Sunday, April 06, 2008







ABC
Ano X, N. 486, 7 de Novembro de 1929
Design Gráfico_Não Creditado







CADERNOS DO RESSURGIMENTO NACIONAL
S/D
Design Gráfico_S.P.N.






MUNDO GRÁFICO
Ano II, N. 34, 28 de Fevereiro de 1942
Design Gráfico_Neogravura







REVISTA TURISMO
N. 3, Julho-Setembro de 1959
Design Gráfico_Gomes&Rodrigues







AO LARGO
N. 255, Outubro de 1962
Design Gráfico_Neogravura







LUSÍADA
N. 2, Novembro de 1962
Vinício Cruz e Roberto Nobre






BELÉM
N.3/4, Outono/Inverno de 1998
Design Gráfico_Carlos Guerreiro







ERZATS
N. 1, Julho de 1999
Design Gráfico_Studio Andrew Howard







PAGE
N. 12, Janeiro/Fevereiro de 2000
Design Gráfico_Emanuel Rosa






NEXUS
N.1, 2007
Design Gráfico_André




Saturday, April 05, 2008



O vídeo que documenta a reportagem feita pela TVE ao projecto Musa Collective foi colocado ontem no Reactor sem ser acompanhado de nenhum comentário. Após a postagem um leitor escreveu um comentário insurgindo-se contra a pobreza do projecto Musa, caracterizando-o como um dos projectos mais "light" e vazios do actual panorâma do design gráfico português. A consideração pelo referido leitor e a pertinência do seu comentário aos, por si designados, Musa-Trendy, levaram-me a escrever estas linhas que associo a uma possível discussão, que aqui se abre aos leitores, sobre as estratégias de afirmação e promoção do design português.

Começo por esclarecer que os projectos colectivos, numa época em que a sua falência se encontrava proclamada, seduzem-me. A minha primeira reacção ao projecto Musa é, por isso, simpática. Não reconheço no Musa "a" imagem do design português mas reconheço "uma" imagem do design português. Trendy? Light? concordo que sim, embora saiba que do Nuno Valério ao André Gonçalves há trabalhos e criadores que se associaram a Musa com preocupações e com níveis de qualidade muito diferentes.

A marca tem o mérito, inegável, de proporcionar alguma internacionalização aos seus colaboradores, vão estar presentes, em Maio, no Graphic Design Festival em Breda, no RMX 200 no Chile, e há poucos meses a No Magazine num artigo sobre design português destacava-os (a par dos R2, da Experimenta, Katty Xiomara e mais alguns), este destaque segue-se a outros dados pela ID ou pela TVE cuja reportagem foi colocada no Reactor.

Admito que não me sinto deslumbrado com o trabalho da Musa mas não deixo de lhes reconhecer virtudes, sobretudo na exploração de um mercado que mesmo vivendo da circulação e consumo de um design mais descartável e efémero assume actualmente alguma importância.

Wednesday, April 02, 2008



SOMETIMES I WONDER
Por John Getz

O mundo é um palco, é certo, mas diferentes partes do mundo terão diferentes encenações e protagonistas. No início dos anos 70, cruzei-me algumas vezes na esquina da rua 54 com a 6ª avenida de Manhattan, com essa personagem insólita, um ancião cego, com longos cabelos e barbas brancas, meio profeta, meio mendigo, parecendo saído de uma ópera wagneriana.

Não era necessário falarmos com ele para percebermos que, como uma autêntica personagem, estava simultaneamente diante de nós e inelutavelmente distante. Falando com ele, sobre filosofia ou música, história ou pintura, experimentávamos a estranheza de nos sentirmos a aprender mesmo não ficando na posse de nenhum conhecimento, o conhecimento resultava do encontro.



Quando Moondog desapareceu, sem deixar rasto, no final da década de 1970, muitos de nós julgamo-lo morto. Paul Simon, um dos dedicados admiradores daquele ancião que “uivava à lua como ninguém”, chegou a fazer, na televisão, o seu elogio fúnebre.

Afinal, Moondog partira para a Alemanha, a convite da editora Kropf, onde gravaria o encantador “A New Sound of An Old Instrument”.



