cada bienal confinada a um acontecimento trendy e efémero), o design continua a não ter exposição (o Museu do Design do CCB reduz-se a uma colecção de mobiliário dos anos 60/70 útil sobretudo para dar a conhecer as experiências dos radicals; os grandes museus como a Gulbenkain ou Serralves insistem no ignorar do design), tudo isto tem como súmula esperada a inexistência de pensamento teórico sobre o design – o que é, facilmente comprovado, através da ignorância a que as, pouquíssimas, excepções (Andrew Howard, Mário Moura e, numa orientação mais ligada à cibercultura, Bragança de Miranda e Teresa Cruz) são votadas – a inexistência de curadores, de críticos (estranha a ausência de crítica que mereceram as recentes exposições Catalysts e Roma Publications), de escritores e de leitores.

2.

Entre as características que tendemos a atribuir à condição pós-moderna, destaca-se uma erosão acentuada da distinção (e através dela da relação) entre “teoria” e “prática”. O pensamento pós-moderno esforçou-se por nos incutir que toda a teoria é uma prática, que a prática não cessa de ser teorizada e de produzir implicações teóricas, que uma e outra se contaminam até à indistinção. A erosão da distinção entre teoria e prática é, por sua vez, um manifestação sintomática do esbatimento de fronteiras que delineavam disciplinas, práticas e discursos. Deste forma, nos melhores casos, as disciplinas autónomas desterritorializam-se dando lugar a campos interdisciplinares e, nos piores casos, o esbatimento das linhas de definição dá-se mesmo antes dessa definição disciplinar ter ocorrido. Foi, como anotámos, o caso do design em Portugal.

Num excelente artigo Nigel Witheley (3) escreve que, se é simplista afirmar que a distinção entre teoria e prática já não existe. Segundo Witheley a relação entre teoria e prática deixa-se, actualmente, traduzir por dois modelos: um modelo de fusão em que os dois pólos são amalgamados, perdendo existência autónoma; e um modelo de continuidade que admite a interpenetração entre teoria e prática mas que admite, também, a existência de objectos e de abordagens específicas de um e de outro pólo.

O modelo de fusão, apressadamente adoptado por muitas escolas e autores, não permite o confronto objectivo do designer com as duas exigências-chave que se lhe deveriam colocar: a exigência de uma prática socialmente eficaz e a exigência de uma capacidade de reflexão cultural que lhe permita definir o porquê e o como da sua acção.

A exigência de uma definição de competências do designer poucas vezes se colocou entre nós, o que se compreende face à própria indefinição disciplinar a que o design em Portugal está ancorado. Assim, torna-se fundamental a afirmação quer positiva (o esclarecimento das prioridades, do posicionamento social, das possíveis abordagens ideológicas e utópicas do design), quer negativa (através da saudável diferenciação das competências do designer relativamente ao arquitecto, ao engenheiro, ao publicitário, ao marketteer) do espaço próprio que a disciplina ocupa, na certeza de que os valores da disciplina não são alienáveis aos valores dos seus profissionais, ou seja, importa perceber o que o design é e não aquilo que ele vai sendo.

Certo é que a interrelação crescente entre teoria e prática tem produzido, entre outros, o mérito de fazer passar à história um anti-intelectualismo básico que dominava muitas escolas e instituições de design. O design era, então, pensado como uma mera questão de funcionalidade utilitária em relação à qual todo o esforço de conceptualização seria uma perda de tempo. Hoje percebe-se o tempo que se perdeu graças a este pensamento tão redutor. Tal pensamento (apoiado numa interpretação tosca do funcionalismo da Bauhaus) é, segundo Nigel Witheley, a expressão do design formalizado, um dos quatro modelos identificados por este autor. Os outros modelos seriam: o “Designer teorizado”, modelo oposto ao anterior, e onde se procura pensar e orientar o design a partir de autores (Heidegger, Derrida, Foucault) conceitos e modelos que lhe são exteriores, o design é, assim, anulado da sua dimensão prática e teorizado em campo alheio; o “designer politizado”, cujas origens estão das ideias do construtivismo e produtivismo Russo pós-1917, actualizado pelo situacionismo dos anos 60, pela acção directa dos Atelier Populaire ou, nos dias de hoje, dos Adbusters. Pese embora os seus méritos, este modelo apenas será interessante na medida em que preconize uma possibilidade e não a única possibilidade de um designer orientar o seu trabalho; o “designer consumista”, modelo hoje dominante que passa a ideia de que só há design na medida em que há cliente e, que o design é exclusivamente um instrumento do mercado. O lado teórico deste modelo tende a ignorar análises históricas ou ideológicas, substituindo-as por metodologias básicas de gestão e marketing; o “designer tecnológico” modelo associado ao anterior, faz corresponder qualidade a actualidade. O fundamental é estar up-to-date com a tecnologia mesmo que a capacidade de a pensar e de a usar possa ser limitada. Um bom exemplo desta mentalidade é dado por uma obra de Cedric Price intitulada “A tecnologia é a resposta…qual era mesmo a pergunta?”; a estes modelos Witheley propunha um outro, o “designer valorizado”, o qual só se poderá impôr na sequência de uma reflexão séria sobre os valores a partir dos quais a prática projectual e o trabalho teórico em design se desenvolvem.

