Monday, November 23, 2009

THE LONG WAY HOME


Confiar na memória como guia é uma forma de nos perdermos pois, nessa viagem de regresso, ela opera fantásticos desvios. O que havia lá estado, o que devia lá estar, quase nunca nos aguarda e se o passado esperar por nós será ainda na memória que ele se cumprirá. No fim restará, talvez, apenas uma imagem. Mesmo agora o rasto que a memória de mim deixa é um rasto de imagens, não por isso forma de voltar a trás a não ser imaginando.





Não é apenas o véu a cobrir, suavemente, o rosto de Annette Peacock. Há algo mais que o vela e que permanece para vós invisível: o meu olhar. “I belong to a world that’s destroying itself” dizia ela e eu seguia-a – até às estrelas.






Estávamos, suponho, no fim do Outono de 1987, tinha 15 anos e uma saudade vaga de tantas coisas que não consigo agora descrever. Havia comprado o mini-LP dos Ban "Alma Dorida” uns meses antes e percebia bem o porquê dos dias serem cinzentos. É um retrato dos Ban a imagem que vos mostro e é extraordinário. Recortei-o e guardei-o dentro de um livro – “Do fim do Mundo” de Nuno Bragança – encontrei-o quando já o havia esquecido e o trabalho da memória recordou-me que foi mesmo assim.






Vi este filme ao teu lado e nunca mais te vi. A estrada terminou e mal sei quanto de mim deixei pelo caminho.






Tinha oito anos quando vi pela primeira vez “I Know Where I’M Going” de Michael Poweel e Emeric Pressburger e lembro-me de tudo tão bem. Lembro-me tão bem da agitação do vento e da certeza das marés e lembro-me bem de Wendy Hiller a resistir com todas as forças a essa força irresistível de se ser tocado pela paixão. Nesse dia decidi que, em adulto, iria procurar Wendy Hiller promessa que cumpri quando tinha 22 anos. Coloquei-lhe um narciso sobre a campa e durante alguns dias guardei a memória num sereno silêncio.






A fotografia é de John Vachon (“Fredericksburg”, 1936) recortei-a de um jornal que encontrei no comboio. No verso do recorte há uma data – “06 de Maio de 91”- e uma frase – “não voltes atrás” - escrita na minha caligrafia da altura.






Tenho uma memória difusa de ter ido ao CAM ver “Interiores” de Rui Horta. Terá sido, salvo erro, em 88 ou 89. Era uma obra para seis bailarinas com música de Ettienne Schwartz, pondo em cena um dormitório de raparigas. Não havíamos combinado ir juntos mas encontrámo-nos à saída. Era tão de noite quando atravessamos o largo de São Roque em direcção a casa. Por vezes ainda penso no que no poderia ter acontecido se não nos tivéssemos desencontrado.






Mal sabemos o que deixa nas imagens o tempo que por elas passa. Cada vez que as vemos é possível nelas encontrar qualquer coisa que não havíamos detectado no olhar anterior. Mas esse trabalho dos dias, que deixa sobre e leva das imagens uma quase-sombra, exige ser reconhecido e devolvido, pelo nosso olhar, sobre as imagens. A imagem é de um filme de que gosto muito, “Little man what now?” de Frank Borzage, um dos vários filmes que conheci antes de ver.






Uma das características do trabalho da memória é operar permanentes transgressões de fronteiras: o que havia sido definido, compartimentado e isolado é recuperado de um modo que suscita novas e imprevisíveis tensões, afinidades e relações.
Vem isto a propósito do meu trabalho da memória sobre o belíssimo filme de Vitali Kanevski “Não te mexas, morre e ressuscita”. Vi-o aquando da sua estreia em Portugal no cinema King no início de 1991. Desde então não o revi embora me recorde muito bem dele e a recordação convoque uma série de figuras e fragmentos que, numa espécie de dança, se envolvem entre si. E assim, as imagens, pujantes, do filme de Kanevski, misturam-se com imagens de um filme de Dovjenko (seria A Terra ?), com o silêncio de Lisboa, numa noite de Inverno, contemplada de uma janela do Príncipe Real na demora de um cigarro indiano, com o espanto com que vi (nesse mesmo dia) “David Lynch: Don’t Look at Me” um notável documentário de Guy Girard e, por entre o que a memória monta, há ainda o teu rosto iluminado no meio da noite pelo fogo do isqueiro e no embalo de uma canção de Julee Cruise (Floating into the Night) há uma voz que diz: “percam-se e não regressem”.





Mesmo não sendo cedo ainda não é tarde. Nunca será tarde demais para um dia acontecer. A imagem é de Regarde La Mer de François Ozon. Vi-o sozinho no 222. Pertence a um tempo em que ainda não era teu, a um passado tornado imagem e memória.

Saturday, November 21, 2009





GRAFICA FIDALGA


Soube ontem, através de um e-mail de um amigo paulista que a fabulosa Gráfica Fidalga tinha sido encerrada. Visitar a Fidalga (algo que há muito tinha agendado e sempre adiado) seria uma visita à história do design gráfico, naquele espaço magnifíco de um gráfica popular onde um grupo de velhos tipógrafos continuam a utilizar a letterpress numa Heildelberg de 1929 certamente semelhante aquela que, há anos, experimentei numa gráfica em Viseu.




