Tuesday, September 09, 2008




Rick Grefe pediu-me que falasse um pouco sobre o valor da continuidade na nossa profissão. Evidentemente poderia começar referindo-me à curta história do design, começando talvez com Peter Behrens, a quem se atribui a invenção dos programas de identidade e a coordenação de actividades de design gráfico e design industrial. Ou podia considerar o inicio da nossa história com as primeiras pinturas rupestres.

Prefiro a visão mais ampla, que relaciona a nossa actividade com as necessidades fundamentais da espécie humana: uma espécie cuja característica distintiva é a de fazer as coisas com um propósito; o que resulta numa boa descrição do que fazemos enquanto designers.

Qualquer arrogância ou orgulho que esta descrição possa despertar sobre o que é a nossa actividade, rapidamente se frustra ao descobrirmos que numa turma de alunos de design só 30% dos alunos tem alguma ideia de quem é Paul Rand e, a maioria, não conseguem identificar Eric Nitsche ou Lester Beall; sem mencionar Joseph Hoffman, Edward Penfield ou Gustav Jensen. Curiosamente, Jensen foi mentor de Paul Rand e, Cassandre à parte, provavelmente o criador que Rand mais admirava; no entanto não me surpreendia demasiado se a maioria dos que estão aqui presentes não tivessem qualquer ideia de quem ele foi.

Sempre acreditei que há uma diferença psicológica e ética entre os que fazem coisas e os que controlam as coisas. Se criar formas é intrínseco ao ser humano e possui um valor social, então podemos pensar no “bem” que reside no “bom design”, numa perspectiva que vai muito além do seu valor formal ou estilístico. Vincular beleza e propósito pode criar uma sensação de consenso comunitário capaz de reduzir a sensação de desordem e incoerência que a nossa vida quotidiana produz.

O designer comprometido com a moda e o marketing tem muito pouco interesse em conhecer e compreender a nossa história. Analisar o que sucedeu nos últimos vinte anos parece dar informação mais que suficiente para cobrir os requisitos profissionais. Porém, se ambicionamos que o nosso trabalho possua um significado e seja digno de respeito então não nos podemos contentar em conhecer as coisas “pela rama”.

Há umas semanas senti uma forte dor que me levou a consultar um medico especialista em mãos que me disse que provavelmente havia tido um ataque de “gota”. Quando estava no consultório médico reparei num documento pendurado na parede intitulado “O que um Cirurgião Deve Ser”, escrito no Século XIV. Alterei umas palavras e o resultado parece-me um bom conselho para a nossa profissão:

O que um designer deve ser

Que o designer seja firme perante as suas convicções e temeroso perante as incertezas; que evite toda a prática não fiável. Deve ser amável com o cliente, respeitoso com os seus colegas, sensato nos seus prognósticos. Que seja humilde, digno, educado e piedoso; que não seja ganancioso com o dinheiro; que a seja remunerado de acordo com o seu trabalho, os meios do cliente, a complexidade do caso e a sua própria dignidade.


MILTON GLASER, O QUE UM DESIGNER DEVE SER
Comunicação apresentada no encontro Design Legends, organizado pela AIGA Outubro de 2004.
Tradução e Adaptação J.Bártolo

9 comments:

Pedro said...

O último parágrafo do teu post resume em grande parte tudo aquilo que eu considero serem as características intelectuais essenciais de um designer. Quanto mais nao seja para conseguir relacionar-me com o espécime.

Vivo em Barcelona já há mais de dois anos e na realidade posso dizer-te que a maior parte dessas características podem encontrar-se mais facilmente deste lado da peninsula, ainda que muitas vezes nao seja menos verdade, que as características técnicas requeridas a um designer dos nossos dias muitas vezes nao estao presentes, pelo menos ao nível a que estamos habituados no nosso burgo.

