Saturday, October 06, 2007




12 MESES DE DESIGN EM PORTUGAL


O Reactor nasceu dia 6 de Outubro de 2006, há precisamente um ano. O reconhecimento da crescente importância dos blogs relativamente à difusão e discussão de ideias e a consciência da escassa existência, em Portugal, de outros meios nos quais o design fosse objecto de reflexão séria e consistente, levou-me a desenvolver este projecto que permitir-me-ia desenvolver uma nova estratégia de diálogo com os meus interlocutores de sempre – amigos, colegas e alguns alunos que, como eu, sabem, que a prática do design não se faz sem uma verdadeira “prática de ideias” – e alargar esse diálogo a novas vozes permitindo um exercício de contraditório mais amplo e dinâmico.

Apesar de algumas indefinições ao nível de modelo e método, o Reactor procurou, desde o primeiro “post” harmonizar uma orientação de registo mais ensaístico com um outro registo quase jornalístico, ou seja, a componente de crítica assumidamente autoral com a componente de divulgação menos “contaminada” pela marca interpretativa. A intenção de harmonizar estes dois registos tinha a ver com a própria natureza do medium, sendo o blog um espaço de reversibilidade entre escritor/leitor, espaço de diálogo onde as ideias do “autor” são “rescritas” pelos leitores, a própria natureza dos textos deveria oferecer aos leitores consistência para que houvesse ancoragem para o seu comentário e abertura para que esse comentário encontrasse estímulo. Tendo o Reactor nascido sob o signo da balança, a instabilidade dos equilíbrios tocou-lhe como marca. Os textos foram sendo crescentemente lidos (os últimos seis meses consolidaram uma média de 150 visitas por dia) mas escassamente comentados com as naturais consequências que daí resultam para a vida do blog.

Passados 12 meses, o que aconteceu durante este tempo na cultura do design em Portugal?

O ano civil inicia-se com o anúncio do cancelamento da edição 2007 da ExperimentaDesign. O caos instalado na Câmara de Lisboa foi a principal, mas não a única, razão para este cancelamento. È consensual que Portugal não pode prescindir de um evento com a relevância da ExperimentaDesign e parece claro que essa relevância permite que o evento se realize mesmo que a principal Câmara do país esteja cativa da incompetência do seu executivo, o que faz com que as razões (eminentemente políticas) deste cancelamento mereçam ser pensadas. A Experimenta não pode realizar o evento dentro das condições que quis e não quis, seguramente com razão, realizar o evento dentro das condições que teve. As divergências entre agentes culturais e agentes económicos tendem a acentuar-se sempre que o papel de uns e de outros se torna reversível.

Recentemente, enquanto Guta Moura Guedes dava uma esclarecedora entrevista ao Reactor, a Universidade do Minho e Câmara Municipal de Guimarães anunciavam criar, no âmbito do projecto CampUrbis, a Bienal do Design, a arrancar em 2008, e a partir de 2012, ano em que a cidade é Capital Europeia da Cultura, o Instituto de Design Aplicado. A um ano (ou eventualmente menos) do início da futura Bienal nada foi tornado público, nem uma ideia sobre o sentido do evento, os critérios de programação ou o nome dos programadores.
Em todo o caso, parece ser clara uma crescente atenção política relativamente ao design. Este facto deveria decorrer, em princípio, da meritória acção do CPD enquanto organismo a quem compete o exercício do “lobby” junto do poder político e económico, no entanto, sabe-se que dele não decorre. A acção, diletante e inconsequente, de Henrique Cayatte à frente do Centro Português de Design tem sido uma desilusão. Parece-me justo destacar, em contrapartida, a acção meritória da AND, porém apesar do seu louvável empenho creio que a atenção (crescente nos últimos 15 anos) de alguns agentes políticos e económicos relativamente ao design não resulta destes estarem mais e melhor esclarecidos mas, essencialmente, de uma renovada ignorância sobre o que é o design. A crescente circulação da palavra “design” não é acompanhada por uma crescente definição do que o design é, pelo contrario, o “sucesso do design” deve-se sobretudo ao facto da palavra deixar de ser progressivamente usada como substantivo e passar a ser usada como um adjectivo com um valor qualificativo cada vez mais frágil e indefinido. Em todo o caso, esta banalização não deixa de ter uma face positiva ao permitir uma maior abertura relativamente ao design. A publicação em Diário da República do reconhecimento da actividade de designer é, alias, uma consequência muito positiva desta (ainda que tardia) abertura.

Vários acontecimentos, alguns particularmente relevantes, contribuíram, ao longo destes doze meses, para a dinamização da nossa cultura do design, destaquemos alguns:

a) Várias conferências foram acontecendo de norte a sul do país. Através das conferências foi possível perceber o importante papel que algumas escolas de design vem revelando, a existência de público e o crescente acompanhamento mediático (dos jornais aos blogs) em torno dos eventos. O destaque maior vai para o extraordinário ciclo Personal Views que Andrew Howard e a ESAD tem vindo a promover. A oportunidade de termos entre nós, num espaço de pouco meses, Spiekerman, Lupton, Blauvelt, Brody ou os Experimental Jetset é algo de raro e extraordinariamente importante. Uma palavra, ainda, para a conferência Underground organizada, em Novembro, pela Design Research Society e pela ESD/IADE; para duas conferências, durante o mês de Junho, na Lusófona (o Congresso “Arte, Design e Tecnologia” e “Os caminhos do design”); e para a conferência “Reflexões sobre o Design” que em Maio levaram a Almada nomes como Paulo Heitlinger, Nuno Coelho ou Lasalete de Sousa.
b) Com o MUDE – Museu do Design e da Moda virtualmente existente porém sem mostrar nada de relevante, com as grandes instituições e os grandes museus a revelarem a continuada ausência de atenção relativamente ao design (a exposição no verão de 2006 sobra a Roma Publications na Culturgest foi a excepção), o destaque maior vai para a colaboração de Stefan Sagmeister com a Casa da Música, a identidade da instituição foi apresentada pelo designer austríaco nesse fim-de-semana alucinante marcado ainda pela presença de Neville Brody na ESAD. Relativamente a exposições ou instalações de design, elas aconteceram pontualmente. No verão a instalação Mensagens que tive o prazer de comissariar levou à Área Panorâmica de Tui, na Galiza, a voz de mais de uma dezena de designers portugueses (João Machado, Frederico Duarte, Heitor Alvelos, R2, Miguel Carvalhais, Nuno Coelho, Francisco Laranjo, António Silveira Gomes, Valdemar Lamego, André Cruz, Pedro Taboaço, David Carvalho e Joana Bértholo ); recentemente inaugurou a exposição Remade In Portugal patente na Estufa Fria.
c) Destaque para a transformação gráfica do Público, redesenhado por Mark Porter, o designer do Guardian; a par da transformação gráfica assistimos a alguma renovação ao nível de conteúdos com realce para os artigos de Frederico Duarte. Outros destaques há que merecem ser feitos: Os Silva!Design deixam de desenhar a Agenda Lisboa, perdeu-se qualidade e imaginação gráfica, perdeu-se o contacto seminal com as magníficas ilustrações da Sofia Dias; algumas editoras revelam uma atenção particular dada ao design gráfico (com a Tinta da China); o nosso pequeno Mercado editorial procura usar as plataformas web para se estender, surgindo o The Radical Designist e os Cadernos de Tipografia.
d) Estes últimos 12 meses serviram, também, para reforçar em termos nacionais e internacionais a qualidade do trabalho de alguns jovens estúdios e designers, como é o caso da Boca do Lobo, André Cruz ou os Pedrita, entre outros.