Ontem imaginei um possível encontro entre Moondog e Maddalena Crippa, imaginei-os a viajarem pelo Idaho, a caminharem junto as margens do Salmon River, ao som de banjos e balafones, Moondog recitando poesia, Maddalena, tombando sobre a relva, brilhando naquele palco. A primeira vez que ouvi Maddalena Crippa foi numa interpretação na ópera Pierrot Lunaire de Arnold Schoenberg numa excelente encenação de Peter Stein. Stein, tomava algumas das deixas do melodrama do Pierrot para construir as suas Brettl-Lieder encadeadas com excertos das transcrições que Schoenberg fizera da Kaiser-Walser e quejandas de Johann Strauss, oferecendo a Crippa a criação de oito fascinantes personagens. Quando surge em palco, corpo encenado pelo figurino de Moidele Bickel, iluminada – poucas vezes ouve luz tão simples e tão bela – por Cláudio Piccirilli uma revelação se dá numa harmoniosa união entre gesto e música, entre corpo-espaço e canto-tempo.



Recentemente, a minha última grande experiência de ligação profunda ao que acontece no palco, foi-me dada por um concerto de Kurt Elling. Assisti ao concerto em Chicago, começado numa quarta-feira fria e terminado numa quente madrugada de quinta-feira. Elling tem a técnica de um John Hendricks, a expressividade beat de um Mark Murphy e, por vezes, parece ter, não o diabo, mas Mrs. Ella Fitzgerald no corpo, o resultado só pode ser bom. Naquela noite foi muito bom.

Hoje, antes de adormecer, vou imaginar o encontro de Kurt com Maddalena, ao som das canções de Moondog, claro.


Nota: As crónicas de John Getz são publicadas mensalmente no Reactor.
Tradução de José Bártolo.

Tuesday, April 01, 2008



DARIO ALVES, DESIGNER

Num texto recente onde analisei alguma produção gráfica portuguesa das décadas de 1970 e 1980, elogiei a excelente capa do disco “Encounters” (1979) de Jorge Lima Barreto sem contudo referir o nome do seu autor, Dario Alves.

Conhecido pintor e professor, Dario Alves desenvolveu durante a segunda metade da década de 1970 e início de 1980 um dos mais coerentes percursos do design gráfico português, gradualmente abandonado face ao apelo mais forte da pintura.

Se, nestas obras, a influência da pintura se faz sentir, quer ao nível de referências quer ao nível de composição, destacam-se igualmente uma série de aspectos – da definição de grelha à sensibilidade tipográfica – reveladores de um certa autonomia do design gráfico, traduzidos numa linguagem simultaneamente depurada e amplamente expressiva, antecipando, em alguns casos, características exploradas por João Machado nas suas obras da segunda metade dos anos 80.


Dois Cartazes de uma série destinados a anunciar vários concertos promovidos pelo Museu Nacional Soares dos Reis.

Cartaz de Exposição colectiva de pintura, Sociedade Nacional de Belas Artes/Lisboa e Cooperativa Árvore/Porto.


Capa do disco "Encounters" de Jorge Lima Barreto.

Cartaz da exposição de calçado "Mocap", Exponor/Matosinhos.

Sunday, March 30, 2008



“A crítica é essencial para o aperfeiçoamento de qualquer actividade que façamos. Sem esse olhar terceiro sobre o que cada um de nós produz, o sistema funciona de modo incompleto, torna-se demasiado autocentrado e redutor. (…). Acima de tudo, a crítica relativiza e tem um potencial desestabilizador e desafiante que é altamente estimulante, fundamental, para o processo de criação. Sabe uma coisa? Há falta de verdadeira crítica sobre design em Portugal…”

Guta Moura Guedes, In EXPRESSO, Actual, 5 de Janeiro de 2008.


No contexto do design nacional, como no internacional, é fácil esbarrar com um designer falhado ou com um crítico improvisado. Se com o falhanço do designer podemos “sofrer na pele” (ou na inteligência), de forma directa, as suas consequências, com o falhanço do crítico tende a ser o designer a “sofrer na pele” e na inteligência as consequências que, se traduzem, normalmente, por uma maior possibilidade do seu falhanço.

Exposto o silogismo, pode concluir-se que precisamos da crítica para não sermos atacados pelo falhanço dos designers, decorrendo daqui que, quanto menos e pior crítica houver mais nos encontramos sob ameaça.