Quero acreditar que a Gráfica Fidalga não morreu, apenas se fez uma pausa no lambe-lambe de rua mas a qualquer momento aqueles portões da garagem vão voltar-se a abrir e aquelas mãos experientes do Maurício, do Carlão e do Carlinhos, por entre cães a entrar e a sair, vão voltar a tirar das gavetas os vários tipos, vão voltar a dispo-los na velha máquina e, então, o cheiro da gráfica, o ruído da gráfica, o lambe-lambe, a experiência visual e fisíca do design voltará a surgir esperando, assim o desejo, pela minha visita.

Thursday, November 19, 2009




No âmbito do meu Seminário de Cultura Contemporânea integrado no Mestrado em Design da ESAD, amanhã é meu convidado André Parente, figura central na video-arte brasileira e um dos protagonistas da actual reflexão do campo da cultura visual.

Partilho a sinopse da conferência e a minha expectativa relativamente a uma sessão seguramente estimulante. A conferência terá lugar no auditório da ESAD às 17 horas.


O cinema de artista está a transformar a experiência da arte e do cinema nas suas diversas dimensões – discursiva (narrativas, montagem), arquitectónica (as condições de projecção das imagens) e tecnológica (produção, edição e exibição). Nesta conferência, André Parente faz uma reflexão sobre as principais tendências do cinema de artista na arte contemporânea: cinema experimental (anos 1950-70), cinema de museu ou de exposição (dos anos 1980 em diante), a partir da obra seminal de autores como Michael Snow, Antony Mccall, Thierry Kuntzel, Jeffrey Shaw.

Thursday, November 12, 2009

Viena


VALE A PENA LUTAR PELO DESIGN?


No passado dia 20 de Outubro a Academy of Fine Arts de Viena de Áustria foi ocupada por estudantes e professores como forma de resistência à implementação do processo de Bolonha e a favor na necessária reflexão sobre o ensino das artes e do design.

Na sequencia da ocupação foi redigido um manifesto, no qual se tornaram públicas as razões para aquela acção directa. Se a produção de manifestos tem sido crescentemente recorrente desde o final da década de 1990, quando a Adbusters reedita o texto de Ken Garland First Things First, a verdade é que na maioria dos casos os manifestos, independentemente do seu pragmatismo, aparecem antes da acção, como seu catalisador. No caso de Viena, o manifesto foi redigido durante acção e entre a tomada de posição política resultante de um acto de desobediência civil (a ocupação do edíficio) e a tomada de posição política resultante de um texto de reflexão pública (o manifesto) a complementaridade é evidente.

Em Portugal, uma mudança profunda no ensino do design, na sequencia da implementação das directrizes, de espírito economicista, saídas da famosa reunião dos Ministros da Educação na cidade de Bolonha, provocou pouca discussão. As escolas, na sua maioria, estiveram tão atarefadas a garantir a adequação a Bolonha que não tiveram tempo, energia ou vontade para, aprofundadamente, discutir o processo. As associações de design foram igualmente silenciosas e se alguma coisa pensaram sobre o assunto para si guardaram.

A tomada de posição sobre o assunto surgiu por parte de vozes isoladas, alguns críticos, com destaque para Mário Moura que se referiu ao ensino superior pós-Bolonha como a aldeia Potemkin 2.0 .

Alguns autores, por outro lado, defendem que o ensino de Bolonha se adequa melhor a áreas projectuais, possibilitando, enfim, uma aprendizagem por projecto “onde os alunos têm que se comportar como profissionais juniores desde o primeiro dia e começar a questionar os assuntos enquanto tal."

A reflexão sobre o ensino do design esteve recentemente a ser trabalhada no Congresso Europeu do Ensino Superior de Design que teve lugar na Culturgest em Lisboa. A iniciativa, em grande medida promovida pelo Centro Português de Design, anunciava como um dos seus objectivos “reunir uma task force para pensar o ensino do design”. Reunida a task force aguardam-se agora relatórios, conclusões, agendas.

Na ausência delas, talvez não seja negligenciável, como documento de reflexão, o manifesto dos ocupas de Viena e a manifestação, esperançosa, de que ainda vale a pena travar combates em nome do design e do seu ensino.


1. We oppose ourselves to university-based organisational structures that are determined by economic ends, as well as to the privatisation of teaching, research and knowledge production more broadly. We demand the full public funding and re-democratization of all educational institutions as well as the unconditional abolition of university fees!

2. We oppose ourselves to the pseudo-autonomy of universities. We demand the immediate withdrawal of §8* of the UG 2002!

§8.: 'Upon the proposal of the minister of education, the government may impose the installation of a branch of study on a university or several universities, given this is necessary on the basis of political decisions in the fields of education or science, and given there is no related former agreement as in a contract regarding university performance.'

We demand the freedom to define what teaching and research, as well as science and art, mean in the context of our universities.

3. We oppose ourselves to quality assessments concerning science and art when these operate by economic criteria. We are against the forced imposition of self-marketing strategies on universities, and against the conflation of education with competitiveness and elitism.

We demand the abolition of knowledge surveys and agreements on productivity!

4. We oppose ourselves to the degrading transformation of universities and schools into training facilities oriented by the labour market.

