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Friday, September 25, 2009

ARQUITECTURAS INCOMPLETAS: COMO SE DESENHA EM LISBOA E COMO SE ACTUA EM CARACAS

por CARLOS M. GUIMARÃES*


A arquitectura portuguesa é, de um ponto de vista processual, lenta. Lenta por tradição, lenta por ideologia.

Não interessa proferir nomes, porque todos os temos na cabeça... Sabemos quem são os pais da nossa cultura arquitectónica actual, sabemos quem foram os nossos professores na faculdade, sabemos o contexto histórico, político e social em que a arquitectura se desenvolveu em Portugal ao longo dos últimos anos.
A cultura de "resistência" que a caracteriza é sintoma de teimosia. E ao mesmo tempo, de comodidade. No entanto, esquecemo-nos que a arquitectura move-se - hoje - em terrenos muito mais amplos que a simples arte do desenho e refugiamo-nos invariavelmente na pureza de uma ética que parece ser só nossa, de uma moral académica que se perdura no tempo e consequentemente, no espaço.

A finura de um traço, a insistência neste e naquele detalhe, a repetição de gestos e gostos são valores que adquirimos desde o primeiro momento. Por mim falo, mas genericamente o constato. Desenhar em Lisboa parece ser sinónimo de exorcização de fantasmas alheios ou de condutas dissonantes, embora já tenha a voz gasta, pouca memória e surdez própria de pessoa idosa. Não tem arriscado escrever diferente e não parece querer aproveitar o cansaço da velha idade para se alimentar com novas ideias e novas formas de pensar a disciplina.

Para desenhar Lisboa de uma forma mais complexa e menos previsível (mais interessante, portanto) o discurso tem que ser multidisciplinar, culturalmente diversificado e crítico. A artesania que ainda caracteriza o pensamento e acção do arquitecto em Lisboa tem que dar lugar a uma densa e apertada rede cultural que obrigue a sociedade a evoluir e que nos obrigue a assumir a arquitectura não como um símbolo da resistência, mas como uma simples e muito interessante forma de comunicarmos uns com os outros.
Cedric Price disse um dia que "o diálogo será talvez a única escusa ou razão de ser da arquitectura." E dentro desta perspectiva, registe-se que muita da (admirada) arquitectura produzida em Portugal é muda, intrínseca e inabalavelmente muda...



lisboa



A realidade de Caracas é outra. Aqui, a arquitectura não tem nome, exceptuando honrosos casos... Na capital venezuelana, reino bolivariano e chavista, metade da população, cerca de 3 milhões de pessoas, vive em assentamentos apelidados de informais, ou seja, áreas essencialmente urbanas sem qualquer tipo de planeamento ou legislação que as abranja. É nesses espaços que crescem as chabolas, os barrios, as favelas...

A imagem urbana gerada por esse facto tem tanto de assustador como de poético. Assustador porque é impossível dissociar a imagem do seu conteúdo real, ou seja, é impossível separar o significado do significante, e poético porque a intensidade dramática e o contraste entre a teia de aranha desses assentamentos e a cidade formal é das imagens mais poderosas que o Homem, ao longo do tempo e no seu conjunto, foi capaz de criar(involuntariamente?!) até hoje.

Os assentamentos informais tornaram-se, quer queiramos quer não, numa situação normal, do dia-a-dia, num dado concreto que não adianta menosprezar ou ignorar.
As ferramentas utilizadas para lidar com esse facto prendem-se mais com a arte política, cultural e social que propriamente com a arte do desenho.
Por razões mais ou menos fáceis de entender (não me vou alongar sobre elas), o design aqui é a última etapa de um longo processo.

Em complexos espaços urbanos, onde o uso, significado e pertença são debatidos e contestados permanentemente, não adianta aos arquitectos proporem soluções radicais, com cheiro a "tabula rasa". Há que admitir que, em certos casos, há problemas sociais que não requerem soluções espaciais. E há que ter coragem para assumir que pode haver aspectos do foro social e político que ajudem a resolver determinados problemas espaciais...