Embora Barcelona seja uma cidade com um legado visual extremamente rico, e os catalaes um povo ciente da riqueza histórica que possuem e logo orgulhoso de tal facto, é-me muito mais fácil relacionar-me com "bons" designers de cá da minha geraçao, que com os meus conterrâneos, exactamente pela impressao de pouca humildade que sempre tive da personalidade colectiva dos (bons, diga-se) designers que conheço e com quem estudei. Por outro lado, é mais fácil ser-se humilde por aqui. O nível cultural geral é mais elevado. As pessoas sao menos mesquinhas. A falta de humildade é penalizada nas relaçoes sociais de uma forma diferente. A profissao é mais valorizada, embora haja uma enorme concentraçao de designers por metro quadrado, o que provavelmente pode acabar por influir na personalidade tipo do actor.

No entanto, quando toca analisar o desempenho das empresas de design, e excluindo obviamente as (poucas tendo em conta o grande universo do sector) que se contam como marcos de bom design, terei de voltar a um ambiente universitário para poder voltar também a desenvolver trabalho que me faça sentir de novo em contacto com o experimentalismo desinteressado, com os valores puros, com a falta de cedencias a principios de lucro por parte da criaçao. Isto porque afinal, os estúdios que fazem carreira mercantilizando a profissao nao sao assim tao diferentes dos de aí. Apenas existem em maior numero.

... Nunca mais chega Outubro!

REACTOR said...

Interessou-me publicar este texto do Glaser nesta fase de "regresso às aulas", antecipando de algum modo um "post" que surgirá para breve de reflexão sobre o ensino do design em Portugal e as consequências de Bolonha.

Confesso que, em alguns aspectos, a reflexão do Glaser me parece quase simplista e quase moralista, mas se conseguirmos pensar, critica e pragmaticamente, esta ideia de "bom design" talvez possamos evitar cair no moralismo de pacotilha e construir uma reflexão sólida sobre o que é o design e o modo dele ser praticado.

abraço,

Pedro said...

Na comparaçao exercida entre um especialista médico e um designer, quase transpondo o ideal da forma de agir de um para o outro, o centro da questao apenas se pode analisar na esfera da moralidade, já que as questoes realmente inerentes à esfera particular de cada profissao sao já de si incomparáveis.

É um tipo de reflexao que nao me parece pretender ser demasiado séria, mas antes faz por analisar de uma forma mais descontraída alguns aspectos que, ao que parece, o Milton Glaser identificou como sendo comuns à maioria dos designers.

No fim o resultado parece ser a identificaçao de pontos chave comuns a todos os bons profissionais. Seja qual for a profissao.

Bem analizado, nao passa de puro senso comum.

Abraço!

PS. Os catalaes sao um povo porreiro. Porém ainda lhes faltam uns acentos no teclado ;)

Grilo Falante said...

Ainda assim parece-me que a responsabilidade é um pouco diferente: Uma má cirurgia pode afectar um paciente. Um mau design pode afectar toda uma comunidade.

Ou não?

Mário Moura said...

Grilo Falante:

A grande maioria do design não afecta em larga escala a comunidade, nem é feito para grandes circulações. É difícil perceber como um mau flyer ou um logotipo de uma oficina de automóveis pode ser tão importante como uma cirurgia bem feita (ou que uma vida humana, porque é disso que se trata).

A comparação que fazes utiliza duas escalas distintas. Seria mais justo comparar a medicina com o design enquanto disciplinas, do que uma cirurgia com um design não especificado.

Em todo o caso, desconfio que mesmo os designers mais empedernidos, se tivessem que escolher, prefeririam viver num sítio com melhor medicina do que com melhor design.

Grilo Falante said...

Olá Mário

Antes de mais, parabéns pelo teu excelente blog.

A questão, como tu bem dizes, é de escala. Mas não só.

Repara que alguém desenhou os instrumentos que o cirurgião utiliza.

Referes num dos teus recentes posts Hannah Arendt (a prpósito do livro Iron Fists do Heller). É disso mesmo que se trata. O mal radical como sendo uma espécie de miopia que transcende a vontade de quem o comete.