Penso ser consensual que o surgimento dos blogs contribuiu para renovar e alargar o espaço de reflexão sobre o Design. Em termos internacionais, blogs como o Design Observer ou o BLDG tornaram-se referências determinantes, com um papel claramente activo na construção teórica do design e da arquitectura contemporâneas. Em Portugal, neste ultimo ano surgiram vários blogs centrados na prática do design (o Design português surge em Setembro; o CoconutJam em Outubro; o Design Lab em Março) juntando-se a outros anteriormente criados (destacando-se o Ressabiator e o Desígnio) e cujo papel divulgador, formador e dinamizador do design é inquestionável. Da parte Reactor houve, desde sempre, consciência da importância de um trabalho que sendo individual visa objectivos comuns, que implicando dedicação individual só pode ser feito através da partilha colectiva.

No futuro próximo, a estrutura do Reactor será ajustada mas não sofrerá significativas alterações. Manter-se-á uma regular publicação de entrevistas, de ensaios e a procura de mapear o território do design. Haverá lugar a novas colunas (como a “Pequena Enciclopédia de Design” e o “Design and the City”) e a procura de criar extensões entre a actividade on-line e off-line. Continuaremos activos e reactivos, esperamos dos leitores uma crescente participação e o necessário diálogo que é, afinal, a razão de ser deste projecto.

Friday, October 05, 2007

BREVES


O Design Observer acaba de destacar os videos dos Personal Views, comissariados por Andrew Howard, que se encontram disponíveis no site da ESAD. Destaque muito justo para aquele que é, por esta altura, o mais importante ciclo de conferências internacional sobre design gráfico. A nova temporada aproxima-se e Matosinhos volta a ser local de visita obrigatória.

As mudanças na Vogue americana são já notórias. Já se sabia da saída de Anna Wintour e da entrada de Scott King. A marca de King já é evidente (uma Vogue tipográfica!) e surpreendente (uma Vogue gratuíta!!).



"What Can Design Do? How can branding help (or hinder) climate change?" é o tema de uma óptima reflexão de Michael Johnson.



Do próprio Michael Johnson mas também de Adrian Shaughnessy e tantos outros estão disponíveis aquiem podcast reflexões, statements e entrevistas imperdíveis.

A Campanha "Real Beauty" continua interessante. Veja-se o novo "Onslaught":



Na blogosfera várias entrevistas relevantes, com destaque para a entrevista com o extraordinário arquitecto Lebbeus Woods no BLDGBLOG



e com Donald Kuspit, o autor de "The End of Art".



Estão on-line vários textos que merecem leitura atenta, dois destaques: o último de Pedro Marques no Montag (onde quase todos os textos são essenciais) e para a crítica de Lígia Afonso à exposição "Transitioners" da Société Réaliste publicada na Arte Capital.

Vão ter o comentário que merecem aqui no Reactor, mas por agora o destaque para as incontornáveis "visões" do design editadas no Stock Exchange of Visions.

Há muita coisa a acontecer ou em vias de acontecer, enquanto não arranca o projecto (colectivo) de um blog que, de uma forma atenta e crítica, faça o "cartaz" de acontecimentos "crossover" embora com uma particular focagem no design e na arte contemporânea (projecto-iniciativa do Reactor e que se anúncia para breve), aqui ficam alguns destaques:

Hoje, a Rua Cândido dos Reis é palco do festival de Rua "se esta rua fosse minha..."



Anunciado para o final do mês está "In Rainbows" o último Radiohead, o design gráfico é do colaborador de longa data Stanley Donwood.



Foi publicado e merece leitura, o Manifesto Lumiere uma espécie de Dogma 95 para videoblogging.

Se fosse necessário um pretexto para ir a Paris aqui está ele, uma instalação no Pompidou que remonta a correspondência de cartas filmadas trocadas entre Kiarostami e Erice.



A exposição de The Atlas Group que Miguel Wandschneider trouxe à Culturgest é uma das reflexões mais extraordinárias já apresentadas em Portugal sobre o poder da "montagem" enquanto fronteira trabalhada artisticamente entre o "olhar individual" e o "olhar político".



Um rápido destaque para a presença das islandesas Amiina no Santiago Alquimista,



Para o suiço Sasha "Kalabrese" Winkler no Imago,




Para a estreia de Planeta "Rodriguez" Terror,




Para a edição em DVD, graças à Midas, dos filmes de Hal Hartley,




Último destaque para o primeiro aniversário do Reactor que amanhã se comemora. A festa é (relativamente) privada mas tendo sido muitos os convidados (vamos esperar pelo Paul Auster e tantos outros improváveis) há sempre espaço para mais um. Para encontrar a festa é só seguir o labirinto :)

Wednesday, October 03, 2007

ACERCA DO “FIM”



Iniciei há uns meses o trabalho de escrita de “posfácios” a diversos livros. O projecto, que nasceu num enquadramento académico, cedo foi contaminado por regras pessoais passando a obedecer a um princípio orientador menos estável. De um pequeno conjunto de livros sobre design, em relação aos quais deveria redigir um “posfácio” de cerca de 5 páginas, parti para uma diversificada escolha de livros (da poesia ao conto) a posfaciar e daí para a escrita de posfácios a livros imaginários. Saber colocar um fim é importante.

