Sunday, September 23, 2007

BREVES

- A importância da D&AD recordada por Johnson Banks
através da análise de 45 anos de "cover design" da publicação.





- Steven Heller entrevista o decisivo S. Neil Fujita antido Director de Arte da CBS Records e para sempre conhecido como o criador da "imagem gráfica" do filme Godfather.



- Entrevista e apresentação do interessante trabalho desenvolvido por Christopher Junge&Tobias Wenig.



- Dinâmica discussão na Brand New sobre a "identidade gráfica" da Casa da Música projectada por Sagmeister.



Wednesday, September 19, 2007

DESIGN - O ESTADO DAS COISAS: ENTREVISTA COM GUTA MOURA GUEDES




A EXD'07teria inaugurado no passado dia 12 de Setembro. As razões do cancelamento são públicas. Nesta entrevista com a directora da Experimenta, mais do que dissecar essas razões (e por mais difícil que elas sejam de aceitar), procura-se pensar o próximo futuro da ExperimentaDesign conscientes de que a existência, em Portugal, de uma cultura do design dinâmica e visível está indissociável da existência do seu maior evento.


REACTOR: A ExperimentaDesign’07 teria o seu início no passado dia 12 de Setembro. Quando apoios fundamentais falharam o evento estava já definido. O que poderia ter sido esta Bienal?

GUTA MOURA GUEDES: Esta teria sido a quinta edição da ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa, logo a seguir a ter sido considerada o evento de design mais interessante da Europa em 2005 pelos media internacionais... A bienal tinha atingido um patamar muito importante, a expectativa para 2007 era enorme e o nosso entusiasmo também. Portanto o investimento que nela foi feito foi grande, quer do ponto de vista conceptual, quer do ponto de vista estratégico. Mas preferia não adiantar muito, porque a bienal está desenhada e pronta a acontecer... e ainda não passou de prazo, pelo contrário.

R.: O trabalho da Experimenta marca, claramente, uma transformação profunda na “cultura do design” em Portugal, permitindo a existência de um fórum no qual esta cultura do projecto encontrou um espaço de divulgação, promoção e discussão nacional e internacional. Actualmente, perante a inexistência de um evento de dimensão internacional, de um projecto editorial de referência, perante uma certa incapacidade de afirmação corporativa, o que lhe sugere falar-se em “cultura do design” em Portugal?

G.M.G.: Pois parece voltar tudo há uns anos atrás, onde a fragmentação era enorme, onde não se verificava uma ideia de um todo dinâmico e eficaz. É claro que o que se conquistou em termos de cultura de design entre 1999 e 2006 não se perde assim de um momento para o outro. A actividade e a energia de muitos dos designers, arquitectos e criadores portugueses é muito grande e está aí. O mesmo se passa com as escolas e alguma da nossa industria. Agora perdeu-se visibilidade, difusão, estímulo, o desafio constante que uma plataforma como a ExperimentaDesign criava. O que se passa agora? Pois não sei, confesso que me foi necessário algum distanciamento de tudo isto, um afastamento, um período que me permitisse recuperar forças e vontade de continuar a fazer coisas por cá.


R:Parece-me faltar, em Portugal, uma “educação curatorial”. Creio (e a ExperimentaDesign provou-o) que existe público, no entanto as principais instituições continuam a não revelar capacidade para garantir uma programação regular de exposições de Design. Onde aparece o design na nossa política cultural?

G.M.G.: É absolutamente verdade o que diz. Não há programação regular, não há investimento regular, nem nos públicos, nem nos profissionais, nem na indústria, não há uma divulgação consistente e coerente. Não era por acaso que desde 1999 muitos designers, gestores, industriais, professores, nos pediam para nos tornarmos uma espécie de centro português de design. A Experimenta e a ExperimentaDesign tinham, de forma inequívoca, um papel fundamental neste processo. O design ainda aparece pouco na nossa politica, cultural e económica e nós representávamos um catalisador contínuo e independente que teve durante muito tempo o mérito de investir no design português e em Portugal e de trazer muita informação para cá, que é essencial para estimular a nossa competitividade. E em muitas frentes, não só com a bienal, basta ver o nosso site. No entanto a Experimenta nunca teve problemas de maior no seu relacionamento com o Estado, quer com o Ministério da Economia, cuja interacção se tornou progressiva e francamente interessante em 2005, quer com Ministério da Cultura, connosco desde a primeira edição.


R.: Um dos méritos da Experimenta foi o de garantir interacções entre diferentes agentes (institucionais e não institucionais) ligados ao Design, nomeadamente a participação das Escolas. Sem a realização da Bienal, como pode essa acção catalizadora sobre o design português (e entre o design português e o design internacional) ser feita?

G.M.G.: Sem a ExperimentaDesign a promoção do design português e das escolas de design em Portugal, e as relações que a partir daí nasceram com a cena internacional, com a industria e com o público, perdem imenso. A título de exemplo posso dizer-lhe que o projecto S*Cool tinha um plano de desenvolvimento para 2007 muito interessante, que para além das escolas em Portugal e em Espanha iria envolver a América Latina também. A rede de colaborações e interacções que formámos, nacional e internacionalmente, estava no seu ponto alto, ao fim de 8 anos de trabalho. O que pode acontecer sem a bienal em Portugal? Pois não sei. O que me dizem cá fora (estou a responder-lhe de Londres, onde estou para o London design festival e para participar na conferencia de imprensa de lançamento de Torino 2008 World Design Capital) é que sem a ExperimentaDesign Portugal deixa de ter um lugar consistente e regular no mapa internacional do design...


R.: A dois anos de distância de uma possível ExperimentaDesign’09 o que é necessário que aconteça (e o que está a acontecer) para que ela se torne uma realidade?

G.M.G.: Nunca quisemos tomar nenhuma atitude precipitada. Apenas cancelámos a edição de 2007 e ficámos a observar que desenho as coisas tomavam, que rumos e que movimentos se definiam, cá e lá fora. O que posso dizer - neste preciso momento em que escrevo - é que muita coisa importante está a acontecer desde fim de Julho passado, que temos muito boas novidades para comunicar e que, se tudo correr como se prevê, algumas delas serão bem surpreendentes... É uma questão de tempo.

Tuesday, September 18, 2007

FIRST THINGS FIRST

A imagem que se segue é da versão original, escrita em 1964 por Ken Garland, do manifesto First Things First. O manifesto tornou-se, sobretudo graças à sua revalorização no final da década de 90 (que levaria à publicação do FTF2000) um ícone do design crítico. Esta dimensão icónica não deixa de se revelar perturbante. O texto de Garland tornou-se, progressivamente, uma "imagem", configuração acabada, que pode ser agitada e exibida sem exigir uma cuidada reflexão. Que o manifesto FTF permanece absolutamente actual é uma verdade que, em alguns círculos, se tornou um "slogan" e, assim, a verdade foi privada do seu fundamento. Nenhum "objecto" é actual em si. Qualquer objecto exige "actualização". A única forma de tornar o FTF nosso contemporâneo é pensando-o à luz da actual prática do design, ora esta reflexão, oito anos após o FTF2000, parece ter sido abandonada. Perdem-se as ideias, ficam os ícones que as cristalizam.

BREVES (PT)




A Galeria ZDB organiza nos dias 20-21 de Setembro um ciclo de "Discussões a propósito de política e design". O tema, absolutamente pertinente, não havia tido até agora em Portugal o devido tratamento. Convém recordar, aliás, a importância que, desde os tempos do Festival Atlântico, Natxo Checa vem tendo na abertura de novas perspectivas de reflexão sobre a prática do design.



É hoje o último dia para visitar a exposição Jovem Criadores 2007 a decorrer no Centro de Congressos de Lisboa.



No Mercado Negro, em Aveiro, está aberta ao público uma interessante exposição sobre poesia na blogosfera (o cartaz é da Menina Limão).

Estão já disponíveis on-line os Working Papers, publicação electrónica do CECL, muito recomendável.



Já se encontra disponível o número #3 dos CADERNOS DE TIPOGRAFIA. A publicação coordenada por Paulo Heitlinger tem evoluído qualitativa e quantitativamente de número para número impondo-se como a publicação de língua portuguesa, sobre design de tipos e tipografia, de referência.

