Thursday, July 08, 2010




As lições morais de Esopo são narradas sob a forma de fábulas. Sendo consensual a clareza narrativa, a argúcia argumentativa e a validade, dir-se-ia, universal daqueles episódios há algo nas fábulas de Esopo que não se adequa ao nosso tempo. Mas do que se trata afinal? A resposta está no facto do simbólico não ser traduzido para o doméstico. Dito de outra forma, faltam nomes. Poucos querem saber de uma lição moral narrada por um corvo e uma raposa, muitos estão ávidos de participar de um circo onde se arrase com o José ou a Maria.

Recentemente, durante a visita à exposição
Revolution 99-09, o comentário final da pessoa que me acompanhava foi “faltam aqui nomes”. Num dos últimos textos de Mário Moura, alguns leitores caíram-lhe em cima com um lapidar “ou dizes nomes ou calas-te!”.

As fábulas de Esopo transmitem-nos princípios mas, claramente, a nossa época não quer saber de princípios, quando muito toma-os como elementos acessórios para poder dizer mal deste ou (mais raramente) bem daquele.

E no entanto, o debate mais urgente no design português é um debate de ideias, de princípios, de valores. Chamar os bois pelos nomes, tarefa corajosa e seguramente saudável, não substitui uma reflexão mais profunda na qual, abstraindo-nos dos nomes, sejamos capazes de uma tarefa crítica através da troca de argumentos – sobre o ensino do design, a sua empregabilidade, a sua institucionalização, os seus valores, a sua agenda. O desafio estará na necessidade de reaprendermos a discutir ideias e em termos vontade e responsabilidade em o fazer. Por outras palavras, em estarmos pelo menos tão interessados em querer saber "quem disse isso?" como em procurar reflectir sobre "isso que foi dito".

19 comments:

amigogaspar said...

Chamar "pateta alegre" a um colega é fazer critica de design?

ressabiator said...

Nem sei porque continuo a responder a isto (esta discussão é como um bêbado que, tendo sido expulso de uma tasca por ter armado confusão, se dedica a recomeçar a algazarra na tasca seguinte), mas aqui vai mais uma resposta longa para mais uma pergunta armadilhada.

Em primeiro lugar, e tal como já tinha dito no meu blogue, há insultos directos e insultos indirectos: quando se diz que a motivação da crítica é a afirmação pessoal e que a consequência da crítica é o mau ambiente, está-se a dizer muito claramente que os críticos são pretensiosos e a dar a entender por meias palavras que são arruaceiros. Em todo o mundo, há umas tantas carradas de professores especializados em crítica, que a exercem profissionalmente; dar a entender que estas pessoas, seus colegas, são arruaceiros que criam mau ambiente é um insulto e uma estupidez, para além de ser uma forma bastante evidente de censura.

Em segundo lugar, o que separa a crítica da má língua ou do mero insulto é a fundamentação. Não basta afirmar qualquer coisa, mas é preciso procurar convencer um público disso. No meu texto, descrevi um conjunto de declarações, argumentando que são falaciosas – não tenho a mínima dúvida que a minha exposição foi crítica (se foi bem ou má sucedida, não me cabe apenas a mim dizê-lo). Quanto à expressão "pateta alegre", que usei como um título, não foi escolhida ao acaso: usei-a para designar um conjunto de pessoas que defendem falácias (ou parvoíces) em nome da boa disposição – sob este ponto de vista parece-me uma descrição adequada, bastante mais feliz do que expressões como “atrasado mental” – ou “retarded” – que só muito raramente descrevem literalmente as pessoas que pretendem insultar. Estas expressões são apenas maneiras grosseiras de comparar pessoas de quem não se gosta com algum grupo social minoritário, que sofra de alguma doença, que seja de outro país ou de outra raça, que tenha outra orientação sexual. São um duplo insulto, se quiserem.

Noto ainda que há inúmeros exemplos de nomes feios e até insultuosos na história da crítica do design – desde os textos de Adolf Loos, até todas as polémicas das Guerras da legibilidade dos anos 90, onde o verbo "fuck" era uso corrente, etc., etc.

(suspiro)

Resumindo e já com algum cansaço: crítica é tudo o que as pessoas que ficam chateadas com críticas acham que não é crítica.

ressabiator said...

Nem sei porque continuo a responder a isto (esta discussão é como um bêbado que, tendo sido expulso de uma tasca por ter armado confusão, se dedica a recomeçar a algazarra na tasca seguinte), mas aqui vai mais uma resposta longa para mais uma pergunta armadilhada.

