Thursday, October 11, 2007

MEMÓRIAS GRÁFICAS





O Número 237 da Design Magazine, publicado em Setembro de 1968 evocava os Jogos Olímpicos do México que decorriam nessa altura. A presença de alguns elementos "trendy", nomeadamente ligados a uma utilização da cor muito explorada no final dos anos 60 e inícios de 70, não é suficiente para esconder o equílibrio e sofistação gráficas que domina a escolha e utilização tipográfica, a concepcção da grelha e a eficaz "simplificação" da linguagem. O Logo do México '68 é subtilmente trabalhado não deixando de estar presente. Deste modo, há nesta capa algo que associamos inevitavelmente a Lance Wyman e que os mais conhecedores da criação da imagem gráfica dos Jogos de 68 não deixarão de associar, também, a Eduardo Terrazas, o arquitecto e artísta mexicano que colaborou com Wyman e Pedro Ramirez Vazquez na criação dos inúmeros posters feitos para o evento.

Wednesday, October 10, 2007

CHARLIE ROSE ENTREVISTA BRUCE MAU


Uma excelente entrevista com Bruce Mau escolhida de entre várias excelentes entrevistas conduzidas por Charlie Rose.

O MEU ESTÚDIO DE DESIGN EM 1980



Os anos 80 – esse tempo que “nunca mais acaba de começar” – terminaram, pelo menos calendário, há dezassete anos. Retrospectivamente, consigo reconhecer que as causas que motivaram em mim algumas transformações individuais motivaram, igualmente, uma série de transformações colectivas e disciplinares: vivemos a contas com a herança deixada pelos anos 80 mesmo que essa não seja a única herança a contas com a qual vivemos.

Foi também por herança, esta familiar, que no início dos anos 80 tive a primeira experiência do que é um estúdio de design.Terá sido a forte impressão que esse espaço e o que nele habitava – objectos, cheiros, sons – causou sobre mim que me levou a pensa-lo, decorrência natural do “estar atento” à particular coreografia que , então, se encenava num estúdio (ou pelo menos “naquele” estúdio) de design.

Há uma compreensão das coisas que parece exigir o nosso afastamento em relação a elas; precisei de sair dos anos 80 para deles ganhar outra forma de reconhecimento, distanciado, fornecido essencialmente pela leitura de reflexões sobre os 80 denunciando neles o neo-barroquismo, o protagonismo do simulacro (uma certa “realidade da ilusão”), o apogeu da visibilidade, a tentação de uma comunicação imediata e sensível. Não tenho dúvidas que as “razões” que me levaram a valorizar o conhecimento indirecto dos anos 80 sobre o conhecimento que efectivamente deles tive, são “razões” que caracterizam a própria época.

Para mim, que entrei na década com menos de 10 anos, os anos 80 foram o tempo da descoberta de três “linguagens” que se assumiram, desde logo, como três formas de paixão: a dança – descoberta da extraordinária “linguagem do corpo” através de Pina Baush, de Anne Teresa de Keersmaeker, Jean Claude Gallota e o Teatro-Dança europeu que, mais a norte, era Teatro-Físico como o D.V.8 bem o representavam); a música – descoberta do poder do som e do silêncio, do ruído e dos harmónicos, do prazer, adolescentemente melómano, de descobrir, de comprar, de ouvir; e finalmente, o design – a descoberta da comunicação enquanto acção e do não-verbal como meio de construção de uma ordem que nos integra e define.

O que havia afinal nesse estúdio de design dos anos 80? Vou-me limitar aquilo que vos posso contar (como em qualquer “memoria” o que se torna público é apenas uma parte).

No estúdio de design dos anos 80, o dia começava fazendo-se três gestos: ligar o gira-discos (hoje lembrei-me de Triffids), ligar a Waxer e, finalmente, fazer café.



Fig. 1 A Velha Waxer.