Monday, September 17, 2007

ENTREVISTA COM TIBOR KALMAN

Tibor Kalman, designer gráfico de origem húngara falecido em 1999 com 43 anos, foi o maior protagonista do design de comunicação do final da década de 1980 e da década de 1990.

Fundador da M&Co, director de arte da ART FORUM (1987-88) e da Interview (1989-91); editor da Colors (1991-95), trouxe uma nova consciência crítica para a prática profissional do design, bem exemplificada na iniciativa de reeditar o Manifesto First Things First de Ken Garland e reflectir colectivamente sobre a sua actualidade.

Segue-se uma das suas últimas entrevistas.


Thursday, September 13, 2007

REACTOR | BREVES

O último número da Wallpaper envolve três "guest editors" notáveis: Jeff Koons; Hedi Slimane e Dieter Rams. Podia ser sempre assim.

Charles e Ray Eames apresentam na NBC, pela primeira vez, a sua Lounge Chair e discutem o seu processo de trabalho, decorria o ano de 1956. A televisão era diferente e o design também.

O BLDGBLOG publicou uma interessante entrevista com Mary Beard que dirige uma das colecções de maior fôlego da actualidade, a colecção "Wonders of the World" para a Harvard University Press.

A irónica pergunta "Porque não é a teoria mais como a prática?" serve de pretexto para uma pertinente e actualissíma reflexão de Mário Moura expondo a nú as incongruências de muitos designers portugueses.

Joana Bértholo esteve nos importantes prémios INDEX, em Copenhaga, e dá-nos um bom retrato do design contemporâneo e dos seus prémios.

A questão já não é nova mas as velhas questões estão longe de estar resolvidas, daí fazer sentido que Javier Solar volte à carga questionando o design no artigo "Arte, estética ou ideologia?" .

No 25 aniversário de "From Bauhaus to Our House", Tom Wolfe juntou-se a Peter Eisenman para discutir a noção de "inovação" no design e na arquitectura.
REACTOR ENTREVISTA RUI TENREIRO

CCC ECHIBITION | CIDADE DO CABO


Mais conhecido na Escandinávia do que em Portugal, Rui Tenreiro é um bom exemplo de um “designer internacional” que, como criador e produtor, tem desenvolvido um sólido percurso onde a “alma” Latina se encontra, frequentemente, com a “razão” Nórdica. O REACTOR conversou com ele:

REACTOR: Sobretudo desde 2005, o Rui Tenreiro tem-se dividido em vários projectos, destacando-se dois - Soyfriends e The Culture Front - que lhe pedia que apresentasse.

RUI TENREIRO: The Culture Front é o meu site pessoal. Aqui apresento trabalhos feitos por mim para clientes. Aqui os projectos podem ser comerciais ou não comerciais. Ao criar o site pensei em dividi-lo em partes para que melhor se pudesse separar mentalmente o tipo de trabalhos. Mas à medida que o desenvolvi achei que não faria sentido, pois os trabalhos são todos parte do mesmo mundo, simplesmente apresentado de maneiras
diferentes. O site The Culture Front vai ser destinado a apresentar esse leque de ilustrações que constrói esse mundo. Há medida que vou encontrando as técnicas de trabalho que mais me agradam, é natural que este 'mundo' de imagens se desenvolva naturalmente, tornando-se assim as imagens mais próximas visualmente umas das outras.

Soyfriends é uma mini-editora que foi criada porque me apercebi que a nível da Noruega e Suécia havia uma certa tendência em ilustração e desenho que era bastante diferente do que se passava noutros lados, tal como em Londres, Estados Unidos, África do Sul, etc. E portanto a Soyfriends foi criada para servir de 'showcase' para esses artistas. A Soyfriends foi também uma oportunidade de trabalhar com artistas cujo trabalho admiro.
Por vezes achei que havia falta de uma editora deste género a nível Escandinavo. Portanto na Soyfriends o meu trabalho é como editor e produtor, maioritariamente - e por vezes como artista. Como só faço neste momento 50 (e, em casos raros, 100) cópias de cada fanzine, os distribuidores têm de ser seleccionados com cuidado, de maneira a não desvalorizar os livros e de maneira a manter um balanço positivo mínimo. No entanto, a Soyfriends ainda é, mais que nada, um 'hobby'.

Ilustrações | Páginas Interiores de "Le Merle"


R: Entre os seus trabalhos, encontramos colaborações com a VRENG (a versão norueguesa da Adbusters) e trabalho de Branding para multinacionais. Como concilia uma abordagem mais pessoal (próximo de um no-brief design) para clientes "culturais" com trabalhos assumidamente "comerciais"?

R.T.: Isto resultou de uma mudança de atitude a certa altura. Durante muito tempo trabalhei a partir de um estúdio de ilustração em Oslo que fazia maior parte das decisões em conjunto. Não havia regras para o tipo de trabalhos que cada pessoa deveria colocar no site do grupo, mas havia bastante pressão a pôr trabalhos de prestígio (mesmo que não fossem os preferidos de cada pessoa do grupo) ou de 'briefs' que viessem de editoras mais tradicionais, que fazem livros escolares ou livros para crianças. Isto confundia-me porque a minha intenção sempre foi criar livros para adultos. Portanto, quando criei o meu site individual - e isto é um conselho que daria a todos os ilustradores que se consideram mais como 'artistas' do que 'designers de imagens' - decidi não pôr nada que não gostasse. Mesmo se o trabalho fosse feito para a Playstation, Mtv ou para a Pepsi, decidi não pôr nada que não gostasse. Ponho somente trabalhos que gosto. Assim isto mostra somente, através do único meio de comunicação que controlo, o meu site pessoal, o produto de trabalhos meus, ao invés de um produto da minha decisão e da do cliente, que resulta em algo diluído. Esta base dá ao cliente, portanto, uma escolha limitada. Mesmo assim até agora não houve risco de me começar a repetir pois os cliente têm trabalhos e pedidos bastante diferentes. E posso sempre decidir retirar do site um trabalho que acho estar a dar a impressão de ser repetitivo. O resultado é de a maior parte dos trabalho não são incluídos no site. Isto é a maneira que encontrei e que funciona para mim.


R: O Rui Tenreiro é um ilustrador e designer "norwegian-based", como olha, a partir daí, para o design português e para a nossa "cultura do design"?

R. T.: Infelizmente não estou a par do design português neste momento. Na verdade não tenho procurado rodear-me de imagens e exemplos de design e ilustração ultimamente. Há sempre uma enorme quantidade de imagens a ser criadas todos os dias e às vezes é importante parar e olhar para dentro, e tentar ignorar até certo ponto o que se passa à nossa volta. Isto tem durado mais de uma ano e, como muito pode acontecer no espaço de um ano em termos de design e ilustração, prefiro não dar a minha opinião sobre a pergunta desta vez.

"Canvas Bag" | Soyfriends


R: Finalmente, pode-nos falar dos seus projectos paralelos e futuros projectos?

R.T.: Há vários projectos a desenvolverem-se neste momento. Acabei de organizar uma exposição de 'artists books' e fanzines na galeria Bell-Roberts, na Cidade do Cabo. E estou a acabar a minha próxima BD, que vai ter mais de 100 páginas. Estou também a desenvolver uma outra BD em conjunto com um amigo, Tiago Correia Paulo, em que ele vai produzir uma banda sonora para a história. Comecei esta semana a imprimir os meus trabalhos em serigrafia, que é um processo bastante fácil e que dá óptimos resultados. Estou a contribuir, a convite do Frederico Duarte, para o livro 'Fabrico Próprio', um livro sobre pastelaria portuguesa vendida em todo o mundo. Escolhi ilustrar sobre o Palmier. Estou também há procura de uma editora que esteja disposta a fazer uma compilação de algumas das fanzines da Soyfriends num livro de ilustração/arte. Acho que por enquanto é tudo. Terei também t-shirts à venda na loja Graniph, em Tóquio, que também podem ser obtidas on-line.