O entendimento deste facto obriga o arquitecto a ser outra coisa muito antes de ser arquitecto. Obriga-o a ser um activista social e politico, com uma visão muito clara dos problemas da sociedade e da cidade em seu redor. Tem que partir de si a identificação dos problemas, o estudo de possíveis soluções, a mediação com os diversos agentes e, em última instância, a autoria da proposta arquitectónica.

As palavras de Cedric Price poder-se-iam aplicar aqui de novo, e desta vez com um registo bem diferente...



caracas




Ambas as visões que acabo de descrever constatam realidades e maneiras de encarar a arquitectura - por parte dos seus próprios profissionais - de forma completamente distinta. Enquanto a arquitectura portuguesa assenta em bases já sedimentadas pelo tempo (e comprovadas espacialmente), a realidade caraquenha (ou de qualquer outro assentamento urbano "informal") apresenta demasiada instabilidade para poder ser lida de forma genérica e abrangente.

A análise da primeira é tautológica. A da segunda, é pontual, pessoal e muito específica. No primeiro caso, e embora alguma coisa pareça estar a melhorar (aguardo, por exemplo, com alguma expectativa o texto introdutório do Pedro Gadanho no seu Habitar Portugal 2006-08, que promete ser, segundo o próprio, a prova do início de um more exhilarating scenario…) é inevitável continuar a ler e a sentir o peso das contradições que a vai sustentando. Ou seja, quando o discurso (que tem a mesma idade que a democracia) não bate certo com a prática... A inocência e depuração evocada (renderizada ou maquetizada) em qualquer projecto ou encomenda privada desenhada em Lisboa não revela consequência com a moral social e localmente enraizada proferida em qualquer discurso ou lida em qualquer memória projectual.

Ao invés, no segundo caso, a especificidade teórica e a realidade social/politica está de tal forma presente que se parecem sustentar a si próprias, relegando o design para uma fase posterior, talvez secundária, e a prática (a obra) para uma consequência de um sem fim de lutas e tomadas de decisões mais que complexas, extremamente desgastantes.

Em ambos os casos, a arquitectura revela-se incompleta, amparada pelo seu próprio peso e á espera de oportunidades (e vontades) que temos tardado em procurar. A riqueza de uma tem sido a lacuna da outra… Será que se pode aprender algo com isto?




* Lugar da Mente / Mind-Data

Monday, April 28, 2008



IMPRESSÕES FORTES

O burocrático dever de informar*
Frederico Duarte


São seis da tarde. Dentro do autocarro estão cerca de 80 pessoas, muitas delas de pé. Para além da cidade a chover lá fora, a única coisa fora do normal no interior do veículo é um cartaz, pequeno para a moldura de cartazes ocasionais que a Carris fornece, que nos informa sobre o referendo de 11 de Fevereiro. Todos sabemos do que se trata, todos assistimos na TV aos lançamentos de livros, blogs e inflamados debates, todos vimos os cartazes, os panfletos que nos chegaram às mãos com Agora Sim! e Não Obrigada. Já nada nos surpreende: estamos habituados ao "circo mediático" que caracteriza cada acto eleitoral em Portugal. No entanto, este cartaz apenas nos diz que "votar é um direito e um dever cívico". Disso ninguém duvida, mas é este cartaz, com o seu hipotético sol nascente e céu azul, que nos vai convencer a expressar a nossa opinião, a responder "sim", ou "não", à pergunta que encontraremos nos boletins de voto?


O Estado Português, representado neste referendo pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE) do Ministério da Administração Interna, apela ao nosso voto através de, entre outros meios, um "cartaz anunciador do referendo" (termo oficial), que se encontra afixado em locais e transportes públicos por todo o país. No entanto, estará o Estado, com este discreto cartaz, a cumprir de facto com a sua parte do processo eleitoral? Não deverá um "cartaz anunciador de referendo" ter como objectivos fundamentais não só informar, mas sobretudo cativar e mobilizar a opinião pública - nós, os cidadãos de pé em hora de ponta que até temos mais do que pensar - para o acto eleitoral a que se refere? Não deverão os deveres e o direitos que invoca estar presentes de uma forma mais incisiva na própria mensagem e no discurso que veicula?