A velha Waxer “demorava a aquecer” mas era imprescindível, a música tornava-se, com frequência, “silenciosa”, embrenhados do trabalhos dela não nos apercebiamos até que, subrepticia, se tornava presente quando dela mais precisávamos; do café (que não bebia) recordo o cheiro misturado com o do tabáco (que não fumava), em particular, o aroma perfumado de uns cigarros de cravinho absolutamente fabulosos.

Noutra ocasião, gostaria de falar do “método” de trabalho e das “visões” do design a partir deste mesmo estúdio dos anos 80. Por agora, nostalgicamente, recordo os instrumentos fundamentais do estúdio:




Fig. 2/4 Antes do Illustrator não era fácil desenhar elípses mas havia ajudas (das réguas ao elipsógrafo)



Fig. 5 Régua para desenhar tipos feita pela Haberule


Fig. 6 Compasso Staedtler



Fig.7 Acu Arc, sempre que o compasso não é suficiente.


Fig. 8 Caneta Radiograph, muito útil...


Fig. 9 ...mas é necessário seguir as instruções!


Fig. 10 Os imprescindíveis livros de tipos, como os de Walter Foster por exemplo.


Fig. 11 O X-Acto, claro.


Fig. 12 "Thinner dispenser", difícil passar sem ele mas assustador para os fumadores!


Fig. 13 Escova Iwata, usava-a para acabamentos.


Fig. 14 Fixadores...




Fig. 15/17 ... e uma série de outras coisas.




Fig. 18 e segs. Polaroid para registo e visualização.




Fig. 21 e segs. E muitas outras coisas fundamentais!


Fig. 24 Até que a revolução chegou, em 1985 (o melhor ano da 4AD), eu tinha 13 anos ele tinha 128k de memoria, 8mhz processador e ecrã de 9’’, um espanto!

Tuesday, October 09, 2007

REACTOR ENTREVISTA FRANCISCO LARANJO

Depois de concluir a licenciatura em Design de Comunicação na ESAD, Francisco Laranjo colaborou com o estúdio de Sagmeister antes de rumar a Londres onde actualmente conjuga a sua investigação de mestrado no Royal College of Art com uma série de outros projectos relacionados com a teoria e a prática do design confirmando-se como um dos mais estimulantes designers da sua geração.



REACTOR: No primeiro post do Reactor afirma-se que “não há design sem diálogo”, enquanto profissional do design que diálogos lhe interessam estabelecer? Com quem? Sobre o quê?

FRANCISCO LARANJO: De facto, a palavra “dialogar” está na génese da disciplina, uma vez que é parte essencial do acto de “comunicar”.
Pessoalmente, interessam-me vários níveis de diálogo, que são passíveis de existir no âmbito do design. Tenho particular interesse em debruçar-me sobre o diálogo com outros profissionais e investigadores de áreas externas ao design, mas também dentro das esferas da disciplina. Isto, com vista a poder estabelecer um diálogo com a audiência em vez investir num monólogo que se vem arrastando, cada vez mais, entre designers e entre o público. Interessam-me diálogos sobre cultura no design que possam ajudar a que haja contextualização, a que exista espaço para interpretações. Interessa-me discutir projectos que evoluam nesta direcção.
Penso que o design deve ter a responsabilidade de promover diálogo sobre monólogo.

