Saturday, October 06, 2007




12 MESES DE DESIGN EM PORTUGAL


O Reactor nasceu dia 6 de Outubro de 2006, há precisamente um ano. O reconhecimento da crescente importância dos blogs relativamente à difusão e discussão de ideias e a consciência da escassa existência, em Portugal, de outros meios nos quais o design fosse objecto de reflexão séria e consistente, levou-me a desenvolver este projecto que permitir-me-ia desenvolver uma nova estratégia de diálogo com os meus interlocutores de sempre – amigos, colegas e alguns alunos que, como eu, sabem, que a prática do design não se faz sem uma verdadeira “prática de ideias” – e alargar esse diálogo a novas vozes permitindo um exercício de contraditório mais amplo e dinâmico.

Apesar de algumas indefinições ao nível de modelo e método, o Reactor procurou, desde o primeiro “post” harmonizar uma orientação de registo mais ensaístico com um outro registo quase jornalístico, ou seja, a componente de crítica assumidamente autoral com a componente de divulgação menos “contaminada” pela marca interpretativa. A intenção de harmonizar estes dois registos tinha a ver com a própria natureza do medium, sendo o blog um espaço de reversibilidade entre escritor/leitor, espaço de diálogo onde as ideias do “autor” são “rescritas” pelos leitores, a própria natureza dos textos deveria oferecer aos leitores consistência para que houvesse ancoragem para o seu comentário e abertura para que esse comentário encontrasse estímulo. Tendo o Reactor nascido sob o signo da balança, a instabilidade dos equilíbrios tocou-lhe como marca. Os textos foram sendo crescentemente lidos (os últimos seis meses consolidaram uma média de 150 visitas por dia) mas escassamente comentados com as naturais consequências que daí resultam para a vida do blog.

Passados 12 meses, o que aconteceu durante este tempo na cultura do design em Portugal?

O ano civil inicia-se com o anúncio do cancelamento da edição 2007 da ExperimentaDesign. O caos instalado na Câmara de Lisboa foi a principal, mas não a única, razão para este cancelamento. È consensual que Portugal não pode prescindir de um evento com a relevância da ExperimentaDesign e parece claro que essa relevância permite que o evento se realize mesmo que a principal Câmara do país esteja cativa da incompetência do seu executivo, o que faz com que as razões (eminentemente políticas) deste cancelamento mereçam ser pensadas. A Experimenta não pode realizar o evento dentro das condições que quis e não quis, seguramente com razão, realizar o evento dentro das condições que teve. As divergências entre agentes culturais e agentes económicos tendem a acentuar-se sempre que o papel de uns e de outros se torna reversível.

Recentemente, enquanto Guta Moura Guedes dava uma esclarecedora entrevista ao Reactor, a Universidade do Minho e Câmara Municipal de Guimarães anunciavam criar, no âmbito do projecto CampUrbis, a Bienal do Design, a arrancar em 2008, e a partir de 2012, ano em que a cidade é Capital Europeia da Cultura, o Instituto de Design Aplicado. A um ano (ou eventualmente menos) do início da futura Bienal nada foi tornado público, nem uma ideia sobre o sentido do evento, os critérios de programação ou o nome dos programadores.
Em todo o caso, parece ser clara uma crescente atenção política relativamente ao design. Este facto deveria decorrer, em princípio, da meritória acção do CPD enquanto organismo a quem compete o exercício do “lobby” junto do poder político e económico, no entanto, sabe-se que dele não decorre. A acção, diletante e inconsequente, de Henrique Cayatte à frente do Centro Português de Design tem sido uma desilusão. Parece-me justo destacar, em contrapartida, a acção meritória da AND, porém apesar do seu louvável empenho creio que a atenção (crescente nos últimos 15 anos) de alguns agentes políticos e económicos relativamente ao design não resulta destes estarem mais e melhor esclarecidos mas, essencialmente, de uma renovada ignorância sobre o que é o design. A crescente circulação da palavra “design” não é acompanhada por uma crescente definição do que o design é, pelo contrario, o “sucesso do design” deve-se sobretudo ao facto da palavra deixar de ser progressivamente usada como substantivo e passar a ser usada como um adjectivo com um valor qualificativo cada vez mais frágil e indefinido. Em todo o caso, esta banalização não deixa de ter uma face positiva ao permitir uma maior abertura relativamente ao design. A publicação em Diário da República do reconhecimento da actividade de designer é, alias, uma consequência muito positiva desta (ainda que tardia) abertura.