Torna-se claro que o crítico de design só tem utilidade no caso dos designers lhe prestarem alguma atenção. Ora é sabido que quem lê a crítica são, na maior parte dos casos, os críticos (da mesma forma que são os bloggers praticamente os únicos leitores de blogues), o que talvez explique que, a maioria dos textos de crítica do design, sejam reflexões sobre a crítica ou sobre textos críticos e não sobre a prática do design.

Abel Barros Baptista dizia, com inteligente humor, que uma das causas da extrema permeabilidade da profissão de crítico é a ausência de provas mínimas de acesso. Nem exame, nem estágio, nem orientação por mentor qualificado.

Esta consciência talvez explique a importante criação de cursos de Mestrado em “Design Criticism”. O primeiro, segundo sei, foi criado o ano passado por Teal Triggs na University of the Arts London, o segundo surge agora, coordenado por Alice Twemlow na SVA.

Se é verdade que o interesse pela crítica do design resulta em grande medida do efeito Design Observer também é verdade que tende a reflectir um nova cultura do design. Marcada pela gradual imposição de uma nova agenda cultural do design, sustentada por um novo impulso editorial e curatorial. Não é assim de estranhar que as referências aos anos 70 se tornem cada vez mais frequentes, afinal é a defesa de uma indistinção entre crítica do design e design como crítica que se procura de novo impor.

Thursday, March 27, 2008




1. Neste início de ano Sagmeister parece estar em todo o lado. Khoi Vinh analisa o Sagmeister phenomenon.



2. Werner Herzog entrevista Errol Morris; Errol Morris entrevista Werner Herzog. Excelente diálogo sobre cinema e tudo aquilo sobre o que o cinema é feito, publicado no The Believer.



3. Numa semana o Governador Norte-Americano do Albany, Eliot Spitzer não só perdeu o estado de graça em que se encontrava como caiu em absoluto estado de desgraça como aqui se conta, com um extraordinário sentido de actualidade o NYMag pediu a uma série de artistas e designers (Barbara Kruger, Rodrigo Corral, Chip Kidd, John Baldessari entre outros) que fizessem a sua interpretação visual “of the governor’s very bad week”. Um excelente exemplo do modo como os designers podem funcionar como “mediadores” críticos da sociedade que os rodeia.



4. Os Experimental JetSet deram uma interessante entrevista ao Geotypografika onde explicam a actualidade da Bauhaus e como algumas referências históricas (Reyner Banham, Herbert Bayer) foram decisivas no seu trabalho.



5. O número 10 da Obscena, excelente revista de artes performativas dirigida por Tiago Bartolomeu Costa já está disponível para download. Mónica Guerreiro, António Pinto Ribeiro, Eugénia Vasques, entre muitos outros, participam neste número. Miguel Honrado, em entrevista, faz o balanço de cem dias à frente da EGEAC.



6. Dan Roam, o autor do sedutoramente ingénuo The Back of Napkin. Solving Problems and Selling Ideas with Pictures, deu uma entrevista ao MetropolisMag. “Maybe it’s not “designed” enough for you?”



7. Foi apresentado no passado dia 15 em Matosinhos o TITAN uma Bienal de Ilustração no Design que envolve um ambicioso concurso internacional. Marcando a apresentação do evento inauguraram-se em Matosinhos as exposições de José Manuel Saraiva e Ju Godinho e Eduardo Filipe. Aos sábados há conversas sobre ilustração e design; a conversa do próximo sábado é com João Paulo Cotrim. O evento é promovido pela ESAD em parceria com a CMM e a APDL. Uma palavra para o design do evento, o design gráfico é de Ana Raposo e o WebDesign de Diogo Vilar.




8. Já está disponível on-line o número 11 da excelente publicação Invisible Culture. Este número é dedicado à curadoria e o seu contexto contemporâneo.



9. Alice Rawsthorn analisa no Herald Tribune a exposição China Design Now, com trabalhos da nova geração de designers chineses que está presente no V&A.



10. Vale a pena conhecer estes nossos conhecidos 15 filmes que desconheciamos serem ficção científica, mas afinal reconhecemos ser!




11. Promovendo o novo livro "Grids: Creative Solutions for Graphic Designers" de Lucienne Roberts, a Graphics publicou on-line um dos capítulos do livro onde Lucienne Roberts desenvolve uma análise historica sobre a utilização das grelhas no design, dos livros medievais ao trabalho de Wim Crouwel ou dos 8vo.



