Monday, April 28, 2008



IMPRESSÕES FORTES

O burocrático dever de informar*
Frederico Duarte


São seis da tarde. Dentro do autocarro estão cerca de 80 pessoas, muitas delas de pé. Para além da cidade a chover lá fora, a única coisa fora do normal no interior do veículo é um cartaz, pequeno para a moldura de cartazes ocasionais que a Carris fornece, que nos informa sobre o referendo de 11 de Fevereiro. Todos sabemos do que se trata, todos assistimos na TV aos lançamentos de livros, blogs e inflamados debates, todos vimos os cartazes, os panfletos que nos chegaram às mãos com Agora Sim! e Não Obrigada. Já nada nos surpreende: estamos habituados ao "circo mediático" que caracteriza cada acto eleitoral em Portugal. No entanto, este cartaz apenas nos diz que "votar é um direito e um dever cívico". Disso ninguém duvida, mas é este cartaz, com o seu hipotético sol nascente e céu azul, que nos vai convencer a expressar a nossa opinião, a responder "sim", ou "não", à pergunta que encontraremos nos boletins de voto?


O Estado Português, representado neste referendo pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE) do Ministério da Administração Interna, apela ao nosso voto através de, entre outros meios, um "cartaz anunciador do referendo" (termo oficial), que se encontra afixado em locais e transportes públicos por todo o país. No entanto, estará o Estado, com este discreto cartaz, a cumprir de facto com a sua parte do processo eleitoral? Não deverá um "cartaz anunciador de referendo" ter como objectivos fundamentais não só informar, mas sobretudo cativar e mobilizar a opinião pública - nós, os cidadãos de pé em hora de ponta que até temos mais do que pensar - para o acto eleitoral a que se refere? Não deverão os deveres e o direitos que invoca estar presentes de uma forma mais incisiva na própria mensagem e no discurso que veicula?



Este discurso, construído num cartaz a partir de elementos ortográficos (palavras/tipografia) e iconográficos (imagens/elementos gráficos), deve chamar a atenção dos passageiros e de outros cidadãos, e fazê-los pensar tanto nas suas convicções, como nas suas futuras escolhas. Infelizmente, o cartaz em causa não corresponde de todo aos objectivos propostos: a sua organização formal é no mínimo insípida, a escolha e composição tipográficas são débeis e mal resolvidas em termos de espacejamento e alinhamento, o uso de gradientes cromáticos e do subtil morph - transformação de uma forma para outra feita progressivamente - é despropositado e inconsequente. Este cartaz, da autoria do "técnico de artes gráficas" residente do STAPE (autor de outros cartazes alusivos a recentes actos eleitorais, visíveis em stape.pt) é, na melhor das hipóteses, uma oportunidade perdida.


Em Portugal existem milhares de profissionais - designers de comunicação - que através do seu poder de observação, conhecimento, criatividade e talento veiculam mensagens e discursos de todo o tipo, nos mais variados meios. São estas as pessoas que dão forma a grande parte da nossa paisagem visual - dentro e fora do chuvoso autocarro - e como tal o seu trabalho merece ser reconhecido por todos os portugueses, e não só. Mas mais do que reconhecê-lo, todos nós deveremos ser ainda mais exigentes com o que nos rodeia, com o que nos é comunicado todos os dias. Um exemplo dessa exigência é a iniciativa "Get Out the Vote" da AIGA (associação profissional dos designers de comunicação americanos), que começou após o escândalo dos boletins de voto da Flórida na eleição presidencial de 2000. Sob o lema "Good design makes choices clear" (O bom design esclarece as escolhas), vários dos seus associados conceberam cartazes com um único objectivo: apelar ao voto. Num deles, de um atelier do Maryland, podemos ver, e ler, três palavras e um ponto de exclamação, um único tipo de letra, e quatro cores. Mais nada. A composição é tão clara quanto a sua mensagem, a urgência tão presente quanto necessária.



Que o cartaz do Maryland (todos os cartazes estão disponíveis para download em aiga.org) é graficamente melhor do que o cartaz do STAPE não tenho a mínima dúvida. Mas talvez o mais importante deste cartaz é que é proposto, tanto na forma, como no conteúdo, pelos próprios membros da sociedade civil - designers conscientes dos seus direitos e deveres cívicos - supostamente responsáveis pela comunicação do Estado, com o qual estão insatisfeitos. Tal como nós devemos estar, quando olhamos para o pobre cartaz no interior do veículo que nos leva para casa: se a imagem e a comunicação são formas de legitimação de um Estado, a qualidade daquelas deve estar à altura dos desígnios deste, e não deverão ser entendidas como um mero trâmite burocrático. Além disso, o Estado, e todas as suas instituições, devem ter um papel activo e contribuir significativa e duradouramente para a elevação da cultura visual dos seus cidadãos: devem ser os primeiros a ter essa exigência, e procurar os profissionais certos para a satisfazer.


Para a também norte-americana designer e teórica Katherine McCoy "o design nunca deve estar acima do seu conteúdo". No caso do cartaz anunciador deste referendo, a situação é perversamente inversa: O acto maior da democracia - o acto de votar - não conseguiu, mais uma vez, ver eleito um interlocutor à sua altura, por parte de quem tinha a responsabilidade de o fazer: o próprio Estado. Se tal tivesse acontecido, talvez tivéssemos saído do autocarro com a sensação de que tínhamos visto algo de significativo.

*Publicado originalmente no jornal Público de 04.02.2007

IMPRESSÕES FORTES é um novo espaço de opinião do Reactor. Frederico Duarte é um dos convidados a escrever regularmente neste espaço.

3 comments:

Anonymous said...

E pronto. A partir daqui vou deixar de visitar o Reactor.

REACTOR said...

Caro(a) Leitor(a),

Pelo seu comentário depreendo que não partilhe dos pontos de vista do Frederico Duarte e/ou que tem por ele uma menor simpatia pessoal.

O trabalho do Frederico Duarte tem sido, nos últimos anos, apresentado ao público, prestando-se por isso a ser avaliado. Não me cabe a mim fazer a sua defesa, a minha consideração pelo trabalho está implícita no convite que lhe dirigi.

Creio que as discordâncias, sejam de carácter mais ou menos objectivo, são não só legitimas mas fundamentais enquanto processos geradores de discussão através da qual os pontos de vista em confronto se tornam mais consistentes e claros.
Creio também, que não devemos ser levados a ler um texto apenas em função da simpatia que sentimos pelo seu autor ou pelas suas ideias.

O nosso contexto democrático, desde logo na perspectiva do debate de ideias em design, não é suficientemente rico ao ponto de convidar a unanimismos ou desencorajar o contraditório.
A vantagem de um blogue em relação a outros meios menos democráticos –desde logo o jornal – é a de possibilitar a expressão da opinião individual, oferecendo-a ao, chamemos-lhe assim, “combate ideológico”.

Espero pois que não deixe, ao contrario do que expressou, de “visitar” o Reactor. Convido-o, antes, a visita-lo mais demoradamente; deixando a sua marca; contribuindo para que a minha ideia do pode ser um blogue de reflexão sobre design escrito em português coincida mais com a sua.

Victor G said...

Para mim o cartaz do STAPE sugere tristeza, logo contraria a mensagem para o qual foi criado.

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REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com