R. : A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Como vê esta indefinição em torno da disciplina?

F. L. : Entendo que a palavra “rapidez” é a grande causadora do actual panorama do design, nomeadamente pelo seu estado híbrido e difuso.
Tem-nos sido possível observar nos últimos quinze anos, que a disciplina do design de comunicação foi passando por diversos estágios. Alarmantemente, cada vez mais rápido. De artes gráficas, para artes visuais, passando por design gráfico, design multimédia, artes digitais, entre outros, criam uma neblina densa de ramificações instantâneas em torno da direcção a seguir, mas sobretudo da origem (e história) da disciplina.
Numa realidade cada vez mais tecnológica, a verdade é que o design tem dificuldade em escapar à inevitabilidade de caminhar à velocidade imposta pela tecnologia. Simultaneamente, tudo o que nos rodeia é também difuso; publicidade, informação e comunicação esboroam-se na paisagem. Este ambiente influencia não só o público, mas também o designer.
Quanto mais a audiência refina os seus “desejos”, sem tempo e cheia de alienação, mais o designer tem que se “multiplicar”. Todos estes condimentos, levam a que a disciplina seja cada vez mais difícil de circunscrever, tornando-se híbrida e nómada.
Vejo esta indefinição com preocupação, pois o sentimento de pertença e identidade é normalmente perdido nesta “arena”, tornando-se extremamente difícil de encontrar. No entanto – apesar da palavra “procura” ser condição essencial do design – pertença e identidade são valores essenciais, para o designer e para qualquer ser humano.
De repente, instala-se no ar um sentimento de que não há mais regras, tudo pode ser de todos e todos podem ser tudo, sendo a palavra colaboração o mote para navegar num território quase impossível de analisar. Esta indefinição em torno da disciplina, que faz do designer um ser híbrido, tende a eliminar qualquer tipo de especialização. No entanto, enquanto especialistas, somos capazes de fazer e responder a questões com uma profundidade muito maior e pertinência totalmente diferente à que nos permite uma prática híbrida.
Vivemos sem dúvida, num momento de grande questionamento de identidade, de particular, delicada e decisiva importância para o futuro da disciplina.

R.: Se lhe pedisse uma definição de design...

F. L. : No seguimento das questões anteriores, deparo-me com a quase impossibilidade de dar uma resposta. Uma definição de design que se pretenda fazer hoje, nunca poderá ser estanque e muito menos definitiva. A definição de design é hoje menos universal do que nunca. Ao mesmo tempo, tudo é design e design é a solução para tudo. Design é um cliché, uma moda.
Sem querer estar a pisar terreno por demais explorado – e bem – por diversos críticos, profissionais e academistas, parece-me que hoje, a definição de design é a de uma disciplina que estuda a cultura, sociedade e percepção, cooperando com as mais diversas áreas de actividade, com a finalidade de gerar “mediações linguísticas” num determinado contexto.

R. : O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?

F. L. : Esta distinção continua a ter um trono confortável no mundo do design e da comunicação. Não me parece fazer sentido que haja uma distinção, pois o designer será sempre um agente social, mesmo que se tente fazer passar ou seja “forçado”/ conduzido a ser agente do mercado.
É normal que esta distinção continue a existir numa ultra-rápida realidade económica que privilegia o consumidor em detrimento do cidadão. Quando o design manipula informação, mediando a sua interpretação, estará sempre a ser um agente social. O designer será sempre um agente social pois usa “ferramentas” tais como a linguagem e a percepção (sentidos), sendo estes afinal, vectores primordiais do que chamamos sociedade e de tudo o que nos rodeia.
Parece-me importante que os conteúdos programáticos apontem cada vez mais nesta direcção, fazendo com que exista esta consciencialização em estudantes e profissionais – e, igualmente importante, no público em geral.
Hoje, o único “ismo” que sobrevive, é o pluralismo.

R. : Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante mostrarmos que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais

F. L. : Questões de valor serão sempre subjectivas, mas podem ser progressivamente instituídas – sobretudo a nível do ensino do design.
A rapidez que nos rodeia, força a que tanto o designer como o cidadão, corram sozinhos. Esta é uma analogia que sugere que o eu é muito mais incitado do que o nós. Deste modo, torna-se infrutífera a tentativa de promover colectividade e comunidade sobre individualidade. Depois, a ética individual estará sempre intimamente ligada à educação pessoal, percurso académico e até mesmo personalidade.
Contudo, é importante sublinhar que habitamos numa complexidade social que torna a tentativa de definição de valores universais do design, um projecto condenado ao insucesso. Por isso, entendo ser urgente que a ética disciplinar contamine positivamente a ética individual através da promoção de valores que incidam sobre análise contextual e sobre a descoberta da particularidade na complexidade e vice-versa. É pertinente criar fortes bases de descoberta de métodos de investigação, nos estudantes e nos profissionais. Desta forma, será mais provável que um questionar de identidade contínuo possa ser parte integrante de uma prática projectual.

