Thursday, July 01, 2010



OZ MAGAZINE






Entre os livros que vou levar para ferias encontra-se o, já velhinho,
Underground: The London Alternative Press 1966-74 da autoria de Nigel Fountain (Routledge, 1988). O livro é particularmente cuidadoso na forma como reconstrói o contexto da edição idependente britânica desse período mostrando a teia de relações entre economia, cultura, política e sociedade. Entre as publicações a que Fountain dá mais destaque encontra-se a OZ uma revista sobre a qual, já há uns anos, aqui falei.

A OZ MAGAZINE nasceu em Sydney em 1963 passando depois a ser editado em Londres, onde foi publicada entre 1967 e 1973 marcando a cultura psicadélica de então.

A edição australiana, influência pelo espírito satírico de Lenny Bruce não era no entanto particularmente inovadora do ponto de vista gráfico.

Quando em 1966, dois dos editores da OZ, Richard Neville e Martin Sharp se mudam para Londres e se envolvem com alguns circulos da contra-cultura britânica a revista assume um papel importante dentro da Underground Press.

Desde o primeiro número londrino (que define a identidade gráfica e editorial da publicação) com o tema “Striptease Teológico”, a OZ passa a ser um espaço de livre expressão e experimentação contando com editores convidados, inúmeros colaboradores e uma enérgica vontade de experimentação (explorando novos formatos e técnicas de impressão) dentro do espírito psicadélico do final da década de 1960.

Foi também através da OZ que o genial Burney Bubbles publicou alguns dos seus trabalhos. O estúdio onde a revista era produzida foi várias vezes alvo de rusgas por parte da Obscene Publications Squad da Polícia Londrina o que, à semelhança de muitas outras publicações visadas, contribuia para o seu fenómeno de culto.


















Wednesday, June 30, 2010




SOMETIMES I WONDER
por John Getz


Habituei-me, há muito, a registar a memória das viagens que faço em cadernos de diferentes tipos e formatos (apesar da preferência pelos folio watercolour da Moleskine) que, com o tempo, fui acumulando em caixas mal organizadas. Serão perto de 200. Um destes dias, encontrei o caderno que regista a visita de duas semanas (na última semana de Setembro e primeira de Outubro) a Portugal feita em 2001. Foram duas semanas estimulantes passadas em Lisboa com visitas breves a Coimbra e Porto.

Se Lisboa é uma cidade branca, luminosa, por vezes feéricamente atlântica, o Porto é uma cidade granítica, densa, que convida a uma descoberta mais lenta através das ruelas, com os seus cafés e tascas da zona baixa e se abre a novas geometrias no encontro com o mar. Cheguei ao Porto a uma quarta-feira – marcada pelo constrangimento de alguns amigos pela morte, nesse mesmo dia, de Sena da Silva figura importante do design português - com uma pequena lista de coisas “a ver”.

Começámos por visitar o Salão Internacional de Banda Desenhada a funcionar num espaço incrível de um antigo mercado, Ferreira Borges. Interessava-me menos ver o trabalho dos convidados internacionais, que na sua maioria conhecia bem, casos de Scott Morse e Ellen Forney cujo trabalho acompanhava através de um dos meus jornais preferidos o “The Stranger” de Seattle, e mais ver o trabalho de autores portugueses que me pareceu interessante mesmo que, em alguns casos, preso a referências estrangeiras. O trabalho que mais me impressionou, e que desconhecia, foi contudo o de Marjane Strapi, uma autora de origem iraniana, cujo Persopolis é hoje justamente famoso mas que vi pela primeira vez no Porto.

No final dessa semana pude conhecer melhor alguns espaços da cidade – uma galeria-bar agradavelmente informal chamada Maus Hábitos, uma estação de caminhos de ferro de grande riqueza arquitectónica São Bento e alguns espaços públicos - através do cartaz de um dinâmico festival de Live Art chamado Brrr. Regressei a Lisboa, com uma paragem por Coimbra, cidade que me despertou pouco interesse (disseram-me que, aquela apatia, é típica dos domingos), a tempo de assistir na Gulbenkian a um concerto dos The Residents que sempre digo ser a minha banda preferida de entre aquelas criadas nos anos 1960 e ainda em actividade.





Em Lisboa tive oportunidade de visitar diversas exposições. Fiquei com a boa sensação da existência de programação em espaços alternativos às grandes instituições – vi uma incrível exposição de fotografia numa casa particular na Rua do Salitre com trabalhos, de que gostei muito, de nomes como Cláudia Fischer e José Luís Neto – e com a má sensação de que a identidade e o design dessas galerias e instituições é, na sua maioria, muito pobre. Também os flyers que fui recolhendo, na sua maioria não mereciam ser guardados. Mesmo eventos de grande dimensão como os do Porto Capital Europeia da Cultura me pareceram pobres e poucos originais. A mesma sensação de desinteresse foi-me suscitada pelos cartazes de rua. Do que guardei ou registei o mais interessante talvez tenha sido o cartaz do “Dia Mundial da Música 2001” evento patrocinado pelo Ministério da Cultura de Portugal.

Um dos exemplos de instituições incapazes de comunicarem decentemente os seus eventos era, por essa altura, o Centro Cultural de Belém, um grande edifício, que me pareceu mal integrado com o espaço de Belém um dos locais da cidade onde melhor se documenta a importância histórica do mar e das viagens marítimas para Portugal.

No Centro Cultural de Belém visitei duas exposições ligadas à Bienal de Design de Lisboa, as dedicas aos designers Dieter Rams e Verner Panton. Duas exposições muito diferentes, não só pela diferença de universos dos autores mas acentuadas pelas opcções dos curadores. A de Panton procurava revelar os objectos com parte de um ambiente que se lhes sobrepunha. Mais do que expor objectos a exposição visava – e no essencial conseguia – sugerir um ambiente ora tangível ora, no limite do intangível, criado por jogos de cor, luz ou volumetrias. Menos conseguida a exposição dedicada a Dieter Rams, expondo os objectos, solitariamente, ao olhar do visitante, anulando-lhes (e por vezes contrariando-lhe) a carga programática tão central no “bom design” ramsiano.

O resto do tempo foi ainda mais autenticamente cultural, o “galão” ao pequeno almoço experimentado, cada manhã, num café diferente, o prazer lânguido de anoitecer numa esplanada bebendo vinho tinto, as conversas com os amigos. Recordo também alguns discos, que levara comigo e que ouvi pela primeira vez em Lisboa – em pausas no quarto do hotel ou em passeios solitários pelas ruas do castelo – alguns que odiei (Gotan Project “La Revancha del Tango”) outros que me foram quase indiferentes (Zero 7 “Simple Things”) e outros que gostei francamente (“Curvatia” dos Spacek). Tenho de voltar a Portugal!

Tuesday, June 22, 2010

ENTREVISTA À EFEMÉRIDE


A Efeméride, boletim cultural editado pela Ermida de Belém, publica no seu último número (dedicado ao centenário da república) uma breve entrevista que Catarina Cruz me fez e onde se fala da evolução do design em Portugal nestes últimos cem anos.




1 – A partir de quando é que podemos começar a falar de design em Portugal?


Se pensarmos na existência de uma “consciência” relativamente ao design – entendido como união entre arte e indústria visando a produção de artefactos capazes de gerar inovação social – ela surge cedo entre nós, basta ver a polémica gerada em torno da representação de Portugal na Exposição Universal de Paris de 1889. A representação foi entregue à Associação Industrial de Lisboa mas era um anacronismo falar de indústria em Portugal nessa altura. Mesmo os sectores mais importantes como as conservas ou os vinhos não estavam industrializados. Sem indústria, o pavilhão português fazia a valorização de um Portugal rural, pitoresco e colonial, se nessa mesma exposição se apresentam inúmeras inovações industriais exibidas na Galerie des Machines, Portugal mostra carros de vacas do Barroso contendo artesanato regional. A exposição de Paris mostra que não há design em Portugal – a excepção seriam as faianças artísticas da fábrica de Bordalo Pinheiro – mas suscita igualmente em alguns núcleos um desejo

reformador do ensino e da indústria. Contudo, este desejo reformador fazia-se, frequentemente, acompanhar da defesa da preservação do “estilo português” (algo que nem os próprios defensores saberiam exactamente o que era) e de pontuais acessos de grandeza bem expressos no balanço da Exposição da Indústria Nacional realizada em Lisboa em 1849 feito por António de Oliveira Marreca e onde ele afirma que a realidade nacional no campo das “artes úteis” em nada fica a dever ao panorama internacional.


Do ponto de vista gráfico, a distância relativamente ao que é feito em Inglaterra, em França ou na Alemanha era, no início do Séc. XX, um pouco menor. Há uma rica e contemporânea produção no campo da ilustração caricatural (com destaque para Leal da Câmara e Bordalo Pinheiro), alguma publicidade e, embora em pequeno número, qualidade no campo editorial, por exemplo na publicação de tratados com uma linguagem moderna, bem paginados, usando fontes Baskerville o que revelava a actualização dos tipógrafos de casas com a Imprensa Moderna no Porto.


O primeiro ateliê de design é criado em 1915 por António Soares e Jorge Barradas. No entanto, o mercado de design em Portugal era quase inexistente e o ateliê rapidamente fechou. Só nos anos 1930 com o desenvolvimento da cidade de Lisboa a norte, graças à dinâmica das Avenidas Novas, com o surgimento de casas de decoração, como a Barbosa & Costa ou a Jalco, com a chegada ao poder de António Ferro e consequente crescimento das encomendas públicas é que se começa a sentir a existência de um mercado de design. Surgem, então, diversos ateliês de design e publicidade, sucedendo ao Atelier Arta de Soares e Barradas, como o Íbis de Bernardo e Ofélia Marques, a ETP de José Rocha, o Estúdio MR de Manuel Rodrigues, para além de publicidade desenhada por revistas periódicas (ABC, Civilização) e assinada em nome individual (Kradolfer, Emmerico, Tom etc.). De uma forma mais consensual, é então, nos anos 1930, que podemos falar de uma cultura do design em Portugal embora não exista ensino, nem indústria, nem crítica, nem democracia...




2 – O design em Portugal surgiu mais tarde do que em outros países? Quais as influências e condicionantes do contextos histórico?


No início do Século XX não se fala em Portugal em Design mas o que chamaríamos hoje design era então designado de “Artes Decorativas” cá como no estrangeiro. O que havia em Inglaterra, na Alemanha ou nos Estados Unidos era uma visão revolucionária da ligação entre arte, técnica e indústria, que em Portugal não seria possível de implementar por não haver indústria e por outro lado por uma visão algo ingénua do que podia ser o envolvimento político do artista.


Se pensarmos na acção de António Ferro, que referi na resposta anterior, ela contribuiu para o que, em linguagem actual, diríamos ter sido o crescimento das indústrias criativas mas não para o desenvolvimento do design industrial.


A ideia central do design moderno, enquanto ideia disciplinar, de uma lógica que pode juntar o engenheiro, o pintor, o decorador, expressa pelo principio da “adequação ao propósito”, essa só será verdadeiramente valorizada em Portugal após a criação do Instituto Nacional de Investigação Industrial, em 1959, que nos anos 70, com o envolvimento de Margarida D’Orey, Sena da Silva ou Madalena Figueiredo, realiza as duas exposições de design português com trabalhos de António Garcia, Eduardo Anahory, Daciano da Costa, da Cooperativa Praxis, do Gabinete de Design D. I., entre muitos outros.





