Monday, November 19, 2007



NADA

No momento em que o número 10 da revista NADA está pronto para ser lançado, torna-se mais do que fundamentada a ideia com que se ficou mal o primeiro número da revista nos caiu nas mãos: a NADA é um projecto editorial exemplar no contexto nacional e uma das melhores revistas de língua portuguesa a levar a cabo a difícil reflexão sobre esse território complexo que é a contemporaneidade. O design de manuel Granja está melhor que nunca; a Coordenação editorial de João Urbano assegura que a identidade do projecto não se abala, pelo contrário reforça-se, pelas aberturas temáticas que são feitas. Sendo um "objecto" exemplar a NADA tem merecido, enquanto objecto de reflexão autónoma, uma atenção insuficiente. Deixo o link para um muito bom post de Mário Moura que se apresenta como uma justa excepcção a essa desatenção.

Sunday, November 18, 2007

AS MELHORES "CAPAS" DE 2007

O The Book Design Review acaba de publicar uma lista das melhores "covers" de livros publicados em 2007. Antecipando a apresentação de escolhas, nacionais e internacionais, feitas pelo Reactor, aqui ficam alguns destaques:

"Unmarketable", design de Rob Carmichael.

"Words without borders", design de Helen Yentis.

"Salt", design de Jaya Miceli.

"The collected poems 1956-1998", design de High Design.

"Darkness at noon", design de Paul Sahre.

Friday, November 16, 2007



FOI VOCÊ QUE PEDIU MARKETING DE GUERRILHA?
ENTREVISTA COM HUGO TORNELO

Hugo Tornelo formou-se em design na Escola Superior de Design do IADE tendo prosseguido a sua formação no criativo Fun Lab da Design Academy de Eindhoven. De regresso a Portugal integrou um dos projectos mais originais do actual panorama do design português, a TORKE uma empresa de Marketing de guerrilha.

REACTOR: A influência do movimento "culture jammer" na cultura contemporânea é indiscutível. Colectivos como os Adbusters e autores como Bansky, surgem-nos como referências fortes de um trabalho de arte/design com
um forte cunho de intervenção. Em todo o caso, em Portugal expressões como "marketing de guerrilha" ou "design activista" são ainda algo estranhas. Dentro deste contexto como se explica o surgimento da Torke?

HUGO TORNELO: A Torke surgiu de uma lacuna no mercado da comunicação existente em Portugal direccionado para um novo tipo de comunicação de marcas, o Marketing de Guerrilha.
Fundada por pessoas já com o Know-how a nível de ferramentas de comunicação, a Torke procura trazer a comunicação de marcas a um nível diferente utilizando métodos não convencionais. Em certa medida pode haver um cruzamento entre o movimento culture jamming e o marketing de guerrilha quando se fala na saturação da comunicação e de veículos dos mesmos, mas o culture jamming enquanto ferramenta activista procura aniquilar e subverter a comunicação de grandes marcas, o marketing de guerrilha surge como uma ferramenta diferente de comunicação para estas mesmas marcas.

R. : Trata-se, no fundo, de assumir o papel catalizador do designer, tomar consciência de que o designer tem, no contexto das sociedades neo-liberais, de se assumir como mediador altamente comprometido entre as pessoas e a sociedade?

H. T. : Sem dúvida de que o designer tem um papel mediador quando o nosso objectivo é comunicar para pessoas.

R.N : Neste sentido, poder-se-á dizer que, perante o crescimento de um design cada vez mais orientado para os consumidores, a Torke se dirige, em primeiro lugar aos cidadãos?

H. T. : A Torke procura acima de tudo chegar às pessoas no seu dia-a-dia no seu trajecto rotineiro de A a B, é muitas vezes aqui que procuramos uma intervenção. Tentamos assim que a assimilação da comunicação seja digerida de uma maneira diferente.

R. : O Hugo Tornelo passou pela Design Academy de Eindhoven, como é que o seu percurso enquanto designer o levou à Torke?

H. T. : Foi uma pura coincidência, depois de ter chegado da Holanda com um grande input a nível criativo, acabei por descobrir a Torke que tinha muitas semelhanças com Fun Lab Master na Design Academy, este último debruçava-se para o estudo da cultura da experiência enquanto produto económico, onde o espectador/público torna-se num participante/personagem de uma experiência criativa.

R. : Sente-se integrado na actual "cultura de design" portuguesa?

H. T. : Não muito, penso que a cultura do design portuguesa ainda está muito
direccionada puramente para uma indústria massiva e convencional. Apesar de haver designers a fazer abordagem diferentes penso que ainda seja um núcleo pequeno e fechado

R. : Que projectos tem, neste momento, "entre mãos" e que projectos vão ganhando forma na sua cabeça por estes dias?

H. T. : Existem diversos projectos mais ainda numa fase embrionária, como "insatisfeito nato" existe sempre uma procura para fazer mais e de me envolver em projectos diversos.

Tuesday, November 13, 2007




REGRESSO A ROMA

Em Agosto do ano passado, por ocasião da Exposição da Culturgest, publiquei na Arte CapitalArte Capital um ensaio de apróximação ao trabalho de ROMA Publications. A recente passagem de Roger Willems por Portugal (esteve na Arco no último dia 20) levou-me a regressar a um lugar de que gosto particularmente, onde sempre me perco e reencontro, um lugar onde, como escrevia no texto anterior, “as coisas podem não ter fim”.

ROMA é um acrónimo criado a partir das duas primeiras letras dos nomes próprios de Robert Willems e Mark Manders que em 1998 criaram oficialmente um projecto editorial sui generis na medida em que o trabalho de edição funciona como espaço de ancoragem de ideias, pessoas e projectos que partilham afinidades. Se à primeira leitura, uma certa arborescência do projecto ROMA o parece indefinir, sob um olhar mais atento há um sentido que deixa revelar uma espécie de espaço imaginário, fisicamente esquivo, que funciona como lugar ad quem e ad quo da ROMA, esse espaço é o design concebido como horizonte de comunicação utópica e, neste sentido, espaço que se procura manter imune às regras do mercado da arte e do design.

"The Whole world - Without me" (2004/07) de Oksana Pasaiko.

O modo a partir do qual, habitualmente, procuramos compreender alguma coisa corresponde a um processo de definição. Estabelecendo identidades e diferenças, forçamo-nos por reduzir a complexidade das coisas à (pelo menos aparentemente) simplicidade de uma definição. Tal definição, se apressada, torna-se relativamente ao projecto ROMA não apenas difícil como desaconselhável.

"Five Minutes to die" (2004) de Iñaki Bonillas.
"Five Minutes to die" (2004) de Iñaki Bonillas.