Que tudo se nos apresenta de certa forma inconcluso, parece-me evidente. O fim é sempre uma marca provisória que nós facilmente podemos apagar ou transformar.

Um livro, um filme, mesmo um edifício só aparentemente estão terminados. A tarefa do leitor, do espectador, do habitante é, precisamente, a de prolongar a obra. A interpretação é, de facto, tarefa de rescrita, tal como a memória. E neste sentido, o esquecimento será a sua temporária conclusão até ao momento em que os fantasmas adormecidos da obra nos invocam ou são por nós invocados.

O fim de uma obra é importante e devemos saber que o “Fim” não é o Fim.








Sunday, September 30, 2007

O DESIGN SOCIAL EM QUESTÃO: ENTREVISTA COM JOANA BÉRTHOLO


Joana Bértholo é actualmente responsável pela pesquisa e coordenação do projecto Social Design Site, sediado em Berlim. Formada em Design de Comunicação pelas Belas-Artes de Lisboa, o seu trabalho de final de curso sobre produção gráfica sustentável parece ter-lhe definido o rumo. A causa de um design socialmente mais empenhado é actualmente central no seu trabalho e na sua vida.




REACTOR: No final da década de 90 assistimos ao ressurgir do discurso na sua forma mais comprometida com a acção – o manifesto. A publicação de uma nova versão do Manifesto First Things Firts em 1999 parecia encontrar, nessa viragem do século, espaço de recepção entre designers (teoricamente preparados pelo criticismo norte-americano e crescentemente identificados com os processos de acção directa de estruturas como os Adbusters ou os Cactus Network) impondo uma “agenda social e política” associada ao trabalho dos designers. Que leitura faz desse processo e o que lhe parece ter sido construído a partir daí?

JOANA BÉRTHOLO: No essencial, penso que as coisas não mudaram muito.
A comunidade de designers é ainda qualquer coisa de plural, e é bom que assim seja. Mas julgo que estamos ainda longe de uma unidade no que toca a percepção do nosso papel como agentes sociais. Há ainda uma larga maioria de designers para quem estas questões não são sequer ponderadas. Ou que se sentem de tal forma limitados por uma instituição, um cliente, ou um mercado, que transferem a ideia de uma agenda social e politica permanente, para um plano utópico, ou teórico, muito além da sua zona de actuação.
Se em 64 eram umas quatro centenas de visionários, em 99 seriam só uma pequena elite, mas representando muitos mais; Em 2007 somos já uma rede, altamente activa, altamente motivada, altamente dedicada. Mas, arrisco: ainda em minoria?
A verdade é que ainda se discutem as consequências e competências sociais do design como se fosse qualquer coisa a integrar, a anexar, ao processo. Como se não fosse algo de intrínseco à actividade de qualquer designer: quer ele esteja consciente disso ou não.
Indubitavelmente, esse nível de consciência aumentou, ou generalizou-se. E até a uma velocidade considerável, neste último par de anos, com o surgimento do “verde” e do “sustentável” como algo em moda.
Hoje, fechado ou não num fenómeno de moda, o design social e ambientalmente responsável tornou-se uma tendência tão forte e contagiante, que enfrentamos uma quase-saturação de networks e contactologia, sobretudo promovidas pela net. Todos os dias surgem recursos e plataformas novas ao serviço do designer bem intencionado. A oferta não aumentou só a nível do tamanho dessa (talvez) minoria, como também na sua complexidade. Cada vez mais, os designers a encontram lugar dentro de equipas multidisciplinares, e são chamados a responder problemas de pertinência global, de redesign de atitudes e paradigmas, muito para lá dos objectos e das mensagens.
Na base de qualquer discurso sobre Design Socialmente Responsável tenho de clarificar que não sou adepta da ideia do designer-todo-poderoso que vem salvar o mundo. Acredito que os designers têm de assumir o poder (papel?) que lhes possa caber, como iniciadores, como promotores, como catalistas ou como mediadores, entre uma lógica de consumo e uma lógica de informação. Mas não está só nas nossas mãos. Temos de saber é dar as mãos às pessoas certas…Entenda-se: quero com isto dizer, cooperação, colaboração e multidisciplinaridade.


R: Um célebre editorial de Vicente Jorge Silva no Público classificava, em meados dos anos 90, uma geração de estudantes universitários e pré-universitários portugueses de "geração rasca". O que, então, se questionava era a existência ou não de causas associadas a uma determinada luta. Também no Design, o empenho e a responsabilidade social parece só agora surgir definida depois de oscilar entre um “discurso de oposição” e um “discurso de alternativa”. Ter-se-á evoluído do designer como “agitador” para o designer como “catalizador” social?

J.B.: Tenho algumas reservas em relação a esta ideia de evolução: há aqui alguma avaliação qualitativa do designer como catalisador em relação ao designer como agitador? Não será que na maioria dos casos uma e outra coisa andem de mãos dadas?
Acredito sobretudo na força de uma pluralidade de tipologias, sempre dentro de um entendimento comum do papel social do designer. Há tantos papeis e tantos contextos a preencher, que generalizar seria colocar as largas possibilidades da actividade do design dentro de um compartimento demasiado cerrado.
Nem todos os designers estão interessados em trabalhar à margem de um sistema, ou em oposição a este. A maioria nem acha isso exequível. Nem tudo se reduz a um questionar do “status-quo”, mesmo quando manter o espírito crítico seja condição incontornável.
Fazer perguntas. Pensar fora da caixa. Alternativa, ou oposição…
Dentro de uma ideia maior de design socialmente consciente, há diversas abordagens, do designer como agitador, como reivindicador, mas também do designer como iniciador de novas tendências, como promotor, como facilitador, ou acelerador/catalisador…
Há também um novo espaço de actuação em definição gradual, que pessoalmente acredito irá dominar a actividade do designer em futuros próximos. Esta tem a ver com a ideia do designer como maestro, como aquele que desenha as ferramentas ou lança as estruturas sobre as quais ou com as quais todos os outros podem desenhar também. As ilustrações mais expressivas desta tipologia são todos os tipos de software e jogos “open-source”, ou o Second Life. Através desta lógica, o designer pode tornar-se um agente extremamente importante na criação de formas de participação social, de cidadania, de debate público.
Não acho que haja evolução. Talvez, complexificação ?