3 – O design surgiu, inicialmente, muito ligado à produção industrial, segundo li num artigo que escreveu. Em que é que isso se traduz?



Sim, o design nasce no contexto da revolução industrial associado ao pensamento utilitarista. Através da união entre arte e indústria o que se procura construir é um novo programa disciplinar capaz de racionalizar a produção industrial em nome de um projecto social e politico modernos. Apesar das diferenças entre eles, é este desígnio que aproxima William Morris, Henry Ford ou Walter Gropius. A exposição do MoMA de 1934, intitulada “Machine Art” evidenciava bem uma nova lógica de produção funcional, que corresponde à visão triunfante do design moderno.



4 – Este ano comemoramos o centenário da República. Existe alguma relação entre a instauração da República e o design?



Os Humoristas do final do séc. XIX e primeira década do séc. XX (Rafael Bordalo Pinheiro, Leal da Câmara, Francisco Valença, Cristiano Cruz, Emmerico ou Jorge Barradas) onde podemos identificar a primeira geração de designers portugueses foram, na sua maioria, antes da implementação da República críticos da Monarquia e depois da instauração do regime republicano críticos da República. O Papagaio Real, dirigido por Almada Negreiros e onde colaboram Stuart Carvalhais ou Jorge Barradas, ataca acidamente os chefes políticos da República. Da mesma forma, como é sabido, o Modernismo português (Almada, Pessoa, Mário de Sá Carneiro, José Pacheko) e as suas principais publicações como a Orpheu, a Contemporânea ou a Águia não são pro-republicanas. Mas é inegável que é após a instauração da República que se dá uma dinamização da cultura portuguesa – com o surgimento de movimentos como o Modernismo, o Futurismo, o Saudosismo ou a Renascença portuguesa. Neste último movimento, é evidente o desejo de aproveitar a mudança de regime para renovar a sociedade portuguesa ultrapassando as insuficiências que se reconhecia terem marcado os últimos tempos da monarquia constitucional.




5 – Quem foram os pioneiros do design em Portugal?



O contexto do design português foi e é peculiar. Não tem uma história linear. Talvez por isso, os pioneiros (no sentido daquele que desbrava um território inóspito e frequentemente hostil) não estão circunscritos a um momento histórico. Ao longo do tempo vamos encontrando pioneiros: Bordalo Pinheiro, Raul Lino, José Pacheko, Bernardo Marques, Sebastião Rodrigues, Daciano Costa. Mas também no design contemporâneo encontramos pioneiros. Guta Moura Guedes é pioneira na curadoria, em Portugal, de um evento de design de larga repercussão internacional como é a Experimentadesign; o Mário Moura e eu próprio somos pioneiros na exploração de novos meios para a produção de crítica do design; o Dino dos Santos é pioneiro na aceleração de tempos de resposta na criação de famílias tipográficas; o João Faria é pioneiro na conquista de espaço de criação e experimentação, em trabalhos para um grande cliente institucional, como os seus cartazes para o TNSJ comprovam; a Boca do Lobo é pioneira na bem sucedida comercialização de objectos de luxo num contexto de forte recessão económica. Por não possuirmos uma cultura de design desenvolvida, fazer design em Portugal sempre envolveu alguma forma de pioneirismo, isto é, de inovação e persistência.

Thursday, June 17, 2010

DESIGN RELACIONAL: ALGUMAS NOTAS


É sabido que, na sequência da publicação em 1998 da Esthétique Relationnelle de Nicolas Bourriaud fomos assistindo à rápida e disseminada afirmação de uma lógica de criação baseada no relacional, geralmente associada a uma valorização do processo (Bruce Mau afirma, de resto, no seu Incomplete Manifesto que “process is more important than outcome” ), do contexto, da obra aberta, da autoria colectiva (agora designada de co-design ) e de uma certa tensão identitária entre design-arte, obra em movimento e acontecimento social.

Antes de Bourriaud, autores como Kathy Acker, ligados ao campo da teoria crítica, haviam definido as bases de uma teoria legitimadora das práticas de vanguarda do design contemporâneo agora associadas a diversas linguagens disruptivas: “the languages of flux”; “the languages of wonder materiality and play”; “the sexual and emotives languages”; “languages of intensity”; “language that forgets itself”, etc. (Kathy Acker, Bodies of Work: Essays, London, Serpent’s Tail, 1997, págs. 91-92.)

Este projecto discursivo, no sentido de Acker, este projecto relacional, no sentido de Bourriaud, tende a ser trabalhado como um medium processual operador da passagem de uma relação de contemplação para uma relação de utilização (política, social, científica etc.) das obras; o projecto relacional é assim lugar de afirmação de uma acção política (no sentido da “política directa” ou “sub-política” de Ulrich Beck) na medida em que se considera que “having reflections and critical thoughts is to get active, posing questions is to come to life.” (Claire Bishop, “Antagonism and Relational Aesthetics”, in October, 110, Fall 2004, p. 51.)

Autores como Bojana Kunst vêem neste instaurar de novas formas de discursividade social (tal como elas nos aparecem, sob formas diferentes, nos trabalhos dos Stalker, Abake, Superflex, Daniel Eatock, Bruit du Frigo ou de Metahaven) a expressão de um novo materialismo da relação: “not a materialistic awareness of historical and ideological discourses, but rather a constant physical connecting of collaborative protocols of knowledge production, bodily experiences and inhabitations.”.


Veja-se o exemplo do recente projecto de Dexter Sinister “Only an Attitude of Orientation”. Por ocasião da exposição “An Invitation to an Infiltration”, apresentado na Contemporary Art Gallery de Vancouver, Stuart Bailey concebeu um evento que consiste em cinco acontecimentos desenvolvidos ao longo de cinco dias (entre 26 e 30 de Janeiro); informação sobre cada evento foi fornecida apenas na véspera através da mailing list da Dexter Sinister. A orientação face ao projecto, por parte de cada espectador, deve resultar de uma atitude face ao projecto, de uma disponibilidade para nele participar aceitando-lhe as regras - de imediatismo, efemeridade, contingência, especificidade, etc. – que o caracterizam.

Num interessante artigo, Rick Poynor explora a noção de “design relacional” para sugerir a forma como os parâmetros do design se estendem, actualmente, para lá do objecto estético ou funcional passando a incluir uma modalidade mais vasta de envolvimento na vida pública. A característica principal deste “design relacional” não é exclusivamente visível na presença material do design, não se circunscrevendo apenas a uma tipologia de produção, sendo antes o processo de construção do diálogo entre as percepções, as reacções e as intervenções dos diferentes actores de uma mesma prática social.


Embora o texto de Poynor se assuma como uma reacção a um artigo escrito pouco antes por Andrew Blauvelt no Design Observer , que publicámos no nosso último post, entre os dois artigos são mais as afinidades do que as diferenças. Blauvelt considera que actualmente experienciamos um terceiro paradigma do design: “The third wave of design began in the mid-1990s and explores design’s performative dimension: its effects on users, its pragmatic and programmatic constraints, its rhetorical impact, and its ability to facilitate social interactions. Like many things that emerged in the 1990s, it was tightly linked to digital technologies, even inspired by its metaphors (e.g., social networking, open source collaboration, interactivity), but not limited only to the world of zeroes and ones. This phase both follows and departs from twentieth-century experiments in form and content, which have traditionally defined the spheres of avant-garde practice. However, the new practices of relational design include performative, pragmatic, programmatic, process-oriented, open-ended, experiential and participatory elements. This new phase is preoccupied with design’s effects — extending beyond the design object and even its connotations and cultural symbolism.” .

Uma arqueologia do uso conceptual do “relacional” por parte da teoria do design contemporânea levar-nos-ia a um artigo publicado por Limited Language no número 74 da revista Eye . Na leitura de Limited Language, o conceito de estética relacional aplicar-se-ia à cultura visual contemporânea como identificação de um processo no qual as “relações sociais espontâneas” tendem a ser esmagadas pelos mecanismos massificados da informação: “For Bourriaud, spontaneous social relations are vanishing in the information age as communication becomes restricted to particular áreas of consuption: coffe shops, pubs and bars, art galleries and soo n. This is a world littered with the artefacts of graphic design.”

Dentro deste contexto, o relacional surgia como uma possível orientação crítica de um design empenhado em mediar activamente processos sociais, de activar “zonas de comunicação”, de gerar “microtopias”, de criar, enfim, através do design, novas formas de discursificação cultural, assumindo-se o designer como semionauta: “Here, the designer is not the starting or end point of a finished product but, to use Bourriaud’s term, a “semionaut” who connects new spaces, new narratives. For him, “The Semionaut” imagines the links, the likely relations between disparate sites.”.

Num artigo anterior, “Towards a Complex Simplicity”, publicado em 2000, Andrew Blauvelt considerava que “There are signs of different forms of design taking hold, projects and solutions that embrace reductive not additive working methods, explicit rather than implicit structures of organisation, a preference for the literal over the ambiguous, and where the ordinary and the quotidian, not the exoticised subcultures of the vernacular, are sources of inspiration. At their best such projects are a critical encounter with problems of representation, both verbal and visual, rather than the next round of stylistic permutations.” . O design de vanguarda contemporâneo avançaria, segundo Blauvelt, rumo a uma complexa simplicidade , a uma forma de design tendencialmente mais participatória e menos prescritiva.

Um dos exemplos dados por Blauvelt é o de um cartaz desenhado por Paul Elliman para uma conferência sobre a obra de Lautréamont, placas brancas foram colocadas entre as palavras “image”, “Maldoror” e “text”, convidando os participantes na conferência a construírem as suas possíveis combinações a partir das palavras dadas e, eventualmente, de outras a inscrever sobre os espaços em branco. O discurso participativo visava, deste modo, a geração de novas formas de discursividade mas, também, a produção de novas formas de sentido. O que o designer responsável pela identidade gráfica da conferência procurava proporcionar era, afinal, no contexto da conferência, a produção de conhecimento não circunscrita aos “especialistas” mas tornada extensível ao público participante.

Na sequência do texto de Blauvelt, o programa do design relacional é, de forma determinante, afirmado no importante ensaio de 2002 “Notes around the Doppler Effect and Other Moods of Modernism” publicado por Robert Somol e Sarah Whiting no nº33 da revista Perspecta . Os autores demarcam-se do que designam por critical Project (ligado ao indexical, dialéctivo e à representação quente) e propõem o que designam por projective “linked to the diagrammatic, the atmospheric and cool performance” , a partir daqui afirma-se um novo programa de design, territorializado a partir das seguintes afirmações/demarcações: “from índex to diagram”; “from dialectics to doppler”; “from hot to cool”. A nova forma de projectar pode ser apresentada como um processo de cooling down: “Overall, one might characterize the shift from critical to projective modes of disciplinarity as a processo f cooling down or, in Marshall McLuhan’s terms, of moving from hot to a cool version of discipline.”