Três exemplos: 1) Difícil e desaconselhável é a anulação das especificidades do projecto de Mark Manders e Roger Willems integrando-o, sem mais, na (in)definição do design holandês. Se por um lado existe uma espécie de dutch touch que perpassa por muita da produção gráfica holandesa, por outro lado essa cultura de design corresponde mais à coexistência de diferentes linguagens e de diferentes perspectivas sobre o design e, muito menos, a efeitos de replicação do mesmo. É indiscutível que o projecto ROMA herda tesouros da cultura do design holandês - que em traços gerais podemos caracterizar reconhecendo a existência de: a) uma fortíssima tradição projectual recente à qual podemos associar os nomes de Wim Crouwell, Berry van Gerwen ou Michiel Uilen; b) a existência de uma “cultura pública” de design gráfico, pensemos nas identidades corporativas desenhadas pelo Studio Dumbar, na riqueza dos cartazes de espectáculos (uma série deles desenhados pelos estúdios Mevis & Van Deursen ou AAP Designers fazem já parte da história do design gráfico), na profusão de elementos de comunicação urbana (flyers, stickers, tags), nos inúmeros eventos públicos como os organizados pela Mediamatic; c) a existência de apoios e instituições protectoras do design editorial como a CPNB (Foundation for the collective promotion of the Dutch book), bem como a existência de inúmeros museus e galerias com lógicas de funcionamento e processos de fidelização de públicos muito interessantes; d) a existência de uma “cultura crítica” responsável pela teorização da prática, garante do seu enriquecimento e dinamização, pensemos, por exemplo, em autores como Max Bruinsma ou Mieke Gerritzen – mas sabe pôr a herança a render, sabe, a um tempo, honrá-la e relacionar-se com ela com a criatividade e o pragmatismo do deserdado. 2) Difícil e desaconselhável é, também, procurar pensar o projecto ROMA Publications “apenas” como um projecto editorial e, tarefa ainda mais desaconselhável, como um entre muitos projectos editoriais de pequena dimensão e espírito independente existentes na Holanda. É verdade que, sem dificuldade, podemos encontrar outros projectos editoriais que, confundindo-se um pouco com a actividade dos seus dinamizadores, ganham uma dimensão quase rizomática, isso acontece com editoras de maior dimensão como a 010 Publishers (que reflecte o dinamismo e os interessses de Hans Oldewarris e Peter de Winter) ou a Em. Querido’s e acontece, de um modo mais evidente, com editoras menores e ateliers de design (e até mesmo escolas como Jan van Eyck Akademie) com forte dinâmica editorial como Veenman Publishers ou a [Z]OO Producties. No entanto os mínimos denominadores comuns que possamos identificar nos vários projectos serão sempre desviantes relativamente à efectiva compreensão daquilo que autenticamente mobiliza cada um deles. 3) Difícil se torna, finalmente, uma definição disciplinar que limite o campo de trabalho da ROMA. A exposição presente na Culturgest é, a este título, claríssima. Ali coexistem a presença de vídeos, desenhos, esculturas, fotografias, instalações, intervenções site-specific, livros e jornais. Cada obra é desafiante, porque nela se representa um jogo marcado por tensividades entre o papel do autor e do espectador; entre o estatuto da cópia e do original; entre a interdição e a permissão; entre a rigidez ideológica e a abertura utópica. ROMA é assim espaço de encenação de uma forma de comunicação que partindo de referências canónicas sobre a obra de arte, sobre o artista e as lógicas de exposição, as repensa a partir do envolvimento de referências de design (entendido, à maneira de ULM como acção socialmente eficaz), assim se constrói o território que é ROMA e as suas premissas críticas: da tensão entre autor/espectador resulta a intenção de gerar um projecto colectivo, a obra dá-se a aberturas relativamente ao receptor que assim a pode continuar seja fisicamente seja conceptualmente; da tensão entre original/cópia, promove-se a valorização do que é reproduzido, apelando ao reconhecimento de uma aura que individualiza a cópia e a torna única, o que envolve, necessariamente, a acção do receptor-autor; à tensão entre interdição e permissão, defende-se um envolvimento responsável, esquissando-se formas de responsabilidade que, por vezes, se parecem com formas de intimidade; à tensão entre rigidez ideológica e abertura utópica, propõe-se uma ética comunicativa, participada, perspectiva sob a qual a democracia e a amizade se tendem a aproximar. 


Para a exposição da Culturgest a ROMA Publications concebeu um livro, o seu título: “Books make friends/Os livros fazem amigos”. Poderá ser considerado o catálogo da exposição na medida em que nele encontramos a apresentação dos 90 livros publicados pela editora, bem como referências aos trabalhos não-editoriais expostos e textos (de Miguel Wandschneider, de Christoph Keller e um último e excelente de Dieter Roelstraete) sobre o projecto. No entanto, este livro é subsumido pela exposição, tornando-se dela constitutivo. Coisa estranha num catálogo que, tradicionalmente, tende a explorar distanciamentos sobre a exposição de modo a permitir a sua inteligibilidade. 

Desta forma “Os livros fazem amigos” constitui-se não tanto como catálogo que nos remete para a exposição, mas como um fragmento da própria exposição, um de entre noventa. Esta numeração dos livros, por sua vez, cedo se revela despistante para o espectador: por um lado porque cada livro fez parte de uma tiragem que permite a multiplicação do mesmo; por outro lado porque aos livros se chega e dos livros se parte, pela Galeria da Culturgest haviam folhas, fotografias, esculturas cujo sentido se constrói tecendo ligações de alguns desses objectos para determinados livros e de determinados livros para certos objectos.

"Parallel Encyclopedia" de Batia Suter (2007).

A partir de um processo de possível duplicação continua do sentido dos objectos expostos, apresentados como “duplos” - como a escultura de Mark Manders “Chair/Staged Android (reduced to 88%)” que sabemos ser uma reconstrução a 88% de uma peça entretanto destruída, como na extraordinária “Paralell Encyclopedia” de Batia Sutter que se constitui como uma espécie de projecto taxinómico de exploração de semelhanças entre disemelhantes ou, ainda, como o lindíssimo “Short sad text (based on the borders of 14 countries)” onde vemos uma de duas peças de Oksana Pasaiko ao mesmo tempo que sabemos ter sido a outra peça largada numa casa de banho pública em Oslo – a partir, também, de um processo de construção de alteronímias – o exemplo simbolicamente flagrante é dado pelas quatro séries de fotografias da autoria de Marije Langelar, autor fictício que representa a união de dois autores representados na exposição – a partir destes processos o visitante da exposição é, assim, convidado a encontrar afinidades electivas entre o que está presente e o que está ausente e nesse jogo é o próprio espectador que entra (consciente ou inconscientemente) no processo de autoria.


"Lógicas Desviadas" de Irene Kopelman (2007).