R: Parece claro que a acção que não é orientada por um “programa” é tendencialmente estéril. A Exposição Catalysts que o Max Bruinsma comissariou para o CCB (integrada na Experimenta) era, em meu entender, desastrosa porque, retirando os trabalhos ao contexto crítico da sua produção, apresentava aos visitantes simples exercícios formais. Parece-me que os “culture jammers” tiveram o mérito de dar visibilidade mediática à ideia de que o design é uma ferramenta social, política e económica, ideia esta que recebeu a necessária sustentação teórica e programática em obras como o Citizen Designer do Heller e da Vienne . Este enquadramento programático e a sua crescente divulgação – em conferências, revistas e mais recentemente blogs – permitiu o ressurgimento de projectos colectivos com lógicas fortes de aplicação social do design, algo que desaparecera com o fim dos projectos-escola (a Bauhaus, Ulm e finalmente Cranbrook) e que em termos de design estava ausente das preocupações dominantes das ONG’S dos anos 80 e início de 90. Um exemplo, a globalização. Embora encontremos reflexões sobre a globalização e o global design a partir do final dos anos 70 (Papanek; Christopher Lorenz) verdadeiramente só com o Massive Change do Bruce Mau é que o tema encontra centralidade na cultura do design contemporânea…

J.B.: Precisava de perceber primeiro o que se entende aqui por “programa”. Se tem a ver com a ideia de “causa” então, para mim, a esterilidade da acção está muito mais no sujeito, na profundidade dele nessa entrega ou conhecimento do “programa”, do que na ideologia em si. Pode ser mais relevante o abraçar de uma causa, do que a causa em si. Há eterna dicotomia dos meios em relação aos fins, do processo em relação ao resultado. Mas fico sem perceber em que bases a primeira afirmação é feita.

No que concerne a Catalysts, receio discordar. Não a li como uma superficial justaposição de exercícios formais. Bem, até o Muro de Berlim, ao longo do qual pedalo todas as manhãs para chegar ao escritório, se olhar para ele objectivamente, é um troço de cimento com 3 metros de altura. Mas que ideologias (Programas? Causas?) estão subjacentes a estes destroços? Que mudanças de percepção estavam sugeridas em cada um daqueles cartazes no CCB?
Achei a exposição pertinente como iniciadora do discurso. Como ponto de partida, e como ponto de encontro. Até que ponto um trabalho tem de ser contextualizado quando se abordam questões como a fome, a inclusão social, desequilíbrios económicos, ainda hoje tão prementes? Nesse sentido, é interessante explorar uma intemporalidade…
Sim, o Massive Change traz finalmente uma proposta explícita e bem colocada de uma consciência global, holística, interconectada. É feliz em ajudar-nos a ver de uma forma macro, sem esquecer um compromisso especifico a um contexto local. "Good design is good citizenship", lá dizia o Milton Glaser …


R.: Falemos agora do Social Design Site, como caracteriza esta estrutura e como se deu a sua integração no projecto?

J.B.: Integrei o projecto na qualidade de estagiária, pouco depois de me licenciar em Design de Comunicação pelas Belas-Artes de Lisboa. Procurava experiência “de campo” nesta área. Por este projecto passam muitos outros, e foi isso que me atraiu. Acabei por ficar responsável pela criação da nova plataforma, on-line no início de Outubro próximo. O que existe on-line hoje, no momento desta entrevista, desaparecerá em breve. Sobre esta nova fase, é prematuro desenhar conclusões.
O intuito do Social Design Site é primeiramente promover debate em volta do tema. Nesta segunda fase, procurou-se partir de uma participação passiva (a exposição on-line como existe hoje) para uma construção participativa horizontal. Não é uma lógica em si nada original: basta olhar no que está a brotar pela net em todo o lado. Os fenómenos 2.0 todos - mas não uso esse termo porque de repente parece uma carapuça onde se enfia de tudo.
Todos os dias surgem uma panóplia de estruturas próximas, orientadas para o “empreendedor social” – que eu espero que seja um sinónimo de “todos nós” - ou para o designer, redes de networking, partilha de recursos, portais de informação, tudo em volta deste mesmo tema (considerando as variantes, claro, pois até dentro da denominação “Social Design” se encontram coisas em nada relacionadas…).
Posso mencionar WiserEarth, Idealists.org, DesignCanChange, ou Design21 como algumas das melhor conseguidas. Mas sei que a próxima vez que me sentar ao computador surgem mais umas quantas… O Social Design Site pode bem ser só mais um. Ou não. Estou muito curiosa acerca do que vai acontecer depois do re-lançamento do site.
Naturalmente, aprendi já imenso com esta experiência. Construi uma percepção do Design Social bastante diferente daquela com que saí da Faculdade. As coisas estão a acontecer a uma velocidade galopante, e há uma centralização de recursos na net, de tal maneira intensa, que é difícil manter uma macro-visão. Mas há muito movimento. Muito vento, também… muito discurso, muito manifesto – pouca acção. Ou, para ser justa, menos acção do que poderia haver. Idealmente. Mas estamos no bom caminho…


R.: Com a insistência crescente no tema da responsabilidade social do design (sucedem-se os eventos, as exposições e o aparecimento de estruturas desde as mais “pesadas” como o Design21 às unipessoais) não se corre o perigo do “design social” ser um termo que se pode banalizar (tornar-se um slogan) no interior de um contexto “politicamente correcto”, ou seja, não há o risco da “utopia” de transformação social (tendencialmente revolucionária) se tornar numa ideologia consensual (tendencialmente conservadora)?