Tuesday, September 11, 2007

11 DE STEMBRO

Reflectir sobre o 11/9, seis anos após o ataque terrorista às Torres Gémeas, é um exercício que se presta a ser manipulador e tendencialmente maniqueista. A dimensão política das imagens foi explorada até ao limite: esse limite em que a imagem deixa de valer pelo seu significado e passa a valer enquanto significante. As imagens são esvaziadas do seu conteúdo representativo - que exige reflexão para que esse conteúdo possa ser "lido" - e "esteticizam-se" passando a valer "por si próprias". A este processo poder-se-ia chamar (fazendo uso da mais distorcida utilização da palavra "design") de conversão da "representação" em "design". Uma coisa é certa, a leitura que fazemos das imagens que vemos resulta, em grande medida, do modo como essas imagens são "montadas". Esse trabalho de montagem é definitivamente político, e nesse trabalho de montagem o Design está cada vez mais envolvido.

Entretanto, as imagens permanecem "testemunhas", aparentemente mais vivas do que nós próprios.






Sunday, September 09, 2007

HETERODOXIAS (de um design blogger)




A questão surgiu-me assim: “Porquê designers em tempo de aflição?”. Já falámos sobre isto antes, não se trata de encontrar a solução mas, antes, de enunciar o problema. Em design, trata-se sempre de jogar com o invisível, de procurar figurar o que insiste em se esconder e permanecer entre nós “não dito” e importa saber que nunca ficará definitivamente dito. Dizias-me que “fazer design” é trabalhar nas margens (tecer as margens), composição a partir de elementos residuais – residual em todos os sentidos.

Defina-se o contexto da nossa conversa: noite quente (“que Setembro este”, comentávamos); bebemos chá de menta frio e tu fumas-te, de seguida, vários cigarros indianos.

Não há pura abstracção, mesmo quando se procura concretiza-la, este é um bom exemplo. Quando te dizia que o trabalho do Christopher David Ryan tende para uma crescente abstracção, não estava apenas a referir-me a ausência de uma preocupação figurativa mas como essa ausência torna presente uma linguagem gráfica que concretiza uma espécie de exercício de montagem de referências (vindas da pintura, da tipografia, do design gráfico dos anos 70) que inclui o próprio título do trabalho.

Christopher David Ryan | The Solar System

Christopher David Ryan | You Don't Listen


Não te respondi à tua primeira questão – sobre o design numérico – mas espero ter sido claro na resposta à segunda: parece-me evidente que o facto de um trabalho usar uma comunicação (e uma estratégia comunicativa) mais directa, não o torna, por esse facto, nem mais nem menos politico.

Joana Baptista Costa & Mariana Leão | Manifesto Contra!

Há um trabalho de citação em todo o design gráfico que hoje é feito. Porque te dizia eu, então, que isso não lhe retira originalidade? Porque a autêntica originalidade tem sempre a ver com um exercício de repetição: fazer de novo. Há aquela ideia do Harold Bloom sobre a “ansiedade da influência”: a lei da criação coincide com a da circulação e da metamorfose. O exemplo do trabalho de Street Value está longe de ser o melhor mas confirma as ideias que introduzi no post sobre o design gráfico norte-americano.

StreetValue

“A linguagem tem em si mesma o seu princípio interior de proliferação” defendia Foucault. O original nunca é imóvel. O que se chama “original” não chega a ter existência própria enquanto tal; o que há são sistemas de virtualidades de sentido, que requerem mediação, leitura, comentário, tradução. Também em design não há “arquitexto” mas, fundamentalmente “pré-texto”.

Matthew Wahl | Don't Believe the Type

Vivemos num mundo onde a análise tende a ser substituída pelo “slogan”. Não admira que mesmo comentários que se pretendem “sérios” possam terminar numa colecção de disparates. Mas em relação aos conselhos para os professores de design do Chochinov no Core77 (é nisso que penso) vou-me ocupar num outro post.

As reflexões orwellianas voltaram. Ainda bem.




Aqui estamos de acordo (ambos gostamos do trabalho da Nakakobooks). Aqui também estamos de acordo: a recente entrevista do Wim Crouwel fornece-nos um olhar privilegiado sobre a história recente do design gráfico.




Não se pode falar de uma língua senão noutra língua. Continuamos noutra altura.

Friday, September 07, 2007

ALGUNS DOS MELHORES MOTION LOGOS

DELETED IMAGES/IMAGENS ELIMINADAS




Desfocadas, tremidas ou disparadas acidentalmente, uma série de imagens são permanentemente apagadas viajando para essa espécie de "ciber-vala comum" que é a caixa de Trash dos computadores. A "vida" das imagens não depende, apenas, da sua produção mas, fundamentalmente, da sua recepcção, do modo como as imagens são "vivenciadas" no campo da nossa vida individual ou colectiva.





A atenção às imagens "perdidas" - muitas vezes paralela à reflexão sobre a "perdição" das e nas imagens - está longe de ser uma descoberta dos nossos dias, porém, há na contemporaneidade uma crescente preocupação em pensar a imagem falhada, bastarda, acidental e o modo como as novas tecnologias possibilitam a produção de novas possibilidades de "acidentes" e de "selecções" entre a imagem "correcta" e a imagem "falhada".

No 4o Capítulo de "Each Wild Idea", intitulado "Taking and Making", Geoffrey Batchen trabalha os processos de produção e de recepcção que definem sobre o "acerto" e a "falha" das imagens, tema igualmente trabalhado no Capítulo sobre a "fotografia vernacular", a questão aí colocada é a seguinte: "How can photography be restored to its own history?". As imagens de DELETED IMAGES são imagens resgatadas ao seu curso, recuperadas para uma nova vida e integradas num contexto no qual a "falha" - essa mesma falha que as condenou à morte - se torna o elemento distintivo que as valoriza e, assim, as reabilita para a vida.

DELETED IMAGES. THE JUNKYARD OF ART é um arquivo que recupera inúmeras dessas imagens condenadas a desaparecer e glorificando o erro, valorizando o acidente, re-apresenta-as como exemplos de "junkard of art". Contemporâneo? Sem dúvida, ainda que com tiques pós-modernos como essa vontade de impor um estílo (junkyard of art) revela.



Monday, September 03, 2007



It is no secret that the real world in which the designer functions is not the world of art, but the world of buying and selling. For sales, and not design are the “raison d'être” of any business organization. Unlike the salesman, however, the designer's overriding motivation is art: art in the service of business, art that enhances the quality of life and deepens appreciation of the familiar world.

Design is a problem-solving activity. It provides a means of clarifying, synthesizing, and dramatizing a word, a picture, a product, or an event. A serious barrier to the realization of good design, however, are the layers of management inherent in any bureaucratic structure. For aside from the sheer prejudice or simple unawareness, one is apt to encounter such absurdities as second guessing, kow-towing, posturing, nit-picking, and jockeying for position, let alone such buck-passing institutions as the committee meeting and the task force. At issue, it seems, is neither malevolence nor stupidity, but human frailty.

The smooth functioning of the design process may be thwarted in other ways, by the imperceptive executive, who in matters of design understands neither his proper role nor that of the designer; by the eager but cautious advertising man whose principal concern is pleasing his client; and by the insecure client who depends on informal office surveys and pseudo-scientific research to deal with questions that are unanswerable and answers that are questionable.

Unless the design function in business bureaucracy is so structured that direct access to the ultimate decision-maker is possible, trying to produce good work is very often an exercise in futility. Ignorance of the history and methodology of design -- how work is conceived, produced, and reproduced -- adds to the difficulties and misunderstandings. Design is a way of life, a point of view. It involves the whole complex of visual communication: talent, creative ability, manual skill, and technical knowledge. Aesthetics and economics, technology and psychology are intrinsically relate to the process.

One of the more common problems which tends to create doubt and confusion is caused by the inexperienced and anxious executive who innocently expects, or even demands, to see not one but many solutions to a problem. These may include a number of visual and/or verbal concepts, an assortment of layouts, a variety of pictures and color schemes, as well as a choice of type styles. He needs the reassurance of numbers and the opportunity to exercise his personal preferences. He is also most likely to be the one to insist on endless revisions with unrealistic deadlines, adding to an already wasteful and time-consuming ritual. Theoretically, a great number of ideas assures a great number of choices, but such choices are essentially quantitative. This practice is as bewildering as it is wasteful. It discourages spontaneity, encourages indifference, and more often than not produces results which are neither distinguished, interesting, nor effective. In short, good ideas rarely come in bunches.

