Tuesday, February 26, 2008



COMUNICAÇÃO E SISTEMA

Uma percentagem significativa do correio electrónico enviado para a conta gmail do Reactor é “filtrado” e enviado directamente para a caixa “Spam”. A conclusão é clara, a maior parte da comunicação que nos é dirigida pode ser considerada “perigosa” ou “indesejável”. Poderíamos questionar os critérios de avaliação, sendo certo que a triagem não é feita por nós mas, directamente, pela “máquina”. Torna-se, de resto, evidente, que alguma dessa comunicação, mais do que ser “perigosa” para nós, é perigosa para a máquina, e quando falo em máquina estou, bem entendido, a procurar objectivar, o “sistema”. Por vezes, sou assaltado por suspeitas de que o mesmo sistema que identifica e detém as “mensagens perigosas” é o responsável pela sua criação; outras vezes, assumindo a minha posição de professor de Semiótica, ponho simplesmente em causa os critérios de análise e avaliação das mensagens que o sistema exerce. Confesso que, mesmo quando consigo compreender o comportamento do sistema (detectar padrões etc.) não o consigo (em si) perceber. Escapa-me, precisamente, o que possa ser este “em si” do sistema. E, por vezes, caio “em mim” e começo a especular sob as possíveis situações em que a minha mensagem possa ser entendida, por um qualquer sistema, como perigosa ou indesejada e, nesse instante, consigo rever-me na posição das mensagens “Spam” – confinado a um espaço onde o que eu tenho para dizer se torne, enfim, inofensivo.


2 comments:

Tiago Cruz said...

Caro Reactor,

Os algoritmos criados para filtrar spam nas nossas caixas de correio electrónico são um assunto bastante complexo. Uma das técnicas mais famosas é filtrar a mensagem se esta contiver determinada palavra. O algoritmo (neste caso o Bayesian spam filtering), baseando-se em dados estatísticos, em probabilidades, ao detectar que determinada mensagem contém determinada palavra envia-a directamente para a caixa de spam. Ou seja, este "agente" interpoe-se entre a mensagem e a máquina como um género de agente de autoridade para decidir o destino da mensagem.

Lógicamente esta lista de "palavras proibidas" é enriquecida ao longo do tempo. O agente nasce sem saber o que é spam e o que não é. Ao logo do tempo vai aprendendo a diferenciar conforme as informações que lhe vão dando (por exemplo, no gmail, temos um botão para dizer que determinada mensagem não é spam e um outro para dizer que é spam). Assim vamos educando este nosso agente da autoridade.

O computador é apenas uma ferramenta. Para alguns extremamente valiosa, para outros nem tanto. O spam é criado pelos utilizadores e tem objectivos variados. Entre eles, danificar a máquina. E este agente é igualmente criado pelos utilizadores para proteger não só a máquina como também o dono da caixa de correio electrónico.

Só mais uma curiosidade… o termo "spam" surge deste sketch dos Monty Python.

Obrigado pelo Reactor!

REACTOR said...

Caro Tiago,

Obrigado pelo comentário e pelo link para o fantástico sketch dos Monty Python.

Este "post" é uma aproximação (ainda que excessivamente introdutória) a uma reflexão sobre a dimensão metafórica (em particular as metáforas biológicas) da linguagem informática. Creio que no próximo mês o texto será editado no Reactor. Em todo o caso, o enquadramento que o Tiago fez foi, sem dúvida, importante.

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REACTOR é um blogue sobre cultura do design de José Bártolo (CV). Facebook. e-mail: reactor.blog@gmail.com