O projecto ROMA Publications alicerça-se em posições que embora subtilmente apresentadas se tendem a revelar muito claras: a afirmação de uma autoria colectiva associada às obras de arte e de design. As obras não são terminadas no momento em que um determinado autor as liberta, elas dão-se a ser continuadas e permanentemente modificadas. O museu ao impor regras artificiais de conservação (como a vitrina que protege o sabão de “Short sad text”) apenas consegue fixar um momento da vida da obra, agarrar uma determinada cristalização, na certeza de que a existência autónoma da coisa não pode ser prevista nem controlada, o que ela é apenas pode ser aproximadamente construído pela nossa imaginação (como quando imaginamos diferenças entre o sabão exposto na Culturgest e aquele que foi deixado na casa de banho de Oslo) mas esse exercício não nos aproxima do “estado actual” do objecto mas antes nos confronta com uma imagem que, uma vez materializada, se tornará uma outra obra. 


ROMA Publications é uma exposição sobre livros e uma exposição cheia de livros, democraticamente dispostos de várias formas, horizontalmente, verticalmente, abertos, fechados, que podemos olhar e tocar. Há livros de diferentes cores e tamanhos, há livros que nos atraem pelo apelo visual das capas e há livros sem capa como se alguém as tivesse tomado para si tornando-as parte – quem sabe? – de um outro livro, há livros que são só uma imagem e há livros que são só texto, elegantes manchas tipográficas a partir de tipos de letra familiares (Helvética, Times, Futura), há livros em devir-música e há muita coisa – ideias, memórias, desejos, mãos, dedos e olhos – em devir-livro. ROMA Publications é uma exposição sobre livros, dissemos. Nela se conta de novo a história da bela adormecida, ou melhor, da beleza que aguarda ser despertada em alguns livros. O seu príncipe, já o sabemos, é o leitor e o beijo corresponde a uma particular tarefa interpretativa a partir da qual a relação entre o leitor e o livro se consuma. Ler corresponde, na expressão de Hamann, a salvar o livro da morte: retira-se da morte o que se reconhece vivo, o que se vivifica.

"Beauty Unrealized" (2007) AAVV.

A exposição ROMA Publications que a Culturgest acolheu apresentava bem um projecto capaz de lançar, secreta mas insinuadoramente, ao visitante (o seu leitor) esse chamamento para que ele não se limite a olhar o que está exposto mas que procure ver. Que procure naqueles caminhos os seus caminhos, que encontre por entre pequenos pensamentos tristes os seus próprios pequenos pensamentos, que descubra, naqueles (como noutros) livros, lugares. Lugares onde as coisas podem não ter fim. 








Sunday, November 11, 2007




No momento em que inicío este “post”, guardo ainda a força das últimas palavras de Maria Filomena Molder no livro, de belíssimo título, sobre Hermann Broch, “O Absoluto que pertence à terra”: “Ele padeceu e quis contar o padecimento das imagens que à força de rapidez se imobilizam, sem elo, sem enleio, perdendo o seu valor simbólico, uma tradição onde já não se pode viver.” Não se trata, neste “padecimento das imagens” mas também neste “padecimento nas imagens”, de uma aproximação, certeira, à nossa condição?

Da Exposição “Come, come into my world” presente na Fundação Ellipse conheço apenas o pouco que um desdobrável graficamente irrepreensível (com a assinatura de Barbara Says…), encontrado entre as páginas do Público, me trouxe. A visita ao Site – um excelente site! – despertou em mim a vontade de responder àquele apelo que as obras de arte (mesmo que pela voz dos seus curadores) tem a capacidade de nos lançar: come, come into my world.

Havia recebido há algum tempo, gentilmente enviado pelo André Cruz, o primeiro número da Nexus, um singular projecto editorial, auto-apresentado como um “registo das mutações contemporâneas", que ausculta, através dos instrumentos do projecto (as suas autoras são formadas em arquitectura), as ligações contemporâneas, desenvolvendo inteligentes entrevistas com personalidades diferentes como Vera Mantero, José Bragança de Miranda ou Marta Menezes (para citar apenas as que li). As opcções gráficas de André Cruz são convincentes e as ilustrações de Catarina Martins criam subtis separações entre conteúdos nos quais, laboriosamente, vamos afinal descobrindo continuidades.

Mário Moura, no último “post” publicado no Ressabiator retoma a reflexão sobre a “neutralidade” em design introduzindo um apontamento de leitura barthesiana. Sobre este assunto, uma autora de que gosto particularmente, Maria Ledesma, escrevia que “el diseño al estar volcado hacia la sociedad, al tener como fin la inscripción en su dinámica completa y contradictoria, siempre está incluido en un sistema de poder y contrapoder, de opresión interna y externa, de exclusions y permeabilidades que delimitan la acción del diseñador: por lo tanto, cada vez que actúa, el diseñador toma partido.”.

E se o Dr. House fosse um designer? Confesso-vos que foi a pergunta que coloquei quando li o interessante “post” do Sérgio Lavos: “House e o tabaco”. Lembrei-me também do Enzo Mari e da ideia que os designers deviam ter o seu próprio juramento de Hipócrates: “A ética é o objectivo de todo o projecto de design”(E. Mari).

Wednesday, November 07, 2007



LOESCH, UWE (n. 1943)

Uwe Loesch, nasceu em 1943 em Dresden, na antiga RDA. O local de nascimento não será neste caso irrelevante, na medida em que Dresden era a “capital” do design gráfico da “Alemanha comunista”, onde a excelência do trabalho de designers como Karl-Heinze Lange exercia forte influência sobre os jovens designers. Em todo caso, Loesh “saltou o muro” cedo e com 21 anos iniciou os estudos em Design Gráfico na Peter-Behrens Academy de Dusseldorf onde se formou em 1968.

"The People who refused to listen" (1968)

Por esta altura surgem os primeiros trabalhos de Uwe Loesch e à medida que se vai definindo uma linguagem gráfica singular, muito vincada, com um uso muito particular da tipografia e experimentando lógicas de legibilidade que antecipam recursos usados pelo desconstrutivismo, define-se, igualmente, uma consciência social e política fortes, expressa com clareza no trabalho gráfico, na escolha dos trabalhos a aceitar, nas declarações públicas e na sua própria imagem pública definitivamente marcada pela utilização de um sapato preto no pé esquerdo e de um sapato branco no pé direito.

"Euroshop 78" (1978)

"A+A 79" (1979)

"Punktum" (1983)


A sua obra – amplamente premiada – está representada em inúmeras colecções de diferentes museus, destacando-se o MoMA de Nova York, o Israel Museum de Jerusálem ou o Le Musée de la Publicité de Paris.