A grande questão continua a ser: É possível haver um Bom mau design? E um Mau bom design?

É que a "bondade" é diferente da competência. E, "roubando" um exemplo de Flusser, um engenheiro competente pede desculpa ao comandandte do campo de concentração pela válvula desenhada não matar 800 judeus mas só 200...

Mário Moura said...

Obrigado pela preferência :)

Num post próximo tenciono regressar quer a Arendt, quer ao livro de Heller com mais calma.

A ideia de Arendt é que é fácil desculpar o mal. Ao usar Hitler como um exemplo de mal absoluto, qualquer outro mal se torna menor por comparação. Um assassinato isolado torna-se justificável por oposição a seis milhões, quando cada morte devia ser tão grave como um holocausto.

Quando Arendt fala da banalidade do mal, quer dizer que comparado com um mal tido como absoluto, qualquer outro parece banal e até desculpável. A propósito do julgamento de Eichmann, ela alerta para os perigos de tornar o Holocausto um mal sagrado que, efectivamente, lhe retira o poder moral sobre situações quotidianas, mesmo que extremas. O perigo reside nas generalizações da moral demasiado amplas e a miopia que referes tem também a sua origem aqui.


No entanto, penso que a ideia de Glaser não trata de fazer equivaler o valor dos objectos da medicina ao dos design, mas simplesmente de aproveitar um modelo genérico de deontologia e, mesmo aqui, existem perigos: se Glaser tivesse ido visitar um canalizador ou um militar em vez de um médico, a interpretação do texto seria bem diferente. Ao referir o médico, dá a entender que o design é como a medicina. As duas actividades têm objectos e implicações muito diferentes, que não se tornam equivalentes pelo uso dos mesmos princípios éticos.

Abraço

anauel said...

Grilo Falante,

É verdade que «alguém desenhou os instrumentos que o cirurgião utiliza». Mas já pensaste que esses instrumentos são os mesmos há muito, muito, muito tempo? Não há cá designers a inventar no que concerne à criação de instrumentos cirúrgicos. Bom, não desde o Dead Ringers...

Essa ideia de que o design está, anda, vive, respira em tudo não pega... Além de que não percebo muito bem essa do «mau design pode afectar toda uma comunidade». A não ser que me proves que morre mais gente nos desastres aéreos cujos flyers de instruções na parte de trás dos acentos são mais manhosos...

Grilo Falante said...

Olá a todos, novamente

:)

Começo pelo desenho dos instrumentos. Seja há muito ou pouco tempo (o que, como sabemos, é falso) o que é certo é que alguém "desenhou" esses instrumentos para que o cirurgião os possa utilizar. Logo, não se trata apenas de uma questão de escala mas também de uma condição de possibilidade.A cirurgia hoje em dia existe desta forma porque alguém desenhou os instrumentos desta forma e não de outra. Poderão dizer que foi também porque a ciência avançou nesta direcção e não noutra. Concordo. mas a técnica e o conhecimento andam de mãos dadas, influenciando-se mutuamente (e de acordo com Heiddeger, hoje em dia a primeira determina o segundo).

Ora, e isto é uma pergunta, onde é que entra aqui o design? O papel de quem DESENHA os instrumentos, as máquinas, os Raios X, os écrans dos monitores dos aparelhos de ecografias?

Sinto, e provavelmente é apenas uma sensação, que há algo de mais no design do que apenas ilustrar uma garagem ou tornar conhecida uma empresa de informática. Não me parece que se possa reduzir o design ao conceito de "valorização" do produto, qual revista exame a falar de uma fábrica de calçado!

Concluo concordando com o exemplo dado dos flyers dos aviões, sugerindo a visita ao link (colocado neste excelente reactor)sobre os boletins de voto nos EUA.

Sim, acho que se influencia toda uma comunidade com Mau Design, e que se pode influenciar significativamente o mundo e a humanidade com Mau bom design. Isto apesar de me poder tornar (um pouco como glasser), uma pouco "simplista e moralista"

:)

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REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com