No interior destas práticas atentas “aos efeitos do design – para além do próprio objecto de design” (eis uma possível interpretação deste cooling down), o designer é menos um produtor de conteúdos e mais um modificador de contextos. De acordo com Max Bruinsma, “este entendimento tem profundas consequências para o design. Altera a noção de design como organizador de factos para a de design como gerador de ocorrências. Por outras palavras, o design já não pode ser visto como algo de “objectivo” ou “neutro”, deve ser entendido como “o sedimento das acumulações”. Utilizo aqui o termo “sedimento” para evocar o olhar que o geólogo lança a uma formação rochosa antiga. Para nós, é um velho penhasco, mas o geólogo vê nele o resultado de milhares e milhares de anos de processos físicos, de uma dinâmica específica da natureza.” (Max Bruinsma, “A rebelião das mobs: A cultura do envolvimento”, In Catalysts!, N. 1, Setembro 2005, p. 42.).

No interior das prática sociais, o designer deve ser capaz de operar com esses “ciclos de acumulação”, funcionando, na expressão de Willem van Weelden como um “editor” capaz de se posicionar com a sua “objectividade forte” perante os processos sociais. (Willem van Weelden, “Ser Redactor: A cultura da informação”, In Catalysts!, n. 1, Setembro 2005, p. 26).

Weelden considera que a prática do político de hoje assemelha-se à do designer de informação, pelo menos num ponto: a rotina diária de criar um compromisso viável.

Eis um desafio que, longe de ser menor, caracteriza bem a actual tendência relacional no design: a rotina diária de criar um compromisso social viável.

Saturday, June 12, 2010





PARA UM DESIGN RELACIONAL

de ANDREW BLAUVELT




Haverá alguma filosofia que englobe e ligue projectos pertencentes a campos tão diversos quanto a arquitectura e o design gráfico e de produto? Ou teremos já ultrapassado essa fase? Poderemos esperar até que narrativas tão grandiosas ainda existam?

O campo do design gráfico é aquele sobre o qual me tenho debruçado mais. Nesta disciplina é extremamente difícil definir conjuntos coerentes de ideias ou crenças que tenham guiado os trabalhos mais recentes — decididamente, não há nada de tão definitivo como nas décadas anteriores, quer se trate dos maneirismos da chamada grunge typography, o brilho de um termo como o Pós-Modernismo ou, inclusivamente, como o rótulo reaccionário de Neo-Modernismo. Ao observar uma série de projectos nos diversos campos do design e abordar o tema em conferências, surgiram novos padrões. Parte dos trabalhos mais interessantes levados a cabo hoje em dia não é passível de ser reduzido à simples polémica da forma e contra-forma, acção e reacção, que se tornou a base previsível da maioria dos debates que decorrem há décadas. Estamos perante uma mudança de paradigma muito maior e que abrange todas as disciplinas do design, desigual na sua evolução, mas que possui um maior potencial transformador do que os ismos que a antecederam ou as tendências micro-históricas dariam a entender. Para ser mais preciso, creio que nos encontramos na terceira grande fase da história do design moderno: uma era de design relacional e contextual.

A primeira fase do design moderno, nascida no início do século xx, era a busca de uma linguagem formal plástica ou mutável, uma sintaxe visual passível de ser aprendida e, consequentemente, divulgada racional e, potencialmente, universalmente. Esta fase testemunhou uma sucessão de «ismos» — Suprematismo, Futurismo, Construtivismo, de Stijl, ad infinitum — que fundiram inevitavelmente a noção de vanguarda como sinónimo da própria inovação formal. Com efeito, é graças a esta herança do Modernismo que podemos hoje falar de uma «linguagem visual» de design. Os valores da simplificação, redução e essencialismo determinam a direcção da maioria das linguagens abstractas e formais do design. Esta evolução remonta à crença por parte dos primeiros construtivistas russos numa linguagem universal da forma que transcendesse as diferenças sociais e de classe (cultura livresca contra cultura oral), e estende-se aos logótipos abstractos das décadas de 1960 e 1970 que poderiam contribuir para reduzir os fossos culturais das grandes empresas transnacionais: do poster «Beat the Whites with the Red Wedge», de El Lissitzsky, à perfeita união formal sintáctica e semântica no logótipo do alvo da Target.

A segunda vaga do design, que tece o seu início na década de 1960, centrou-se no potencial de criação de sentido do design, no seu valor simbólico, na sua dimensão semântica e no seu potencial narrativo, assim, como no seu conteúdo essencial. Esta vaga continuou sob diversas formas durante décadas, tendo atingido o seu apogeu no design gráfico na década de 1980 e no início da de 1990, com a afirmação máxima da «autoria» por parte dos designers (controlando, deste modo, o conteúdo e, por conseguinte, a forma), e as teorias relacionadas com a semântica do produto, que procuravam incorporar nas suas formas o simbolismo funcional e cultural dos objectos e das suas formas.
(...)

Se, durante a primeira fase, a forma gerava a forma, na segunda, a injecção de conteúdo nesta equação conduziu à produção de novas formas. Ou, como afirmou o filósofo Henri Lefebvre, «Há decerto um momento em que o formalismo se esgota, em que apenas uma nova injecção de conteúdo na forma poderá destruí-lo, abrindo, assim, caminho à inovação.» Parafraseando Lefebvre, só uma nova injecção de conteúdo na equação forma-conteúdo poderia destruí-lo, abrindo, assim, novos caminhos para a inovação.

A terceira vaga do design começou em meados da década de 1990 e explorou a dimensão performativa do design — os seus efeitos nos utilizadores, as suas restrições pragmáticas e programáticas, o seu impacto retórico e o seu potencial facilitador de interacções sociais. Como muitas outras coisas surgidas na década de 1990, estava estreitamente ligada às tecnologias digitais; embora fosse inspirada nas suas metáforas (redes sociais, colaboração open source ou interactividade, por exemplo), não estava limitada ao mundo dos zeros e uns.

Esta fase simultaneamente continuou e teve como ponto de partida as experiências sobre forma e conteúdo levadas a cabo no século xx que tradicionalmente definiram as esferas da prática vanguardista. Porém, as novas práticas de design relacional incluem elementos performativos, pragmáticos, programáticos, abertos, experienciais, participatórios e orientados para o processo. Esta nova fase preocupou-se com os efeitos do design, que vão para além do objecto do design, e até mesmo com as suas conotações e o seu simbolismo cultural.

Em termos linguísticos, poderíamos traçar o movimento destas três fases do design como dirigindo-se da forma para o contexto, passando pelo conteúdo; ou, na linguagem semiótica, da sintaxe à pragmática, passando pela semântica. Como ondas num lago, esta expansão centrípeta das ideias parte da lógica formal do objecto desenhado para a lógica simbólica ou cultural dos sentidos evocados por essas formas e, finalmente, para a lógica programática da produção do design e dos locais onde é consumido — a realidade complexa do seu derradeiro contexto.

Devido aos seus intuitos funcionais, o design teve sempre uma dimensão relacional. Por outras palavras, todas as formas de design produzem efeitos, pequenos ou grandes. O que é diferente nesta fase do design é o papel principal conferido a áreas que dantes pareciam estar para além da esfera da equação forma-conteúdo do design. O público imaginado, e frequentemente idealizado, por exemplo, torna-se num utilizador real — o chamado «mercado individual» prometido pela massificação personalizada [mass customization] e a impressão a pedido; o «consumidor final» pode até tornar-se o próprio designer, mediante projectos «faça-você-mesmo», o hacking criativo de designs existentes, ou crowdsourcing, produzindo juntamente com os seus pares de modo a resolver problemas cuja resolução se revelava demasiado complexa ou dispendiosa pelos meios convencionais. Foi esta a promessa feita pela revista Time ao nomeá-lo a si (em jeito de eu majestático) pessoa do ano em 2006, mesmo se evocava o domínio emergente de sítios como o MySpace, Facebook, Wikipedia, Ebay, Amazon, Flickr e YouTube, ou antecipava o modelo de negócio do Threadless. A participação do utilizador na criação do design pode ser observada em inúmeros projectos «faça-você-mesmo» em revistas como a Craft, a Make e a Readymade, mas também nos formatos genéricos para anúncios e cartões postais de Daniel Eatock.

(...)

O facto de a própria natureza do design e os papéis tradicionais do designer e do consumidor terem mudado radicalmente não é uma surpresa. Na década de 1980, a revolução do desktop publishing ameaçou fazer de cada utilizador de um computador um designer; na realidade, serviu para alargar o papel do designer como autor e editor. A verdadeira «ameaça» ocorreu com o advento da Web 2.0 e os sítios de redes sociais e colaborativas que foram subsequentemente criados. Assim como o papel do utilizador se expandiu, chegando, por vezes, mesmo a incluir o papel do designer tradicional (ao estilo do profético «prosumidor» do futurista Alvin Toffler), também a própria natureza do design passou de dar forma a objectos discretos à criação de sistemas e a enquadramentos visando compromissos mais abertos: designs para a criação de designs. O designer de outrora estava intimamente ligado à visão de comando e controlo do engenheiro; o de hoje encontra-se mais próximo da abordagem de condição-acção [if-then] do programador. É esta lógica programática ou social que domina no design relacional, eclipsando a lógica cultural e simbólica do design baseado no conteúdo e a lógica estética e formal da fase inicial do Modernismo. O design relacional vive obcecado com os processos e sistemas de criação de designs, que não seguem a mesma lógica linear e cibernética de outrora. A lógica tipográfica da família de tipos Univers, por exemplo, estabeleceu um sistema profético e fechado de diversos pesos de tipos gráficos. Por outro lado, uma aplicação baseada na Web para o Twin, um tipo gráfico da Letterror, pode alterar substancialmente o seu aspecto com base em factores tão arbitrários como a temperatura do ar ou a velocidade do vento. Num design recente para um novo museu do design gráfico na Holanda, Lust criou uma «posterwall» digital automatizada, alimentada por fluxos de informação oriundos de diversas fontes da Internet e regida por algoritmos, concebida para produzir 600 posters por dia.
A melhor maneira de ilustrar este movimento para um design relacional será, porventura, o prosaico aspirador. No reino do sintáctico e do formal, temos o Dirt Devil Kone, desenhado por Karim Rashid, um objecto cónico e liso com tão boa aparência que «pode ficar à vista». Enquanto os designs de aspiradores de James Dyson se baseiam numa abordagem funcionalista clássica, os seus próprios designs personificam o significado da função, ao recorrer a uma segmentação das diferentes partes que os compõem segundo um código de cores e, inclusivamente, ao simbolismo expressivo de uma bola que rodopia para conotar uma abordagem de alta tecnologia à limpeza doméstica. Por outro lado, o Roomba, um aspirador robótico, usa vários sensores e programação para estabelecer a sua relação física com a divisão que se encontra a limpar, renunciando a qualquer contacto continuado com os seus utilizadores humanos, com excepção do encontro ocasional com um animal doméstico. No entanto, numa demonstração de desenvolvimento de produtos avançado, o fabricante do Roomba tem à disposição um kit básico que pode ser modificado por entusiastas dos robôs de inúmeros e inesperados modos, colocando, assim, o design nas mãos dos seus clientes.
A primeira fase do design deu-nos formas infinitas; a segunda, interpretações variáveis — a injecção de conteúdo de modo a criar novas formas. A terceira apresenta inúmeras soluções eventuais ou condicionais: sistemas abertos, em vez de fechados; as limitações do mundo real e contextos em vez de utopias idealizadas; ligações relacionais ao invés de imbricação reflexiva; no lugar do designer abandonado, a possibilidade de muitos designers; o desaparecimento de designs altamente controlados e determinados e a ascensão de sistemas facilitadores ou generativos; o fim dos objectos discretos e dos sentidos herméticos e o dealbar de ecologias conectadas.