R. : Ainda há espaço para utopias no design? O Enzo Mari dizia que o design é um “acto de guerra” e o Brody, há umas semanas atrás, dizia que usamos poucas vezes a palavra revolução

F. L. : Não me parece que o design possa ser apelidado de “acto de guerra”, se bem que por vezes o seja e deva ser. Julgo também que a palavra revolução continua muito ausente do design por causa da hibridez que foi atrás mencionada, pois existe a obsessiva necessidade de ir em todas as direcções simultaneamente. Isto provoca estagnação. Isto congela o “movimento”.
Neste sentido, parece-me que a relação hibridez/ superficialidade/ conformismo é quase inevitavelmente o resultado, pois um “acto de guerra” nasce normalmente de algo que é profundo: seja um valor, uma crença, um descontentamento, uma reacção, uma diferença.

R. : Qual é a sua “utopia pessoal”?

F. L. : Não tenho nenhuma utopia em particular. De qualquer forma, tenho o desejo de que o futuro da disciplina não continue a ser uma duvidosa utopia. Tenho o (utópico?) desejo que a actual geração de designers possa inverter a tendência de uma área que começa a ser pré-oca e que se auto-cancele, cada vez que se abstrai do contexto, do cidadão e se foca no consumidor e principalmente em si própria.

R. : Parece-lhe que a blogosfera tem contribuído para o desenvolvimento de um debate sobre em torno do design?

F. L. : Sem dúvida alguma que sim. Nos últimos seis ou sete anos nasceram vários blogues que trouxeram (e trazem) uma contribuição fundamental para a prática e para o ensino do design. Um pouco por todos os continentes, a facilidade de partilhar e unir profissionais de grande valor com o propósito de discutir problemas contemporâneos só podem gerar uma grande contribuição para a disciplina. Felizmente, Portugal não foi excepção.

R. : Quais são os seus blogues de referência?

F. L. :
Mediamatic
CTheory
Design Observer
InformationDesign
Rhizome

R. : Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

F. L. : No seguimento das anteriores afirmações, deixo apenas uma questão/ desafio, propositadamente sem resposta: será que a “especialização” do designer (em oposição ao profissional híbrido), o impede de poder intervir noutras áreas?
Fica o desafio.

Saturday, October 06, 2007




12 MESES DE DESIGN EM PORTUGAL


O Reactor nasceu dia 6 de Outubro de 2006, há precisamente um ano. O reconhecimento da crescente importância dos blogs relativamente à difusão e discussão de ideias e a consciência da escassa existência, em Portugal, de outros meios nos quais o design fosse objecto de reflexão séria e consistente, levou-me a desenvolver este projecto que permitir-me-ia desenvolver uma nova estratégia de diálogo com os meus interlocutores de sempre – amigos, colegas e alguns alunos que, como eu, sabem, que a prática do design não se faz sem uma verdadeira “prática de ideias” – e alargar esse diálogo a novas vozes permitindo um exercício de contraditório mais amplo e dinâmico.

Apesar de algumas indefinições ao nível de modelo e método, o Reactor procurou, desde o primeiro “post” harmonizar uma orientação de registo mais ensaístico com um outro registo quase jornalístico, ou seja, a componente de crítica assumidamente autoral com a componente de divulgação menos “contaminada” pela marca interpretativa. A intenção de harmonizar estes dois registos tinha a ver com a própria natureza do medium, sendo o blog um espaço de reversibilidade entre escritor/leitor, espaço de diálogo onde as ideias do “autor” são “rescritas” pelos leitores, a própria natureza dos textos deveria oferecer aos leitores consistência para que houvesse ancoragem para o seu comentário e abertura para que esse comentário encontrasse estímulo. Tendo o Reactor nascido sob o signo da balança, a instabilidade dos equilíbrios tocou-lhe como marca. Os textos foram sendo crescentemente lidos (os últimos seis meses consolidaram uma média de 150 visitas por dia) mas escassamente comentados com as naturais consequências que daí resultam para a vida do blog.