J.B.: Sim, há. Será isso necessariamente mau?
Sinto que já respondi a esta pergunta em todas as outras anteriores, mas posso reafirmar: Na realidade, não sei. Enquanto estas iniciativas existirem à margem da sociedade não vão realmente gerar uma mudança significativa. Há um nível de “banalização” que é desejável, a nível da consciência comum, ao que eu chamaria eufemisticamente, “mudança de paradigma”. No dia em que a ideia de um Design Socialmente Responsável se tornar de tal forma ubíqua e enraizada em qualquer projecto de design em qualquer sítio do mundo, que falar de Design Socialmente Responsável se torne um pleonasmo, falamos finalmente de Design. Ponto.
Sobre a forma como o sistema (e só esta ideia de sistema como algo alheio a nós já nos conduz a toda uma visão “desempoderante” e desresponsabilizante da situação) tende a assimilar as expressões marginais ou anti-sistema, ou meta-sistema, ou –
Bem, sobre isso admito que não tenho uma opinião linear. De repente, chocam–me coisas como o Tesla Roadster ter sido premiado com 100.000 euros pelo maior prémio internacional de Design Socialmente Responsável (INDEX awards, Copenhaga). Mas por outro lado, o argumento acerca do seu público-alvo especifico, celebridades e milionários, e como estes se tornarão veículos de promoção de um novo estilo de vida – esse argumento é muito válido. Numa sociedade onde extensivamente se emula e reproduzem comportamentos desta minoria famosa, pode até vir a ser um gesto altamente compensador em termos de benefícios e mudança de comportamentos.
Ainda não encontrei um projecto que não estivesse de alguma forma minado por contradições. O que não significa que o nosso nível de exigência deva baixar ou que devamos encolher os ombros perante estes dilemas éticos e morais. E manter o espírito crítico.
Como nota final, não acredito que uma ideologia consensual seja necessariamente conservadora. Nem que a transformação social seja necessariamente revolucionária…


R.: A Joana Bértholo regressou há poucos dias do INDEX, tendo escrito um excelente artigo de opinião sobre o evento, o que destacaria do que viu e em que medida o que viu lhe permite acreditar na capacidade de transformação social do design?

J.B.: Como disse acima, muita contradição. Posso acrescentar, numa nota de optimismo: muita saudável contradição. Indubitavelmente, os critérios de atribuição dos 5 prémios (body, home, play, community, work) deveriam ser mais explícitos. Não podemos continuar a premiar projectos que não sejam eximiamente exigentes consigo mesmos. E este espírito critico, esta capacidade de todos nós levantarmos questões e duvidarmos das coisas, é crucial no que toca aos nossos gestos mais básicos de consumo. Muitos daqueles projectos, para mim, levantavam questões de sustentabilidade e impacto social, que ficaram por responder.
Mas foi incrivelmente inspirador. Sobretudo as conferências. O painel era diverso o suficiente para uma estimulante convergência de pontos de vista, e esteve longe de ser dominado por designers. Diferentemente de outras conferências de design, não existiu em torno de imagens projectadas, em torno de objectos produzidos, mas em torno de ideias. Nesse sentido, foi muito etéreo. Muito motivante.
Realço particularmente a insistência numa mudança de percepção em que se representa o designer vindo dos países mais desenvolvidos e ricos como salvador ou missionário dos países em vias de desenvolvimento, para a percepção de que há imenso a aprender destes países – e de que a palavra chave é cooperação.
Em que medida é que tudo isto me permite acreditar na capacidade de transformação social do design? Bem, eu venho de um projecto que clama “WE CANNOT NOT CHANGE THE WORLD” portanto para mim a questão não se põe, é um dado adquirido. Ou, parafraseando, em que medida isto me permite tomar consciência da incapacidade de não-transformação social através do design?

É a diferença entre: Se pudéssemos, o que faríamos?
e: Agora que podemos, o que vamos fazer?

Friday, September 28, 2007



designer: Ron Costley
título: Design For Society
autor: Nigel Whiteley
editor: Reaktion Books, 1993
disponível em Amazon.com




No ensaio “Can Design be socially responsible?” publicado em 1992 no AIGA Journal, Michael Rock afirma, de um modo muito lúcido, que “Responsibility is the design buzz word of the nineties”. Esta insistência no tópico da “responsabilidade social” do design, explícita das conferências da AIGA, num número significativo de publicações e que desemboca, simbolicamente, na (re)edição em 1999 do Manifesto First Things First, publicado originalmente por Ken Garland em 1964, atravessa efectivamente os anos de 1990 coincidindo, por um lado, com a “politização” do discurso dos professores de design e dos designers e, por outro lado, com uma nova requisição ideológica do design não apenas por instituições e ONG’s mas, igualmente, por empresas comerciais.

Se, na esteira de Victor Papanek, Michael Rock afirma que “the designer’s social responsibility is a responsibility for creating meaningful forms”, devemos considerar que os processos que produzem formas de legitimação de sentido são sempre discutíveis. Certo é, que não havendo neutralidade em design – a prática projectual serve sempre alguma forma de poder – a consciência crítica do designer manifesta-se decisiva pois, em última análise, a responsabilidade coincide com o capacidade de assumir e justificar as opcções tomadas.

Em torno dessa “buzz word” da responsabilidade social se desenvolve este livro de Nigel Whiteley, o autor de "Pop Design" (1987), “Design For Society”. No Prefácio da obra, Whiteley esclarece qual o seu objectivo “Design For Society seeks to examine the ideology of design in our society”, análise ideological esta que, Segundo o autor, recuperaria uma preocupação teórica associada ao design que remonta ao Século XIX e autores como A. Pugin e John Ruskin e que, já no Século XX, encontra em Papanek um dos autores seminais.

As transformações radicais que marcam o design durante a década de 1980 – “a frantic period of design” – e a consequente indefinição acerca das competencies, valores e lógicas de intervenção disciplinar que daí resultam marcam o enquadramento social do qual parte “Design For Society”. De algum modo, “Design For Society”, procura analisar do ponto de vista ideológico aquilo que, de uma forma mais analítica, é analisado no excepcional Design After Modernism editado por John Thackara: a falência do projecto moderno e a necessária construção de um novo modelo axiológico e epistemológico em design.

Organizado em cinco capítulos – “Consumer-led design”; “Green Design”; “Responsible Design and Ethical Consuming”; “Feminist Perspectives” e “The Way Forward?” – esta obra de Nigel Whiteley possibilita um confronto lúcido e pertinente com as grandes questões associadas ao Design Social.