Decorridos cem anos de experiências em matéria de forma e conteúdo, o design explora agora o reino do contexto em todas as suas manifestações — sociais, culturais, politicas, geográficas, tecnológicas, filosóficas, informáticas, etc. Uma vez que os resultados desta acção não convergem para um debate formal unificado, e porque desafiam os modelos e processos convencionais, não é líquido que a diversidade de formas e de práticas desencadeada possa determinar a trajectória do design no próximo século.

Andrew Blauvelt, Towards Relational Design Design Observer, 11.03.08

Nota: uma tradução portuguesa integral deste artigo, feita por José Manuel Godinho, será publicada no número 41 da Revista de Comunicação e Linguagens, "Design" (Org. José Bártolo), Relógio d'Água, Lisboa (no prelo).

Tuesday, June 01, 2010








1. Há umas semanas, a jornalista do Público Raquel Ribeiro referenciava o Destination Portugal da loja do MoMA (uma parceria com a loja de Serralves que proporcionou que uma série de objectos de autor que encontramos à venda no Porto pudessem ser expostos em N.Y.) com o título O que é nacional é bom e está à venda em Nova Iorque, a peça combinava boas intenções, com tiques de provincianismo e um indisfarçável desconhecimento da realidade do design (português) contemporâneo. Nada de invulgar, portanto, em relação ao que vai sendo típico nestas notas de impressa travestidas de artigos jornalísticos que, ocasionalmente, vão aparecendo nos nossos jornais de referência.

Há na forma como o design é alvo de tratamento jornalístico, num bom número de casos por estagiários diligentes, uma contradição insanável. Se por um lado, há a consciência de que o design pode interessar a um público mais vasto do que, por exemplo, a dança contemporânea, por outro lado, sustentam-se (felizmente!) rubricas regulares de crítica de dança contemporânea, enquanto o design é remetido para um campo indiferenciado, algures entre o destaque a uma loja gourmet, a última conquista de Paris Hilton e o mais recente “destino de sonho”.

2. Foi com expectativa que comprei o último número da Communication Arts motivado pelo artigo de Robert L. Peters "Design in Portugal: an overview of visual communication". Depois de o ler, fiquei profundamente decepcionado: após uma longa síntese da história de Portugal, Peters dedica poucas e superficiais linhas ao design português com uma total ausência de pensamento crítico (apoiando-se simplesmente em alguns depoimentos que recolheu). O artigo acaba por valer pela forma como está ilustrado, mas sabe a pouco!

3. Através do empenho de Artur Rebelo e Lizá Ramalho, a cidade do Porto vai receber o Congresso de 2010 da Alliance Graphique Internationale, na Casa da Música a 11 de Outubro, no programa encontramos os nomes de Marian Bantjes, Pierre Bernard, Michael Bierut, Stefan Sagmeister, Paula Scher e Niklaus Troxler entre outros. Após o fim dos Personal Views, esta é uma oportunidade excelente de discutir ideias sobre o design gráfico contemporâneo.

Pouco tempo antes, no final de Setembro, Lisboa recebe a Design Battle com destaque para a presença de Deborah Szebeko dos Think Public.

São, apenas, balões de oxigénio, bem sei, mas sempre nos permitem ganhar um novo fôlego para continuar a reagir, a resistir.

Sunday, May 23, 2010





REACTOR ENTREVISTA COLECTIVO INFRACÇÕES (LUÍSA CODER & JOSÉ RUSSELL)


Para o colectivo Infracções, desde a sua criação em 1987, fazer design tem implicado um projecto crítico e político que tem sido desenvolvido com um raro sentido de exigência e coerência. Próximo de iniciar um novo ciclo de entrevistas, o Reactor publica a última entrevista do ciclo anterior e dificilmente poderia terminar de melhor maneira.



REACTOR: Há um post no Reactor intitulado “O estado do design”. O que é que este título lhe(s) sugere actualmente?

INFRACÇÕES: Em termos “globais”, parece-nos que a palavra “design” está a ser usurpada por uma “máquina de fazer mercado”. O design enquanto conceito, enquanto “modo de fazer pensando”, fica imerso num caldo de significados, e o que parece estar a emergir é o do design enquanto produto de Merchandising. Está portanto num “estado de degradação”.

Esta indefinição de conceito serve um pretenso design decidido no “conselho de administração” dos grandes grupos económicos. O “design original”, que é responsável por toda a produção de artefactos ao longo da história, o que muito antes da famosa “mão invisível” de Adam Smith já promovia a circulação social de bens e serviços numa troca baseada na utilidade e no prazer, esse está ameaçado.

Particularizando no plano nacional, lembremos que Portugal passou directamente de um estado “em vias de industrialização” para um estado pós-industrial , causando uma compreensível desorientação na adaptação repentina a um novo paradigma económico.

Durante a primeira metade do século XX , a pequena e média industria, para o fornecimento dos seus quadros técnicos apenas pôde contar com as escolas públicas de artes e ofícios, abandonadas ao seu estatuto social “oficialmente inferior” e assistindo ao desaparecimento das manufacturas tradicionais. Só praticamente no fim dos chamados “anos de ouro” da economia mundial (50/73) é que o design começou a ser ensinado como disciplina autónoma e apenas numa escola privada em Lisboa. O ensino Público em design, instituído como curso superior, teve de esperar pelo 25 de Abril. No entanto, que fique bem claro que até então, o “mau estado do design” não se devia à qualidade das referidas escolas de artes e ofícios, nem tão pouco às profissionalizantes (comerciais/industriais, politécnicas). O problema estava a montante, os profissionais saídos dessas escolas tinham uma “cultura global” muito superior à cultura média dos empresários nacionais que constituíam naturalmente os seus potenciais empregadores. Hoje, 30 anos depois, declarações provindas do próprio CPD dizem-nos: «…uma parte muito significativa dos empresários deste país (cerca de 80%) têm menos do 9.º ano de escolaridade obrigatória …» [1], não pode ser bom o “estado do design”.

Mas importa reflectir no 3º quarto do século XX:
Como sabemos só em 1974 é que o Estado português percebeu que não podia impedir por mais tempo a livre associação de indivíduos, e assim, finalmente pôde ser constituída a primeira associação portuguesa de design em 76. No entanto, o Estado levou mais dez anos a ouvir a célebre frase «Portugal precisa de design» e só se resolve a criar o Centro Português de Design em 85, para começar a devida actividade em 89 (mudando a tutela: da industria para a economia !!!). Tínhamos na altura Ronald Reagan nos Estados Unidos, Margaret Thatcher no Reino Unido e Cavaco Silva em Portugal, ou seja a ideologia neoliberal florescia. A conjuntura era propícia para que o governo de então criasse o CPD. As estruturas de poder de uma boa parte dos Estados do “primeiro mundo” apostaram em transformar os “Estado-Providência” (ou Well Fair State) em “Estado-Gestor”, sob o lema de uma New Public Management destinada a “emagrecer o Estado” com a instilação da competição e dos instrumentos da gestão empresarial nos serviços públicos, “racionalização” das despesas e revalorização do poder político central em detrimento de uma função pública reduzida ao papel de simples executante … o seu corpo doutrinal parte da concepção do desactualizado “homo economicus” (actor racional, separado do seu todo, que produz, consome e o seu único interesse é maximizar o seu lucro).

Portugal, que não tinha sequer consolidado o seu recente “semi-Eestado-providência”, recebeu esta onda de braços abertos e, aportuguesando o discurso pôs as superstruturas a trabalhar: As empresas que não fossem competitivas teriam fechar (viriam outras). Um país moderno não deveria ter agricultura (só intensiva) e deveria ser economicamente sustentado pelo sector terciário. Deveria ser fornecido de infra-estruturas rodoviárias de preferência auto-estradas para o transporte de mercadorias (sabe-se lá quais), e o mercado de capitais encarregar-se-ia do resto. Embora estivéssemos no reinado da “gestão de topo” e não do design, este servia a “estratégia” em curso, o dinheiro fresco da CEE criaria as infra-estruturas e o CPD criaria as “admiráveis novas empresas”. Hoje, com a terceira via continuando a tarefa de “queimar gorduras do Estado” vendendo empresas públicas a retalho, “captar investimento estrangeiro”, “maximizar os lucros dos accionistas”, “gestão por objectivos”, “critérios de avaliação” (contabilísticos), mais défice menos dívida externa, mais estádio menos futebol, constatamos, que a “estratégia” não resultou, e enquanto não tivermos uma economia saudável não poderemos ter um design “em bom estado”.

Mas terminada a avaliação do “estado geral” das coisas, importa apurar os pontos positivos e sobretudo (tentar) apontar caminhos: Em primeiro lugar temos, finalmente, faculdades de design completamente integradas numa cultura académica e enraizadas no sistema Universitário. Uma Instituição de conhecimento, que soube ao longo da história libertar-se de outros poderes, ganhar autonomia perante outras instituições sociais, mas sobretudo ganhar legitimidade fundada no reconhecimento público da utilidade das suas práticas.

Como “nova” disciplina no sistema Universitário, o design deve, com a vocação holística que lhe é peculiar, não só contribuir colegialmente na elaboração dos seus estatutos, mas também exigir o seu cumprimento através de uma constante actividade crítica atenta às pressões externas (formais e informais). Muito concretamente, a pressão subtil que está na “ordem do dia”, é a “armadilha da autonomia financeira” (liberalização da Universidade), que leva à privatização do conhecimento, à perca de autonomia intelectual, além do mais, um modelo universitário contextualizado no mercado, faz perigar um dos seus objectivos primeiros – um serviço de interesse público, cidadania activa e construção de alternativas solidárias e de longo prazo.

«Não se exclui a utilidade para a própria universidade de uma interacção com o meio empresarial em termos de novos temas de pesquisa de aplicação tecnológica e de análises de impacto. O que é importante, é que a universidade esteja em condições de explorar este potencial sem que para isso possa ser exposta a uma posição de dependência ao nível da sobrevivência em relação aos contratos comerciais.». (SANTOS, Boaventura Sousa, [2004] – A Universidade do Século XXI: Para uma Reforma Democrática e Emancipatória da Universidade.)

Consideramos também que o designer, como actor social, tem sabido tirar partido do maior legado civilizacional do século XX, que é o conjunto da massificação do computador pessoal com a generalização da Internet. O acesso rápido a informação e respectiva triagem, a facilidade de edição, são instrumentos valiosos para um designer, mas também para qualquer cidadão que tenha acesso não só às “novas tecnologias”, mas também a um nível de educação que o torne capaz de usufruir plenamente desse instrumento potenciador de autonomia.