3.

Mesmo não havendo produção teórica própria, os agentes de design em Portugal (designers, professores e alunos de design) vão revelando um gradual interesse pelas reflexões que o criticismo projectual mais recente tem vindo a construir.

Não é difícil fazer um rápido estado da arte que nos permita mapear o criticismo contemporâneo. Através de autores como Ken Garland, Katherine Mccoy, Ellen Lupton, Steven Heller, Rick Poynor, Max Bruinsma ou Teal Triggs; a partir de revista como a Eye, de blogs como o Design Observer, de estruturas como os Cactus Network ou a Adbusters, de instituições como a AIGA ou Mediametic, torna-se relativamente fácil reconstruir questões e propostas que vão sendo lançadas ao design num momento particularmente sensível da sua história, na medida em que se vai verificando não só uma transformação interna no design (provocada pela evolução das ideologias e das tecnologias, de onde resultam novos procedimentos e a gradual imposição de uma nova agenda de trabalho na qual as questões ecológicas, sociais e politicas são prementes) mas uma transformação do seu enquadramento quer socio-cultural, quer económico.

Ao olharmos para a história do design gráfico é possível identificarmos duas linhas demarcadas que estruturam a sua evolução: uma dessas linhas leva-nos ao desenvolvimento de formas de comunicação orientadas para e pelo mercado (a publicidade e o marketing), a outra linha conduz-nos a formas de comunicação culturais e politicas tendo como referentes os cidadãos e não apenas os consumidores. A teoria crítica do design distingue-as falando em design de retaguarada e design de vanguarda, o que se diferencia é, afinal, uma dupla possibilidade de posicionamento cultural e de orientação disciplinar que tendemos a identificar falando nos artistas e nos designers como agentes de uma cultura dominante (promovendo continuidades, legitimando um determinado status quo) e como agentes de contra-cultura (desenvolvendo rupturas, desencadeando crises).

Sabemos que os conceitos de “vanguarda” e “retaguarda” se tornaram, nos últimos 30 anos não apenas difusos como, muitas vezes, reversíveis (4). Os códigos fundamentais de uma cultura, códigos políticos, sem dúvida, mas, essencialmente códigos semióticos – aqueles que regem a linguagem dessa cultura, os esquemas perceptivos, os seus operadores epistémicos (crenças, evidências, cientificidades), os seus discursos, os seus valores, as suas técnicas, a hierarquia das suas práticas – fixam, desde o início, para cada indivíduo, para cada objecto, para cada linguagem as ordens empíricas que o designam e ordenam.

O contexto da indústria cultural contemporânea que, nos anos 70 surge definitivamente implementado, gerou formas de integração dos agentes de vanguarda no interior das estruturas de retaguarda, impondo o controlo destas sobre aqueles, reflexo da afirmação de uma vanguarda permanente, sinal da ausência de uma distinção autêntica entre discursos e práticas ideológicas legitimantes e discursos e práticas utópicas fraccionantes.

A publicação, no final da década de 90, do manifesto First Things First (escrito e inicialmente por Ken Garland (5) e inicialmente publicado em 1964) veio-o trazer o tema da responsabilidade social dos artistas e dos designers, de novo, para o centro do debate alimentando quer um significativo corpus teórico (6) quer um, não menos importante, desencadear de acções (exposições, conferências, intervenções públicas).

Um dos melhores comentários críticos ao manifesto First Things First é-nos dado por Rick Poynor (7) segundo o qual “a distinção crítica desenvolvida pelo manifesto é aquela que diferencia o design enquanto comunicação (fornecendo às pessoas informação necessária) e o design enquanto persuasão (procurando aliciá-las para o consumo)” (8). A distinção possibilita o envolvimento de uma reflexão sobre o agir comunicativo e sobre a ética da comunicação que deverá estar associada ao design.

É conhecida a afirmação de Katherine Mccoy – “Design is not a neutral value-process” – chamando-nos a atenção da dimensão política ínsita ao projecto de design. A comunicação utópica (por oposição à “comunicação ideológica” no sentido ricoeuriano) associa ao design uma tensão de transformação social e cultural inalienável. Steven Heller em “The Graphic Intervention” tece-nos o “estado da arte” relativamente à prática do design entendendo-o como “acção socialmente eficaz”.