Segundo as palavras de Whitley, “Design For Society reflects the current debate about quality of life. Inevitably, when one is addressing such an issue, one is engaging in a debate about values, and it is not only healthy but crucial that values are discussed explicity rather than implicity. This has not happened nearly enough in the design profession or design press. Values must be translated into standards and criteria, and inevitably lead back to the fundamental question ‘What is good design?’”.
O DISCO DO DIA



autor: Beirut
título: Flying Club Cup
editora: 4AD/BA DA BING, 2007



A imagem gráfica, reproduzindo uma fotografia anónima da década de 1920, talvez não seja tão entusiasmante quanto a "cover" desenhada por Jon Wozencroft para "Elephant Gun" embora não deslustre. Além do mais, tudo o resto brilha alto, das orquestrações fabulosas ao magnífico site desenvolvido como a ajuda de Chryde da La Blogothèque.

Thursday, September 27, 2007

O LIVRO DO DIA



designer: Jon Gray/Gray 318
título: Extremely Loud and Incredibly Close
autor: Jonathan Safran Foer
editor: Houghton Mifflin, 2005
disponível em Amazon.com

Wednesday, September 26, 2007

ACTUAL



'Arrow Catcher' de Peter Wiehl
1978, 11', cor, 16mm transferido para DVD
Projecto Gráfico Barbara Says
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Peter Wiehl é um artista nova Iroquino que no final dos 70 e princípio dos anos 80 realizou
pequenos filmes experimentais ligados à performance. 'Arrow Catcher' foi filmado com uma
câmara militar de alta velocidade, mostra o artista a atirar setas para um sistema complexo
de acrílico. Esta estrutura captura as setas em pleno movimento suspendendo-as numa
composição abstracta.
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"A triumph of authenticity." Alexandre Estrela
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Sábado 29 de Setembro - 22h30 - entrada pelo Noobai - Miradouro de Santa Catarina.
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Cç. Salvador Correia de Sá 42. 2° Frente.
entrada pelo Noobai - Miradouro de Santa Catarina.
1200-399 Lisboa. Portugal. tel:++351 93 4859154.
www.oportolisboa.blogspot.com

Sunday, September 23, 2007

BREVES

- A importância da D&AD recordada por Johnson Banks
através da análise de 45 anos de "cover design" da publicação.





- Steven Heller entrevista o decisivo S. Neil Fujita antido Director de Arte da CBS Records e para sempre conhecido como o criador da "imagem gráfica" do filme Godfather.



- Entrevista e apresentação do interessante trabalho desenvolvido por Christopher Junge&Tobias Wenig.



- Dinâmica discussão na Brand New sobre a "identidade gráfica" da Casa da Música projectada por Sagmeister.



Wednesday, September 19, 2007

DESIGN - O ESTADO DAS COISAS: ENTREVISTA COM GUTA MOURA GUEDES




A EXD'07teria inaugurado no passado dia 12 de Setembro. As razões do cancelamento são públicas. Nesta entrevista com a directora da Experimenta, mais do que dissecar essas razões (e por mais difícil que elas sejam de aceitar), procura-se pensar o próximo futuro da ExperimentaDesign conscientes de que a existência, em Portugal, de uma cultura do design dinâmica e visível está indissociável da existência do seu maior evento.


REACTOR: A ExperimentaDesign’07 teria o seu início no passado dia 12 de Setembro. Quando apoios fundamentais falharam o evento estava já definido. O que poderia ter sido esta Bienal?

GUTA MOURA GUEDES: Esta teria sido a quinta edição da ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa, logo a seguir a ter sido considerada o evento de design mais interessante da Europa em 2005 pelos media internacionais... A bienal tinha atingido um patamar muito importante, a expectativa para 2007 era enorme e o nosso entusiasmo também. Portanto o investimento que nela foi feito foi grande, quer do ponto de vista conceptual, quer do ponto de vista estratégico. Mas preferia não adiantar muito, porque a bienal está desenhada e pronta a acontecer... e ainda não passou de prazo, pelo contrário.

R.: O trabalho da Experimenta marca, claramente, uma transformação profunda na “cultura do design” em Portugal, permitindo a existência de um fórum no qual esta cultura do projecto encontrou um espaço de divulgação, promoção e discussão nacional e internacional. Actualmente, perante a inexistência de um evento de dimensão internacional, de um projecto editorial de referência, perante uma certa incapacidade de afirmação corporativa, o que lhe sugere falar-se em “cultura do design” em Portugal?

G.M.G.: Pois parece voltar tudo há uns anos atrás, onde a fragmentação era enorme, onde não se verificava uma ideia de um todo dinâmico e eficaz. É claro que o que se conquistou em termos de cultura de design entre 1999 e 2006 não se perde assim de um momento para o outro. A actividade e a energia de muitos dos designers, arquitectos e criadores portugueses é muito grande e está aí. O mesmo se passa com as escolas e alguma da nossa industria. Agora perdeu-se visibilidade, difusão, estímulo, o desafio constante que uma plataforma como a ExperimentaDesign criava. O que se passa agora? Pois não sei, confesso que me foi necessário algum distanciamento de tudo isto, um afastamento, um período que me permitisse recuperar forças e vontade de continuar a fazer coisas por cá.


R:Parece-me faltar, em Portugal, uma “educação curatorial”. Creio (e a ExperimentaDesign provou-o) que existe público, no entanto as principais instituições continuam a não revelar capacidade para garantir uma programação regular de exposições de Design. Onde aparece o design na nossa política cultural?

G.M.G.: É absolutamente verdade o que diz. Não há programação regular, não há investimento regular, nem nos públicos, nem nos profissionais, nem na indústria, não há uma divulgação consistente e coerente. Não era por acaso que desde 1999 muitos designers, gestores, industriais, professores, nos pediam para nos tornarmos uma espécie de centro português de design. A Experimenta e a ExperimentaDesign tinham, de forma inequívoca, um papel fundamental neste processo. O design ainda aparece pouco na nossa politica, cultural e económica e nós representávamos um catalisador contínuo e independente que teve durante muito tempo o mérito de investir no design português e em Portugal e de trazer muita informação para cá, que é essencial para estimular a nossa competitividade. E em muitas frentes, não só com a bienal, basta ver o nosso site. No entanto a Experimenta nunca teve problemas de maior no seu relacionamento com o Estado, quer com o Ministério da Economia, cuja interacção se tornou progressiva e francamente interessante em 2005, quer com Ministério da Cultura, connosco desde a primeira edição.


R.: Um dos méritos da Experimenta foi o de garantir interacções entre diferentes agentes (institucionais e não institucionais) ligados ao Design, nomeadamente a participação das Escolas. Sem a realização da Bienal, como pode essa acção catalizadora sobre o design português (e entre o design português e o design internacional) ser feita?