Em primeiro lugar, e tal como já tinha dito no meu blogue, há insultos directos e insultos indirectos: quando se diz que a motivação da crítica é a afirmação pessoal e que a consequência da crítica é o mau ambiente, está-se a dizer muito claramente que os críticos são pretensiosos e a dar a entender por meias palavras que são arruaceiros. Em todo o mundo, há umas tantas carradas de professores especializados em crítica, que a exercem profissionalmente; dar a entender que estas pessoas, seus colegas, são arruaceiros que criam mau ambiente é um insulto e uma estupidez, para além de ser uma forma bastante evidente de censura.

Em segundo lugar, o que separa a crítica da má língua ou do mero insulto é a fundamentação. Não basta afirmar qualquer coisa, mas é preciso procurar convencer um público disso. No meu texto, descrevi um conjunto de declarações, argumentando que são falaciosas – não tenho a mínima dúvida que a minha exposição foi crítica (se foi bem ou má sucedida, não me cabe apenas a mim dizê-lo). Quanto à expressão "pateta alegre", que usei como um título, não foi escolhida ao acaso: usei-a para designar um conjunto de pessoas que defendem falácias (ou parvoíces) em nome da boa disposição – sob este ponto de vista parece-me uma descrição adequada, bastante mais feliz do que expressões como “atrasado mental” – ou “retarded” – que só muito raramente descrevem literalmente as pessoas que pretendem insultar. Estas expressões são apenas maneiras grosseiras de comparar pessoas de quem não se gosta com algum grupo social minoritário, que sofra de alguma doença, que seja de outro país ou de outra raça, que tenha outra orientação sexual. São um duplo insulto, se quiserem.

Noto ainda que há inúmeros exemplos de nomes feios e até insultuosos na história da crítica do design – desde os textos de Adolf Loos, até todas as polémicas das Guerras da legibilidade dos anos 90, onde o verbo "fuck" era uso corrente, etc., etc.

(suspiro)

Resumindo e já com algum cansaço: crítica é tudo o que as pessoas que ficam chateadas com críticas acham que não é crítica.

ressabiator said...
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ressabiator said...
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amigogaspar said...

E isso é critica de design ou é a sua maneira de tentar "silenciar" a opinão de um colega seu chamando-o pateta e consequentemente tornando nula qualquer validade ou qualidade dos comentários que ele fez?

Quando muito vejo critica a um colega, não critica do design. A comparação com o estado da critica em Portugal parece-me mais um meta discurso não fundamentado de stock usado para disfarçar (mal) um payback ao um colega não identificado. Aliás, se a critica faz bem ou mal ao design já foi tema de posts no ressabiator, este artigo é praticamente uma reciclagem com pateta alegre no título e o objectivo de responder de forma passiva-agressiva a um colega a quem provavelmente lhe falta coragem de abordar na realidade ou no mundo virtual.

Na minha opinião, que tal provar que a critica é algo que faz falta ao design fazendo alguma critica de design em vez deste já muito martelado meta-discurso?

Maa para isso é preciso deixar de olhar para o umbigo e andar pelas ruas, em vez de fazer "critica" escrevendo sobre "critica".

ressabiator said...

Uma coisa é mandar calar (coisa que nunca fiz ao longo de toda esta discussão), outra coisa é discordar fundamentando a minha opinião. Numa sociedade livre, toda a gente pode dizer a sua opinião mas, no caso de algumas dessas opiniões, é bastante provável que se precisem de defender do que outras, sendo muito difíceis de sustentar porque atentam de forma mais ou menos óbvia contra as regras da sociedade livre, por exemplo.

Notem que, em toda a discussão, ninguém parece muito interessado em defender esses colegas porque eles disseram estas coisas, mas apenas porque é feio dizer mal de colegas. Sugerir que não deveria discordar de situações que, na melhor das hipóteses, envergonham qualquer uma das profissões apenas porque foram ditas por colegas é mero corporativismo.

De qualquer modo, sugerir que o faço apenas como vingança é mais outra falácia: os motivos pelos quais se afirma qualquer coisa não são, só por si, motivo para demonstrar que a afirmação é falsa.

Finalmente, quem iniciou o exercício de meta-crítica perguntando se uma afirmação era ou não era crítica foi você. Mas esquecendo isso, qualquer actividade responsável deve examinar frequentemente os seus métodos, os seus objectos e o seu discurso; tanto o design como a crítica de design o devem fazer sempre que possível. Neste aspecto, fazer crítica e falar sobre crítica é inevitável, tanto mais que, tal como já disse no outro comentário, a crítica é uma forma de opinião fundamentada, tento portanto de de justificar aquilo que faz. Mas quanto a isso, remeto para o texto do José Bártolo, que resume admiravelmente a questão: deve haver sempre disponibilidade para falar de princípios.