We want education as space for thinking, not training as the mere reproduction of workforce!.


5. We insist that the government refrain from taking teaching and art, science and research to be seperable as objects of thought and administration. We demand that the corresponding ministeries be merged immediately.

We insist that the rector defend the position of the Academy - and not his private view - when it comes to negotiating the terms of productivity with the ministry.

We demand that the rector make sure all existing courses of study remain in place, according to the decisions taken at the academy.

We demand that all financial activities within the term of the current agreement on productivity (2007-2009) be immediately revealed.

Edited by teachers and students of the Academy of Fine Arts Vienna.

Tuesday, November 10, 2009

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Na próxima quinta-feira, dia 12 de Novembro, tem lugar o lançamento do livro Paolo Deganello: As Razões do Meu Projecto Radical.

O projecto gráfico é da autoria de João Faria e Pedro Nora e o resultado é extraordinariamente sedutor. O livro, editado pela ESAD, foi coordenado por Maria Milano e conta com um ensaio da minha autoria, para além de artigos de François Burkhardt, Bernhard Burdeck, Joana Santos e uma entrevista a Deganello conduzida por Katja Tschimmel. Ao todo, são mais de 500 páginas documentando e analisando a obra projectual de Paolo Deganello, o seu contexto e implicações.

Na sessão de lançamento estão previstas intervenções de Maria Milano, Guta Moura Guedes, Enrico Baleri para além do próprio Deganello. Para conferir, a partir das 19 horas no B-Flat Jazz Club em Leça da Palmeira.

Sunday, November 08, 2009

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SE HOUVER ALGUM VAUGHAN OLIVER, POR FAVOR LEVANTE-SE!



Do boom do rock português do início da década de 1980 e dos anos que se seguiram, não guardamos o nome de nenhum designer ao qual possamos chamar de “nosso Vaughan Oliver” ou “Peter Saville português”.

Os nomes que encontramos creditados pelo design das capas dos discos parecem, desde logo, prometer o pior, entre outras, por três razões:

ou não são suficientemente sérios para serem levados a sério: nomes como Ni, Licas, Xico Z. ou Vitinha este último ligado aos Rádio Macau;

ou são demasiados sérios para serem levados a sério: como os aristocráticos Bernardo de Brito e Cunha, que trabalhou com os UHF, e António Campos Rosado que trabalhou com os Heróis do Mar;

ou soam demasiado ao nome de uma empresa de import&export: vejam-se os exemplos de Azinheira F&S ou Ana Cristina B.P.F que desenhou a capa do 78-82 dos Xutos e Pontapés.



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Que o design talvez não fosse, naquele contexto, assim tão importante, percebe-se igualmente por três factos:

um número muito significativo de capas de discos não apresentam a identificação do autor, como se o design fosse coisa menor para ser creditado;

ou, por outro lado, têm demasiados autores, como se um só não fosse suficiente para fazer um bom trabalho. A capa do Anjo da Guarda (1983) de António Variações é um bom exemplo, sendo o trabalho gráfico creditado a António Variações, José Manuel Cruz e Silva, Rui Gonçalves, Francisco Vasconcelos e David Ferreira.

Ou, então, são os próprios músicos a desenhar a capa. Assim acontece com as capas dos Beatniks e dos Interface, com as capas dos Go Graal Blues Band (algumas interessantes) desenhadas pelo baterista Raúl B. Anjos ou com algumas capas dos UHF concebidas pelo vocalista António Manuel Ribeiro. O paradigma desta lógica de acumulação é dado por Pedro Ayres Magalhães que colabora no disco Sonho Azul de Né Ladeiras como compositor, letrista, responsável pelos arranjos, multi-instrumentista (toca sintetizador, caixa de ritmos, guitarra clássica e baixo), produtor e designer gráfico.



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Convém realçar que, em boa parte das vezes não creditar o trabalho gráfico é perfeitamente justificável, vejam-se as capas de Caminhando (1983) dos Da Vinci ou Guardador de Margens (1983) de Rui Veloso, trabalhos que muito poucos teriam coragem de assumir.


Analisada a partir da perspectiva da indústria discográfica dos anos 80, a história do design gráfico português torna evidente vários aspectos. Percebe-se uma certa fidelidade das bandas aos seus designers (como os discos dos Ananga Ranga sempre da autoria de Pedro Freitas ou os dos Táxi (com algumas soluções inovadoras) criados por José Júlio Barros); reconhece-se uma clara rivalidade entre as grandes editoras e seus designers (José Júlio Barros na Polygram; José M. Cruz e Silva na Valentim de Carvalho) ao mesmo tempo que editoras independentes trabalham com os seus designers underground como Rogério Bold da Rádio Triunfo ou Victor Lages.



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Apesar da indústria discográfica portuguesa ser pequena, alguns designers tiveram oportunidade de criar capas de discos a um ritmo intenso. O caso mais evidente talvez seja o de José Júlio Barros que entre 1981 e 82 assinou, entre outras, as capas de Tripas à Moda do Porto dos Trabalhadores do Comércio, Táxi dos Táxi, Danza dos Arte&Ofício, o interessante Oito Encomendas discriminadas no verso dos C.T.T. e Cairo dos Táxi.