De facto, a democracia representativa que hoje vivemos, onde alguns poucos tomam decisões por muitos, e que é legitimada por uma opinião pública formada pelos média tradicionais (imprensa, rádio, televisão), começou a ser posta em causa. Alguns teóricos falam mesmo numa crise da democracia representativa, como reflexo da “entrada em cena” dos novos média (onde a Internet é determinante) que vieram potenciar a proliferação de focos de democracia participativa. Apesar da relativa quebra dos Novos Movimentos Sociais após o 11 de Setembro, nota-se hoje uma recuperação. Ela é visível nos inúmeros grupos de cidadãos unidos pelos mesmos interesses e aspirações. Comunicados, alertas, denúncias públicas, blogs temáticos ou de opinião livre e até de jornalismo “popular”que embora artesanal pode ser completamente independente. Sabemos que este clima um tanto ou quanto anárquico, incomoda o poder instituído, essa anarquia dificulta-lhe a possibilidade de controle, mas não é tanto a anarquia que ele teme, é a possibilidade de uma mudança em que todos os cidadãos sejam motivados a participar nas decisões comuns, ele teme uma democracia directa. Mas é exactamente uma nova era política de que o Mundo precisa, os cidadãos acreditam cada vez menos nos políticos que os representam, é preciso «moldar a sociedade de baixo para cima» (Ulrich Beck).

No contexto restrito do design português, notamos que é precisamente na vaga crescente dos novos média, que aparecem os primeiros blogs exclusivamente dedicados à disciplina, alinhando com um movimento global de revindicação de uma ética própria, elevando a sua responsabilidade social acima da sua função de servir o mercado. Não é por acaso que aparece uma segunda associação de âmbito nacional em 2003 (AND), e que se funda na constatação « após cerca de três décadas (…) com cerca de dez mil indivíduos formados (…) os designers possuem uma mão cheia de nada». Não é por acaso que só em 2005 é que a primeira associação (APD) se envolve, a sério, na reivindicação de uma classificação fiscal sob um código próprio.
Note-se também a divulgação de denúncias públicas quanto a práticas, no mínimo “pouco transparentes” como as que vieram recentemente a lume acerca do concurso para um site comemorativo do centenário da república…

Finalmente consideramos que o designer, para além do cumprimento das suas funções bem definidas nos estatutos das suas associações de classe, deve constituir-se como agente crítico autónomo em qualquer campo que se veja inserido. Deve, aumentar o seu capital simbólico através de uma prática diária de respeitabilidade, lembrar-se de que o respeito, só existe quando é mútuo, e não se proclama, pratica-se.





REACTOR: A palavra design identifica cada vez menos um campo disciplinar definido, passando a remeter para uma campo de criação híbrido e difuso. Corresponderá isto a um fracasso ou a triunfo do design sobre a cultura contemporânea?

INFRACÇÕES: Nós diríamos que o seu campo disciplinar parece nunca ter estado muito bem definido. O problema da falta de definição, acreditamos nós, tem que ver com o pequeno capital histórico relativo à sua autonomização profissional, ou melhor com a sua história social. A sua proto-história está mal assumida, e perde-se vagamente no declínio dos Arts & Crafts juntamente com o completo “esmagamento” das teorias de John Ruskin e William Morris (onde o profissional ainda podia dispor da sua autonomia: na sua oficina, atelier, tipografia), em favor da onda do maquinismo apoiada pelo liberalismo triunfante, e onde o Teylorismo “decreta” que a gestão do processo produtivo devia estar claramente separada da função do trabalhador. O gestor pensa e planeia, o trabalhador faz. O gestor descobre e especifica a melhor maneira de fazer, o trabalhador executa, e só. O eis designer, perde o seu laboratório e é remetido à condição de trabalhador por conta de outrem, a executor passivo no processo. Tinha de se submeter ao sistema. E foi esta a condição do designer praticamente até ao fim da “era industrial”, com algumas particularidades (dignas de estudo…). Para aumentar a confusão, surgem as técnicas da propaganda, do marketing e publicidade, como aplicação (geralmente matreira) dos estudos behavioristas. Surgem novas profissões (e negócios), que precisam da componente estética, a expansão urbana obriga a uma comunicação universalista, a televisão leva a “paisagem de interiores” para o domínio público, finalmente, no “mundo virtual” nota-se uma clara confusão entre o que é o engenho da programação, e até a perícia de execução de programas, com a sua componente de comunicação, que não vive sem a estética.

No entanto, o nível de confusão parece estar mais no reconhecimento público do que, propriamente no actor. E a realidade actual poderia ser outra se a Instituição Bauhaus não tivesse sido interrompida. Teria certamente servido de “farol” a um modelo de ensino que unificava a arquitectura com as várias outras artes, sem distinção entre maiores e menores, juntava a técnica com a experimentação prática de ideias, juntava a prática com a teoria, investigava, reflectia, produzia conhecimento e várias especialidades de agentes sociais úteis para a realidade do seu tempo. Um designer saído dessa escola, seria reconhecido. Podemos dizer que o design também foi vítima do nazismo.

Carácter “híbrido e difuso”, faz-nos lembrar alguns textos apologéticos nos primeiros cadernos de design [2] em que, para nos sentirmos bons designers, além dos predicados habituais teríamos de ser bons gestores (capacidade de liderança e visão de futuro), bons economistas não esquecendo a vertente financeira, ter visão ampla do marketing e publicidade, nunca esquecer os estudos de mercado (nunca percebemos se teríamos fazer esse trabalho ou convencer o cliente a desembolsar esse custo extra), «charneira de todas as técnicas e engenharias», bons comunicadores… É caso para dizer, com tantos predicados para quê falar em multidisciplinaridade? Lancemos a nossa própria empresa, e já agora, com a nossa capacidade de persuasão arranjemos o capital, não esquecendo de incluir no projecto/pedido de financiamento, as consultadorias da NASA, FMI e OMC, quanto à mão de obra, bio-robots. Tudo fácil… Continuamos a afirmar, o carácter difuso está no reconhecimento do termo e não na actividade enquanto tal. O designer sabe delimitar o campo de ideias onde se sente apto a tomar o compromisso da respectiva materialização. Desde o momento em que a palavra design entra na moda, esta torna-se atractiva para quem queira aproveitar-se do seu poder simbólico. Já aconteceu muito antes, quando qualquer produto de “banha da cobra” se auto denominava científico. Quanto ao hibridismo, trata-se de uma tendência normal em muitas disciplinas onde se constata uma inter relação forte (no sentido de precisarem uma da outra), essa tendência vem desde os anos 60 depois de um biólogo alemão ter publicado a “Teoria Geral de Sistemas” teoria essa que foi “absorvida” por muitas outras disciplinas nomeadamente nas ciências sociais. Em traços gerais ela diz-nos que, num sistema global (constituído por subsistemas interligados em teia), as respectivas propriedades não podem ser descritas significativamente a partir dos seus elementos separados, para a compreensão dos sistemas é necessário estudá-los globalmente, envolvendo todas as interdependências das suas partes. Lá se vai o método cartesiano.
«qualquer estimulo em qualquer unidade do sistema afectará todas as demais unidades, devido ao relacionamento existente entre elas.» (Miller, James G. , (1965), Living Systems: Basic Concepts, Behavioral Science)

Neste contexto, temos também que interpretar certos termos construídos e encará-los como códigos linguísticos “grupotemporais”. Não podemos validar igualmente, por exemplo ciências realmente híbridas como a biorrobótica ou biologia sintética, e a engenharia financeira. Esta última, tem um sentido claramente metafórico [3], e provoca “estados de alma” diferentes nos diferentes campos sociais. Se enche de orgulho certos economistas, políticos, advogados, etc., ao cidadão atento e lúcido só recorda os tristemente célebres “activos tóxicos”, depois, juntam-se “nos cafés” e elaboram anedotas (diz-se um engenheiro financeiro ou um financeiro engenheiro?) para indignação dos primeiros que “cozinharam a cama onde se deitam”. Enquanto não houver anedotas (populares) sobre os designers, podemos estar descansados.

Concluindo a resposta, embora não gostemos de pôr as coisa em termos de “vitórias e derrotas”, consideramos que o design está numa “onda de triunfo” sobre a cultura contemporânea, na medida em que se vê constituírem-se grupos de designer conscientes dos “novos” velhos problemas da sustentabilidade de um planeta habitável. Eles vêm juntar-se a uma pequena vanguarda que sabe, à muito tempo, que o paradigma civilizacional está num impasse. Esperemos que esta onda não seja uma onda da moda.




REACTOR: Há um conceito estruturante do pensamento projectual do Walter Gropius que é o conceito de “design total”, a ideia é, em síntese, a de que ao designer compete a definição intencional das modalidades de relação social, o design seria, assim, uma disciplina de definição politica. Não lhe(s) parece que este “exercício político” do projecto é tão mais eficaz quanto mais imperceptível for e, neste sentido, o carácter difuso do design não poderá ser um sinal da sua eficácia?

INFRACÇÕES: A difusão do design enquanto disciplina lúcida, envolvida nos problemas sociais e ambientais, empenhada em resolver os inúmeros problemas que se põem no mundo actual, tem toda a vantagem em difundir-se, em ser difusa. Ser vantajoso para o design e para o mundo traduziria a sua eficácia.
Mas a resposta só se completa se “discutirmos” as duas questões que lhe estão subjacentes:
A primeira: deve ou não haver intencionalidade política no exercício do design.
Em caso afirmativo põe-se a segunda: este exercício político deverá ser aberto ou de qualquer forma dissimulado, subtil? Poderíamos responder sim ou não à primeira, e nunca dissimulado à segunda. Contudo ficaria muito do nosso pensamento sujeito a interpretações múltiplas.

Teremos que esclarecer alguns pontos da nossa mundivisão:
Em primeiro lugar descodifiquemos o que se entende por político. Sabemos que a palavra tem tido ao longo da história uma progressão semântica que a conota cada vez mais com sentido pejorativo, pelo menos no sentimento popular e mesmo no chamado Mainstream. Note-se que é nesta massa de cidadãos que se busca a legitimidade moral e ética. Dito isto, se entendêssemos a palavra no sentido arcaico, aristotélico, onde se busca a felicidade humana (individual e colectiva), por meio do conhecimento e da mediação de conflitos com base num pacto social estruturado pela ética, então responderíamos que sim, que o design (enquanto disciplina [4]) deveria assumir uma acção política. Mas não é esse o nosso entendimento e consideramo-lo mesmo bastante ingénuo. Parece não restarem dúvidas, de que na actualidade se lhe dá um significado maquiavélico, «arte de conquistar, manter e exercer o poder», não se trata de censo comum, no campo académico é consensual a concepção weberiana «pretensão do monopólio da legítima coerção física, com vista ao cumprimento das leis». Portanto, neste sentido consideramos que o design (enquanto instituição académica) deve até manter uma autonomia em relação às outras organizações sociais, sejam elas políticas, confessionais, patronais, laborais (associações de designers incluído), etc.. Quanto à relação com o Estado (ainda no sentido weberiano), no caso português, com o nosso Estado Nação, o design na pessoa da sua academia, deve, ou deveria reivindicar mais autonomia financeira (dinheiro público sim), com vista a garantir um bom desempenho social, mantendo total independência administrativa, estatutária, pedagógica, intelectual e política claro. Portanto a resposta é não, o design deve pôr-se acima da política.
Apesar desta negativa impõe-se esclarecimento à segunda questão, relembremos: «Não lhe parece que este “exercício político” do projecto é tão mais eficaz quanto mais imperceptível for?»
Ao negarmos o exercício político não lhe impedimos o exercício social, muito pelo contrário, libertamo-lo da luta pelo poder. Colocamo-lo num nível paritário com outros poderes. Ele deve buscar a sua legitimação exactamente no exercício social público e eficaz. Além disso ele deve promover o discurso ideológico, não político, um discurso aberto, que não dissimula intenções. Para isso deve incentivar a reflectir sobre a linguagem para compreendê-la, a identificar o discurso do outro, do livro, dos mass média. Incentivar à tomada de posição, à critica, ao argumento, à construção de um discurso próprio, à não reprodução dos discursos alheios. Essa deve ser a sua pedagogia, melhor do que ensinar é ajudar a pensar, explorar a capacidade do indivíduo em reflectir sobre o impacto social do produto da sua actividade futura (ou presente), sobre a sua responsabilidade no processo, e também, sobre o seu poder no processo.
A escola como espaço aberto ao confronto de ideias será o filtro difusor dos vários focos que necessariamente criará.