João Alves Marrucho said...

Caro amigogaspar/carlos pontes (?). Eu, se entendi bem, e desvelei o que de mais valioso tem surgido nos seus comentários, concordo, em parte consigo. Acho que se refere, com alguma timidez mas com lucidez à necessidade de se ser mais incisivo na crítica (dando exemplos de processos e de resultados finais). Não era isso que queria dizer? Ao contrário do José Bártolo e do Mário Moura, não acredito que a realidade do design português possa acelerar um processo de transformação social sem identificar antes as peças e as mecânicas que impedem que isso aconteça mesmo dentro da sua própria produção e respectiva mecânica.
Não obstante, os seus comentários, assim como este post e o do Mário, além desta ideia, dão a entender que os agentes do design (nós, os designers) devemos ser protegidos pela e da crítica. Já imaginaram crítica musical onde não se possa criticar ou referênciar um músico, uma banda ou um maestro?
É certo que os pricípios devem ser alvo de reflexão, mas a crítica tem um "vector de acção" tão ou mais poderoso que a reflexão sobre os princípios e os modos/os meios. Ela pode e deve discursar sobre os fins. A crítica serve para formar opiniões, para dar a entender um ponto de vista.
Uma das características (positiva? negativa?)da crítica musical, (de novo o exemplo da outra arte) é que serve para que os que não vão ver os espectáculos formem opinião.
Escrever sem refererenciar, é tarefa árdua e merece respeito, mas torna tudo um pouco mais lodacento. Como disse há bem pouco tempo, "É como tentar cozer um ovo com um isqueiro)... demora muito até surtir o efeito desejado.

Se há alguma coisa que, a meu ver, urge em desenvolver na crítica de design, é a crítica "concreta". Assim a chamo à falta de melhor termo. Uma que informe quem não viu a coisa e quem, mesmo que a tenha visto, não tenha reparado nos problemas ou soluções desse objecto.

Uma dúvida, o "faltam nomes" que o acompanhante do José Bártolo disse referencia-se há falta de investigação dos curadores (que ignoram muita da produção de design de comunicação portuguesa)? Ou terá sido uma tirada sobre a ausência de fichas técnicas na exposição? ;)

João Alves Marrucho said...

Caro amigogaspar/carlos pontes (?). Eu, se entendi bem, e desvelei o que de mais valioso tem surgido nos seus comentários, concordo, em parte consigo. Acho que se refere, com alguma timidez mas com lucidez à necessidade de se ser mais incisivo na crítica (dando exemplos de processos e de resultados finais). Não era isso que queria dizer? Ao contrário do José Bártolo e do Mário Moura, não acredito que a realidade do design português possa acelerar um processo de transformação social sem identificar antes as peças e as mecânicas que impedem que isso aconteça mesmo dentro da sua própria produção e respectiva mecânica.
Não obstante, os seus comentários, assim como este post e o do Mário, além desta ideia, dão a entender que os agentes do design (nós, os designers) devemos ser protegidos pela e da crítica. Já imaginaram crítica musical onde não se possa criticar ou referênciar um músico, uma banda ou um maestro?
É certo que os pricípios devem ser alvo de reflexão, mas a crítica tem um "vector de acção" tão ou mais poderoso que a reflexão sobre os princípios e os modos/os meios. Ela pode e deve discursar sobre os fins. A crítica serve para formar opiniões, para dar a entender um ponto de vista.
Uma das características (positiva? negativa?)da crítica musical, (de novo o exemplo da outra arte) é que serve para que os que não vão ver os espectáculos formem opinião.
Escrever sem refererenciar, é tarefa árdua e merece respeito, mas torna tudo um pouco mais lodacento. Como disse há bem pouco tempo, "É como tentar cozer um ovo com um isqueiro)... demora muito até surtir o efeito desejado.

Se há alguma coisa que, a meu ver, urge em desenvolver na crítica de design, é a crítica "concreta". Assim a chamo à falta de melhor termo. Uma que informe quem não viu a coisa e quem, mesmo que a tenha visto, não tenha reparado nos problemas ou soluções desse objecto.

Uma dúvida, o "faltam nomes" que o acompanhante do José Bártolo disse referencia-se há falta de investigação dos curadores (que ignoram muita da produção de design de comunicação portuguesa)? Ou terá sido uma tirada sobre a ausência de fichas técnicas na exposição? ;)

João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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João Alves Marrucho said...
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REACTOR said...

Este blogspot está a precisar de férias...e eu também (espero que pare de multiplicar os comentários, entretanto já os apago)

João Alves Marrucho said...

errata
pricípios=princípios
há=à

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com