Passados 12 meses, o que aconteceu durante este tempo na cultura do design em Portugal?

O ano civil inicia-se com o anúncio do cancelamento da edição 2007 da ExperimentaDesign. O caos instalado na Câmara de Lisboa foi a principal, mas não a única, razão para este cancelamento. È consensual que Portugal não pode prescindir de um evento com a relevância da ExperimentaDesign e parece claro que essa relevância permite que o evento se realize mesmo que a principal Câmara do país esteja cativa da incompetência do seu executivo, o que faz com que as razões (eminentemente políticas) deste cancelamento mereçam ser pensadas. A Experimenta não pode realizar o evento dentro das condições que quis e não quis, seguramente com razão, realizar o evento dentro das condições que teve. As divergências entre agentes culturais e agentes económicos tendem a acentuar-se sempre que o papel de uns e de outros se torna reversível.

Recentemente, enquanto Guta Moura Guedes dava uma esclarecedora entrevista ao Reactor, a Universidade do Minho e Câmara Municipal de Guimarães anunciavam criar, no âmbito do projecto CampUrbis, a Bienal do Design, a arrancar em 2008, e a partir de 2012, ano em que a cidade é Capital Europeia da Cultura, o Instituto de Design Aplicado. A um ano (ou eventualmente menos) do início da futura Bienal nada foi tornado público, nem uma ideia sobre o sentido do evento, os critérios de programação ou o nome dos programadores.
Em todo o caso, parece ser clara uma crescente atenção política relativamente ao design. Este facto deveria decorrer, em princípio, da meritória acção do CPD enquanto organismo a quem compete o exercício do “lobby” junto do poder político e económico, no entanto, sabe-se que dele não decorre. A acção, diletante e inconsequente, de Henrique Cayatte à frente do Centro Português de Design tem sido uma desilusão. Parece-me justo destacar, em contrapartida, a acção meritória da AND, porém apesar do seu louvável empenho creio que a atenção (crescente nos últimos 15 anos) de alguns agentes políticos e económicos relativamente ao design não resulta destes estarem mais e melhor esclarecidos mas, essencialmente, de uma renovada ignorância sobre o que é o design. A crescente circulação da palavra “design” não é acompanhada por uma crescente definição do que o design é, pelo contrario, o “sucesso do design” deve-se sobretudo ao facto da palavra deixar de ser progressivamente usada como substantivo e passar a ser usada como um adjectivo com um valor qualificativo cada vez mais frágil e indefinido. Em todo o caso, esta banalização não deixa de ter uma face positiva ao permitir uma maior abertura relativamente ao design. A publicação em Diário da República do reconhecimento da actividade de designer é, alias, uma consequência muito positiva desta (ainda que tardia) abertura.

Vários acontecimentos, alguns particularmente relevantes, contribuíram, ao longo destes doze meses, para a dinamização da nossa cultura do design, destaquemos alguns:

a) Várias conferências foram acontecendo de norte a sul do país. Através das conferências foi possível perceber o importante papel que algumas escolas de design vem revelando, a existência de público e o crescente acompanhamento mediático (dos jornais aos blogs) em torno dos eventos. O destaque maior vai para o extraordinário ciclo Personal Views que Andrew Howard e a ESAD tem vindo a promover. A oportunidade de termos entre nós, num espaço de pouco meses, Spiekerman, Lupton, Blauvelt, Brody ou os Experimental Jetset é algo de raro e extraordinariamente importante. Uma palavra, ainda, para a conferência Underground organizada, em Novembro, pela Design Research Society e pela ESD/IADE; para duas conferências, durante o mês de Junho, na Lusófona (o Congresso “Arte, Design e Tecnologia” e “Os caminhos do design”); e para a conferência “Reflexões sobre o Design” que em Maio levaram a Almada nomes como Paulo Heitlinger, Nuno Coelho ou Lasalete de Sousa.
b) Com o MUDE – Museu do Design e da Moda virtualmente existente porém sem mostrar nada de relevante, com as grandes instituições e os grandes museus a revelarem a continuada ausência de atenção relativamente ao design (a exposição no verão de 2006 sobra a Roma Publications na Culturgest foi a excepção), o destaque maior vai para a colaboração de Stefan Sagmeister com a Casa da Música, a identidade da instituição foi apresentada pelo designer austríaco nesse fim-de-semana alucinante marcado ainda pela presença de Neville Brody na ESAD. Relativamente a exposições ou instalações de design, elas aconteceram pontualmente. No verão a instalação Mensagens que tive o prazer de comissariar levou à Área Panorâmica de Tui, na Galiza, a voz de mais de uma dezena de designers portugueses (João Machado, Frederico Duarte, Heitor Alvelos, R2, Miguel Carvalhais, Nuno Coelho, Francisco Laranjo, António Silveira Gomes, Valdemar Lamego, André Cruz, Pedro Taboaço, David Carvalho e Joana Bértholo ); recentemente inaugurou a exposição Remade In Portugal patente na Estufa Fria.
c) Destaque para a transformação gráfica do Público, redesenhado por Mark Porter, o designer do Guardian; a par da transformação gráfica assistimos a alguma renovação ao nível de conteúdos com realce para os artigos de Frederico Duarte. Outros destaques há que merecem ser feitos: Os Silva!Design deixam de desenhar a Agenda Lisboa, perdeu-se qualidade e imaginação gráfica, perdeu-se o contacto seminal com as magníficas ilustrações da Sofia Dias; algumas editoras revelam uma atenção particular dada ao design gráfico (com a Tinta da China); o nosso pequeno Mercado editorial procura usar as plataformas web para se estender, surgindo o The Radical Designist e os Cadernos de Tipografia.
d) Estes últimos 12 meses serviram, também, para reforçar em termos nacionais e internacionais a qualidade do trabalho de alguns jovens estúdios e designers, como é o caso da Boca do Lobo, André Cruz ou os Pedrita, entre outros.


Penso ser consensual que o surgimento dos blogs contribuiu para renovar e alargar o espaço de reflexão sobre o Design. Em termos internacionais, blogs como o Design Observer ou o BLDG tornaram-se referências determinantes, com um papel claramente activo na construção teórica do design e da arquitectura contemporâneas. Em Portugal, neste ultimo ano surgiram vários blogs centrados na prática do design (o Design português surge em Setembro; o CoconutJam em Outubro; o Design Lab em Março) juntando-se a outros anteriormente criados (destacando-se o Ressabiator e o Desígnio) e cujo papel divulgador, formador e dinamizador do design é inquestionável. Da parte Reactor houve, desde sempre, consciência da importância de um trabalho que sendo individual visa objectivos comuns, que implicando dedicação individual só pode ser feito através da partilha colectiva.

No futuro próximo, a estrutura do Reactor será ajustada mas não sofrerá significativas alterações. Manter-se-á uma regular publicação de entrevistas, de ensaios e a procura de mapear o território do design. Haverá lugar a novas colunas (como a “Pequena Enciclopédia de Design” e o “Design and the City”) e a procura de criar extensões entre a actividade on-line e off-line. Continuaremos activos e reactivos, esperamos dos leitores uma crescente participação e o necessário diálogo que é, afinal, a razão de ser deste projecto.

Friday, October 05, 2007

BREVES


O Design Observer acaba de destacar os videos dos Personal Views, comissariados por Andrew Howard, que se encontram disponíveis no site da ESAD. Destaque muito justo para aquele que é, por esta altura, o mais importante ciclo de conferências internacional sobre design gráfico. A nova temporada aproxima-se e Matosinhos volta a ser local de visita obrigatória.

As mudanças na Vogue americana são já notórias. Já se sabia da saída de Anna Wintour e da entrada de Scott King. A marca de King já é evidente (uma Vogue tipográfica!) e surpreendente (uma Vogue gratuíta!!).



