Tuesday, November 04, 2008

O ELOGIO DA (IN)COMPETÊNCIA


Charlatans satisfy clients, professionals satisfy their colleagues.

Everett Hughes


Foi recentemente desmascarado em Portugal um falso médico que, há anos, exercia a profissão, com consultório aberto, dando consultas de neuropsiquiatria clínica. Consta que tinha largas dezenas de pacientes, a maioria dos quais capazes de testemunhar a competência e idoneidade do suposto medico.

Não se trata de uma situação inédita. Lembro-me de há uns anos atrás um grupo generoso de pessoas defender um impostor considerando-o o melhor médico que já haviam tido. Há nestas reacções populares – pese a sua boa dose de non-sense – algo que merece ser levado a sério. O que estas reacções comprovam é que o modo que o senso comum tem de ratificar competência não se constrange com questões menores ligadas à formação, à profissionalização e outras que tais. Bem mais honesta, a competência não é reconhecida em função de anos de estudo, de títulos – mesmo que os impostores os possam ter e em bom número – ou reconhecimento por parte da Ordem, a competência é um conceito de certa forma mais difuso mas que, percebe-se, tem sobretudo a ver com “adequação” (que pode passar por coisas tão diversas como “ter a palavra certa”, ter caído nas boas graças do “meu mais novo” , ser “bem apessoado” ou ter sempre “o consultório impecável”).

Num texto publicado na I.D. em meados dos anos 90 intitulado In Defense of Unprofessionalism, Michael Rock olha com desconfiança para essa aparentemente inevitável correspondência entre: ser-se designer; ser-se formado em design; pertencer-se a uma associação profissional de designers. Se, para Michael Rock, pode fazer sentido uma rígida definição de critérios de reconhecimento profissional em disciplinas que envolvem assuntos de vida e morte (médicos ou taxistas) ou em disciplinas em que é fundamental que as coisas se aguentem em pé (como os engenheiros civis) levando à imposição de critérios mais restritivos (a Ordem dos Médicos exclui, por exemplo, os herbalistas ou os acupunctores) no caso do Design o amadorismo pode ser uma qualidade, que se traduz por uma menor ortodoxia, uma maior liberdade em explorar diversas possibilidades.

Parece certo que, no campo do design, o “bom profissionalismo” não compensa. Talvez seja a noção – de “bom profissional” – que esteja a ser tomada de forma muito redutora, mas parece claro que os clientes preferem sempre “aqueles moços” que fazem “coisas giras sem levantar grandes ondas” do que os “cromos” que questionam e discutem as propostas, que pedem tempo para pensar numa solução e que no limite – desaforo dos desaforos – podem até achar que encontraram uma melhor solução do que aquela que o cliente tinha tido. Também nas escolas de design, por mais rigoroso que seja o professor, por mais dedicado, empenhado e exigente que seja, nunca cairá nas boas graças da maioria dos alunos enquanto não assumir uma atitude do tipo “clube dos poetas mortos” e não perceber que as boas ideias tem-se no bar e não na sala de aula.

O falso médico foi proibido de exercer, em liberdade, a especialidade – e ninguém inventa ser neuropsiquiátra em vão – para qual estava talhado. Estou certo que continuará a exercer dentro na penitenciária onde for colocado. É que a competência não escolhe horas nem lugares.

3 comments:

Mário Moura said...

Parece-me que a distinção entre os "moços" e os "cromos" é mais complicada do que parece, sobretudo se associarmos charlatanice aos primeiros e seriedade aos últimos.

Há uns tempos, no Design Observer, Michael Beirut defendia a treta como uma maneira legítima de "dar a volta" ao cliente. Ou seja, muitos designers acreditam que, para se convencer o cliente, uma "indiferença estratégica" à sinceridade pode ser produtiva.

Escusado será dizer que Rick Poynor lhe caiu em cima, num texto publicado na Print chamado Raging Bull. Poynor contra-argumentava que considerar a sua própria actividade como um logro não era propriamente saudável. Num texto no Ressabiator, eu já tinha defendido uma coisa semelhante em relação a quem ensina os seus alunos que, para se ser designer, é preciso saber enganar o cliente.

REACTOR said...

Obrigado pelo comentário e importantes referências.

Claro que os "moços" e os "cromos" são caricaturas, a questão reside muito no próprio facto na nossa "cultura do design" estar crescentemente caricaturada. O facto é mais dramático quando a "perversão" da disciplina nasce é praticada pelos seus profissionais e formadores, ficando muito ténue a fronteira entre o que (objectivamente) corresponde a dar "tiros nos pés" e o que é entendido como "esperteza" (mesmo que típica do Chico-Esperto; e como isto, tenho consciência, continuamos enredados dentro de um mundo caricatural).

Mário Moura said...

Tens toda a razão: se no ensino do design se tenta ajudar os alunos a encontrar a sua identidade, é bastante comum optar-se por formar apenas caricaturas – "cromos", num outro sentido –, em vez de identidades mais complexas e críticas.

Abraço

PERFIL

REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com