"You bet your life!" (1984)

"Sign of the time" (1987)

"We must meet our fate" (1991)

"Sit In" (1993)

"Little Boy" (1995)

"www.scheisse.de (2000)

"Dieter Jung" (2003)

"AGI Congress" (2005)

"Tomaszewski" (2006)

Tuesday, November 06, 2007



O CIRURGIÃO INGLÊS
CONSIDERAÇÕES SOBRE A PERMANÊNCIA DO CONCEITO DE DESIGN

Eduardo Côrte-Real


"Dessin (l´art du-) Se compose de trois choses: la ligne, le grain, et le grain fin; de plus, le trait de force. Mais le trait de force, il n´y a que le maître seul qui done."

Gustave Flaubert
Diccionaire des Idés Reçues

Porque que é que esta palavra Design aparece sempre sublinhada a vermelho no meu processador de texto?

Se, no séc. XVI, Francisco d'Hollanda tivesse escrito em word com corrector ortográfico para português a palavra Desenho, que tão esforçadamente procurava mostrar aos seus leitores, também daria erro. Desenho era uma novidade com cem anos em Itália. Durante esse século (do fim do séc. XIV ao principio do séc. XVI), o disegno de Cennino Cenini, ainda preso à ideia de registo gráfico, veio a englobar o conceito de projecto.
As propostas de Hollanda, Vasari e Zuccari, entre outros, de definir Desenho constituíam-no como um vasto sistema que albergava uma multiplicidade de actividades que faziam fé no registo gráfico como modo de atingir o controle formal para os objectos a produzir.
Em Espanha, onde a palavra Dibujo se manteve, ao contrário do nosso Debuxo (curioso, debuxo já não se usa mas não aparece sublinhado), o Diseño adquiriu o significado de Design.
Tudo se parece jogar entre os prefixos de e di. Disegno Diseño, Desenho, Design, Dessin soam como semelhantes. Design, na enciclopédia britânica é identificado como verbo, assimilado para o inglês médio através do francês.
Num dicionário da Internet encontro que Designo, em latim, queria dizer: destacar, designar, descrever e definir. O que parece ressaltar destes significados é a sua relação com processos essenciais do pensamento humano.
Vamos então, tentar, a partir da tradução de Designo, definir Design.

1º - Destacar: Da experiência de mundo é possível isolar factos, objectos, formas. Antes de qualquer juízo, a nossa atenção pode focalizar-se, hierarquizar o objecto de uma experiência sensível. (Olho para o écran do meu computador esquecido da chuva que cai lá fora, da estante de livros que está à minha direita, da porta aberta do escritório, do ícone que daria inicio a uma tabela de excel, etc., etc).
Sendo eu sujeito a estar no tempo e, consequentemente sendo actor, no sentido de praticar acções, poderei categorizar essas acções? Destaco, em primeiro lugar que aquilo que procuramos definir é uma acção humana.
Ao colocar esta questão tenho que postular que o humano é actuante. Ou seja, que há um modo de reconhecer o humano que passa pela avaliação do mundo como situação antes e depois do movimento (acção) do humano. Esta premissa geral baseia-se no facto da indissociabilidade do humano e do Tempo que, de uma forma reflexiva, o posiciona.
Ao termos inventado a História sabemos que agimos com consequências. Ou sabemos que o modo como construímos mundo depende desse sistema de causalidade. Agimos e temos tempo para observar as consequências das nossas acções.
O Humano é, então, a possibilidade de o Tempo poder ser aferido como uma multiplicidade de resultados dos quais apenas um foi concretizado. Isto é, obviamente, a construção humana do tempo e nenhum de nós poderá ter outra visão diferente. Agir comporta participar numa linha definida, apenas porque está definida pela sua visibilidade posterior.
O primeiro ponto de vista a partir do qual posso destacar aquilo que procuramos definir é o da Ética. Na construção do Homem moderno, sobretudo a partir de Alberti, os aspectos éticos foram sobrelevados. Na construção do humano como ser que projecta recorrendo à técnica e à arte (seria perigoso falar aqui de Estética), Alberti socorreu-se da Virtude, Virtús dos romanos, Aretê dos gregos.
É claro, neste momento, que o primeiro modo de destacar que usarei se prende com a História. Destaco a idade moderna e a idade contemporânea como períodos onde pode ser destacado aquilo que procuramos definir.
Os dois mais importantes tratados de Alberti: De Pictura (1435) e De Re Aedificatoria (1443-1452) constituem-se como um manual de construção do homem como ser social mais do que como tratados das disciplinas a que se dedicam. A questão central em De Pictura é a representação. Não a representação arbitrária e sensível mas a representação como resultado da adopção de um processo maquínico indesmentível. Ao De Pictura devemos, primeiro, uma definição de Desenho quando Alberti escreve no início: "Signum hoc loco apello quicquid in superficie ita insit ut possit oculo conspici". Este signum é traduzido para segno, ao que juntando o prefixo di que indica acção, obtemos disegno. O disegno é, então a acção de produzir sinais - signos. Em segundo lugar, devemos a Alberti a definição e codificação da perspectiva. Embora a "invenção" perspectiva seja recordada sobretudo pela sua aplicação na Pintura ela comporta mais do que o seu destino pictórico. A perspectiva é a grande máquina do Renascimento porque normaliza a representação. Ao propor um método rigoroso de representação, mais do que obter verosimilhança para as obras pictóricas, a constuzzione legitima alarga a possibilidade de um mundo a haver através da sua visibilidade. As tábuas de Urbino, do círculo de Piero della Francesca exemplificam este processo. Outro facto pertinente é o uso da aparelhagem conceptual da geometria euclidiana. Ponto, recta, plano e volume são os elementos da construção de um edifício abstracto, hipotético – dedutivo que constrói o mundo artificial. A possibilidade do projecto resulta da aceitação de um protocolo com o universo euclidiano como aquele que é logicamente válido para entender o espaço e aquilo que o povoa. Qualquer criação humana visível pode ser descrita à luz daquela aparelhagem conceptual até porque passa a ser feita com o seu concurso.
O Trabalho de Alberti abre a porta ao projectista e, sobretudo, ao projectista, que usa recursos gráficos para projectar.
Consequentemente destaco de todas as acções humanas, as realizadas desde a idade de Alberti até hoje, que se caracterizam pela ideia de projecto. Dessas destaco, ainda, aquelas que aceitam o registo gráfico como o lugar onde é possível tornar visível o universo euclidiano