12. Para os admiradores de Chris Ware, aqui fica esta deliciosa animação feita para o programa This America Life

Tuesday, March 25, 2008



FIRST THINGS FIRST THINGS FIRST THINGS FIRST THINGS FIRST

Ironia do destino: havia lido o interessante texto publicado por Joan Costa no Foroalfa , onde os princípios do First Things First eram retomados, quando recebi o novo catálogo da empresa alemã Spectral.

Surpresa: a Spectral apropriou-se do manifesto First Things First e tomou-o como slogan para o seu catálogo de 2008. A apropriação não podia ser, simultaneamente, mais perversa e mais simbólica: perversa na medida em que o ícone (já nos referimos a esta iconisação num outro post) do design socialmente responsável e da catalisação anti-consumo se torna num slogan pro-consumo; simbólica porque deixa claro o funcionamento do mercado e a sua capacidade para assimilar e neutralizar – no fundo a capacidade de tornar mercadoria – quaisquer referências, mesmo aquelas que o procuravam desmantelar.

O mercado primeiro estranha, depois entranha, parecendo capaz de tornar qualquer objecto de vanguarda, mais tarde ou mais cedo, numa mercadoria de retaguarda; qualquer posicionamento crítico, mais tarde ou mais cedo, numa acção legitimadora.

Nota: A partir de agora, "First Things First" é marca registada da Spectral.


ATENÇÃO AOS OLHOS!

O artigo chamou-se “Atenção aos olhos!”, foi escrito por Paul Virilio e publicado n’ A Revista do jornal Expresso de 14 de Dezembro de 1991. Nele, Virilio aconselhava-nos a “não acreditar no que os olhos vêem”, formulação que já não expressava o “espanto” moderno perante as imagens técnicas (das fantasmagorias, da fotografia, do cinema) mas correspondia, agora, a uma “objecção de consciência” necessária face à crescente mobilização técnica (digital, virtual) do olhar contemporâneo: a obscenidade do visível nas palavras de Baudrillard.

No início dos anos 90 eram já evidentes os sinais de uma nova cultura visual marcada pelo alargamento do espaço e do contacto mediático; pela aceleração das representações; pelo esbatimento do “estatuto de realidade” da imagem associada a um imaginário hiper-real.

Além do mais, o estatuto do observador contemporâneo apresentava-se intensificado em relação ao observador moderno tal como Jonathan Crary o descreveu. A mediação técnica entre nós e as coisas estende-se a todos os sentidos e, além do mais, desloca-se de nós para as coisas, instalando-se nelas como “possibilidade de alteração radical”, isto é, como possibilidade de criação. É nas coisas, e não no olhar sobre as coisas, que reside o perigo.

Perante esta “perturbação da percepção” que nos afecta, conviria reconsiderar a “ética da percepção comum”: não estaremos nós a perder o nosso estatuto de “testemunhas oculares” da realidade sensível, em detrimento dos substitutos técnicos, das próteses de todo o género (da televigilância ao ciberespaço) que farão de nós seres assistidos, deficientes do olhar (espécie de cegueira paradoxal, devida à sobreeexposição do visível) e deficientes pelo olhar?

O caso da aluna, da professora e do telemóvel no Carolina Michaelis é bem conhecido.

Para mim, o mais interessante deste "caso" situa-se numa reflexão sobre a imagem, a sua construção e difusão contemporânea.

É que não havia apenas um telemóvel, há pelo menos outro que está a filmar (está consciência aguda da actualidade e da pertinência do instante e a disponibilidade de meios de registo é algo que a geração anterior não tinha) num registo que abole (ou pelo menos põe em questão) a fronteira público/privado, realidade/ficção.

Que se passe a discutir política educativa com base num vídeo colocado no Youtube é sui generis. Mas talvez seja um sinal dos tempos, uma actualização (a meu ver duvidosa) da "democracia participativa". Claro está que a web é cada vez mais o autêntico "espaço público" pelo que não surpreende que os políticos governem por e para ele – diante dos nossos olhos.