Este género de produção gráfica permanece por estudar e embora muitos dos autores de capas de discos não fossem designers gráficos profissionais (alguns dos nomes mais activos dessa época, artistas ligados às editoras, como José Julio Barros, vinham da pintura e seguiram por essa via) encontramos ali um universo gráfico tão desequilibrado quanto sedutor.


Desse período ficaram-nos capas de discos boas ( como Hands Off dos Zoom desenhada por Fátima Rolo ou quase todas dos Mler If Dada), outras francamente más, outras estranhas (como a maioria das editadas pela Rádio Triunfo), outras pirosas (em discos do Tantra, Jarojupe ou Iodo). Numa diversidade que, afinal, não deixa de caracterizar o design português de então.

Tuesday, November 03, 2009




SOMETIMES I WONDER
por John Getz


Passei o último fim de semana a desencaixotar livros que tinham ficado guardados num pequeno apartamento em Lauderdale no Minneapolis.

Algumas dessas caixas guardavam livros de artista comprados nos últimos anos, muitos deles por ocasião de viagens à Europa e visitas a feiras de pequenos editores.

Foi com um imenso prazer que, demoradamente, me dediquei a cada livro que retirava do escuro da caixa de cartão onde estavam depositados. O que começou por uma decisão prática de não adiar a necessária arrumação de um pequeno apartamento há algum tempo desabitado tornou-se, naturalmente, numa espécie de ritual que só pôde ser realizado depois de escolhida a música certa para o acompanhar e de aberto o vinho ideal para a ele se associar. Então sim, pude atentamente folhear o livro sobre Tumarkin publicado pela Har-El, ou o livro sobre Paul Celan editado pela Editions du Capricorne, pude recordar livros que me esquecera que tinha, como o lindo livro de Simon Lewis editado pela Passenger Books, pude reflectir sobre diferentes identidades editoriais através dos livros da Filigranes, da Onamatopee, da Art&Fiction ou da Roma Publications.

No final da noite as caixas de livros estavam vazias, a garrafa de vinho estava vazia, e no chão acumulavam-se pequenas colunas de livros formando interessantes esculturas. A imagem dessas torrezinhas de livros terá sido a última que registei antes de adormecer. Nessa noite sonhei sobretudo com livros. Na verdade, também tive um sonho bizarro onde via David Byrne a passear de bicicleta nas ruas de Lauderdale enquanto nevava. Só um detalhe: os flocos de neve eram pequenos e levíssimos livros.

Sunday, November 01, 2009

exd


EXD’09, QUE BALANÇO?


No próximo fim de semana encerra a edição 2009 da Experimentadesign. Quase dois meses depois do início podemos procurar fazer o seu balanço.


Quem teve oportunidade de assistir à semana inaugural, para além da agitação das inaugurações (e é também agradável sentir como o design pode agitar o quotidiano) e da (re)descoberta de vários locais espantosos da cidade (do Mercado de Santa Clara ao palácio Braancamp), no que já é uma das imagens de marca da Bienal, confrontou-se ainda com inúmeras propostas e reflexões estimulantes sobre o design contemporâneo. As Open Talks e as Conferências de Lisboa reflectem méritos e desequilíbrios que resultam da estratégia de programação: a de abarcar grande parte do vasto campo da actual cultura do projecto. O que implica um grande esforço de “representatividade” a nível disciplinar, geográfico, ideológico e estratégico. A consequência é de que dificilmente todas as intervenções (ou sequer a maioria) nos poderá interessar, independentemente da força da maioria dos participantes. No entanto, à excepção da duvidosa Open Talk 1 a restante programação foi, sem dúvida, estimulante.

Para ver, com tranquilidade, as exposições o ideal seria aguardar pelas semanas seguintes. Para a mais ambiciosa das exposições desta edição, a Experimenta convidou a conceituada curadora britânica Emily King e o resultado é, sem dúvida, muito interessante. O desafio de Quick, Quick, Slow, realce-se, era grande, mas dela resultou uma aproximação segura à história da imagem contemporânea a partir do olhar de um designer gráfico cuja linguagem vai sendo sucessivamente influenciada por diferentes objectos, suportes e meios, da animação aos videojogos.

As restantes três exposições, de características (e orçamentos) diferentes, cumprem os seus propósitos. Eventualmente, poder-se-ia esperar mais da Timeless que envolvendo um ponto de partida interessante e tendo reunido um conjunto sedutor de participantes nacionais e internacionais (Public Works, Abake...) resultou numa exposição algo difusa e desequilibrada.

Em relação aos catálogos da exposições nenhum é particularmente estimulante. O mais ambicionado, o da Quick, Quick, Slow é mesmo fraquinho. O mais interessante talvez seja o da Lapse In Time que é também o que mais me agrada graficamente. Um bom exemplo de como se poderia fazer mais com menos surge nas poucas páginas do interessante Portugal Imaginado criado por Joana Baptista Costa e Mariana Leão.