2º - Designar: Se aquilo que foi destacado for suficientemente compacto e repetível como experiência posso atribuir-lhe um nome. Naturalmente que não posso atribuir um nome à experiência de comer pão com queijo e marmelada num fim de tarde de Verão debaixo de uma ramada enquanto os insectos zumbem e os pássaros procuram acomodar-se nas tangerineiras mas posso atribuir o nome queijo que reunirá todas as formas finais de um processo particular de transformar o leite. A possibilidade de designar comporta a possibilidade de operar com conceitos que, ainda que vagos, encontram uma existência provisória num plano lógico.
Ao propor um nome para esta acção das outras destacada faço-o recorrendo a uma palavra de uma língua que não é a minha. Ocorre-me o D. Quixote de Mènard do conto de Borges. Mènard, francês, escreveu, nos anos trinta do século XX, um D. Quixote em tudo igual ao de Cervantes. Sem nunca esclarecer se este outro Quixote brotou da imaginação de Mènard ou foi copiado, Borges, alerta-nos para o facto de, por ter sido escrito por um francês em castelhano clássico e no séc. XX, o livro ser em tudo diferente, embora igual.
Escolho então Design. Chegada ao inglês provavelmente por via normanda, a palavra terá ganho o seu sentido projectual pleno sobretudo como resultado da querela sobre o Disegno encetada no séc. XVI em Itália. No final do séc. XVI, artistas ingleses como Inigo Jones chegaram viajaram para Itália com propósitos semelhantes aos de Hollanda. A querela sobre o primado das artes tinha-se esbatido dando origem às academias del Disegno de Florença e Roma. Que palavra poderia Inigo Jones trazer para Inglaterra que significasse Disegno? As definições de Disegno de Zuccari, ideólogo da Academia de Roma, aproximam-se de um sentido globalista e divino. Uma palavra inglesa como drawing não poderia abarcar a multiplicidade de actividades que o Disegno englobava.
Escolho Design, no início do séc. XXI, porque alguém já o fez. Quase em todos os cantos do mundo, a palavra é reconhecida e é aplicada. Neste processo de aplicação viemos a encontrar-nos com a ruptura da demarcação que tinha feito anteriormente. Uso Design para designar (a aliteração é irresistível) factos, objectos e acções que ultrapassaram o registo gráfico e o universo euclidiano. Podemos dizer que a instabilidade do humano, criada desde o fim das luzes e do início da idade contemporânea e que se inaugura com o Romantismo, com a designação abrangente de Design, que se assume como um grande sistema interdisciplinar, se pacificará num paradigma semelhante ao criado pelo Desenho para a Idade Moderna. De facto, ao elencarmos, todas as atribuições da palavra Design, reparamos que ela tende a absorver as artes visuais, as engenharias, a arquitectura, a biotecnologia, a ciência, o jogo e, obviamente, a participar decisivamente na criação da cibercultura. Em resumo abrupto, o Design, hoje, participa em qualquer construção de mundo "artificial" sujeito a uma prefiguração a que chamamos projecto. Aquilo a que posso chamar Design com segurança é todo o processo que produz uma representação de algo a produzir.
Certas tribos da floresta amazónica não têm uma palavra para "verde" mas sim, seis palavras diferentes para seis tons de verde diferentes. De certo modo, encontramo-nos no momento em que descobrimos que entre essas "seis" palavras diferentes há suficientes atributos semelhantes para "descobrirmos" uma única palavra.


3º - Descrever. Tendo destacado algo passível de ser designado posso descrevê-lo. De certo modo, descrever implica regressar às razões que provocaram o destaque e a designação. Ao descrever percorro os limites do destaque para entrar na justificação da designação. A descrição aceita o destaque como limite do seu desenvolvimento. Descrevemos aquilo que foi destacado precedido da sua designação. No entanto, a descrição exige mais. Exige uma formulação de atributos internos que, ainda que provisoriamente, possam justificar tanto o destaque como a designação. Partindo do destaque, a descrição trata daquilo que é interno ou intrínseco ao destacado/designado. Por outro lado, a descrição de algo designado comporta sempre as limitações do conhecimento sobre aquilo que foi destacado. A descrição de "Noruega" é praticamente infindável, no entanto posso descrever Noruega como um país, europeu, escandinavo cuja capital é Oslo caracterizado pelos seus fiordes cujo regime é monárquico, etc., etc. Quer isto dizer que entre esta descrição sucinta e o mapa do imperador de Borges, que, desenrolado, cobria exactamente todo o império, há uma multiplicidade infinita de descrições mas que todas dependem do destaque e da possibilidade de designação.
Descrever o Design, que, como vimos, designa quase tudo, parece ser tarefa impossível.
Descrever pode ter sido tarefa do Desenho, mas foi, sobretudo tarefa da Literatura.
Recorro a Italo Calvino e à "Trilogia dos Nossos Antepassados". Escrita nos anos cinquenta do séc. XX, esta trilogia é constituída pelos livros: "O Cavaleiro Inexistente", "O Barão Trepador" e "O Visconde Cortado ao Meio".

Descrever I - O Cavaleiro Inexistente - Próteses e Extensões

O Cavaleiro inexistente é apenas constituído pela sua armadura. Externamente aparenta ser humano mas é apenas a sua "pele" defensiva. Ele simboliza todas as próteses e extensões do humano. Na armadura do cavaleiro estão simbolizados todos os objectos que em contacto ou não com o corpo prolongam as suas capacidades. Esta é uma descrição de Design que evoca o seu primeiro destino associado à segunda revolução industrial sob o império da produção em série e de massa. O cavaleiro inexistente é o Ford T ou o Fiat 600 alinhados na cadeia de montagem, vazios, mas já humanos. (não posso deixar de sentir prazer quando as escovas da lavagem automática percorrem o dorso da minha Peugeot 505 e até um certo arrepio quando passam pelas cicatrizes dos erros de estacionamento).
O Design construiu um Homem contemporâneo inexistente sem a sua armadura de extensões. Só a armadura o mantém vivo e consequentemente humano.
Os santos e os deuses eram reconhecíveis pelos seus atributos. Na mitologia greco-latina e no conjunto dos santos apostólicos romanos nenhum é, por si só. Um objecto, uma pose, uma indumentária, uma acção culminante são determinantes para a sua representação. A função comunicativa dos objectos que possuímos têm o mesmo valor. Não esqueçamos que as representações dos deuses são realizadas por humanos. Basta pensarmos nos quatro evangelistas, sempre acompanhados dos seus entes de estimação. Não se pretende, consequentemente justificar a construção da armadura do homem contemporâneo com um desejo de divinização, mas sim um desejo de atingir os atributos dos deuses criados pelos homens para os reconhecer.
Gregor Samsa, transformado numa enorme barata torna eloquente o cavaleiro inexistente. Intimamente, ainda ele, Gregor Samsa não tem acesso à sua armadura. O conjunto dos objectos e dos espaços que constituíam a sua armadura são-lhe inacessíveis, mais valia que se tivesse tornado incorpóreo como o herói de Calvino. A história de Samsa ilustra quão ajustados ao nosso corpo estão os objectos, quão apertado é o “fato” que julgamos múltiplo e espaçoso.
Em Vitruvio encontramos uma possível origem para a história do cavaleiro inexistente e para a incomodidade de Gregor. O conceito de Decor constituinte da categoria Venustas, parte da tríade arquitectónica, postulava que a forma se deveria adequar à função comunicativa do edifício. Este conceito dá origem a duas palavras em português Decoro e Decoração. Ambas as palavras, no seu uso corrente desvirtuaram a sua origem. No entanto, julgo que o paradigma central do Design industrial ou de Produto é o Decoro. É este decoro que reforça a estreiteza do fato. Os objectos ajustam-se, não só ao corpo, mas sobretudo, ao que pretendemos comunicar. As cavalgadas do marketing e dos targets transportam o cavaleiro inexistente para toda a parte.
A múltipla produção de objectos permite que cada um construa a sua armadura, tornando-se cada vez mais invisível substituído pelo sistema de objectos que a si associa.
O cavaleiro inexistente simboliza, também, a vaca e o burrinho do presépio do Design: A Ergonomia e a Antropometria. Não é por acaso que a primeira se desenvolve na Guerra e a segunda na criminologia. Poucas actividades humanas esvaziam tanto o humano da sua individualidade. A armadura animada de Calvino é correctamente proporcionada e medida e as articulações permitem-lhe um desempenho ergonómico perfeito. Assim o fazem o Homem Invisível de H.G. Wells, Michael Jackson e Stephen Hawkins que são, afinal, a mesma pessoa e exemplares extremos do que pretendemos descrever.