The designer who voluntarily presents his client with a batch of layouts does so not out prolificacy, but out of uncertainty or fear. He thus encourages the client to assume the role of referee. In the event of genuine need, however, the skillful designer is able to produce a reasonable number of good ideas. But quantity by demand is quite different than quantity by choice. Design is a time-consuming occupation. Whatever his working habits, the designer fills many a wastebasket in order to produce one good idea. Advertising agencies can be especially guilty in this numbers game. Bent on impressing the client with their ardor, they present a welter of layouts, many of which are superficial interpretations of potentially good ideas, or slick renderings of trite ones.

Frequent job reassignments within an active business are additional impediments about which management is often unaware. Persons unqualified to make design judgments are frequently shifted into design-sensitive positions. The position of authority is then used as evidence of expertise. While most people will graciously accept and appreciate criticism when it comes from a knowledgeable source, they will resent it (openly or otherwise) when it derives solely from a power position, even though the manager may be highly intelligent or have self-professed "good taste." At issue is not the right, or even the duty, to question, but the right to make design judgment. Such misuse of privilege is a disservice to management and counterproductive to good design. Expertise in business administration, journalism, accounting, or selling, though necessary in its place, is not expertise in problems dealing with visual appearance. The salesman who can sell you the most sophisticated computer typesetting equipment is rarely one who appreciates fine typography or elegant proportions. Actually, the plethora of bad design that we see all around us can probably be attributed as much to good salesmanship as to bad taste.

Deeply concerned with every aspect of the production process, the designer must often contend with inexperienced production personnel and time-consuming purchasing procedures, which stifle enthusiasm, instinct, and creativity. Though peripherally involved in making aesthetic judgments (choosing printers, papermakers, typesetters and other suppliers), purchasing agents are for the most part ignorant of design practices, insensitive to subtleties that mean quality, and unaware of marketing needs. Primarily and rightly concerned with cost- cutting, they mistakenly equate elegance with extravagance and parsimony with wise business judgement.

These problems are by no means confined to the bureaucratic corporation. Artists, writers, and others in the fields of communication and visual arts, in government or private industry, in schools or churches, must constantly cope with those who do not understand and are therefore unsympathetic to their ideas. The designer is especially vulnerable because design is grist for anybody's mill. "I know what I like" is all the authority one needs to support one's critical aspirations.
Like the businessman, the designer is amply supplied with his own frailties. But unlike him, he is often inarticulate, a serious problem in an arena in which semantic difficulties so often arise.

This is more pertinent in graphic design than in the industrial or architectural fields, because graphic design is more open to aesthetic than to functional preferences.Stubborness may be one of the designer's admirable or notorious qualities (depending on one's point of view) -- a principled refusal to compromise, or a means to camouflage inadequacy. Design cliches, meaningless patterns, stylish illustrations, and predetermined solutions are signs of such weakness. An understanding of the significance of modernism and familiarity with the history of design, painting, architecture, and other disciplines, which distinguish the educated designer and make his role more meaningful, are not every designer's strong points.

The designer, however, needs all the support he can muster, for his is a unique but unenviable position. His work is subject to every imaginable interpretation and to every piddling piece of fact- finding. Ironically, he seeks not only the applause of the connoisseur, but the approbation of the crowd.A salutary working relationship is not only possible but essential.

Designers are not always intransigent, nor are all purchasing agents blind to quality. Many responsible advertising agencies are not unaware of the role that design plays as a communication force. As for the person who pays the piper, the businessman who is sympathetic and understanding is not altogether illusory. He is professional, objective, and alert to new ideas. He places responsibility where it belongs and does not feel insecure enough to see himself as an expert in a field other than his own. He is, moreover, able to provide a harmonious environment in which goodwill, understanding, spontaneity, and mutual trust -- qualities so essential to the accomplishment of creative work -- may flourish.

Similarly, the skilled graphic designer is a professional whose world is divided between lyricism and pragmatism. He is able to distinguish between trendiness and innovation, between obscurity and originality.He uses freedom of expression not as a license for abstruse ideas, and tenacity not as bullheadedness but as evidence of his own convictions. His is an independent spirit guided more by an "inner artistic standard of excellence" than by some external influence.

At the same time as he realizes that good design must withstand the rigors of the marketplace, he believes that without good design the marketplace is a showcase of visual vulgarity.The creative arts have always labored under adverse conditions.
Subjectivity emotion, and opinion seem to be concomitants of artistic questions. The layman feels insecure and awkward about making design judgments, even though he pretends to make them with a certain measure of know-how. But, like it or not, business conditions compel many to get inextricably involved with problems in which design plays some role.
For the most part, the creation or effects of design, unlike science, are neither measurable nor predictable, nor are the results necessarily repeatable. If there is any assurance, besides faith, a businessman can have, it is in choosing talented, competent, and experienced designers.

Meaningful design, design of quality and wit, is no small achievement, even in an environment in which good design is understood, appreciated, and ardently accepted, and in which profit is not the only motive. At best, work that has any claim to distinction is the exception, even under the most ideal circumstances. After all, our epoch can boast of only one A.M.
Cassandre.

Paul Rand, Excerto de A Designer's Art.

Saturday, September 01, 2007



Entre os dias 6 e 8 de Setembro, terá lugar na Universidade do Minho, em Braga, a 5a SOPCOM desta vez dedicada ao pertinente tema “Comunicação e Cidadania”.

A reflexão sobre o design e a suas declinações sociais e politicas acontecerá em diversas comunicações distribuidas por várias sessões temáticas. Destaque para a Sessão “Estética, Arte e Design”, coordenada por Bernardo Pinto de Almeida e Jorge Bacelar e onde terão lugar as comunicações de Catarina Moura ou de Pedro Andrade.

Justificam, igualmente, interesse, as Sessões “Tecnologia, Linguagem e Cidadania” (coordenada por Graça Simões
 e António Machuco Rosa); “Sociologia da Comunicação” ( José Luís Garcia e Rogério Santos); “Comunicação Multimédia e Jogos Electrónicos”( Óscar Mealha e Manuel José Damásio) ; “Comunicação e Ciência” (José Azevedo e Anabela Carvalho) ; “Teoria e história da Imagem” (Maria Augusta Babo e Bragança de Miranda) ou “Comunicação Politica” onde será apresentada a minha comunicação intitulada “Artes e Design: Figuras de autoridade”.

Uma última referência para destacar a prometedora presença de Divina Frau-Meigs, conhecida investigadora dos Media e vice-presidente da International Association for Media and Communication Research.

Friday, August 31, 2007

SETEMBRO

Para entrar em Setembro, "From the same source" dos Rachel's...



...e uma proposta de casamento (tipograficamente elaborada).



Sejam benvindos.

Thursday, August 30, 2007

O DESIGN E A INVENÇÃO DA VIDA MODERNA


O Design surge no início do século XIX fundamentalmente como “programa disciplinar” político, intimamente associado ao novo poder (um bio-poder por diferença do anterior poder soberano). A história do Design tende a identificar quatro períodos fundamentais (que correspondem a quatro debates): o primeiro é originado pela separação das funções na produção manufactureira; o segundo caracteriza-se pelo debate entre os crafts e a industria; o terceiro terá a ver com o debate racionalista e funcionalista; o quarto envolverá o debate entre o neo-realismo e o neo-funcionalismo num contexto pós-industrial.

O design aparece-nos, desde as suas origens como disciplina de transformação intencional, cuja produção ultrapassa em muito, a produção de objectos industriais; o objecto industrial é, antes, o modelo de produção a partir do qual se fará a “produção e a reprodução da vida” como escreve Marx.

A grande exposição de Londres de 1851, promovida pelo príncipe Alberto pode ser pensada como elemento simbólico de fundação desta nova disciplina – o design – que celebra a um tempo um novo regime técnico, ou melhor cientifico-instrumental, e um novo regime político, ou melhor um novo regime de poder.