O ciclo de Cinema Contar o Tempo, programado por Ricardo Matos Cabo, apresentou na Cinemateca uma selecção de filmes maioritariamente dos anos 60 e 70 ligados ao Cinema Directo que, curiosamente, não terão menos como tema central o “espaço” do que o “tempo”. Claro que o tempo é central em muitos deles (essencialmente o tempo das imagens e as suas formas de narração) mas é a questão do espaço (seja na aproximação entre Cinema e Land Art no filme de Robert Smithson ou de Michael Snow; seja na centralidade narrativa da paisagem no conto de Ogawa; ou na exploração “topológica” do cinema directo de Jean-Claude Rousseau) aquela que naqueles filmes era mais determinante. O ciclo, apesar dos seus méritos, pareceu-nos descontextualizado da Bienal, para mais sabendo-se como a programação de filmes sobre design é, entre nós, tão escassa.

Uma palavra também para os inúmeros Tangenciais (apesar de nem todos os anunciados terem inaugurado) que garantiram um interessante efeito de contaminação da EXD pela cidade com alguns óptimos resultados (como o tangencial dos R2).



Ao nível dos conteúdos electrónicos, esta edição apresentou duas novidades: a existência de um blogue e a disponibilização de alguns textos em .Pdf a partir do site principal. A ideia de proporcionar “leituras complementares” (interessante o texto de Max Bruinsma) merece sem dúvida ser melhor explorada depois desta (tímida) experiência. Também o blogue carece de um outro tipo de gestão que garanta conteúdos mais ricos, mais informação, estimulando o debate a partir do blogue que, desta vez, foi inexistente.


São conhecidos os “anti-corpos” que a Experimentadesign gerou ao longo destes anos. Algumas críticas lançadas à EXD parecem-me espelhar essa “reacção epidérmica” seja ao formato da Bienal, seja à equipa da Experimenta, seja ao seu inquestionável sucesso. Neste sentido, algumas criticas parecem-me pouco consistentes, dois exemplos:

1. A crítica de que a EXD não contribui para a “descentralização” do design em Portugal. Talvez seja verdade, mas a EXD é, legitimamente uma Bienal de Lisboa (tal como a Luzboa o é ou tal como o London Design Festival é, legitimamente, um evento de Londres). Podemos sempre discutir as vantagens em concentrar ou dispersar, mas essa discussão não retira legitimidade à opção da Experimenta.
2. A crítica de a EXD é um acontecimento de forte componente “cosmética”, canalizando parte do orçamento para a promoção do evento e sua vertente lúdica. Também aqui, poderá haver alguma verdade mas, de novo, trata-se de uma opção legítima e, seguramente, estrategicamente justificada em função das linhas de gestão da Bienal (angariação de patrocínios e públicos, projecção internacional, auto-gestão de projectos tangenciais etc.). Claro que podemos discutir o formato, tal como podemos discutir o formato da Bienal de Saint-Étienne ou da Utrech Manifest mas isso não anula a legitimidade do formato escolhido e o sucesso da sua concretização.


Em síntese, neste regresso a Lisboa a edição 09 da EXD confirmou a importância que a Bienal tem no contexto do design português e o efeito catalisador que sempre acaba por gerar. Apesar da inclusão de novos curadores e programadores, a programação principal mantém uma identidade que facilmente associamos a Guta Moura Guedes. Esse mérito é seu. Com uma maior estabilidade política que se espera haja na Câmara Municipal de Lisboa e a manutenção dos principais patrocinadores, poder-se-á esperar uma edição 11 porventura ainda mais sólida. Vários detalhes poderão contribuir para essa solidez: uma programação mais distribuída pelo tempo da bienal evitando o efeito de esvaziamento de balão que se sente após a semana inaugural; uma maior capacidade de explorar o espaço público, tornando o evento mais contaminador da cidade; uma maior aposta na história do design português de que a edição 09 teve algumas aproximações; a exploração do blogue como espaço de discussão, criação e teorização; a publicação de um catálogo geral de não apenas documente mas produza conhecimento sobre design.

Friday, October 30, 2009

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CÓPIA?


Alguém me dizia ontem que mais de metade dos projectos de design que por aí circulam não são, legitimamente, da autoria de quem os assinou e, consequentemente, ficou com o trabalho e com os créditos. Este processo de apropriação terá diversas variantes, todas elas conhecidas: podemos estar a falar do trabalho concebido e desenvolvido pelo designer júnior de um estúdio que, no final, não vê o seu nome creditado, nem o seu vencimento de estagiário melhorado; podemos estar a falar do trabalho de um designer freelancer desconhecido feito para um cliente de bairro que é usado por um estúdio maior para um cliente maior; podemos estar a falar de um “fazer render” soluções da história do design; podemos estar ainda a falar de um conjunto de outras situações, nas quais o trabalho original é (mais ou menos) alterado, deixando sempre a hipótese de não ser mais do que uma coincidência.



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Também é sabido que alguns importantes estúdios internacionais, têm observadores atentos ao que se faz no segundo e no terceiro mundo do design, levando depois para o primeiro mundo (e primeiro mercado) trabalhos de autores com nomes estranhos (o que é indiferente já que o nome do autor não será creditado) que serão apresentados como soluções originais nos palcos certos.


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Se por vezes não conseguimos deixar de nos indignar perante uma cópia (o que acontece sempre que somos nós os lesados), a verdade é que a história do design é feita de sucessivas apropriações, devidas ou indevidas. Em todo o caso, isso não anula que a questão da propriedade mereça ser uma questão central na agenda de qualquer associação de designers.