Descrever II - O Barão Trepador - Cibermundo

O jovem barão decide, aos doze anos, passar a viver nas árvores e nunca mais por o pé em terra. Assim se passa a sua existência, sempre em contacto com o mundo dos restantes humanos, mas onde os caminhos são mais curtos. Ele é ao mesmo tempo mensageiro e profeta. Na floresta, que cobre grande parte da Europa ele desloca-se na multiplicidade dos ramos onde é sempre possível encontrar uma ligação.
Para o Designer o mundo é visto como um incomensurável conjunto de feixes de comunicação. À primeira vista este facto pode parecer resultar da generalização da world wide web. Na verdade, o universo www nasceu com o telégrafo e desenvolveu-se com a televisão. A www não passa de um telégrafo televisível ou de uma televisão telegráfica.
A produção de objectos de comunicação e a atribuição de valor comunicacional a objectos é que criou a possibilidade da web. O telégrafo permitiu a globalização de capitais e mercados. A televisão permitiu a consolidação do Marketing e da Publicidade.
A web não é mais do que a cristalização daquilo que já existia: um fluxo constante de significados no seio do mundo artificial. O Design recria continuamente esses feixes de significados. O projecto conta com eles como parte essencial da sua estratégia. A representação de algo a produzir é, fundamentalmente, a criação de um feixe de significados. O designer opera, assim, num mundo abstracto de ligações comunicacionais que se realizam nos mais insuspeitos sistemas de objectos.
A Design, associamos normalmente, a ideia de Inovação. Esta não passa da reconfiguração de sistemas. Ao encontrar um caminho por entre a míriade das ligações possíveis que os ramos das árvores oferecem (um caminho mais curto que os terrestres) o Barão Trepador, opera num nível diferente do sistema de objectos vigente a que podemos chamar, genericamente, Tradição. Os seus contactos com o mundo não-projectual são pontuais, interferindo e modificando a Tradição, criando tradições provisórias através dos indícios do seu verdadeiro movimento. Quando se recolhe para as árvores, para o projecto, a visão que retém do mundo embaixo é fragmentada, resultante daquilo que é apenas visível por entre os ramos.
Entretanto, o vestígio do resultado da sua aparição, a nova tradição provisória, ganha autonomia e movimenta-se lentamente pelos caminhos da terra. A relação entre o Barão Trepador e os seus conterrâneos é, assim, sempre carregada de surpresas, de novas perplexidades. Embora haja sempre um preço a pagar pelas surpresas o Design encontrou o plano onde operar.
O Designer decidiu nunca mais pôr o pé na terra porque não é deste mundo. É do mundo que há – de vir.

Descrever III – O Visconde Cortado ao Meio – Arte e Ciência

O visconde, atingido por um tiro de canhão vê-se dividido em duas partes. Esta catastrófica fractura separa-o na metade boa e na metade má. A metade má exerce a sua crueldade no governo do seu senhorio provocando a miséria e o terror dos seus súbditos. A metade boa surge depois. A sua bondade provoca também toda a sorte de acidentes e desgraças. Finalmente, por amor de uma donzela, defrontam-se em duelo. Feridos de morte, são salvos por um cirurgião inglês que os consegue recoser.
O Visconde é o Homem da Idade Moderna, inteiro como projecto, na Renascença, que, neste caso, a pouco e pouco se vai separando em Arte e Ciência. O Desenho tinha criado essa bela ilusão de que um homem completo e íntegro dominaria todos os aspectos do seu devir. Os desastres de Leonardo com a sua máquina voadora indiciavam já que ao segredo do voo das aves não se chegava através do Desenho. Por mais que conhecesse pelo desenho o maquinismo de funcionamento da asa, a diferença de pressão entre a face superior e a face inferior (razão da sustentação) não era visível e, consequentemente indesenhável.
Mais tarde, a acção conjugada de Lavoisier e Dalton conseguiu reunir a Química, a Matemática e a Física criando um mundo onde o Desenho não podia chegar. No início da Idade Contemporânea, a reacção da Arte surgiu com o Romantismo que desferiu a machadada final separando as duas metades. O artista romântico fechou o seu campo à ciência franzindo o sobrolho às explicações.
O início da reunião deu-se através de uma visão do mundo natural que se tornou cultural: a teoria da evolução das espécies. A natureza que tinha sido o referente da harmonia e estabilidade formal passava a significar mutabilidade, transformação, morte e extinção, adaptabilidade. No final do século XIX o evolucionismo tinha já penetrado profundamente na cultura da sociedade da esfera protestante. Em certa medida, reforçava os aspectos do livre arbítrio. Embora arte e ciência não se tivessem recosido, os primeiros passos foram dados. A Bauhaus resulta de duas interpretações da teoria evolucionista. A de Alois Riegl, com a sua Kunstvollen (vontade da arte) e Max Nordau com o seu Enfartung (degeneração) criaram condições para que a Bauhaus surgisse como adopção da primeira e reacção à segunda. Esta reacção comportava sobrelevar os aspectos éticos da produção que através da técnica e da ciência se deviam auto justificar na forma.
Apesar deste início cada uma das metades seguiu o seu caminho durante o séc. XX, fazendo maldades e bondades mas sempre incompleta, fazendo os súbditos sonhar com a plenitude dos desejos de prosperidade e paz que o jovem visconde inteiro tinha augurado.
É sedutor pensar que o cirurgião inglês se chama Design. Parece ser o único capaz de saber tanto da anatomia de uma metade como da outra.
Nesta evocação não se pode decidir que é o mau e quem é o bom. Na história de Calvino, o Visconde volta a ser uno e completo embora enriquecido pela experiência do seu tempo de ser dividido.