REACTOR: Se lhe pedisse uma definição de design…

INFRACÇÕES: Qualquer definição é difícil e para o design acrescenta-se a responsabilidade.
Sabemos que não há uma confluência de perspectivas no respectivo campo.
Já é clássica a discussão entre professores em que se discorre se o aluno deve ser formado “para a realidade do mercado” ou sob um plano ideal e ético.
Alguns antagonismos revelam-se nas múltiplas definições que conhecemos.
Muitas delas denotam uma maior preocupação com a auto regulação (programática) do que em esclarecer o público (o universo de agentes sociais).
Na redundante explicação do mesmo conceito (prática de projecto), na recorrência de frases padrão (solução de um problema), alem de não conseguirem uma “marca distintiva”, denunciam a intenção de demarcar estatuto. Esta demarcação seria positiva se não denunciasse também uma (implícita) dependência em relação à indústria, ou ao chamado “Mercado”. Uma das escolhas paradigmáticas é a «interdisciplinaridade», que como o nome indica liga as várias disciplinas, mas não é pertença de nenhuma. Sabemos que, qualquer processo complexo tem que ser partilhado pelos vários saberes, quando se diz que o design tem uma vocação interdisciplinar, (implicitamente) o designer parece reivindicar, «eu quero estar presente e ser co-responsável no processo complexo», tem todo o direito, mas deve fazê-lo abertamente e deve começar por denunciar todo o processo de proletarização de que foi vítima por parte dos poderes oficiais, e perdurou pelo menos até meados do século XX.

Para introdução da nossa primeira proposta de definição, escolhemos um clássico que mantém a força de quem soube perceber o seu tempo, enfrentar os paradigmas estabelecidos e acreditar no que fazia. «O designer é uma nova espécie de artista, um criador capaz de entender todas as formas de necessidades: não por ser um prodígio, mas porque sabe como abordar as necessidades dos homens de acordo com um método bem definido.» (Gropius)

Actividade (humana [5]), intelectual, metodológica, projectual, (breve descrição do que é o projecto), que consiste em todo o processo técnico e de criação estética necessário à produção de um artefacto (algo criado, modificado ou usado pelo homem – objecto, utensílio, componente, sinal, código, mensagem[6]), terminando com o acompanhamento da sua materialização e verificação empírica do seu objectivo.

O designer é o técnico formado (desejavelmente vocacionado) para a actividade.
Pela grande variedade de objectos, existem diversas especializações, como (….), as especializações têm vindo a acompanhar a evolução do mercado e das tecnologias, pelo que têm tendência a multiplicar-se. A competência destes técnicos, no desvendar e tentar resolver as múltiplas necessidades humanas, fez deles profissionais de muita utilidade para as indústrias de bens e serviços, sequentemente estas constituíram a sua maior fonte de oferta de emprego.

Para introdução da segunda proposta, escolhemos a definição de Bruno Munari, pela sua dimensão poética: «Cada ser humano é um designer. Alguns também ganham a vida através do design – em todos os campos que existem pausa e ponderação entre o conceber e uma acção, a forma a dar aos meios que nos permitem realizá-la, é uma estimativa dos seus feitos.» (Munari)

«filosofia aplicada» (Infracções)




REACTOR: O design sempre se caracterizou pela inexistência de um consenso programático, hoje talvez mais evidente devido à falência dos verdadeiros projectos colectivos, a teoria do design sempre oscilou entre uma interpretação do designer enquanto um “agente social” e uma interpretação do designer enquanto um “agente do mercado”, parece-lhe haver sentido nesta distinção?

INFRACÇÕES: Será que os projectos colectivos faliram, ou foram “privatizados” ? [7] Lembramo-nos da última grande depressão na Argentina, por volta de 2003, muitas das fábricas falidas foram adquiridas e autogeridas pelos seus trabalhadores com imenso sucesso. O sucesso durou enquanto a “saudável concorrência” não arranjou maneira de lhes cortar o fornecimento de matéria prima. E a economia social, remetida para um lugar periférico durante o século XX ? Ela está a recuperar nestes tempos de crise.

Quanto aos designers destas gerações recentes, as notícias que nos chegam é que são conscientes dos problemas sociais e empenhados na sua resolução, as inúmeras declarações e manifestos são prova disso. É verdade que a Internet veio potenciar o aparecimento de um bom número de pequenos projectos colectivos, mas eles não se formariam se não houvesse uma apetência individual. Estamos esperançados que surja uma onda de profissionais que se recusem a ser meros “agentes do mercado”, que sejam críticos e que nos digam o que é realmente o mercado, que não venham com a velha cartilha dos “mercados muito sensíveis”. Se a faculdade souber ultrapassar as divergências e elaborar um só programa estatutário, a acção dos profissionais fará o resto, e o design, poderá vir a obter o estatuto social (e poder simbólico) a que tem direito, e assim, exercer uma pressão política equivalente à de outras disciplinas que há muito lidam de muito perto com o poder de facto. Depois, é bom que não estrague tudo.

Muito concretamente quanto ao sentido que há na distinção de papéis, mais uma vez temos que apelar para a clarificação de palavras/conceito. Se o mercado for uma natural acção social de troca de bens e serviços, com função de uma regular distribuição de recursos e suprimento de faltas, remunerando justamente o esforço [8] dos agentes envolvidos e contribuindo para uma constante melhoria da sociedade, então, não há sentido nessa distinção porque um agente do mercado será também um agente social.

Mas nós sabemos que o conceito de “mercado” que hoje, no «advento duma modernidade liberal alargada» [9] se fala, não é nada disso, portanto temos que fazer essa distinção. Mas que não fiquem dúvidas, a escolha de enveredar por um ou outro caminho, é uma opção puramente individual. Se o colectivo Academia escolher ser agente do “mercado”, ela perderá pelo menos, a liberdade intelectual.



REACTOR: Perante o relativismo dos valores (e, em particular, dos valores do design após a crise do projecto moderno) não será importante os designers mostrarem que existe uma diferença profunda entre a “ética individual” e a “ética disciplinar”? Quero dizer, os valores que orientam o design não podem ser relativos aos valores que guiam o comportamento dos seus profissionais…

INFRACÇÕES: Sem dúvida que não podem. As estruturas que “guardam” o teor ideológico do design devem agir colectivamente, e usar a função crítica para com qualquer carisma individual que se possa impor no campo. Quando a crítica for essencialmente positiva não haverá nada a temer, pode até daí advir um melhoramento no ideal.


REACTOR: Historicamente, o design foi sendo pensado como uma disciplina de “dimensão utópica”. Ainda há espaço para utopias no mundo contemporâneo?

INFRACÇÕES: Sim há espaço. O mundo contemporâneo precisa de muitas utopias com múltiplos suportes ideológicos. Será bom que elas se estruturem socialmente sem crescerem demasiado, como diria Leopold Kohr, «Se uma sociedade cresce acima do seu tamanho óptimo, os problemas vão eventualmente acabar por ultrapassar o crescimento das faculdades humanas que são necessárias para lidar com eles». É urgente procurar a verdadeira democracia, não vemos outro caminho se não pela divisão do poder em múltiplas utopias autónomas.
As utopias literárias têm um espaço importante, mas não só com elas se faz a história. O caminhar positivo da história fez-se com “utopistas”, gente capaz de perceber que pode existir um mundo mais justo e lógico do que o que se lhe apresenta, gente capaz de projectar de forma crítica e imaginativa uma ordem social e moral alternativa e exequível, e gente empenhada numa acção reformadora do corpo social, que «não deixa de se ater à materialidade, isto é, às condições putativas de concretização social de uma nova situação humana». (Silva, Jorge Miguel Bastos da, (2004), Utopias de Cordel e textos afins, Antologia.)

Por hipótese absurda, se fossemos todos como a senhora Thatcher e gritássemos em uníssono “there is no alternative”, então não haveria espaço para utopias, e só faltava vir o outro oportunista decretar o fim da história [10]. Não parece haver dúvidas, por mais que as superstruturas e os meios de comunicação corporativizados repitam esse refrão (“TINA”), haverá sempre gente que sabe que há alternativa. Será uma minoria, pode não saber como, pode até não exteriorizar essa convicção, mas estará pronta a aderir a qualquer movimento social que lhe aponte o caminho.
Depois do Maio de 68, apesar dos postulados de morte das ideologias, têm surgido movimentos “filhos” das utopias modernas. Insurgiram-se contra o "culto da grandeza", o industrialismo desenfreado, o consumo excessivo, o crescimento sem sentido, o centralismo, a dominação pelas grandes empresas, contra uma civilização construída sobre recursos não renováveis. Vários agentes utópicos denunciaram « A ideologia da sociedade industrial»(Marcuse, 1964), apresentaram alternativas a um falso “progresso”, contrário à autonomia e à qualidade de vida, alternativas alinhadas pela Tese de Gaia: a “tecnologia intermédia”e “economia ecológica” de Ernst Schumacher, autor de “Small Is Beautiful” (1973) que descreve uma economia não-violenta , criadora de auto-suficiência local, e estabilizadora de fluxos migratórios. Em “ Only One Earth” René Dubos e Barbara Ward (1972) e outros. criaram o clima de opinião de que acabar com a pobreza é factor determinante para salvar o equilíbrio Natural do “sistema Terra”.

Foi a comunidade científica, preocupada com o relatório fornecido ao Clube de Roma pelos Meadows, que se reuniu em Estocolmo/72, com o propósito de tentar organizar as relações de Homem e Meio Ambiente. Só depois a ONU se vê obrigada a criar uma comissão Mundial para o “desenvolvimento sustentado”. A partir desta data têm-se repetido com periodicidade os fóruns eco/sociais Mundiais, sempre com uma componente oficial e outra informal composta pelos “malfadados” ecologistas e outros radicais “alter-globalização”. Nas nossas palavras são esses “malfadados” os agentes utópicos, e os outros vão entremeando reuniões de altos representantes com jantares faustosos, promessas vãs e grande aparato noticiário.