Saturday, October 24, 2009





A semana trouxe-nos uma nova Ministra da Cultura. Dela se pode dizer que sabe de música, o que talvez seja mais do que poderíamos dizer dos seus últimos antecessores. Tivemos também polémica sobre o último livro de Saramago. Ainda pensei que a polémica tivesse a ver com a péssima capa do livro mas logo percebi que a razão era bem mais tonta. Mas nem tudo é mau, como o provam Recolhendo Os Ossos de Daniel Barroca ou Get Color dos Health. E claro, há sempre outros destaques a fazer mesmo que seja em Fast Forward.




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Eatock

O Designers Review of Books analisou o recente Imprint, que reúne trabalhos desenvolvidos entre 1975 e 2007 do especial Daniel Eatock.




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Palavras

Ouvir os designers descreverem o seu trabalho, permitindo-nos o trabalho criativo de mentalmente os visualizar, é uma experiência enriquecedora. Nada melhor do que experimentar através da audição de um dos inúmeros registos da Typeradio.



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Pictogramas

Já é conhecida a nova família de pictogramas desenhada para os Jogos Olímpicos de 2012 pelo estúdio SomeOne.




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Agnés

A semana que passou foi indelevelmente marcada pela presença de Agnés Varda. Esteve na Festa do Cinema Francês; lançou na FNAC do Chiado o DVD com os excelentes Duas Horas na Vida de uma Mulher e Sem Eira nem Beira; esteve na inauguração do ciclo que a Cinemateca lhe consagra; e finalmente viajou para o Porto onde, no dia 22, inauguraram duas belíssimas vídeo-instalaçãoes na Capela da Casa de Serralves. Para ver e complementar com a leitura da entrevista dada ao Believer.





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Irão

Cartazes sobre a situação política no Irão para ver no Social Design Zine.





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Cidade Imaterial

Reflexões sobre a soft city contemporânea em mais um óptimo post de Dan Hill.





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Coisas Espertas

O nome promete uma lista de coisas espertas: The Smart List: 12 Shocking Ideas That Could Change the World.




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Dugald Stermer

Se actualmente associamos o nome de Dugald Sterner ao o criador de magnificas ilustrações realistas convém recordar o seu passado ilustre indissociável da revista Ramparts que dirigiu entre 1964 e 1970. Para conferir numa recente entrevista.





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Andrew Horton

Quando vou ao meu Facebook por vezes penso que me enganei e que estou no Youtube; outras vezes que estou no Flickr. O que não é necessariamente mau como se comprova pelo excelente arquivo de capas da Business Week desenhadas por Andrew Horton disponíveis no Facebook.





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Terry James

O "detective" Montag não descansou enquanto não descobriu quem foi Terry James e pelo meio revelou-nos algumas das mais espantosas capas de ficção cientifica dos anos 60 e 70.





Obama Music


Revistas

Voltando às capas de revistas (e lobby Obama à parte), a American Society of Magazine Editors anunciou as 2009 Best Magazine Cover.






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Paz

Falando em Obama, A Universidad de San Ignacio de Loyola do Perú lançou um concurso de cartazes dedicado ao tema Paz en un lugar multicultural os resultados (com destaque para os posters iranianos) são interessantes.






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Lixo

Falando em guerra, O balde do lixo, o original (da Vipp) faz anos e presta-se a ser redesenhado como o provam John Baldessari, David Starck, Shelly Sabel entre outros.





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Chaumont em São Paulo

Mudando de assunto, com o o sugestivo título O Espéctaculo está na Rua, 72 cartazes provenientes de Chaumont estão em exposição no Instituto Tomie Ohtake. Como se não lhes bastasse estarem quase no Verão para nos fazer roer de inveja...





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Nº 70

Vem ai o nº 70 da Emigre, trata-se de um look back issue editado por Rudy Vanderlans.





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Aniversário #1

Ao que parece a GQ italiana faz dez anos. Nada que chegue para merecer os nossos parabéns. Em todo o caso, lembraram-se de convidar 10 designers para criar 10 capas para o número de aniversário. Os nomes são de topo (Marian Bantjes, Neville Brody, Milton Glaser, Chip Kidd ou Experimental Jetset). O resultado bem interessante.






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Aniversário #2

Mais velhinha (e por isso mais sábia) a W139 comemora 30 anos com uma exposição que reúne cartazes dos inúmeros designers que nas últimas décadas colaboraram com a galeria de Amesterdão: Bart de Baets, Coen Mulder, Esther Krop, Job Wouters ou Experimental Jetset.





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Manifestos

Chama-se Conditional Design Manifesto é um dos mais recentes Manifestos de Design tornado público. Eventualmente dele se falará em Tomadas de Posição: Manifestos e Design, conferência de José Bártolo (desculpem o uso da 3ª pessoa) com intervenção de Mário Moura na próxima quarta-feira, dia 28, pelas 17 horas no Auditório da ESAD.

Wednesday, October 21, 2009

miolo-artedesign1


A partir do início da década de 1970, uma série de textos, escritos em português, vão afirmamdo uma certa maturidade no que à produção teórica sobre design diz respeito. Encontramos, num conjunto vasto de textos, duas preocupações recorrentes: a afirmação do "lugar do design", procurando afirmar a autonomia da disciplina relativamente a outras áreas de produção artística ou industrial; a sua definição crítica, procurando estabelecer um programa orientador da prática do design.