4º - Definir

Se o cirurgião é o Design, se o mau e o bom são a ciência e a arte, resta saber quem é a donzela que catalisa a união e, também, quem é o sobrinho narrador.
O sobrinho é a História, a contínua possibilidade de construir uma linha temporal através da narrativa.
A donzela é o deleite e a possibilidade de perpetuação. É o indefinível presente em cada acção humana. É a possibilidade de uma relação amorosa com o mundo que está para além daquilo que seria plausível pensar. É a Venustas vitruviana, a genitrix, o agente catalisador nas novas formas que buscam o tão indesmentível como inexplicável deleite na reprodução sexuada em que os opostos se misturam. Gerar o novo, ainda que participado pelo antigo, é, ainda, a condição essencial para definir Design.

Em Conclusão, para podermos definir o Design poderemos dizer, então e agora que:

O Design é o cirurgião inglês, que, na voz da História, cose pedaços do Homem para que este se possa perpetuar… até nova separação.


Eduardo Côrte-Real, arquitecto, Professor associado da Escola Superior de Design do Iade

O Reactor agradece a Eduardo Côrte-Real e à Arte Capital Arte Capital a publicação do presente ensaio.

Monday, November 05, 2007



O REACTOR no DESIGN FEAST

Ao fim de um ano de vida, a existência do Reactor é reconhecida no Design Feast uma das mais credíveis bases de dados em Design. Apresentando-se como uma "growing webliography of design", a Design Feast inclui, agora, o Reactor como único blog de língua portuguesa, na lista de blogs seleccionados.

Sunday, November 04, 2007



O DESIGN GRÁFICO, UMA VOZ PÚBLICA

O design gráfico, como qualquer prática cultural, é uma prática significante que tem, como uma das suas características, a vontade explícita de comunicar.
Esta declaração de intenção coloca-o numa relação conflitual e, sem dúvida, particular com o complexo espaço da comunicação contemporânea. É uma voz pública. Oferece modos de comunicar, possibilidades de dizer, à política, à religião, à economia, à educação. É uma voz que circula por distintos meios: na rua, em veículos, nas revistas, nos jornais, na Televisão, na Internet. Quase todo o território da visibilidade contemporânea tem lugar para a presença do design gráfico.

Dono desse território – como dizem alguns – “cobre” todas as necessidades de comunicação visual da nossa sociedade. Entendido como acto intencional, com vontade de determinar condutas específicas junto do receptor, o design gráfico ocupa, com as suas produções, espaços tão variados como os que organizam o nossos modos de leitura, os espaços da informação visual que recebemos para nos orientarmos ou os da operatória persuasiva que monta para estimular a nossa opinião, as nossas escolhas, o nosso consumo.

Desta forma, faz sentido afirmar que o design cobre todas as necessidades sociais da comunicação visual. O problema coloca-se quando procuramos definir a expressão “necessidades sociais”. Desta forma, não existe qualquer consenso relativamente ao que se considera ser uma “necessidade social”. Serão as campanhas da Diesel, da Heineken ou da Adidas, respostas a uma necessidade social? Obviamente que sim, responderia, se o formularmos da seguinte maneira: face às leis do Mercado capitalista, a existência da publicidade e do design gráfico publicitário são meios imprescindíveis de garantir as necessárias lógicas de compra-venda, incorporando a necessária função simbólica que diferencia e personaliza os objectos, para assegurar o equilíbrio das leis da procura e da oferta e, finalmente, para assegurar através da produção, o “pleno” emprego. (…)

As necessidades sociais são “entelequias”, eufemismos, abstracções criadas por grupos de poder para ocultar a sua verdade constitutiva: existem tantas necessidades sociais como classes e sectores e estas têm, frequentemente, interesses antagónicos entre si.

Se, como bem ou mal se disse, o design gráfico cobre todas as necessidades da comunicação visual, parece claro que o design pode estar ao serviço de qualquer grupo, sector ou ideal. Não se trata, aqui, de pensarmos em termos de “bom” ou “mau” design; trata-se de adoptar, perante a disciplina, uma atitude livre de hipocrisia, livre da euforia tecnocrática, livre de uma atitude “socialmente asséptica” formulada em nome de uma suposta identidade de necessidades mas, também, fazendo eco dos messianismos que, com frequência, procuram adjudicar o design. Por outras palavras, importa assumir uma atitude que coloque a questão sob outro ponto de vista, pensando um lugar específico para o Design, que nascido sob os ideias da igualdade e do confronto com a massificação tecnológica surge, em muitas das suas versões, submetido aos critérios do consumo e do Mercado.


MARIA LEDESMA
EL DISEÑO GRAFICO, UNA VOZ PUBLICA
Editorial Argonauta, Buenos Aires, 2003
Tradução José Manuel Bártolo

Friday, November 02, 2007

IK MUX - "NOVO ESTADO NOVO" (1989)


Thursday, November 01, 2007









Professor de história do Design na Kingston University, Penny Sparke tem desenvolvido – em obras como As longs as it’s pink (1995) ou A Century of Design (1998) – uma sedutora abordagem da história do design. A razão de ser do carácter sedutor das obras de Sparke reside, desde logo, na forma, a um tempo concisa e rigorosa, de pensar o design a partir de uma história da cultura o que permite, ao leitor, situar as transformações que, do ponto de vista teórico e projectual, sucedem no design perante um quadro mais vasto e, em todo o caso concomitante, de transformações que se dão ao nível das tecnologias e das ideologias, dos meios de produção e dos modelos de organização económica e das formas de organização e dos registos de estratificação social.

Em An Introduction to Design and Culture, Sparke cita, em epígrafe, uma ideia de Hal Foster – “Perhaps we should speak of a ‘political economy of design’ “ – que orienta, desde logo, para uma análise que procura integrar o design, pensado relações de causalidade, dentro uma estrutura social ampla. Procurando, permanentemente, contextualizar o design, Sparke escreve que “Within the framework of industrial capitalism, which created it and continues to dominate it in contemporary society, design is characterized by a dual alliance with both mass production and mass consuption and these two phenomena have determined nearly all its manifestations. Like Janus, Design looks in two directions at same time: as a silent quality of all mass-produced goods it plays a generally unacknowledged but vital role in all our lives. As a named concept within the mass media it is, however, much more visible and generally recognized.”