Nunca é de mais repetir que a utopia não é um estado irrealizável, como tem vindo a ser produzido, pela indústria cultural, reproduzido por uma cultura de massa, e legitimado por vários dicionários. «Muito pelo contrário, a acepção que nos dá o dicionário básico da língua inglesa, das Imprensas Universitárias de Oxford, está muito mais próximo da realidade filosófica – a utopia como algo difícil, mas realizável – em linha com a ideia apresentada pelo próprio Tomás Moro». (Tamames, Ramón, (1997), A Reconquista do Paraíso, Para Além da Utopia.)

Não podemos deixar de referir a importância das descobertas científicas na modernidade (conceito alargado). Também a ciência é, no seu estado puro, utópica, enquanto não instrumentalizada, foi responsável por evidentes melhorias na qualidade de vida humana, e é responsável pelo aumento do número de anos em esperança de vida no primeiro mundo. Se a esperança de vida não é igualmente melhorada no resto do mundo, não é seguramente por culpa da ciência. Não há razão para que o design não assuma uma “dimensão utópica”, isso depende da sua estrutura académica, basta que ela trabalhe no sentido de criar artefactos para o Homem, para as suas necessidades reais, para o seu conforto, para o seu prazer, para a sua felicidade. O primeiro passo nesse sentido seria o decreto da morte do Deus Mercado.

Na mesma linha de pensamento, lembramos a importância utópica da sociologia, consolidada como ciência apenas no século XX. Não só pelo legado reflexivo, para o qual também contribuíram alguns designers, lembremos Papanek, mas também pela sua vertente de “descodificação do mundo”, na desconstrução da falácia, no questionamento do senso comum, na denuncia da demagogia e sobre tudo na «luta contra as formas de poder, que são ao mesmo tempo objecto e instrumento, do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso» (Foucault, Michel, Microfísica do Poder). Contudo, na sua componente prospectiva e de informação estatística, tem sido muito útil ao poder hegemónico e, algumas correntes e sociólogos também foram instrumentalizados.

Apesar de tudo, podemos dizer que no século XX, algumas pretensões utópicas foram em parte satisfeitas num contexto de “mundo ocidental”, referimo-nos a um relativo “Well Fair State” ou “Eestado-Providência” que ganhou solidez no norte europeu. A base de política económica deste Estado é o keynesianismo, portanto, intervenção do estado na economia, restringindo os abusos do mercado, promovendo a concertação laboral, regulando a acção redistributiva com vista a assegurar, uma segurança social, uma igualdade de oportunidades, e um mínimo de subsistência a todo o cidadão nacional. Com mais ou menos concorrência com a economia privada, mais ou menos direitos assumidos e garantidos, aproximaram-se do que era reivindicado pelo socialismo “clássico” do século XIX (incluindo socialismo utópico). O estereótipo do ultra liberal norte-americano denuncia peremptoriamente estes Estados como comunistas. Curiosamente, o maior “porta bandeira” desta política económica foi Franklin Roosevelt, que salvou a América da depressão causada pelos desmandos capitalistas e consequente estoiro da bolsa em 1929. O "New Deal" criou milhões de postos de trabalho (período áureo para o design americano), estruturou a segurança social e um programa de reformas que se consolidaram num conceito de “Estado Justo”. Sabe-se também que em 1935, quando o problema começava a estar resolvido, os sectores empresarial e banca, subiram o tom de oposição ao “New Deal” e que Roosevelt não cedeu durante os seus três mandatos.

Resumidamente, é isto que as cartilhas de história oficial nos relatam. Howard Zinn, autor da “História do Povo dos E. U. de 1492 - presente”, diz-nos mais qualquer coisa, a respeito deste assunto. Vamos transcrever parte de declaração sua, por altura da crise do subprime (3/2/2008):
«…As políticas sem precedentes do New Deal – Segurança Social, seguro de desemprego, criação de emprego, salário mínimo, habitação subsidiada – não foram simplesmente o resultado do progressismo de FDR. A administração Roosevelt, na tomada de posse, enfrentou uma nação em turbulência. No último ano da administração Hoover havia-se experimentado a rebelião do Bonus Army – milhares de veteranos da Primeira Guerra Mundial a descerem sobre Washington para exigir ajuda do Congresso pois as suas famílias passavam fome. Havia perturbações dos desempregados em Detroit, Chicago, Boston, New York, Seattle.

Em 1934, princípio da presidência Roosevelt, desencadearam-se greves por todo o país, incluindo uma greve geral em Minneapolis, uma greve geral em San Francisco, centenas de milhares em greve nas fábricas têxteis do Sul. Conselhos de desempregados formaram-se por todo o país. Pessoas desesperadas estavam a entrar em acção por si próprias, desafiando a polícia a repor a mobília de moradores despejados, e criando organizações de auto-ajuda com centenas de milhares de membros. Sem uma crise nacional – privação económica e rebelião – não é provável que a administração Roosevelt tivesse instituído reformas arrojadas como fez […] O Partido Democrático só rompeu o seu conservadorismo histórico, as suas concessões aos ricos, a sua predilecção pela guerra, quando encontrou rebelião dos de baixo, como nos anos 30 e 60. Não deveríamos esperar que uma vitória na cabina eleitoral em Novembro comece a demover o país dos seus dois males fundamentais: a cobiça capitalista e o militarismo […] Historicamente, o governo, esteja nas mãos de Republicanos ou de Democratas, conservadores ou liberais, fracassou nas suas responsabilidades, até ser forçado pela acção directa: greves brancas (sit-ins) e viagens em autocarro pelo sul do país (Freedom Rides) pelos direitos do povo negro, greves e boicotes pelos direitos dos trabalhadores, motins e deserções de soldados a fim de parar a guerra. Votar é fácil e marginalmente útil, mas é um fraco substituto da democracia, a qual exige a acção directa dos cidadãos interessados.»

Onde queremos chegar com este discurso? À afirmação de que sempre houve tensões utópicas e que se romperam periodicamente, tanto por acção organizada como por acção social espontânea quando o “peso é demasiado” [11] . Por exemplo, a tensão Norte/Sul de que se fala agora, é uma tensão que sempre existiu entre uma minoria beneficiária da maior parte dos recursos disponíveis e mandatária do monopólio da violência, física e simbólica, e uma maioria composta por aqueles que se esforçam no dia a dia para viver condignamente e aqueles que se esforçam diariamente para conseguir um mínimo vital. Uns dirão que esta ideia faz parte das “defuntas metanarrativas”, mas todos sabemos que ela é mais do que uma ideia, é um dado de facto. E nós “primeiro mundo”, 20% da população do Planeta, que usufruímos e gastamos 80% dos seus recursos, que poluímos 5 vezes mais que os restantes habitantes, aparentemente estamos muito contentes com as nossas “democracias” representativas caminhando dia a dia para um liberalismo global. É verdade que o liberalismo já se constituiu como utopia em tempos absolutistas… baseado na liberdade individual ele tem progredido no sentido de subjugar o indivíduo à liberdade de uma outra “pessoa colectiva” a “sociedade anónima de responsabilidade limitada”. São praticamente estas “pessoas” que governam o Mundo actual, a sua responsabilidade limita-se ao cumprimento dos compromissos financeiros (em princípio), a responsabilidade social fica dividida entre o indivíduo e o Estado cobrador de impostos. Torna-se difícil exigir responsabilidades a uma entidade anónima, e muito mais com regras criadas por ela. Foi esta “entidade anónima” que foi adaptando o Estado às “exigências dos mercados”, perdendo a mão quando a ambição é maior que o controle, mas logo recorrendo ao “Leviatã” quando a mão de obra “é cara” e o Estado social “é pesado”. Para ela a margem de lucro não pode baixar porque “os mercados ficam nervosos”. O novo liberalismo tornou-se uma distopia, valorando a propriedade acima da vida tende a privatizar tudo, o seu «sonho é de eliminar a concorrência desleal do “vivo”. A natureza, a vida, produzem e reproduzem gratuitamente, as plantas, os homens, a alimentação, o ar, a água, a luz. Para estes senhores, a coisa é intolerável. Para eles não pode haver bens públicos no sentido estrito do termo. A gratuidade causa-lhes horror.» (Ziegler, Jean (2007)- O Império da Vergonha).
Por tudo isto são urgentes utopias.




REACTOR: Recordo-me de uma utopia particular, “Xanadu” do G. Nelson. Como olha para o actual estado do ciberespaço e da blogosfera em particular?

INFRACÇÕES: A blogosfera não é um meio que nós conheçamos particularmente, não por falta de interesse mas por falta de tempo. No entanto nas nossas buscas notamos que cada vez mais aparecem blogues “pelo caminho”, com informação credível e muitas vezes com ensaios muito interessantes, ou seja, para alem de pesquisadores de informação são criadores de conhecimento, e isso demonstra a importância cultural que estes têm vindo a adquirir. Consideramos a blogosfera um meio socialmente plural e amigável. É incontestavelmente positiva a possibilidade de auto-edição, com vantagem óbvia na divulgação de projectos que saem da “lógica do mercado”, mas também pela capacidade que demonstra em juntar gente com mundivisões semelhantes. Também é notável a capacidade de autoregulação nos blogs colectivos, é sem dúvida um meio digno de estudo e reflexão. Temos a sensação de que a blogo se mantém saudavelmente fora das “guerras de audiência” ou lógicas imediatistas. Não nos parece pensável ver esta entrevista publicada na imprensa clássica, iria ocupar muito espaço “reservado aos compromissos comerciais”.
No ciberespaço, o hipertexto é sem dúvida um potente instrumento de criação e inovação enquanto gerador de fluxos de informação livre (dotada de liberdade). Para isso Nelson teve um papel determinante, no trabalho descrito em “Literary Machines” (1965). Hoje podemos dizer que a utopia “Xanadu” se tornou realidade no sistema de informação aberto e universal World Wide Web, mesmo contando com as forças de controlo central que sempre aparecem (governos, grandes sociedades anónimas, especialmente o cartel do copyright protector do rato Mickey…), tentando abafar as redes espontâneas de informação. Não podemos deixar de prestar homenagem a Tim Berners-Lee, que pôs em prática a WWW sem registar patente de invenção, podendo legalmente salvaguardar o seu controlo, preferiu fornecer ao mundo um vasto campo aberto onde podiam caber novas invenções. É este o espírito utópico.

A Internet dá-nos o instrumento para transformar a sociedade numa estrutura horizontal verdadeiramente democrática, promotora ao mesmo tempo da participação pública do cidadão e da sua autonomia. Se não o soubermos fazer, veremos estabelecer-se paulatinamente “por baixo dos nossos narizes” um arquivo de registo de todos os “movimentos” de todos os cibernautas. E assim criadas as condições óptimas para um “Big Brother" Orwelliano.

REACTOR: Quais são os seus blogues de referência?

INFRACÇÕES: Egoisticamente são os blogues que aceitaram a nossa colaboração: Reactor; domadordesonhos; mandragora; fundacaovelocipedica.


REACTOR: Que pergunta acrescentaria a esta entrevista? E que resposta ela lhe mereceria?

INFRACÇÕES: O Centro Português de Design é a entidade oficial, que desde 1989 está encarregue de promover o design. Que pensam do desempenho deste organismo ao longo destes 30 anos, e muito particularmente se acham que o Centro tem tratado de igual modo as várias áreas do design ?