As grandes exposições internacionais nasceram da necessidade dos industriais mostrarem os seus produtos, que se encontravam imersos num sistema comercial onde já existia uma grande diversificação. Tratava-se, além disso, de dar a conhecer os últimos avanços da técnica, de apresentar conhecimentos recentes, e de semioticizar esse novo, estabelecendo ligações entre saber, fazer e poder.

Encontramo-nos, definitivamente, num mundo onde a competência, instrumentalmente definida, desempenhava um papel fundamental e as exposições deste tipo convertiam-se, de facto, numa espécie de feira de exemplos, com um valor normativo.

Durante a primeira metade do século XIX as exposições tinham um carácter nacional, devido às limitações colocadas por diversos países face ao comércio exterior ao procurarem proteger as indústrias locais. Mas as possibilidades abertas pelo comércio internacional foram muito importantes, atraindo um grupo cada vez mais numeroso de empresários, ao mesmo tempo que esse intercâmbio se estabelecia como uma necessidade de Estado. A grande mostra londrina abriu-se com este novo espírito. A exposição foi promovida pelo príncipe Alberto e por Henry Cole que tinha convencido o consorte da oportunidade do evento. O príncipe, como presidente da Royal Society of Arts, podia intervir nas questões que correspondiam directamente à promoção da arte e procurou vincular esta faceta à industrial. Juntamente com Henry Cole, membro da Royal Society, projectou uma série de eventos que culminariam na Exposição Universal de 1851 que teve simultaneamente um carácter internacional e industrial. Após conseguirem o imprescindível apoio financeiro, no início de 1850 colocava-se em marcha uma comissão organizadora presidida pelo príncipe Alberto.


No dia 1 de Maio de 1851, inaugurou-se a Exposição Universal em Londres, com a presença da rainha Vitória. Cinco meses e dez dias depois encerrava-se. Visitaram-na mais de seis milhões de pessoas, que puderam contemplar perto de cem mil produtos diferentes de, aproximadamente, catorze mil expositores. Um verdadeiro recorde para esta primeira grande mostra internacional da indústria. Ainda que mais de cinquenta por cento do exposto correspondesse a produtos britânicos, a presença internacional foi numerosa e significativa. Entre as secções estrangeiras a norte-americana despertou um grande interesse, embora inicialmente fosse acolhida friamente, entre outros motivos pelas dificuldades que teve para chegar ao evento, inaugurando a exposição sem muitos dos produtos que, por fim, formaram parte da mesma. Distinguia-se dos restantes expositores pelo interesse prestado aos produtos funcionais, ainda que, como já tivemos oportunidade de observar, na América do Norte não se tivesse deixado de prestar atenção à metrópole e de produzir objectos directamente derivados dos seus delineamentos, tanto estéticos como funcionais. Entre as peças mais destacadas na Exposição encontravam-se a ceifeira McCormick, os produtos de borracha Goodyear, o revólver de Samuel Colt e os sistemas da fechadura de Hobbs.

Depois da Exposição, o palácio foi desmontado e tornado a montar em Sydenham ao sul de Londres. Alguns insistiram que deveria permanecer no Hyde Park, mas também se adaptou muito bem à nova situação e somente a má sorte (um incêndio destruiu-o antes da Segunda Guerra Mundial) fez com que não o possamos ver actualmente. Outras construções emblemáticas (como a Torre Eiffel, construída para a Exposição de Paris de 1889) tiveram melhor sorte.

A grande exposição Universal de Londres de 1851 é, do ponto de vista da história do Design, sobretudo decisiva pela reacção negativa que provocou; autores tão diferentes como John Ruskin e William Morris, mas, também, Charles Dickens e Baudelaire, reagem negativamente sublinhando a má qualidade do estilo industrial e a ausência de uma adequação intencional entre os objectos industriais e a sociedade.

As grandes exposições do século XIX deixam, igualmente, perceber a importância do poder fazer a sua celebração a partir de eventos e de construir em torno desses eventos um equilíbrio novo entre a exponenciação do efémero e a sua perpetuação. A produção gráfica em torno dos eventos torna-se fundamental para os divulgar, para os perpetuar, para criar identidades entre visitante e a exposição, para veicular conteúdos de segunda ordem, para impor novos modelos de representação.

A imposição pioneira do Design faz-se, deste modo, em grande medida, a partir das exposições universais: Londres/1851; Paris/1889; Chicago/1893; nelas encontramos uma série de características importantes: o modo como a exposição celebra uma nova cultura (a um tempo técnica e política) cada vez mais associada à cultura de massas (Londres teve cinco milhões de visitantes; Paris 28 milhões); a celebração envolve uma componente monumental (é por ocasião da exposição de Paris que se constrói a torre Eiffel).

As grandes exposições do século XIX deixam, igualmente, perceber a importância do poder fazer a sua celebração a partir de eventos e de construir em torno desses eventos um equilíbrio novo entre a exponenciação do efémero e a sua perpetuação. A produção gráfica em torno dos eventos torna-se fundamental para os divulgar, para os perpetuar, para criar identidades entre visitante e a exposição, para veicular conteúdos de segunda ordem, para impor novos modelos de representação.

De resto, a história do Design ensina-nos que o primeiro projecto do poder político pós-industrialização é, como diz Foucault, um projecto disciplinar. Ou seja, a primeira “máquina industrial” é o Design pensado para servir o sistema; esta disciplina produz Designers (a Bauhaus é o exemplo de uma estrutura cujo grande produto são designers); os designers produzem objectos que alimentam a cadeia de produção industrial; estes objectos produzem comportamentos, mentalidades, perspectivas. O sistema político é a mega-máquina meta-funcional que produz tudo o resto (registos de normalidade e desvio; memória; imaginário)

No início da modernidade o Design direcciona-se para os grandes sectores produtivos e para a sociedade; progressivamente os objectos de Design vão revelando as alterações quer nos grandes sectores de produção quer na sociedade.

A partir das Grandes Exposições torna-se possível explorar, com mais clareza, as conexões entre a política, a economia, a vida material, a função das imagens na sociedade, e as formas de organização do olhar. Começamos a perceber como no século XIX as coisas se ligam: como se ligam os novos géneros de discurso (jornalístico como politico, comercial como artístico), com as novas práticas do olhar e do observar (desde as que são mediadas pelos novos instrumentos aquelas “quase naturais” como as visitas, populares na Paris de XIX, ao necrotério para observar os cadáveres, ou o olhar “peep” para as mulheres prostitutas) numa olhar em que o desviante é retirado do olhar ou normalizado (com a criação de espaços disciplinadores, prisão, hospício, bordel).

German Arcade (1905)

A importância da imagem não pode ser percebida sem ser relacionada com a evolução técnica (novos meios de produção e reprodução) com a evolução económica, isto é, com a lógica própria do mundo da mercadoria, exemplificada nos nexos entre arte e publicidade na invenção do cartaz, ou entre cultura visual, desejo e novas técnicas de marketing, e com a evolução politica que passa a deter novas formas de controlo a partir do uso das novas técnicas (como a fotografia) mas, também, a partir da linguagem, o que se torna, particularmente evidente, nos novos espaços urbanos encenados para produzir uma determinada semiótica.

As grandes exposições fazem já parte de um processo de “produção do olhar” e “produção do espectador”, em relação aos quais o poder politico está em exercício invisível. Estes grandes eventos não são estranhos a um processo metódico de construção de hiperestimulações que não podem ser entendidos senão no quadro de uma bio- política.

Ben Singer no seu estudo sobre “Modernidade e Hiperestímulo” chama a atenção para a construção progressiva de uma “Cultura do Acidente” associada ao espaço urbano; o espaço urbano é entendido como um espaço distópico, criando novas formas quer de atenção quer de distracção do olhar.