Um bom exemplo desta dupla preocupação encontramo-lo num texto intitulado "O Lugar do Design", publicado por Carlos Duarte no excelente catálogo (desenhado pelo Estúdio Quid de Carlos Gentilhomem) da EXPO AICA SNBA 1972. O texto de Carlos Duarte revela um claro pragmatismo associado a uma interessante visão ideológica que faz da sua reflexão, frequentemente, uma reflexão de alcance mais alargado em defesa da necessária transformação das estruturas sociais e culturais portuguesas. Duarte fala na necessidade de "tomar consciência e debater criticamente todo um processo que não é isento de dúvidas e contradições - para mais sujeito em toda a parte a opcções ideológicas de sentidos vários e discordantes."

É também importante lembrar que o corpus teórico sobre design produzido em Portugal durante esse período anterior à revolução sugiu sobretudo nas páginas dos jornais e revistas. Algo que hoje se afigura impossível, ler um artigo sobre design num jornal de referência foi possível, em inúmeras ocasiões, nos anos 1960 e 1970. Recordo, por exemplo, os textos de Maria Helena Matos, Clavet de Magalhães e Sena da Silva no Diário de Lisboa; de Lima de Freitas no Diário Popular; para além das revistas, como a Binário onde João Constantino publicou, com grande regularidade, textos de crítica de design.

Em 1972, Carlos Duarte escrevia que "longe vai o tempo da crença firme no design, como arma indiscutível e decisiva ao serviço do progresso e do bem-estar geral, capaz de controlar o meio ambiente, salvar as nossas cidades e revolucionar a nossa maneira de viver. Reconhece-se hoje que os obstáculos a vencer são mais poderosos do que se imaginava, que o design como qualquer outra actividade se insere numa trama complexa de acções de efeito recíproco (...)". Exigir-se-ia, dirão alguns, mais esperança, mais convicção, por parte de um teórico do design que quer valorizar a disciplina. Mas, é sabido, a valorização nem sempre passa pela legitimação. E a função do crítico não é legitimar o que existe, mas antes apontar para possibilidade de superação do já existente. Carlos Duarte sabia-o, e o prazer da leitura de "O Lugar do Design" como de vários outros textos escritos, é bom recordar, em tempos de ditadura, é a capacidade de afirmar, o que, em síntese, se diz assim: "O design joga um papel fundamental numa sociedade revolucionária".

Que a revolução exige, permanentemente, ser renovada parece-me indiscutível.

Tuesday, October 20, 2009

O QUE É DESIGN?



Na sua definição mais concisa, o design é o processo de dar forma a uma ideia. O acto de pensar tornado visível. O que diferentes definições fazem é afinal apontar para diferentes formas de se pensar a relação entre o design e o seu contexto: mais cultural, mais comercial, mais ecológico, mais tecnológico etc.

Daqui decorre a dificuldade em responder de uma forma conclusiva à questão: o que é o design?

Mas a dificuldade da resposta não anula a importância da pergunta; pelo contrário, uma marca diferenciadora do design em relação a outras profissões tem a ver com o facto do acto de projectar implicar uma reflexão sobre o design, na medida em que projectar é fazer escolhas (de meios, de materiais, de técnicas, de intenções). Neste sentido, o design será uma disciplina marcadamente teórica o que a torna, consequentemente, muito adequada na prática.

Fazer design começa por ser uma forma de pensar: de pensar um problema. Mas o design não termina ai.
Fazer design é, igualmente, uma forma de pensar: de pensar uma solução. Mas também aí não cessa o processo de design.
Fazer design é uma forma de pensar na forma de materializar esse pensamento. E esta étapa, fundamental, não é ainda a última.
Porque fazer design é, igualmente, pensar como o pensamento que nós materializamos irá interagir com outros pensamentos e outras materializações.

Deste processo nasce um resultado. Um resultado que corresponderá, inevitavelmente, a um modelo de projectar.

Como este:



Os modelos mais não são do que exemplos já testados de como se pode projectar. Mas, claro, não deixam de ser, antes de mais, modelos de pensamento. Porque, vale a pena repeti-lo, o design é essencialmente isso, uma forma eficaz de pensar.

Recentemente, li pela primeira vez um livro que há muito aguardava para ser lido: Filosofia e Filosofia Espontânea dos Cientistas de Louis Althusser. No início da leitura fui conduzido a pensar que os designers se comportam de forma mais próxima do cientista do que do filósofo. E de forma semelhante ao cientista que se aproxima da filosofia apenas em momentos de crise, também o design só se dá ao trabalho de reflectir sobre o que faz em momentos de claro impasse individual ou coorporativo. Não serão os Manifestos de Design uma espécie de filosofia espontânea destinada a salvar a disciplina em momentos de crise?