Sunday, March 23, 2008



Ao pensar no Design coloca-se imediatamente a questão do desassossego ou mal-estar com alguns indícios de infelicidade. Indícios que quanto mais tentamos compreender e interpretar mais se aprofunda esse mal-estar.
Designers inquietos, teóricos e críticos desatentos, produtores (industriais) reticentes e público atónito, são o quadro do mal-estar do e no design.
Todos sentimos isso, mesmo os que se deixam arrastar pelas distorções do ambiente mediático e equívoco duma sociedade em eufórica mas forçada modernização. (...)
O Design debate-se entre Poética e Pragmática num Mercado profissional indefinido e num Território teórico mal aprofundado. Assumindo então o interesse de procurar compreender e interpretar os indícios das infelicidades do pequeno universo do Design ganha oportunidade esta reflexão.
Faça-se uma primeira aproximação ao problema que é a de compreender e interpretar aqueles indícios de infelicidade e logo de mal-estar correlacionados com factores históricos do modo de pensar e fazer em Design, ou seja, o Desenho e Método. (...)
Numa segunda aproximação passemos agora ao problema do Território do Design, que é um extenso e ambíguo campo de investigação teórica, e do Mercado do design que é o lugar social onde o designer opera profissionalmente, em diversos níveis e especialidades.
Não distinguindo o trabalho teórico de técnicas operativas, não identificando num e noutro posicionamento pragmático e atitude poética, e confundindo a nível de conceitos esses dois campos, gera-se instabilidade à deriva entre pesquisa e produção, deixando-se aberta a porta a incursões incontroláveis. (...)
Esta partilha desordenada, onde o designer compete com técnicos que disputam o seu estatuto, onde os conteúdos teóricos do Design aparecem dispersos noutras disciplinas e onde as práticas profissionais são partilhadas por outras profissões, poderá fazer desaparecer o Design como disciplina?
Significa isto que o Design se dispersará, ou se transformará ou mesmo desaparecerá como disciplina?

DACIANO DA COSTA, “DESIGN E MAL-ESTAR",
IN AAVV, Design Em Aberto. Uma Antologia, CPD, Porto, 1993.

Saturday, March 22, 2008






A cultura sintética é essencialmente uma criação dos anos 70. Disso temos, entre outros, dois bons exemplos: a Crimplene inventava nessa década a roupa sintética revelando as virtudes do polyester ao mesmo tempo que os Kraftwerk inventavam a música sintética revelando as virtudes dos sintetizadores. Há quem defenda que a Crimplene seria diferente se os Kraftwerk não tivessem existido e há sobretudo quem defenda que os Kraftwerk seriam diferentes se não existisse a Crimplene. Para bem da história do vestuário e da história da música existiram ambos. As imagens acima são, respectivamente de um publicidade da Crimplene de 77 e uma imagem promocional dos Kraftwerk de 78.

PS: Como os leitores terão notado (um "post" sobre a Crimplene e os Kraftwerk !!??) este é um "post" escrito em período de férias. O Reactor retoma a normalidade já na segunda feira :)


Tuesday, March 18, 2008



SOMETIMES I WONDER
Por John Getz


Há vinte anos atrás gostava de ler umas crónicas publicadas no L.A. Style que me fascinavam por serem tão sedutoramente diletantes, tão assumidamente pós-modernas, conseguindo, numa página, falar do espírito DENY (Disgruntled Ex-New Yorkers) e da vida privada de James Lee Curtis, passando por Van Dyke Parks e terminado com uns versos de Ezra Pound.

Quando aceitei o convite do REACTOR para escrever mensalmente uma crónica literalmente sobre o que me apetecesse, pensei imediatamente nesses artigos da L.A. Style e, claro, logo de seguida pensei numa série de outras coisas, como nestes versos de um canção de Siouxsie and the Banshees: Only at night time/ I see you in darkness/ I fell you./ A bride by my side/ I’m inside many brides. /Sometimes I Wonder...".

No final da década de 1960, Frank Sinatra deu corpo à personagem do detective privado Tony Rome, em três filmes – “Tony Rome” (1967); “Lady in Ciment” (1968) e The Detective (1968) – que sempre me pareceram um requiem sobre o filme negro clássico. O melhor deste tríptico era, porém, o trabalho de fotografia do extraordinário Joseph Biroc que cheguei a conhecer, no final dos anos 80, numa cerimónia em Nova York que terminou numa animada festa ao som do DJ londrino Peter Ford. Na altura, Peter, aliás Baby Ford, era um dos protagonistas do “summer of love” de 88, mostrando uma inegável capacidade para misturar a ideologia hippie, o acid, o disco-sound (ou não fosse Ford um admirador confesso de Barry White) e ainda declarar oficialmente abertas as famosas “portas da percepção”.