“O tráfego envolve o indivíduo numa série de choques e colisões” refere Walter Benjamin. A cultura do acidente (perigos do tráfego, acidentes de trabalho, acidentes quotidianos provocados pela tecnologia) tem vários objectivos:
Criar demarcações sociais entre força (masculina) e fraqueza (feminina, infantil) necessária para controlar os movimentos feministas; criar demarcações entre leigo e especialista, para manter um equilíbrio na visão da tecnologia entre o banal e o fantástico; criar situações de desgaste que potencializam a necessidade de lazer; preparar os espectadores para novas relações com estímulos; criar uma sensação de fragilidade ou equilíbrio frágil que se perde sem o garante do poder político (numa condenação clara da anarquia ou da autocracia).

Kaiser Panorama (1908)

Simultaneamente faz-se uma transição no interior de uma cultura do grotesco herdeira da idade média (desde os actos públicos do santo-ofício aos freak-shows) e a sua adaptação a novas linguagens e novos suportes: da literatura panorâmica aos Hale’s tours e destes ao cinema.


Alteram-se os termos de sustentação simbólica da formação nacional, esta que nós séc. XVII e XVIII era tarefa do capitalismo editorial (jornalismo e literatura); tal sustentação simbólica pelas imagens incluía agora os arquivos, instituições culturais que celebravam o poder: os museus etnográficos e as suas colecções de objectos e imagens dos povos colonizados; os museus de folclore registando um passado rural em dissolução, porém rentável no plano da identidade.

Nos museus é de realçar as tensões resultantes entre a presença das imagens e objectos como colecção (disposição espacial, em série, de elementos extraídos de um certo contexto) e as iniciativas de narrativizar os objectos e as imagens postos em exibição, o que era feito com a introdução de modelos (figuras de cera) compondo cenas típicas. Esta oposição entre o acervo exposto como colecção e o acervo disposto como narrativa (que encontra, igualmente traduções do ponto de vista comportamental e social), pode ser vista como correlato às tensões que se configuravam nos usos incipientes do cinema, onde o espectáculo tendia a compor uma série de atracções descontínuas (cenas da vida familiar, registos visuais de viagens, freak-shows, imagens de acidentes, novidades técnicas, encenações de gags etc.).

No início do cinema não se ia ao cinema para assistir a uma narrativa contínua. O início do século é, antes, marcado em todas as suas facetas por tensões entre continuidade e descontinuidade, que pode ser pensada a partir da tensão entre colecção (a montagem como justaposição) e integração narrativa (a montagem como efeito de continuidade) [as duas possibilidades forma testadas nas linhas de montagem fabris]. Neste contexto, o senso de transiência, do movimento e da substituição rápido dos estímulos inaugurava-se, de modo, a compor a própria ideia de modernidade como multiplicidade e simultaneidade de experiências.

As transformações do olhar, o processo cientifico e quotidiano de definição de um novo estatuto do olhar, está associado a uma nova sociedade técnica, regulada pela ciência moderna (pelo relógio) e que expandia a produção e consumo de mercadorias, pautada por actividades industriais e por uma circulação urbana (acentuada pelo automóvel e pelo circulação do eléctrico) que exigia dos seus habitantes, no campo visual: atenção, precisão, velocidade, medida.

O Design, como o cinema, a fotografia, formam um espaço para produção e promoção de ideias, técnicas e estratégias de representação associadas à nova cultura moderna. A modernidade não pode ser associada fora do contexto da cidade, que se faz palco para a circulação de corpos e mercadorias, a troca de olhares e o exercício do consumismo (inclusivamente o consumismo a partir do olhar – a cidade é montada para se “comer com os olhos” com a exploração das montras e de elementos de mediação (também o ecrã) o postal ilustrado etc., com a normalização do desvio e a sua encenação a partir do olhar (as ruas de prostituição de Paris).

Bons exemplos são os catálogos de venda por correspondência, na viragem do século as mulheres tornam-se tanto objecto quanto sujeito dessa nova forma de actividade de consumo. Objecto no sentido industrial do termo – produzido em série, montado, constituído por peças, funcionalizado – sujeito também no sentido produtivo-industrial – de produtor, montador, ou, coquette, observador, acompanhante das modas - .

Por outro lado, os catálogos produzem um tipo de flânerie rural: o leitor rural podia passear pelos produtos que construíam um determinado imaginário urbano, como um flâneur que deambula pela cidade. Com o catálogo passa igualmente outra ideia, a ideia de que a cidade pode ser simbolizada, e nessa medida, reduzida à condição de mercadoria, ou melhor um mercado, cuja materialização seria apinhada de vendedores, consumidores e espectadores. As marcas comerciais eram marcas de um determinado imaginário urbano, veiculadoras de comportamentos e desejos.


Como a flânerie exemplifica, a atenção moderna foi concebida não somente como visual e móvel, mas também fugaz e efémera. A atenção moderna é visão em movimento. As formas modernas da experiência dependiam não apenas do movimento, mas dessa junção de movimento e visão: imagens em movimento. Um precursor claro dessas imagens fora os caminhos de ferro, que eliminaram as barreiras tradicionais de espaço e distância à medida que forjaram uma intimidade física com o tempo e com o espaço e o movimento. A viagem de comboio antecipou uma faceta importante da experiência do cinema: uma pessoa, sentada, observa paisagens em movimento através de uma moldura que não muda de posição (o que aliás era um comportamento simbólico com profundas traduções politicas)


Não é, pois de estranhar que a psicologia científica desse tempo se tenha dedicado tanto ao estudo da percepção, em particular dos fenómenos da atenção, ainda, que, como sublinha Jonhatan Crary, a atenção e a distracção não eram dois estados essencialmente diferentes, mas existiam num único continuum. Em 1900 não só estamos já em plena vigência de uma nova cultura, como essa mesma cultura técnica, industrial, capitalista, difusa, hiperestimulante, moderna, começa já a ser abordada cientificamente.

A organização social moderna, no sentido de construção de uma série de práticas de comportamento e de formas de pensamento, faz-se a partir de uma ampla construção visual. A ciência da visão, que se desenvolve após a revolução industrial, integra e relaciona a dimensão anatómica (o estudo da dimensão fisiológica do acto de ver); filosófica (a diferença entre fenómeno e coisa em si); Óptica (o exame dos mecanismos da luz e da transmissão óptica); antropológica (as correspondências entre organização sensorial e organização étnica e social); socio-médica (relação entre doença e comportamento), mas, também, psicológica, legal, moral, etc.

Todo um modelo de sociedade é estruturado a partir de uma perspectiva visual, perspectiva essa na qual se ligam as dimensões tecnico-instrumental, cientifica, politica e quotidiana.

A imagem médica, a possibilidade proporcionada pelos novos instrumentos técnicos, de ver o infinitamente pequeno ou de ver o interior dos corpos, redefine um quadro de validade do visível, clínica e filosoficamente determinado, que, por extensão se aplica a todos os domínios da existência humana.

A topografia cerebral introduzida no século XIX, permite o desenvolvimento de uma série de análises, onde se destacam as de Paul Broca que, a partir da identificação da assimetria dos dois hemisférios do cérebro e da afirmação da superioridade do esquerdo, desenvolve todo um modelo assimétrico de análise que sustenta uma série de distinções entre homem e mulher, entre civilizado e primitivo, entre pessoas de raças diferentes, que dominam o discurso antropológico do século XIX.

Broca vai, ainda mais longe ao estabelecer uma hierarquia dos sentidos: “O Gosto é, a seguir ao tacto, o sentido mais inferior”, a visão é o “sentido especial”; a hierarquia é fundamentada em dois indicadores: o tipo de nervos implicados em cada órgão dos sentidos; a relações do órgão dos sentidos com o encéfalo; as relações entre o “olho” e a “memória” tornam-no o “sentido social por excelência”, segundo Broca.

Na sua famosa Estética de 1878 Eugène Véron, estabelece uma idêntica correspondência entre a hierarquia sensorial e a hierarquia artística, e dai operando relações com uma hierarquia social. Para Véron “Le dessin est le sexe masculin de l’art; la coueleur est le sexe féminin”, o desenho passa a estar associado ao hemisfério esquerdo, à inteligência, a cor ao hemisfério direito, à sensualidade

A cor é, no século XIX associada ao popular, ao kitsch, ao superficial, à mulher e à marginalidade; a razão, a intelectualidade é associada ao preto e branco, à linha e ao Desenho.