G.M.G.: Sem a ExperimentaDesign a promoção do design português e das escolas de design em Portugal, e as relações que a partir daí nasceram com a cena internacional, com a industria e com o público, perdem imenso. A título de exemplo posso dizer-lhe que o projecto S*Cool tinha um plano de desenvolvimento para 2007 muito interessante, que para além das escolas em Portugal e em Espanha iria envolver a América Latina também. A rede de colaborações e interacções que formámos, nacional e internacionalmente, estava no seu ponto alto, ao fim de 8 anos de trabalho. O que pode acontecer sem a bienal em Portugal? Pois não sei. O que me dizem cá fora (estou a responder-lhe de Londres, onde estou para o London design festival e para participar na conferencia de imprensa de lançamento de Torino 2008 World Design Capital) é que sem a ExperimentaDesign Portugal deixa de ter um lugar consistente e regular no mapa internacional do design...


R.: A dois anos de distância de uma possível ExperimentaDesign’09 o que é necessário que aconteça (e o que está a acontecer) para que ela se torne uma realidade?

G.M.G.: Nunca quisemos tomar nenhuma atitude precipitada. Apenas cancelámos a edição de 2007 e ficámos a observar que desenho as coisas tomavam, que rumos e que movimentos se definiam, cá e lá fora. O que posso dizer - neste preciso momento em que escrevo - é que muita coisa importante está a acontecer desde fim de Julho passado, que temos muito boas novidades para comunicar e que, se tudo correr como se prevê, algumas delas serão bem surpreendentes... É uma questão de tempo.

Tuesday, September 18, 2007

FIRST THINGS FIRST

A imagem que se segue é da versão original, escrita em 1964 por Ken Garland, do manifesto First Things First. O manifesto tornou-se, sobretudo graças à sua revalorização no final da década de 90 (que levaria à publicação do FTF2000) um ícone do design crítico. Esta dimensão icónica não deixa de se revelar perturbante. O texto de Garland tornou-se, progressivamente, uma "imagem", configuração acabada, que pode ser agitada e exibida sem exigir uma cuidada reflexão. Que o manifesto FTF permanece absolutamente actual é uma verdade que, em alguns círculos, se tornou um "slogan" e, assim, a verdade foi privada do seu fundamento. Nenhum "objecto" é actual em si. Qualquer objecto exige "actualização". A única forma de tornar o FTF nosso contemporâneo é pensando-o à luz da actual prática do design, ora esta reflexão, oito anos após o FTF2000, parece ter sido abandonada. Perdem-se as ideias, ficam os ícones que as cristalizam.

BREVES (PT)




A Galeria ZDB organiza nos dias 20-21 de Setembro um ciclo de "Discussões a propósito de política e design". O tema, absolutamente pertinente, não havia tido até agora em Portugal o devido tratamento. Convém recordar, aliás, a importância que, desde os tempos do Festival Atlântico, Natxo Checa vem tendo na abertura de novas perspectivas de reflexão sobre a prática do design.



É hoje o último dia para visitar a exposição Jovem Criadores 2007 a decorrer no Centro de Congressos de Lisboa.



No Mercado Negro, em Aveiro, está aberta ao público uma interessante exposição sobre poesia na blogosfera (o cartaz é da Menina Limão).

Estão já disponíveis on-line os Working Papers, publicação electrónica do CECL, muito recomendável.



Já se encontra disponível o número #3 dos CADERNOS DE TIPOGRAFIA. A publicação coordenada por Paulo Heitlinger tem evoluído qualitativa e quantitativamente de número para número impondo-se como a publicação de língua portuguesa, sobre design de tipos e tipografia, de referência.

Monday, September 17, 2007

ENTREVISTA COM TIBOR KALMAN

Tibor Kalman, designer gráfico de origem húngara falecido em 1999 com 43 anos, foi o maior protagonista do design de comunicação do final da década de 1980 e da década de 1990.

Fundador da M&Co, director de arte da ART FORUM (1987-88) e da Interview (1989-91); editor da Colors (1991-95), trouxe uma nova consciência crítica para a prática profissional do design, bem exemplificada na iniciativa de reeditar o Manifesto First Things First de Ken Garland e reflectir colectivamente sobre a sua actualidade.

Segue-se uma das suas últimas entrevistas.


Thursday, September 13, 2007

REACTOR | BREVES

O último número da Wallpaper envolve três "guest editors" notáveis: Jeff Koons; Hedi Slimane e Dieter Rams. Podia ser sempre assim.

Charles e Ray Eames apresentam na NBC, pela primeira vez, a sua Lounge Chair e discutem o seu processo de trabalho, decorria o ano de 1956. A televisão era diferente e o design também.

O BLDGBLOG publicou uma interessante entrevista com Mary Beard que dirige uma das colecções de maior fôlego da actualidade, a colecção "Wonders of the World" para a Harvard University Press.

A irónica pergunta "Porque não é a teoria mais como a prática?" serve de pretexto para uma pertinente e actualissíma reflexão de Mário Moura expondo a nú as incongruências de muitos designers portugueses.

Joana Bértholo esteve nos importantes prémios INDEX, em Copenhaga, e dá-nos um bom retrato do design contemporâneo e dos seus prémios.

A questão já não é nova mas as velhas questões estão longe de estar resolvidas, daí fazer sentido que Javier Solar volte à carga questionando o design no artigo "Arte, estética ou ideologia?" .

No 25 aniversário de "From Bauhaus to Our House", Tom Wolfe juntou-se a Peter Eisenman para discutir a noção de "inovação" no design e na arquitectura.
REACTOR ENTREVISTA RUI TENREIRO

CCC ECHIBITION | CIDADE DO CABO


Mais conhecido na Escandinávia do que em Portugal, Rui Tenreiro é um bom exemplo de um “designer internacional” que, como criador e produtor, tem desenvolvido um sólido percurso onde a “alma” Latina se encontra, frequentemente, com a “razão” Nórdica. O REACTOR conversou com ele:

REACTOR: Sobretudo desde 2005, o Rui Tenreiro tem-se dividido em vários projectos, destacando-se dois - Soyfriends e The Culture Front - que lhe pedia que apresentasse.