Steven Heller, um dos teóricos de referência sobre a dimensão crítica do design, desenvolve no seu artigo “Graphic Intervencion” (9) uma excelente introdução ao modo como, crescentemente, o designer vai sendo chamado a assumir-se como um agente activo de modificação socio-cultural.


A história do Design mostra-nos que esta atitude socialmente empenhada não é um exclusivo do nosso tempo, basta pensar no trabalho do designer alemão John Hartfield nos anos 20-30, na obra de Herb Lubalin, na acção política directa dos Atelier Populaire ou dos contemporâneos Adbusters ou Cactus Network.

Dentro desta linha de pensamento, teoricamente construída por autores como Heller, Ellen Lupton ou Max Bruinsma (que juntamente com Erik Adiggaard comissariou para a ExperimentaDesign a exposição Catalysts), somos confrontados com uma série de temas – a crise das ideologias, os efeitos da globalização, a indefinição de um sistema de valores do design – que só muito pontualmente (como em alguns textos colocados por Mário Moura no seu blog) têm merecido entre nós alguma atenção.

Neste artigo deixamos, em esboço, algumas reflexões, com a intenção de procurar contrariar alguma indefinição acerca do design e uma apatia em relação ao esforço de contrariar tal indefinição:

1- O designer é um agente activo de construção cultural, não há neutralidade em design na medida em que em que as escolhas que fazemos e as mensagens que passamos serão um elemento constitutivo de uma realidade cultural pública. Neste sentido, as escolhas que fazemos, os códigos visuais e verbais que utilizamos, as mensagens que compomos, os poderes que servimos, devem ser geridos com intencionalidade e rigor crítico.

2- Qualquer construção cultural tem consequências políticas na medida em que as nossas mensagens terão uma dimensão pública, influenciando opiniões, veiculando valores, condicionando, directa ou indirectamente, comportamentos e mentalidades.

3- Os designers têm uma responsabilidade social, política e cultural perante aqueles com os quais comunicam. A criatividade em design deve ser entendida como uma experiência colectiva, é “acumulativa”, caso contrário de nada vale; os objectos visuais não são o produto do génio criativo individual, mas um contributo para um ambiente visual colectivo: desafiando, adaptando, sublinhando, opondo, desenvolvendo. O designer trabalha em diálogo, com outros designers, com outros acontecimentos, com livros, com sites, com pessoas.

4- Uma acção cultural positiva, proactiva, é aquela em que a acção funciona como catalizador, reflectindo criticamente sobre os valores e as estruturas existentes; Os agentes culturais devem reagir à banalização cultural, banalização essa que está directamente ligada à transformação da cultura em espectáculo e em mercadoria, “coisa” feita para entreter e consumir (ligada ao consumo lúdico). O sistema capitalista ao tornar a cultura “acrítica” elimina, assim, uma ferramenta capaz de equilibrar e corrigir as deficiências sociais, consequentemente a liberdade de acesso, de comunicação, de expressão e de pensamento, fica, assim, condicionada, os direitos e deveres sociais restringidos à sua mínima parcela de direitos e deveres do consumidor.

5- A cultura é, por natureza, assimétrica, marcada por dualidades: produtor/produtor, individual/colectivo, dominante/minoritário, alta/baixa, a evolução e o enriquecimento cultural depende da comunicação entre pólos, do pluralismo social. A ausência de criticismo gera falsas consensualidades que empobrecem o regime cultural; A força motriz de uma cultura, não reside no capital, mas nas relações sociais, o triunfo do mercado global torna essas relações mais escassas, mais frágeis, mais desequilibradas, por isso a importância de movimentos sociais e de grupos de cidadãos é hoje crescente.

Nesta síntese encontramos linhas de orientação teórica que podem ajudar a compreender as possibilidades de desenvolvimento de um design realista, que assumindo a não-neutralidade da comunicação, procure definir alicerces conceptuais e políticas de acção visando associar valores às mensagens. Na certeza de que a comunicação é acção e de que o design pressupõe sempre a acção socialmente eficaz.

Torna-se, cada vez mais, urgente que muitas destas questões sejam actualizadas face à realidade portuguesa. Torna-se, afinal, necessário, ainda, juntar peças para consolidar, em Portugal, o design como um campo disciplinar autónomo – com a sua história, com as suas marcas, com as suas dinâmicas teórico-práticas, os seus espaços e os seus agentes – para que, então, solidamente se promova a interdisciplinaridade.