O Livro está dividido em duas partes, cronologicamente balizadas, a primeira ocupa-se do “Design and Modernity, 1900-1939” e a segunda do “Design and Postmodernity, 1940 to present”; cada parte é constituída por cinco capítulos que permitem uma introdução, séria e consistente, de temas como “Design Identities”, “Consuming modernity” ou “Technology and Design: a new alliance”. Vocacionada para estudantes de design, o livro incluí um bom glossário de termos, correntes e autores, bem como uma boa bibliografia por capítulo.


Assumindo-se como uma introdução a uma história da cultura do design, Penny Sparke consegue, num estilo cativante, ir além da mera introdução, conseguindo, de um modo consistente, apresentar, enquadrar e desenvolver suficientemente uma série de possibilidades de interpretação do design e da sua importância na história da cultura ocidental do século XX.

Título: An introduction to Design and Culture
Autor: Penny Sparke
Editora: Routledge
Ano/Local: 1992, Nova York.

Tuesday, October 30, 2007



Os mais recentes “posts” colocados no Ressabiator e no Desígnio vêm confirmar que a reflexão teórica sobre design se faz, de uma forma decisiva, na blogosfera. Infelizmente, confirma-se também que a discussão suscitada pelas mais pertinentes e actuais reflexões é, ainda, demasiado restrita. Não tenho dúvidas, que a leitura de “O design público” e de “Teoria e prática – outra vez” deveria ser considerada obrigatória por uma grande maioria de estudantes de design portugueses.



O problema da “neutralidade” em design, uma das questões em debate no Ressabiator, mereceu, também, uma interessante abordagem por parte de Michael Beirut e Adrian Shaughnessy no Design Observer. Beirut coloca, nestes termos, a questão: “Those graphic designers who see no role for self-expression in design. For them the graphic designer is a passive mediator of the client's message and is charged with the responsibility of communicating it with clarity and precision. Unfortunately passive often means mute and can lead to an absence of 'point of view'. Get very excited by regulating systems such as grids, identity guidelines and manuals. Love following orders. Have a positive view of limitation and are lost without it, which leads them to being dismissed (sometimes unfairly) as 'jobbing designers'. Theirs tends to be an apolitical stance which makes it easier for them to practice their discipline for all types of client irrespective of sector without too much soul-searching. Contains a large number contingent of neo-Modernists now that Modernism is merely a style. Tend to view content as something that is delivered by others and must not be questioned.”


“Communist design is a contradiction in terms: there is no such thing as communist design” é a ideia-forte de um "post" de Cris Kit Paul no seu Kit Blog.




Foi publicado do Herald Tribune um interessante artigo sobre uma designer brilhante: Muriel Cooper.



104 (Le Cent Quatre) é um novo projecto cultural francês, sediado em Paris, a inaugurar no início de 2008, assumidamente interdisciplinar, pretende cruzar os campos da performance, do design, do teatro e da música, da fotografia, do cinema e da teoria. A Identidade visual está a ser trabalhada pelos Experimental Jetset.



Um aluno perguntou-me onde gostaria eu de trabalhar se fosse um designer de comunicação recém formado. Pois bem, entre inúmeras outras possibilidades poderia responder que para sair de Portugal deixava-me guiar pela criatividade dos We Have Photoshop, para ficar por cá deixava-me seduzir pela energia dos VivóEusébio.




Sobre "fusão" e "inversão", um interessante artigo de Nancy Skolos e Tom Wendell : "Inversion is a specific category of fusion, in which type and image fuse by exchanging roles. As with fusion, the relationship that takes place in inversion is similar to a chemical reaction with two substances bonding together. When type is portrayed as part of an image, or when an image is built from type, it captures our imagination and transports us beyond the potential communicative properties of type or image alone and into an elevated sense of discovery."


A exposição do MoMA, "Women in Modernism", serviu de pretexto para uma entrevista com Barry Bergdoll, o novo chief-curator do MoMa na área da Arquitectura e Design, sobre o design no feminino.



Acaba de ser criada a e-vai: “uma plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais”, o projecto é prometedor.



Entre 1 e 3 de Novembro irá decorrer no Palácio Pombal o 3 Encontro Internacional do IADE: DESIGN & CC: SOS! (que é como quem diz, DESIGN AND COMMERCIAL COMMUNICATIONS: SEEK OPTIMAL SYNERGIES).

Sunday, October 28, 2007



LER ANTES DE USAR


O desenvolvimento da cultura material moderna que, na sequência da industrialização, transforma radicalmente o espaço e a experiência humanas, foi acompanhado por um idêntico desenvolvimento de “ferramentas visuais” que fazem a mediação entre nós e as coisas. O espaço humano, seja ele público ou privado, passa a implicar um “manual de instruções”, toda uma construção de interfaces que disciplinando as possibilidades de interacção, reeducam as nossas relações com o mundo, um mundo cada vez mais alvo de intervenções projectuais.

O conhecido livro de Paul Mijksenaar e Piet Westendorp, Open Here: The art of instructional design, apresenta bem a importância crescente do design de informação (e, de um modo geral, do design de interfaces) e permite-nos perceber a influência que, em particular, o “instructional design” norte-americano dos anos 50 exerce sobre o design gráfico (a nível editorial, tipográfico, publicitário…) a partir desse período.

Sobre o universo do design de instruções visuais – que de tão omnipresentes tendem a rodear-nos silenciosas, numa espécie de invisibilidade que, paradoxalmente, resulta da sua metavisibilidade, da sua “excessiva” presença - organizou Andrew Howard, em colaboração Piet Westendorp, a interessante exposição “Ler antes de usar” (Silo, Matosinhos, Julho 2006) que, embora centrada no design de instruções desenvolvido a partir dos anos 50, nos oferecia uma excelente introdução às possibilidades de construção de imagens gráficas – índices, símbolos e ícones – que funcionam como representações abstractas de acções de concretas. A concretude do mundo moderno era desta forma traduzida pela abstracção de um idioma gráfico, a complexidade do real, tendencialmente substituída pela simplicidade iconográfica de um mundo não-verbal onde tendíamos a acordar e a adormecer, no interior do qual trabalhavamos e habitávamos.



Li recentemente o surpreendente Survival in the City e de um, pelo menos para mim, desconhecido Anthony Greenbank. Greenbank especializou-se em livros de “sobrevivência” utilizando uma linguagem visual forte e clara. Tratam-se, pois, de “manuais de instruções” que nos orientam a sobreviver na cidade e a resolver os diversos problemas com os quais nos podemos deparar.



Em 1967, Anthony Greenbak publicou o clássico (?) “The book of survival”, tratava-se de um fabuloso manual de instruções úteis para uma visita aos suburbios do sul de Nova York. Já em 1974, surgiu a sua obra maior “Survival in the city”, uma fantástica obra iconográfica que se inscreve na melhor tradição do “instructional design”.







PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com