O meu entusiasmo estava, contudo, muito longe de ir para Baby Ford, virava-se antes para a deslocação de notáveis actrizes para o campo musical, em aventuras necessariamente fugazes, permitindo invulgares combinações entre texto, música, ruído e imagens. Penso em John Zorn, Steve Beresford e David Toop que em torno da voz, belíssima voz, da actriz francesa Tonnie Marshall faziam a obra-prima “Deadly Weapons”; penso no trabalho de redescoberta das canções dos filmes de Brigitte Bardot feito por Beresford e Kazuko Hohki; penso, na relação de Delphine Seyrig com Steven Brown de onde resultou, para a colecçãoMade to Measure da Crammed, o disco De Doute Et De Grace.



Eu costumava trazer um monte de discos da Crammed, da Les Disques Du Crépuscule, que tinham aquele delicioso slogan “From Brussels With Love”, e de uma série de outras editoras belgas, de cada vez que ia a Bruxelas e ficava em casa do Dimitri Balachoff, responsável pela Meuter Titra, uma laboratório de legendagem de filmes, um tipo que adorava a música de Elmo Hope. Foi com Balachoff que pela primeira vez vi um filme de Manoel de Oliveira. Ainda hoje não dissocio Le Soulier de Satin e grandes quantidades de cerveja conventual.


Nota: As crónicas de John Getz são publicadas mensalmente no Reactor.
Tradução de José Bártolo.


COSMÉTICA E ESTUPIDEZ


Era Benedetto Croce quem ensinava que a verdadeira crítica faz coincidir a “crítica estética” e a “crítica histórica”, para logo elucidar que a história não pode ser contemplativa, mas deve ser explicativa, usando rigorosamente os dados históricos como meio, como material exegético, para construir um fim.

Com efeito, escreve Croce, “a crítica verdadeira e completa é a serena narração histórica do que aconteceu; e a história é a única e verdadeira crítica que se pode exercer sobre os factos.”.

Enquanto crítica exercida sobre factos, a história dá-nos uma herança que devemos assumir. Branquear a história, faz de nós seres sem passado e a explicação do passado, a consciência do passado, é estruturante relativamente aos valores sociais do presente.

É sempre perigoso brincar com a história; é sempre um modo de não levarmos a sério a sua lição ou não honrarmos a sua herança, seja por ignorância ou estupidez.

A iniciativa da Visão e do Correio da Manhã de promoverem a colecção Os Anos de Salazar propondo a reinvenção livre da história, tornando-a num exercício lúdico, de cariz pop, susceptível dos mais fáceis exercícios de cosmética, coisa certamente pouco séria ao ponto de poder ser gerida por critérios de oportunismo comercial, merece uma reflexão atenta.

No texto de apresentação é dito que “A verdade histórica não é negra nem é branca e não conhece cores políticas. A informação rigorosa também não. É isenta e imparcial, mas fornece todos os tons e todos os factos para que seja você a decidir, a pensar, a ter uma opinião.”. Entramos pois, assumidamente, no reino da doxocracia. A opinião individual torna-se autoridade, valendo tanto (ou tão pouco) como a visão crítica e competente, por seu lado progressivamente banalizada.

Importa sublinhar, que não podemos ser “nós” a decidir, que a indistinção entre “opinião” e “saber”, entre “curiosidade” e “competência”, entre “oportunidade” e “responsabilidade” pode subverter a consistência democrática, tornando a democracia séria e participada numa espécie de grande jantar de idiotas. Que a história, a política, a ciência, não são susceptíveis de construção DIY, e que a opinião vale de pouco, de muito pouco - mesmo que os media a valorizem e lhe dêem estatuto de autoridade independentemente dessa opinião ser auscultada sobre a situação do Benfica ou a clonagem humana, sobre a política educativa ou o consumo de sal – eis o que convém ter presente.

Os blogues talvez tenham a sua responsabilidade nesta imposição de um regime doxocrático e creio que devem assumir a sua responsabilidade no combate desse regime, assumindo a capacidade para funcionarem como lugares de crítica e explicação e não apenas como espaços de opinião e contemplação.

Que a campanha promocional de Os Anos de Salazar sugira que qualquer um de nós pode usar o photoshop para “pintar” com as cores que bem entender o que foi a história é, repito, tonto e perigoso. Há coisas, desde logo a nossa inteligência, que não se alteram com simples cosmética.

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com