Este discurso, construído num cartaz a partir de elementos ortográficos (palavras/tipografia) e iconográficos (imagens/elementos gráficos), deve chamar a atenção dos passageiros e de outros cidadãos, e fazê-los pensar tanto nas suas convicções, como nas suas futuras escolhas. Infelizmente, o cartaz em causa não corresponde de todo aos objectivos propostos: a sua organização formal é no mínimo insípida, a escolha e composição tipográficas são débeis e mal resolvidas em termos de espacejamento e alinhamento, o uso de gradientes cromáticos e do subtil morph - transformação de uma forma para outra feita progressivamente - é despropositado e inconsequente. Este cartaz, da autoria do "técnico de artes gráficas" residente do STAPE (autor de outros cartazes alusivos a recentes actos eleitorais, visíveis em stape.pt) é, na melhor das hipóteses, uma oportunidade perdida.


Em Portugal existem milhares de profissionais - designers de comunicação - que através do seu poder de observação, conhecimento, criatividade e talento veiculam mensagens e discursos de todo o tipo, nos mais variados meios. São estas as pessoas que dão forma a grande parte da nossa paisagem visual - dentro e fora do chuvoso autocarro - e como tal o seu trabalho merece ser reconhecido por todos os portugueses, e não só. Mas mais do que reconhecê-lo, todos nós deveremos ser ainda mais exigentes com o que nos rodeia, com o que nos é comunicado todos os dias. Um exemplo dessa exigência é a iniciativa "Get Out the Vote" da AIGA (associação profissional dos designers de comunicação americanos), que começou após o escândalo dos boletins de voto da Flórida na eleição presidencial de 2000. Sob o lema "Good design makes choices clear" (O bom design esclarece as escolhas), vários dos seus associados conceberam cartazes com um único objectivo: apelar ao voto. Num deles, de um atelier do Maryland, podemos ver, e ler, três palavras e um ponto de exclamação, um único tipo de letra, e quatro cores. Mais nada. A composição é tão clara quanto a sua mensagem, a urgência tão presente quanto necessária.



Que o cartaz do Maryland (todos os cartazes estão disponíveis para download em aiga.org) é graficamente melhor do que o cartaz do STAPE não tenho a mínima dúvida. Mas talvez o mais importante deste cartaz é que é proposto, tanto na forma, como no conteúdo, pelos próprios membros da sociedade civil - designers conscientes dos seus direitos e deveres cívicos - supostamente responsáveis pela comunicação do Estado, com o qual estão insatisfeitos. Tal como nós devemos estar, quando olhamos para o pobre cartaz no interior do veículo que nos leva para casa: se a imagem e a comunicação são formas de legitimação de um Estado, a qualidade daquelas deve estar à altura dos desígnios deste, e não deverão ser entendidas como um mero trâmite burocrático. Além disso, o Estado, e todas as suas instituições, devem ter um papel activo e contribuir significativa e duradouramente para a elevação da cultura visual dos seus cidadãos: devem ser os primeiros a ter essa exigência, e procurar os profissionais certos para a satisfazer.


Para a também norte-americana designer e teórica Katherine McCoy "o design nunca deve estar acima do seu conteúdo". No caso do cartaz anunciador deste referendo, a situação é perversamente inversa: O acto maior da democracia - o acto de votar - não conseguiu, mais uma vez, ver eleito um interlocutor à sua altura, por parte de quem tinha a responsabilidade de o fazer: o próprio Estado. Se tal tivesse acontecido, talvez tivéssemos saído do autocarro com a sensação de que tínhamos visto algo de significativo.

*Publicado originalmente no jornal Público de 04.02.2007

IMPRESSÕES FORTES é um novo espaço de opinião do Reactor. Frederico Duarte é um dos convidados a escrever regularmente neste espaço.

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com