"What Can Design Do? How can branding help (or hinder) climate change?" é o tema de uma óptima reflexão de Michael Johnson.



Do próprio Michael Johnson mas também de Adrian Shaughnessy e tantos outros estão disponíveis aquiem podcast reflexões, statements e entrevistas imperdíveis.

A Campanha "Real Beauty" continua interessante. Veja-se o novo "Onslaught":



Na blogosfera várias entrevistas relevantes, com destaque para a entrevista com o extraordinário arquitecto Lebbeus Woods no BLDGBLOG



e com Donald Kuspit, o autor de "The End of Art".



Estão on-line vários textos que merecem leitura atenta, dois destaques: o último de Pedro Marques no Montag (onde quase todos os textos são essenciais) e para a crítica de Lígia Afonso à exposição "Transitioners" da Société Réaliste publicada na Arte Capital.

Vão ter o comentário que merecem aqui no Reactor, mas por agora o destaque para as incontornáveis "visões" do design editadas no Stock Exchange of Visions.

Há muita coisa a acontecer ou em vias de acontecer, enquanto não arranca o projecto (colectivo) de um blog que, de uma forma atenta e crítica, faça o "cartaz" de acontecimentos "crossover" embora com uma particular focagem no design e na arte contemporânea (projecto-iniciativa do Reactor e que se anúncia para breve), aqui ficam alguns destaques:

Hoje, a Rua Cândido dos Reis é palco do festival de Rua "se esta rua fosse minha..."



Anunciado para o final do mês está "In Rainbows" o último Radiohead, o design gráfico é do colaborador de longa data Stanley Donwood.



Foi publicado e merece leitura, o Manifesto Lumiere uma espécie de Dogma 95 para videoblogging.

Se fosse necessário um pretexto para ir a Paris aqui está ele, uma instalação no Pompidou que remonta a correspondência de cartas filmadas trocadas entre Kiarostami e Erice.



A exposição de The Atlas Group que Miguel Wandschneider trouxe à Culturgest é uma das reflexões mais extraordinárias já apresentadas em Portugal sobre o poder da "montagem" enquanto fronteira trabalhada artisticamente entre o "olhar individual" e o "olhar político".



Um rápido destaque para a presença das islandesas Amiina no Santiago Alquimista,



Para o suiço Sasha "Kalabrese" Winkler no Imago,




Para a estreia de Planeta "Rodriguez" Terror,




Para a edição em DVD, graças à Midas, dos filmes de Hal Hartley,




Último destaque para o primeiro aniversário do Reactor que amanhã se comemora. A festa é (relativamente) privada mas tendo sido muitos os convidados (vamos esperar pelo Paul Auster e tantos outros improváveis) há sempre espaço para mais um. Para encontrar a festa é só seguir o labirinto :)

Wednesday, October 03, 2007

ACERCA DO “FIM”



Iniciei há uns meses o trabalho de escrita de “posfácios” a diversos livros. O projecto, que nasceu num enquadramento académico, cedo foi contaminado por regras pessoais passando a obedecer a um princípio orientador menos estável. De um pequeno conjunto de livros sobre design, em relação aos quais deveria redigir um “posfácio” de cerca de 5 páginas, parti para uma diversificada escolha de livros (da poesia ao conto) a posfaciar e daí para a escrita de posfácios a livros imaginários. Saber colocar um fim é importante.

Que tudo se nos apresenta de certa forma inconcluso, parece-me evidente. O fim é sempre uma marca provisória que nós facilmente podemos apagar ou transformar.

Um livro, um filme, mesmo um edifício só aparentemente estão terminados. A tarefa do leitor, do espectador, do habitante é, precisamente, a de prolongar a obra. A interpretação é, de facto, tarefa de rescrita, tal como a memória. E neste sentido, o esquecimento será a sua temporária conclusão até ao momento em que os fantasmas adormecidos da obra nos invocam ou são por nós invocados.

O fim de uma obra é importante e devemos saber que o “Fim” não é o Fim.








PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com