Contudo, com o avançar da leitura, fui abandonando essa interpretação inicial. O design estará seguramente mais próximo da filosofia do que da ciência. Althusser estaria certo quando afirmava que a "a filosofia é acima de tudo prática" (pág. 28) ou quando escreve que "a filosofia não se ilustra, não se aplica. Exerce-se. Não pode aprender-se senão praticando-a, porque ela não existe senão na sua prática." (pág. 29) e, mais à frente, "não há discurso objectivo sobre a filosofia que não seja ao mesmo tempo filosófico, portanto discurso sobre posições na filosofia." (pág. 57). Algo próximo se verifica no campo do design. Porque o design é, essencialmente, pensamento; porque não é possível fazer uma cadeira sem antes pensar em como ela vai ser feita; porque o design é um processo abstracto que visa a concretude; porque o design é um processo concreto que visa a abstração (o standard) a diferença entre teoria e prática é, no design, apenas uma diferença de forma.

Monday, October 19, 2009




SOMETIMES I WONDER
por John Getz


Não haverá mais autêntico cartão de visita de Los Angeles do que aqueles enormes placards, colocados no cimo dos prédios, que explodindo de rosa, nos apresentam Angelyne. "O cor-de-rosa torna os homens fracos e as mulheres amorosas" dizia-nos uma Angelyne hot pink fun enquanto conversávamos no bar no Hyatt Hotel do Sunset Boulevard.

Em Los Angeles, hot pink fun é verdadeiramente um estilo, que encontramos no design gráfico, na moda, na música, no cinema, mas sobretudo, numa reunião de referências, num certo life style. Seguramente impossível de recriar e, no entanto, natural entre a paisagem de Los Angeles.

Se todas as cidades têm a sua paisagem , têm igualmente os seus espaços-de-fuga, as suas heterotopias, na expressão de Foucault. Em Los Angeles a proliferação dos espaços heterotópicos praticamente os torna parte integrante da paisagem. No início dos anos 90 um dos espaços incontornáveis da cidade era a antiga fábrica de gelo no Santa Mónica Boulevard convertida por George Murillo numa das melhores discotecas da cidade, a Arena. Por ali podiamos ver Madonna, David Lynch, Thierry Mugler, Sinead O'Connor ou Laura Dern. Como dizia um amigo meu, é de tal forma fácil detestar Los Angeles - os parques de estacionamento, os neons, as palmeiras, um certo ar fake generalizado - que é natural que acabemos por a adorar.


Saturday, October 17, 2009






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ALOISIO MAGALHÃES (1927-1982)


A excelente galeria de imagens que podemos consultar no Flickr dão-nos uma ideia da dimensão e qualidade da obra de Aloísio Magalhães, pioneiro e um dos mais notáveis designers da história do design brasileiro.

Citando Cintia de Sá, que a Magalhães dedica um interessante artigo , se o princípio básico do design é levar a criação artística para o quotidiano social, no Brasil o maior exemplo de como um profissional pode atingir esse objectivo encontra-se no trabalho desenvolvido por Aloísio Magalhães.

Nascido no Recife em 1927, ano conturbado marcado pela aprovação da Lei Celerada, Aloisio Magalhães estudou Direito, disciplina que viria a exercer, conciliando desde cedo a actividade jurídica , a militância política com a prática das artes gráficas.


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Na década de 1950, cria a oficina O Gráfico Amador, que terá grande importância na produção artística e cultural do Recife, e onde serão produzidos alguns dos seus primeiros trabalhos, entre os quais a capa do livro Ode da autoria do importante dramaturgo, amigo de Aloísio Magalhães, Ariano Suassuna.

Mais importantes serão os trabalhos seguintes, nomeadamente os trabalhos editoriais, marcados por uma grande experimentação de meios e processos de impressão, feitos em colaboração com Eugene Feldman, em particular o belíssimo Doorway to Portuguese, hoje uma raridade, pelo qual recebeu três medalhas de ouro do Art’s Director Club.


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Em meados dos anos 50 o reconhecimento internacional de Aloiso Magalhães era já assinalável. Trabalhara em Paris com gravador inglês Stanley Hayter do Atelier 17, realizara uma exposição individual em Nova York, na sequencia da qual o MoMA adquirira um trabalho seu, mantendo sempre uma ligação activa ao Brasil, onde regressa em 1958 para leccionar na Escola de Belas Artes de Pernambuco mudando-se, dois anos depois, para o Rio de Janeiro.

É a parti desta altura que surgem os trabalhos mais conhecidos de Aloísio Magalhães, em grande parte encomendas institucionais, desenvolvidas pelo estúdio AMPVDI (Aloísio Magalhães Programação Visual Desenho Industrial)para a Petrobras, Banco Central, Itaipu, entre inúmeras outras empresas e instituições.


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Sobre a obra de Aloísio Magalhães foi publicado em 2005 o livro A Herança do Olhar. O Design de Aloísio Magalhães, organizado por João de Souza Leite, uma excelente obra que permite a preservação da memória sobre uma obra gráfica notável e que, inevitavelmente, nos leva a questionar para quando em Portugal obras semelhantes sobre os nossos pioneiros: Kradolfer, Botelho, Paulo Ferreira, Bernardo Marques, Manuel Lapa, Manuel Rodrigues e tantos outros.


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Aloísio Magalhães faleceu em 1982 , mas a data a celebrar é o dia 5 de Novembro, data do seu nascimento e actualmente, em sua homenagem, Dia Nacional da Cultura e Dia Nacional do Design no Brasil.

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com