NOTAS
(1) Leiam-se, a título de exemplo, os artigos do então presidente da republica Jorge Sampaio ou do, então, ministro da economia Augusto Mateus publicados nos Cadernos de Design, 15/16.
(2) A este título, interessa recordar as palavras inteligentes escritas por Beatriz Vidal em 1997: “A palavra design invadiu o nosso quotideano sobretudo através das mensagens publicitárias. A falta de rigor, o sentido promocional, regra geral associado ao “styling” mais do que à consciência do projecto subjacente ao conceito de design, presta-se a uma série de equívocos.”, Beatriz Vidal, “Que fazer com este selo?”, in Cadernos de Design, 15/16, pág. 27.
(3) Nigel Whiteley, “The valorized designer”.
(4) A ideia desta reversibilidade pode ser ilustrada pela exposição de design Underground goes Mainstream comissariada pela designer holandesa Renny Ramakers para o Museu de Arte Contemporânea de Roterdão em 1984.
(5) O designer inglês Ken Garland é um dos nomes chave para a compreensão das possibilidades de utilização das ferramentas do design gráfico na construção de um discurso social e politico. Para um melhor conhecimento do seu trabalho leia-se o seu The Word in your eye, University of Reading, Reading, 1992.
(6) Veja-se, por exemplo, Steven Heller, The Graphic Design Reader, Allworth Press, New York, 2002.
(7)Rick Poynor, “First things first revisited”, in Emigre, Nº 51 (www.emigre.com)
(8) Idem, Ibidem, pág. 2
(9) Disponível on-line em www.thypotheque.com

*Esta é uma versão corrigida de um "velho" post do Reactor.

Thursday, May 24, 2007



A Edição de "Pump Up the Volume" dos MARRS há precisamente 20 anos foi um momento marcante na redefinição da música de dança que, então, se abria definitivamente ao Acid e ao EBM. Para celebrar este vigésimo aniversário o Reactor lança, aos seus leitores, o desafio de criarem uma composição gráfica inspirada em "Pump Up the Volume". Os trabalhos devem ser enviados (em formato JPG) para bartolo.jose@gmail.com até ao dia 15 de Junho.

Monday, May 21, 2007



Ellen Lupton é designer gráfica, escritora e comissária de exposições. Os seus livros mais recentes são: D.I.Y: Design It Yourself (2006) e Thinking with Type (2004). Um dos livros mais vendidos é o Design, Writing, Research: Writing on Graphic Design"(Princeton Architectural Press, 1996) em que foi co-autora com J. Abbott Miller. É directora do programa de design gráfico MFA do Maryland Institute College of Art (MICA) de Baltimore. É igualmente comissária de design contemporâneo no Cooper-Hewitt National Design Museum em Nova Iorque, para o qual tem organizado numerosas exposições, todas ilustradas por um catálogo, incluindo as séries National Design Triennial (2000 e 2003), Feeding Design: Design and the Tools of the Table, 1500-2005 (2006), Solos: New Design from Israel (2006), Skin: Surface, Substance + Design (2002), Graphic Design in the Mechanical Age (1999), Mixing Messages (1996) and Mechanical Brides: Women and Machines from Home to Office. Livros em preparação: D.I.Y. Kids (com Júlia Lupton) e Graphic Design: Structure and Experiment (com Jennifer Cole Phillips e a Faculdade e alunos do MICA). A terceira edição do National Design Triennal, Design Life Now, abriu em Dezembro 2006.

Ellen Lupton is a writer, curator, and graphic designer. Her most recent books are D.I.Y: Design It Yourself (2006) and Thinking with Type (2004). One of her best selling books is Design, Writing, Research: Writing on Graphic Design (Princeton Architectural Press, 1996) which she co-authored with J. Abbott Miller. She is director of the graphic design MFA program at Maryland Institute College of Art (MICA) in Baltimore. She also is curator of contemporary design at Cooper-Hewitt National Design Museum in New York City, where she has organized numerous exhibitions, each accompanied by a major publication, including the National Design Triennial series (2000 and 2003), Feeding Desire: Design and the Tools of the Table, 1500–2005 (2006), Solos: New Design from Israel (2006), Skin: Surface, Substance + Design (2002), Graphic Design in the Mechanical Age (1999), Mixing Messages (1996), and Mechanical Brides: Women and Machines from Home to Office. Books in the works include D.I.Y. Kids (with Julia Lupton) and Graphic Design: Structure and Experiment (with Jennifer Cole Phillips and MICA students and faculty). The third National Design Triennial, Design Life Now, opened in December 2006.

Comissário_Andrew Howard, ESAD
Organização _ESAD 2007

Saturday, May 19, 2007

WIM CROUWEL

Uma excelente entrevista com Wim Crouwel registada em Paris no passado mês de Fevereiro.



PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com