Vários acontecimentos, alguns particularmente relevantes, contribuíram, ao longo destes doze meses, para a dinamização da nossa cultura do design, destaquemos alguns:

a) Várias conferências foram acontecendo de norte a sul do país. Através das conferências foi possível perceber o importante papel que algumas escolas de design vem revelando, a existência de público e o crescente acompanhamento mediático (dos jornais aos blogs) em torno dos eventos. O destaque maior vai para o extraordinário ciclo Personal Views que Andrew Howard e a ESAD tem vindo a promover. A oportunidade de termos entre nós, num espaço de pouco meses, Spiekerman, Lupton, Blauvelt, Brody ou os Experimental Jetset é algo de raro e extraordinariamente importante. Uma palavra, ainda, para a conferência Underground organizada, em Novembro, pela Design Research Society e pela ESD/IADE; para duas conferências, durante o mês de Junho, na Lusófona (o Congresso “Arte, Design e Tecnologia” e “Os caminhos do design”); e para a conferência “Reflexões sobre o Design” que em Maio levaram a Almada nomes como Paulo Heitlinger, Nuno Coelho ou Lasalete de Sousa.
b) Com o MUDE – Museu do Design e da Moda virtualmente existente porém sem mostrar nada de relevante, com as grandes instituições e os grandes museus a revelarem a continuada ausência de atenção relativamente ao design (a exposição no verão de 2006 sobra a Roma Publications na Culturgest foi a excepção), o destaque maior vai para a colaboração de Stefan Sagmeister com a Casa da Música, a identidade da instituição foi apresentada pelo designer austríaco nesse fim-de-semana alucinante marcado ainda pela presença de Neville Brody na ESAD. Relativamente a exposições ou instalações de design, elas aconteceram pontualmente. No verão a instalação Mensagens que tive o prazer de comissariar levou à Área Panorâmica de Tui, na Galiza, a voz de mais de uma dezena de designers portugueses (João Machado, Frederico Duarte, Heitor Alvelos, R2, Miguel Carvalhais, Nuno Coelho, Francisco Laranjo, António Silveira Gomes, Valdemar Lamego, André Cruz, Pedro Taboaço, David Carvalho e Joana Bértholo ); recentemente inaugurou a exposição Remade In Portugal patente na Estufa Fria.
c) Destaque para a transformação gráfica do Público, redesenhado por Mark Porter, o designer do Guardian; a par da transformação gráfica assistimos a alguma renovação ao nível de conteúdos com realce para os artigos de Frederico Duarte. Outros destaques há que merecem ser feitos: Os Silva!Design deixam de desenhar a Agenda Lisboa, perdeu-se qualidade e imaginação gráfica, perdeu-se o contacto seminal com as magníficas ilustrações da Sofia Dias; algumas editoras revelam uma atenção particular dada ao design gráfico (com a Tinta da China); o nosso pequeno Mercado editorial procura usar as plataformas web para se estender, surgindo o The Radical Designist e os Cadernos de Tipografia.
d) Estes últimos 12 meses serviram, também, para reforçar em termos nacionais e internacionais a qualidade do trabalho de alguns jovens estúdios e designers, como é o caso da Boca do Lobo, André Cruz ou os Pedrita, entre outros.


Penso ser consensual que o surgimento dos blogs contribuiu para renovar e alargar o espaço de reflexão sobre o Design. Em termos internacionais, blogs como o Design Observer ou o BLDG tornaram-se referências determinantes, com um papel claramente activo na construção teórica do design e da arquitectura contemporâneas. Em Portugal, neste ultimo ano surgiram vários blogs centrados na prática do design (o Design português surge em Setembro; o CoconutJam em Outubro; o Design Lab em Março) juntando-se a outros anteriormente criados (destacando-se o Ressabiator e o Desígnio) e cujo papel divulgador, formador e dinamizador do design é inquestionável. Da parte Reactor houve, desde sempre, consciência da importância de um trabalho que sendo individual visa objectivos comuns, que implicando dedicação individual só pode ser feito através da partilha colectiva.

No futuro próximo, a estrutura do Reactor será ajustada mas não sofrerá significativas alterações. Manter-se-á uma regular publicação de entrevistas, de ensaios e a procura de mapear o território do design. Haverá lugar a novas colunas (como a “Pequena Enciclopédia de Design” e o “Design and the City”) e a procura de criar extensões entre a actividade on-line e off-line. Continuaremos activos e reactivos, esperamos dos leitores uma crescente participação e o necessário diálogo que é, afinal, a razão de ser deste projecto.

5 comments:

Nelson Zagalo said...

Parabéns. Tem sido um prazer vir até aqui aprender um pouco mais sobre mais uma das áreas científicas emergentes.
Um abraço

Grilo Falante said...

Parabéns Reactor!
Parabéns Zé!
Contem muitos!

mouse said...

Parabéns pelo projecto.

xxx mouse

Papo-seco said...

tarde, é nunca

por isso, aqui ficam

PARABÉNS

tipografia said...

parabénsPARABÉNS!

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REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com