A obra de Verón, muito popular à época, estabelece correspondências entre comportamento moral e determinados impulsos artísticos. Assim a tatuagem é pensada como o grau zero do impulso artístico (social e moralmente má) seguida da “deformação da boca”, pelo uso de batôn, pelo uso de perfumes, e assim sucessivamente até se chegar à pintura e à música como artes masculinas.

Uma obra como a Estética de Véron encarregava-se, a um tempo, de aplicar num plano mais quotidiano um saber possibilitado pela análise instrumental, sendo assim veiculador do discurso científico, traduzindo esse saber científico num modelo de orientação e organização mental e comportamental, sendo assim veiculador de um determinado discurso político. A definição do papel da mulher, a minimização de certas etnias, a anatomização do mal, são aspectos supostamente suportados pelo rigor científico da observação instrumental.

O meio por excelência da investigação, da aquisição dos conhecimentos é a “observação”, os modelos de observação contemplam regras acerca da “distância” entre observador e observado, regras de iluminação, de manipulação dos instrumentos etc.

O recurso ao instrumento faz parte da regra da observação, lê-se na Enciclopédia Dechambre de 1885 na entrada observação: “Não há diagnóstico exacto da doença da laringe sem laringoscópio, dos olhos sem oftalmoscópio, dos pulmões sem estetoscópio, do útero sem spéculum, das variações da temperatura sem termómetro”.

Os instrumentos técnicos são, simultaneamente instrumentos sensoriais, e instrumentos sociais, a influência, por exemplo, do oftalmoscópio introduzido por Helmholtz em 1850 é fundamental do ponto de vista anatómico, mas também do estudo dos processos de relação com a luz, importantes para o desenvolvimento da fotografia, bem como para as consequências comportamentais que estabelece.

O novo pensamento funcionalista exige a adaptação do órgão à função, o que é feito em todos os sentidos, ainda que com destaque à adaptação da visão ao objecto visual.

A imagem torna-se um elemento disciplinador, funcionando como um operador de micro-poder. Precisamente neste sentido ela funciona como interface entre um infinitamente pequeno e um infinitamente grande, cimentando uma unidade sistemática entre eles. Na Modernidade o mesmo poder controla a ciência responsável pela criação de meios de produção das imagens; os meios, as estruturas e os registos de produção; a circulação das imagens e a sua recepção; dominando um sistema de produção que produz imagens da mesma forma que produz espectadores.

Tuesday, August 28, 2007

DESIGN GRÁFICO NORTE-AMERICANO: A REINTERPRETAÇÃO DOS “GÉNEROS”

A reinterpretação dos “géneros” – associados a determinadas sub-culturas norte-americanas – que Quentin Tarantino tem vindo a fazer, retirando esses “géneros” – o Pulp, o BlackExploitation, o GrindHouse… - do seu contexto original e explorando as possibilidades comunicativas que nascem da descontextualização de linguagens formais muito marcadas, tem vindo igualmente a ser feita por inúmeros designers gráficos norte-americanos.

O que mais se destaca no trabalho de Art Chantry, Casey Burns, Jason Goad, Nate Duval ou, dos menos conhecidos, Lon Jerome ou do estúdio de Buffalo Hero Design Studio, é o modo como eles desenvolvem uma apropriação de linguagens formais tidas como “pobres” – numa atenção ao detrito, ao ruído, ao “trash”, às linguagens marginais – e as integram em contextos potencialmente “nobres”.

Embora se não deva reduzir a fortíssima identidade do trabalho de Chantry ou Goad a este processo de “reciclagem” e “recontextualização” formal de linguagens da “américa profunda” não só esse processo é claro como, ainda, ele revela uma preocupação intencional em reflectir sobre os discursos gráficos “vernaculares” e em jogar com possíveis cruzamentos entre (o que há falta de melhor qualificação) podemos chamar de uma discursividade “mainstream” e uma discursividade “underground”.

Os cartazes para concertos ilustram-no muito bem. Fica uma série de “posters” desenhados por: Art Chandry (os dois primeiros); Frida Clements; Hero Design Studio; Jason Goad (o sexto e sétimo); Greg Harrison; Lon Jerome; Nate Duval e Casey Burns (os dois últimos).











DESIGN GRÁFICO EM PORTUGAL

Acaba de ser publicado o nº 11 da revista Russa IDENTITY que inclui um excelente artigo de Emanuel Barbosa sobre Design Gráfico em Portugal.

Aqui ficam (com um agradecimento ao seu autor) algumas passagens do artigo:

"Graphic design in Portugal

by Emanuel Barbosa

(...)

Graphic design in Portugal has no major reference than Sebastião Rodrigues (1929-1997), a graphic artist (the name that before the professionals of graphic communication were called). After forty years of work as a graphic artist, Rodrigues was internationally distinguished in 1991 by ICOGRADA's "Excellence Award" in consideration of his remarkable work for Calouste Gulbenkian Foundation - he created the corporate identity of this institution - still in use today. His legacy still lives and the book about his work (Sebastião Rodrigues - Designer, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisbon) its a "must" in every portuguese designer bookshelf.

(...)

The first generation of portuguese graphic artists started with the knowledge of traditional arts and crafts: backgrounds from painting, sculpture or architecture allowed this pioneers to develop an important amount of high-quality works. Authors like Victor Palla, Abel Manta, Thomaz de Mello, Fernando de Azevedo, Lima de Freitas and Octávio Clérigo were very influencial with their high-quality work and opened new roads for the future generations. For decades they became the front line of a brand new activity in this old country.

(...)

Just recently the portuguese design community started to write on internet about design theory issues. Some blogs like Ressabiator (http://ressabiator.wordpress.com) - written by Mário Moura, Reactor (http://reactor-reactor.blogspot.com) - written by José Bártolo or Designio (http://designio.com.sapo.pt) - written by Luís Inácio, started to become more and more popular with important design research topics and there is a growing interest on academic discussions about graphic design issues. (...)".

Recordamos que Emanuel Barbosa foi entrevistado pelo Reactor (29.05.07), entrevista cuja leitura (ou releitura) aconselhamos.

Monday, August 27, 2007

O DESIGN GENERALIZADO


A exposição que o Centro Georges Pompidou propõe neste momento é verdadeiramente entusiasmante: chama-se D DAY, e tem como título verdadeiro LE DESIGN AUJOURD’HUI. A variedade de aspectos é imensa e renova por completo a nossa concepção do design. Ela considera os objectos e considera ainda os grafismos e os dispositivos comunicacionais, mas está longe de se resumir a isso.

A ideia central é esta: o design contemporâneo tem como material procedimentos, comportamentos e mentalidades. São práticas deste tipo que redesenham o mundo em que vivemos. A comissária do empreendimento Valerie Guillaume, propõe-se ter em conta os aspectos antropológicos e estéticos desta actividade. Se temos objectos técnicos ou mobiliários, temos também produtos e serviços, tipografia, dimensões olfactivas e alimentares. Daí que os domínios envolvidos sejam tão diversos como “a ética, a democracia, o consumo, o desenvolvimento local e global, as biotecnologia, a desmaterialização do objecto e o bem-estar pessoal.”

Mas há duas disciplinas que são essenciais. Uma delas é a antropologia. Já darei um exemplo. A outra são as neurociências e a psicologia cognitiva: os objectos são considerados não apenas visualmente, mas na sua dimensão sonora, táctil, olfactiva.

Dou um exemplo do primeiro aspecto. Uma das inúmeras salas é feita em colaboração com um antropólogo italiano, Franco La Cecla, e tem por objecto a análise das transformações nos comportamentos e nas relações sociais no Senegal. É claro que poderíamos fazer o mesmo em Portugal ou em França. Mas não existiria a desproporção tecnológica que existe num pais como o Senegal. Há novos gestos, novas colocações da mão, novas formas de ouvir, novas modalidades de comunicação.

Outro exemplo: o design sonoro. Não é uma plena novidade, mas aqui é de tal modo estudado e esmiuçado que descobrimos inúmeras coisas em que nunca tínhamos pensado. Os sons podem ser trabalhados e devem ser doseados: há uma polaridade entre o espaço harmonioso e o espaço desagradável.