Para dizer a verdade não nos sentimos habilitados para uma análise aprofundada sobre o seu desempenho. Nos primeiros anos mantivemos atenção (e esperança) no seu resultado, depois foi morrendo progressivamente esse entusiasmo e não fizemos ainda a “autópsia do óbito”. Como tal ficamo-nos por uma opinião sensível, apoiada em notícias que nos vão chegando por várias fontes. No entanto não temos dúvida em considerar que o escopo principal do CPD, desde o início, foi o design de produto. Isso não nos admira. O Centro abre numa época de verdadeira euforia tecnocrata. Economistas, gestores, técnicos de mercado, falavam em fusões, holdings, clusters, competitividade e “limpeza” do sistema produtivo. Os yuppies estavam em alta e o darwinismo social também. Numa dedução simples é natural fazer-se a ligação directa do design de produto com a mercadoria (exportável), a que se iria “acrescentar valor”. Quanto ao design gráfico, ele estava assegurado por uma irreversível terciarização da economia, as novas empresas de serviços saberiam “prevenir-se” com o design adequado. Também é notória a atenção centrada no equipamento/industrial, afastando tudo o que fizesse lembrar “manufactura”, este lapso só é corrigido em 2002 com a introdução de prémios para interiores, moda, joalharia e gráfico.
Na verdade, com ou sem CPD, o design gráfico nacional soube ultrapassar o impacto da “revolução dos média” e integrar-se com nível internacional nos novos paradigmas editoriais com especial relevo na industria cultural. Na área a que estamos ligados, produto, consultámos os prémios nacionais de 2009, e constatámos que vários dos premiados são os mesmos de há 16 anos atrás, isto leva-nos a concluir que em dezasseis anos não apareceram novos nomes merecedores do prémio Sena da Silva, logo o panorama nacional não evoluiu. Será que o critério das candidaturas não é o adequado, que não é prospectivo ? É muito tempo para não corrigir o passo. Na nossa opinião o prémio nunca deveria ser acumulável, se não havia merecedores não havia prémio. O prémio foi pensado para ser um incentivo. Que ao princípio se possa procurar o design onde já se sabe que ele está, pode ser aceitável uma vez sem criar norma. A eleição consecutiva de actores sobejamente conhecidos, pode criar uma inibição em potências candidatos. A inibição pode fundar-se na sensação de que «não vale a pena concorrer com os fortes». Também se pode fundar numa justificável suspeição de que existe conluio. Por nós, quando olhamos para o consecutivo fechar de portas das empresas, tanto se nos dá que tenham (tido) práticas de design como não.

Notas:

[2] Os restantes já não lemos.

[3] A construção morfo-sintáctica, busca adjectivar certas operações financeiras com o
capital simbólico do substantivo engenharia. Termo novo, para nomear (elogiosamente) operações que já se faziam há muito.

[4] Adoptámos a “teoria dos campos” de Pierre Bourdieu, assim: À disciplina (subcampo do campo universidade), cabe construir no seu núcleo (grupo de agentes legitimados pelos seus pares), um programa ideológico que servirá de guia aos agentes que pretende formar e reconhecer. O indivíduo (neste caso o designer), mantém a liberdade de seguir ou não esse programa. Não seguir o programa não é condição necessária para “ser um mau designer”. E não é razão suficiente para “fazer bom design”.

[5] A especificação de actividade humana serve para que um qualquer castor, não possa vir reivindicar o estatuto de designer só porque faz muito bem a sua casinha.

[6] Delimitámos o significado à definição antropológica, uma vez que a palavra tem vindo a adoptar novos sentidos (nomeadamente na informática).

[7] Como é evidente a privatização é usada em sentido metafórico – trata-se efectivamente tanto da estatização de associações civis sem fins lucrativos, como da transformação das mesmas em sociedades anónimas, como aconteceu com as mutualidades.

[8] Neste esforço dos agentes envolvidos, considera-se também o esforço de capital investido, remunerado segundo o custo, o risco e o benefício social prestado, nunca por critérios especulativos ou quaisquer outras manigâncias.

[9] Wagner, Peter, (1996) Liberté et Discipline. Les deux crises de la modernité.

[10] O outro oportunista é o Francis Fukuyama.

[11] Mais de 100 cidades nos Estados Unidos 68, Primavera de Praga 68, México 68, Paris Maio de 68, Irão 79, Africa do Sul 80, RDA 89, Palestina sempre...

Saturday, May 22, 2010

O TRABALHO DO CRÍTICO


Crossing the line foi o título da mais recente conferência d-crit, uma organização do departamento de Design Criticism da The School of Visual Arts.

Um dos keynote, John Thackara, numa intervenção sintomaticamente intitulada “A Revelação”, questionou: “What needs writing about? Where? And, how does one get paid for doing so?”. A comunicação de Thackara foi feita para uma plateia na sua maioria constituída por alunos de Mestrado, pertencente a uma geração que, contrariamente à de John Thackara, foi educada dentro de um contexto onde a presença da crítica do design, primeiro em papel e logo de seguida na web, sempre foi natural.

Os críticos de design, da geração de Clive Dilnot, Nigel Whiteley, Steven Heller e, mais novos, Alice Twemlow e Rick Poynor ou, em Portugal, os críticos da minha geração (a mesma de Mário Moura), pelo contrário, começam a publicar num contexto em que a crítica de design era praticamente inexistente, numa palavra: não havia escritores, nem textos, nem leitores. Havia design, mas escasseava a reflexão sobre o design com tudo o que isso implica.

O contexto de produção ajuda a explicar, que a crítica do design cedesse à tentação de fazer da crítica do design provavelmente o seu objecto central de reflexão. Passou, assim, a haver escritores a escreverem sobre crítica do design, textos sobre crítica do design e leitores (cada vez mais há que reconhecer) de textos sobre crítica do design. Alguma produção de design permanecia ignorada pela crítica.

No seminal diálogo entre Rick Poynor e Michael Rock, “What is this thing called graphic design criticism?, Poynor questiona: What needs writing about? Where? And, how does one get paid for doing so?

A crítica do design, não nos esqueçamos, é uma produção da cultura do design. Um, entre vários, produtos de uma sub-cultura, tendencialmente auto-referencial. Também em Portugal, progressivamente ao longo da última década, a produção crítica e curatorial (de que o The Ressabiator e os Personal Views são eloquentes exemplos) passou a coexistir com produtos feitos para grandes clientes (seja a Gulbenkian ou o Continente), uns mais autorais e uma maioria mais mainstream, para pequenos clientes e coisas auto-propostas, a coexistir com o manancial de trabalho produzido nas escolas, uma grande heterogeneidade de produtos, profundamente desigual na natureza e na qualidade mas resultando de uma mesma cultura. Esta constatação de que a cultura do design em Portugal, é constituída por diversas sub-culturas não deixa de implicar o reconhecimento de uma certa riqueza. Com dizia um leitor num comentário a um post “o design não se reduz às experimentas”, seguramente que não, mas a Experimentadesign não deve ser subtraída da realidade da nossa cultura do design, faz parte dela tal com o site do Jumbo, o Samizdat , as capas da Tinta da China, os cartazes para o Teatro Meridional, o logótipo de uma empresa de moldes, o flyer para uma festa no IST usando comic sans, o portal do centenário da República, as capas dos discos dos Osso Exótico e as do Duo Eu e Ela, os trabalho dos R2, o Jornal de Notícias e as conferências do Dia D.

Num comentário a um texto recente de Mário Moura, João Alves Marrucho escrevia que “Talvez pudessem (os críticos) dedicar menos tempo às conferências XPTO, às exposições, experimentas designs, velhotes empresários, que muitas vezes se estão nas tintas para o que vocês escrevem, talvez não fosse má ideia andar um passo atrás das palas das influências académicas, para que consigam, com a necessária leveza, sentir no ar, colher o que está solto, e prever o tempo.”

Não só é natural como, por inúmeras razões, desejável que um designer da geração e do contexto cultural de João Alves Marrucho considere a revista Eye, o Design Observer, o Reactor ou uma conferência dos Personal Views “coisas mainstream”, literalmente de retaguarda, por ter sido formado dentro (e em certa medida a partir) dessa retaguarda. O desafio que João Alves Marrucho lança aos críticos é, sem dúvida, estimulante e saudável, o que constrange é que tal desafio não seja lançado a nenhum critico de design da geração de João Alves Marrucho mas apenas a mim e ao Mário Moura.

Indo directo à questão, consigo eu perceber que coisas são essas que devemos “sentir no ar”? têm elas relevância e interesse? Penso que era Skitz Beatz que dizia qualquer coisa do género "I ain´t no musician. I just like to make things that sound good", pode esta ideia ser extrapolada para o contexto do design de comunicação? Não hesito em afirmar que algum do design mais interessante que hoje é feito encontra-se em projectos que tendem a escapar à definição e compreensão tradicionais do design, teremos de o “recortar” dentro do campo da arte contemporânea, da criação viral, dos projectos comunitários e da acção pública; noutros casos corresponde a algo de mais híbrido ou simplesmente despreocupado em ser design, simplesmente preocupado em make things that sound good – em fazer coisas com sentido ou, pelo menos, desencadear processos com sentido.

Algum do design mais interessante é fugidio a uma visão mais normativa, são “coisas” que geram, catalisam, interferem ou criam processos de comunicação. Eventualmente, escapará inclusivamente ao que denominamos de “práticas emergentes” de design, em relação às quais a vontade de as dominar teoricamente (a teoria tem pavor do descontrolo) leva, apressadamente, a categoriza-las (seja através das categorias mais batidas - design thinking, design participativo – seja através da invenção de novas categorias).

O crítico de design, era esse o repto de João Alves Marrucho, deve “sentir o ar” e captar coisas que, como no título dos Spiritualized, “are floating in space”. O drama, dentro de uma cultura hiperacelerada, de efemerização contínua, é o de que uma vez descidas à terra as coisas tornam-se rapidamente mainstream e logo devemos correr a sentir uma nova brisa. Defendo que o crítico não deve ter medo do novo, nem medo do velho; não deve ter qualquer preconceito com o que há muito não aparece nem com o que acabou de aparecer: um e outro devem ser sujeitos aos mesmo crivo; um e outro devem ser analisados à luz da contemporaneidade. Mas também sei, que o crítico deve estar consciente de que a cultura contemporânea é marcada pela livre circulação das referências, o seu canibalismo e transitoriedade; também sei que mainstream e underground mantêm relações promíscuas numa época que, no seu zapping, permanentemente remistura Jean-Luc Nancy, Katizinha, David Lynch, Zomby, Reverse Graffiti e Bruno Aleixo.

Da minha parte, quando “sinto o ar”, respiro de tudo. Às vezes sinto o ar rarefeito, outras vezes com um cheiro estranho, muitas vezes claramente poluído. Mas vou conseguindo sentir ar puro. Algum vem do trabalho de alunos, como este , ou de projectos de amigos como A Estante, muito chega-me de jovens designers com a Isabel Lucena ou a Inês Nepomuceno ou menos jovens como Barbara Says.

Uma coisa é certa, o trabalho da crítica de design em Portugal não acabou, na verdade ele mal acabou de começar.

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com