RUI TENREIRO: The Culture Front é o meu site pessoal. Aqui apresento trabalhos feitos por mim para clientes. Aqui os projectos podem ser comerciais ou não comerciais. Ao criar o site pensei em dividi-lo em partes para que melhor se pudesse separar mentalmente o tipo de trabalhos. Mas à medida que o desenvolvi achei que não faria sentido, pois os trabalhos são todos parte do mesmo mundo, simplesmente apresentado de maneiras
diferentes. O site The Culture Front vai ser destinado a apresentar esse leque de ilustrações que constrói esse mundo. Há medida que vou encontrando as técnicas de trabalho que mais me agradam, é natural que este 'mundo' de imagens se desenvolva naturalmente, tornando-se assim as imagens mais próximas visualmente umas das outras.

Soyfriends é uma mini-editora que foi criada porque me apercebi que a nível da Noruega e Suécia havia uma certa tendência em ilustração e desenho que era bastante diferente do que se passava noutros lados, tal como em Londres, Estados Unidos, África do Sul, etc. E portanto a Soyfriends foi criada para servir de 'showcase' para esses artistas. A Soyfriends foi também uma oportunidade de trabalhar com artistas cujo trabalho admiro.
Por vezes achei que havia falta de uma editora deste género a nível Escandinavo. Portanto na Soyfriends o meu trabalho é como editor e produtor, maioritariamente - e por vezes como artista. Como só faço neste momento 50 (e, em casos raros, 100) cópias de cada fanzine, os distribuidores têm de ser seleccionados com cuidado, de maneira a não desvalorizar os livros e de maneira a manter um balanço positivo mínimo. No entanto, a Soyfriends ainda é, mais que nada, um 'hobby'.

Ilustrações | Páginas Interiores de "Le Merle"


R: Entre os seus trabalhos, encontramos colaborações com a VRENG (a versão norueguesa da Adbusters) e trabalho de Branding para multinacionais. Como concilia uma abordagem mais pessoal (próximo de um no-brief design) para clientes "culturais" com trabalhos assumidamente "comerciais"?

R.T.: Isto resultou de uma mudança de atitude a certa altura. Durante muito tempo trabalhei a partir de um estúdio de ilustração em Oslo que fazia maior parte das decisões em conjunto. Não havia regras para o tipo de trabalhos que cada pessoa deveria colocar no site do grupo, mas havia bastante pressão a pôr trabalhos de prestígio (mesmo que não fossem os preferidos de cada pessoa do grupo) ou de 'briefs' que viessem de editoras mais tradicionais, que fazem livros escolares ou livros para crianças. Isto confundia-me porque a minha intenção sempre foi criar livros para adultos. Portanto, quando criei o meu site individual - e isto é um conselho que daria a todos os ilustradores que se consideram mais como 'artistas' do que 'designers de imagens' - decidi não pôr nada que não gostasse. Mesmo se o trabalho fosse feito para a Playstation, Mtv ou para a Pepsi, decidi não pôr nada que não gostasse. Ponho somente trabalhos que gosto. Assim isto mostra somente, através do único meio de comunicação que controlo, o meu site pessoal, o produto de trabalhos meus, ao invés de um produto da minha decisão e da do cliente, que resulta em algo diluído. Esta base dá ao cliente, portanto, uma escolha limitada. Mesmo assim até agora não houve risco de me começar a repetir pois os cliente têm trabalhos e pedidos bastante diferentes. E posso sempre decidir retirar do site um trabalho que acho estar a dar a impressão de ser repetitivo. O resultado é de a maior parte dos trabalho não são incluídos no site. Isto é a maneira que encontrei e que funciona para mim.


R: O Rui Tenreiro é um ilustrador e designer "norwegian-based", como olha, a partir daí, para o design português e para a nossa "cultura do design"?

R. T.: Infelizmente não estou a par do design português neste momento. Na verdade não tenho procurado rodear-me de imagens e exemplos de design e ilustração ultimamente. Há sempre uma enorme quantidade de imagens a ser criadas todos os dias e às vezes é importante parar e olhar para dentro, e tentar ignorar até certo ponto o que se passa à nossa volta. Isto tem durado mais de uma ano e, como muito pode acontecer no espaço de um ano em termos de design e ilustração, prefiro não dar a minha opinião sobre a pergunta desta vez.

"Canvas Bag" | Soyfriends


R: Finalmente, pode-nos falar dos seus projectos paralelos e futuros projectos?

R.T.: Há vários projectos a desenvolverem-se neste momento. Acabei de organizar uma exposição de 'artists books' e fanzines na galeria Bell-Roberts, na Cidade do Cabo. E estou a acabar a minha próxima BD, que vai ter mais de 100 páginas. Estou também a desenvolver uma outra BD em conjunto com um amigo, Tiago Correia Paulo, em que ele vai produzir uma banda sonora para a história. Comecei esta semana a imprimir os meus trabalhos em serigrafia, que é um processo bastante fácil e que dá óptimos resultados. Estou a contribuir, a convite do Frederico Duarte, para o livro 'Fabrico Próprio', um livro sobre pastelaria portuguesa vendida em todo o mundo. Escolhi ilustrar sobre o Palmier. Estou também há procura de uma editora que esteja disposta a fazer uma compilação de algumas das fanzines da Soyfriends num livro de ilustração/arte. Acho que por enquanto é tudo. Terei também t-shirts à venda na loja Graniph, em Tóquio, que também podem ser obtidas on-line.

Tuesday, September 11, 2007

11 DE STEMBRO

Reflectir sobre o 11/9, seis anos após o ataque terrorista às Torres Gémeas, é um exercício que se presta a ser manipulador e tendencialmente maniqueista. A dimensão política das imagens foi explorada até ao limite: esse limite em que a imagem deixa de valer pelo seu significado e passa a valer enquanto significante. As imagens são esvaziadas do seu conteúdo representativo - que exige reflexão para que esse conteúdo possa ser "lido" - e "esteticizam-se" passando a valer "por si próprias". A este processo poder-se-ia chamar (fazendo uso da mais distorcida utilização da palavra "design") de conversão da "representação" em "design". Uma coisa é certa, a leitura que fazemos das imagens que vemos resulta, em grande medida, do modo como essas imagens são "montadas". Esse trabalho de montagem é definitivamente político, e nesse trabalho de montagem o Design está cada vez mais envolvido.

Entretanto, as imagens permanecem "testemunhas", aparentemente mais vivas do que nós próprios.






PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com