Em muitos casos, temos a combinação de um objecto visual com um objecto sonoro de modo a criar um terceiro objecto sensorial. Aos efeitos de articulação discordante chamamos “efeito McGurk”. Hoje os objectos que apenas existem pelo som pertencem quase sempre à pura nostalgia: o chiar das rodas nos carris da praia de Sintra para a Praia Grande. Mas podemos utilizar sons que têm valor de marcas de luxo. Por exemplo: o ruído sport em carros que o não são.

Temos também as sinalética sonoras quase sempre ligadas a sinais de alarme: cinto do condutor que não está preso, falha técnica, etc. Ou na medicina: electrocardiogramas. Um som é sempre uma assinatura e reflecte a natureza do objecto. Tudo isto faz a complexidade de uma exposição.

EDUARDO PRADO COELHO
O Fio do Horizonte, Público, 27 de Outubro de 2005.

Monday, August 20, 2007

EXPOSIÇÃO



100 POSTERS PARA UN SIGLO
Fundación Pedro Barrié de la Maza | Corunha
12 Julho-16 Setembro

* Uma versão mais desenvolvida deste texto estará brevemente disponível na ARTE CAPITAL

A exposição 100 posters para um século persegue dois ambiciosos objectivos: apresentar a história do cartaz ao longo do século XX e, simultaneamente, pensar a história do século XX a partir dos cartazes produzidos durante esse período.

A limitação rigorosa a cem exemplares da Plakatsammlung (colecção de posters) do Museum für Gestaltung Zürich conduz inevitavelmente à imposição de uma visão subjectiva que lançando um olhar selectivo sobre uma colecção imensa – mais de 330.000 cartazes, dos quais 120.000 catalogados e inventariados – produz uma – entre outras possíveis – visão histórica sobre este objecto gráfico, os meios produtivos que lhes estão associados e as pregnâncias artísticas e sociais que nele se revelam.

A colecção de cartazes do Museum für Gestaltung Zürich dirigido por Christian Brändle é, seguramente, uma das mais relevantes a nível mundial – juntamente com as colecções do Victoria and Albert Museum, do MoMA e do Stedelijk Museum de Amsterdão - e uma das que melhor ilustra a evolução do cartaz desde meados do século XIX até aos nossos dias, documentando bem a sua diversidade temática – destacando-se três grandes eixos temáticos: comercial, cultural e político – geográfica – destacando-se quatro “geografias” dominantes: a Europa; a União Soviética; o Japão e os Estados Unidos - bem como a diversidade de estilos e técnicas – da litografia ao digital – experimentados ao longo do século passado.


O primeiro cartaz impresso conhecido foi produzido em Inglaterra por William Caxton em 1447, no entanto a restrição ou mesmo a proibição – como aconteceu em França durante o século XVII – da afixação de cartazes em vários países ao longo do século XVI e XVII ajuda a explicar que a história do cartaz moderno verdadeiramente apenas nasça após 1869 quando começam a aparecer os cartazes de Jules Chéret.



Percebe-se, pois, que contar a história do cartaz e, nesse gesto, contar a história do século XX através do cartaz (de cem cartazes, mais precisamente) fosse tarefa complexa. Os curadores Balthasar Zimmerman e Bettina Richter conseguem, todavia, vencer o desafio proposto, utilizando o fio cronológico como laço que permite tecer “nós temáticos” a partir dos quais a exposição está organizada.

Assim, após um Prólogo que nos faz o enquadramento macro da exposição – e onde encontramos dois cartazes fabulosos, um de Julius Klinger (1921) e outro de George Tscherny (1975) – surge o primeiro nó temático, O Nascimento de um Medium, que inclui nove cartazes, próximos do Modern Style e da Art Nouveau, produzidos entre 1892 e 1914 e onde se destacam os cartazes de Chéret, de Toulouse-Lautrec e de Alfons Mucha.

A terceira série de cartazes integra cartazes políticos, de resistência e de propaganda, produzidos durante a 1ª Guerra Mundial, aí encontramos os icónicos cartazes de Hermann Max Pechstein e de Käthe Kollwitz.

A quarta série de cartazes, organizada em torno do nó temático Esperança e Saída, revela um significativo alargamento das linguagens utilizadas e uma nova lógica comunicativa associada ao cartaz. A apologia do progresso e da técnica repercute-se directamente sobre a produção gráfica, a linguagem artística e projectual é progressivamente depurada do lastro ornamental; a publicidade actua de forma mais subtil e desenvolve novas estratégias passando, intencionalmente, a criar necessidades; produtos e máquinas convertem-se em objectos-fétiche; a fotografia e o cinema oferecem novos meios figurativos; a nova objectividade e a influência do movimento De Stijl e da Bauhaus influência quer a linguagem formal, quer a intenção comunicativa dos cartazes; a montagem torna-se o procedimento de configuração mais recorrente, permitindo criar simultaneidade, sobreposição e penetração de mundos pictóricos e de mensagens; o construtivismo russo integra elementos fotográficos, tipográficos e ilustrativos criando uma nova linguagem visual capaz de comunicar uma nova utopia social. Compreende-se assim a espantosa diversidade de cartazes reunidos nesta série do cartaz para cinema de Jan Tschichold (1927) ao cartaz da Exposição Russa de 1929 de El Lissitzky e terminando no cartaz de propaganda do regime de Mao (1958).



A pequena série de cinco cartazes subordinados ao tema Europa em Guerra integra cartazes pacifistas e de resistência ao regime Nazi, surgindo-nos cartazes em fotolitografia e offset. O nó temático seguinte A Brave New World? é dos melhor documentados, dezoito cartazes, essencialmente comerciais, com destaque para os anos 40 e 50.

A sétima série mostra cartazes reunidos sob o tema Arte e Pop. Trata-se de uma série magnífica com os cartazes dos Atelier Populaire, Roman Cieslewicz, Andy Warhol e Peter Gee.

A série seguinte, Consumo, depõem-nos já no interior de uma cultura ocidental dominada por um mercado da abundância, ilustrando ainda como determinados valores sociais são integrados numa nova linguagem publicitária – como no cartaz de Oliviero Toscani para a Benetton (1992).

Finalmente, as duas últimas séries intituladas Salvemos o Planeta e Novas Guerras ilustram o envolvimento social e político de artistas e designers, a integração de novas causas – ecologia, terceiro mundo – e o acompanhamento de uma agenda de actualidade – guerra no Golfo; terrorismo – a qual o cartaz sempre conseguiu responder bem.



Numa selecção de 100 cartazes do século XX escolhidos do acervo de um único museu é fácil saltarem à vista muitas ausências. É fácil pensar-se que os períodos entre guerras estão pouco documentados – faltam os cartazes de propaganda fascista alemães e italianos como faltam os cartazes de John Hartfield – que não há cartazes japoneses e que os norte-americanos são escassos – e de James Montgomery Flagg a Milton Glaser são tantos os que são decisivos – que falta ilustrar uma série de movimentos – do Dada ao Punk – e caracterizar melhor a contemporaneidade – Tibor Kalman, Barbara Kruger, Jonathan Barnbrook, Neville Brody, Art Chantry e tantos outros, tudo isso é certo, mas se preferirmos destacar as presenças e o modo como elas estão organizadas não podemos deixar de afirmar que a mostra 100 posters para um século nos oferece um olhar abrangente e consistente sobre um objecto gráfico que, com uma importância central, atravessa o século XX sendo dele testemunha privilegiada.

Sunday, August 19, 2007



INTERACT #14

Já se encontra disponível o último número da revista electrónica INTERACT, editada pelo CECL da Universidade Nova de Lisboa. Trata-se de um número temático, sobre a "Ciberpalavra" e que apresenta algumas novidades em relação às edições anteriores (nomeadamente um maior número de hiperligações e uma secção de links).

Para além do nosso contributo - um ensaio de aproximação a uma interpretação do pensamento como música - destaque para o artigo de Jacinto Godinho sobre "O Rascunho na Era Digital"; para as anotações de José Augusto Mourão; o trabalho experimental de André Sier e a excelente entrevista com Eduardo Kac.

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com