Saturday, March 01, 2008



16 ANOS DEPOIS DA EXPOSIÇÃO "DESIGN PORTUGUÊS"

Há dezasseis anos atrás, em 1992, a Secretaria de Estado da Cultura, na sequência de contactos estabelecidos por ocasião da Europália, levou a Madrid (ao prestigiado espaço do Círculo de Belas Artes de Madrid) a exposição “Lusitania – Cultura Portuguesa Actual” tendo como responsáveis Margarida Veiga e Fernando Calhau (comissários da exposição de artes plásticas), Delfim Sardo (comissário da exposição de design), Teresa Siza e José Manuel Fernandes (comissários da exposição de fotografia) e Nuno Júdice ( a quem coube a responsabilidade pelo encontro de escritores), o evento, que pretendia mostrar numa panorâmica geral as tendências que circulavam em Portugal enfatizadas pelos pregões de uma revolução cultural urbana que agitara os anos 80, incluía ainda um ciclo de cinema e uma série de concertos de música contemporânea.

O “especialista” convidado a comissariar a exposição de design foi, já o dissemos, Delfim Sardo. A escolha, não sendo consensual, também não se revestia de particular polémica (também é verdade que hoje, como então, a competência das pessoas escolhidas para determinados cargos não é alvo de um efectivo debate), a intenção assumida era a de apostar num “jovem lobo” capaz de, com as suas escolhas, propor uma interpretação do design contemporâneo e mostrar, senão a especificidade, pelo menos a capacidade do design português “acompanhar o passo” relativamente ao que se fazia na Europa e nos Estados Unidos. Previsíveis primeiras escolhas, como Daciano ou Sena da Silva, seriam seguramente vistas como escolhas mais comprometidas com um tempo e com uma visão particular do design.

Delfim Sardo não era (e nos dezasseis anos que passaram não chegou a ser) verdadeiramente um crítico ou curador de design mas o argumento, inabalável, era o de que verdadeiramente não havia em Portugal (não houve em Portugal até à criação da Experimenta) efectivamente críticos ou curadores de design.

Em 1952, a revista Arquitectura elogiava o trabalho de Fred Kradolfer, Roberto de Araújo, Carlos Ribeiro e Tom na decoração de montras e exposições e na criação de peças de decoração e de elementos gráficos para, de seguida, criticar o autodidactismo e reclamar a necessidade de escolas que preparassem os profissionais pela primeira vez denominados “designers”. Já uns anos antes, em 1949, o I (e único) Salão de Artes Decorativas organizado pelo SNI (onde estiveram Almada, Maria Keil, Lima de Freitas ou Gonçalo Rodrigues dos Santos) manifestava a capacidade de explorar novos suportes e linguagens mas, igualmente, a inexistência de um percurso que explorasse essas linguagens ou suportes para além das investidas episódicas de carácter “experimental”.

O trabalho dos Arquitectos “curiosos do design” teve sem dúvida o mérito de, a partir dos anos 50, contrariar o folclorismo imposto pelo regime e o design-galo-de-Barcelos, abrindo caminho ao futuro e importante trabalho da “primeira geração” de designers portugueses - Daciano da Costa, José Brandão, José Santa Bárbara, Sebastião Rodrigues, António Garcia, Sena da Silva, Cruz de Carvalho, Afonso Dias, Paulo d’Eça Leal ou Espiga Pinto - mesmo que o seu discurso se revelasse, por vezes, pouco “autonomizado” vacilando entre o campo da Arquitectura e o das Belas Artes.

Àquela geração se deve, sem qualquer dúvida, a criação de uma cultura de design em Portugal, contemplando a formação, a produção, o comércio, a exposição e a crítica do design. A este respeito, refira-se a importância da criação, por acção de Magalhães Ramalho, dentro do Instituto Nacional de Investigação Industrial, do Núcleo de Arte e Arquitectura Industrial, apresentado em 1962, que em 1965 promovia a 1ª Quinzena de Estética Industrial que trouxe ao Palácio Foz Henri Vienot, Madini Moretti, Noel White, Sérgio Asti e Xavier Auer, entre outros.

Nos anos de 1980, a “primeira geração” de designers portugueses, continuando empreendedora e activa (mas também claramente “institucionalizada”) surgia-nos demarcada da acção da “segunda geração” de designers. Em 1982, quando a Associação Portuguesa de Designers, dirigida por Sena da Silva, promovia na Gulbenkian a exposição “Design & Circunstância”, aparentemente restava-lhe o exercício da autocelebração (dentro de um quadro de crise económica generalizada) enquanto, mentalmente longe da Gulbenkian, o “novo design” incubava no Bairro Alto.

A escolha de Delfim Sardo, para comissariar a exposição de Design na “Lusitânia”, era então a escolha de um “intelectual” mais próximo da cultura urbana do Bairro Alto do que, propriamente, do Centro Português de Design, o que traduzia, aliás, a muito relativa crença do Estado nos seus próprios organismos.

O verdadeiro “agenciador” do “novo design”, mais lisboeta do que português, dos anos 80 foi Manuel Reis, através da Loja da Atalaya e do Frágil, a que se juntou, já nos anos 90, a Fio de Prumo, criada por Filipe Chinita; o trabalho de Pedro Silva Dias, Filipe Alarcão, Margarida Grácio Nunes, Fernando Sanchez Salvador ou Francisco Rocha tende a ser deles indissociável.

Neste contexto, repita-se, a escolha de Delfim Sardo não sendo consensual (Madalena Figueiredo do ICEP, responsável, desde 1986, pelo concurso Jovem Designer seria uma escolha mais natural) também não gerava particular polémica. Como polémica não gerou a escolha (tão discutivel na altura como discutivel hoje) dos autores representados: Álvaro Siza Vieira, Filipe Alarcão, José Manuel Carvalho Araújo, Pedro Silva Dias, Nuno Lacerda Lopes, Pedro Mendes, António Modesto, Eduardo Souto Moura, Margarida Grácio Nunes, Pedro Ramalho, Francisco Rocha, Fernando Salvador, José Mário Santos e Marco Sousa Santos. A selecção, creio eu, decorria mais da escolha dos empresários (da Loja da Atalaya, da Carvalho Araújo, da Difusão Internacional de Design de Siza, da Elementar e da Proto) do que da escolha do comissário, daí que a exposição “Design Português” ignorasse nomes como João Machado, João Nunes, Francisco Providência, Henrique Cayatte, Ana Salazar ou o colectivo Infracções.

Recentemente, ao pegar numa série de discos editados durante os anos 80, e que testemunham essa vanguarda cultural que se desenvolve em Lisboa, mas também em Coimbra, no Porto ou em Braga, dei-me conta de que não conhecia a maioria dos nomes que assinam o design gráfico desses discos e que os poucos que conhecia, efectivamente conhecia mal, refiro-me a nomes como José M. Cruz e Silva, Marco S. S., Jorge Santos, Fernanda Gonçalves, Jean Jacques ou José Júlio Barros.


Jorge Lima Barreto, Encounters (LP, Alvorada/Rádio Triunfo, 1979).

Por exemplo, não conheço quem fez o design gráfico do disco “Encounters” de Jorge Lima Barreto ou do “Espírito Invisível” dos Mler If Dada, ambos trabalhos fabulosos.


Mler If Dada, Espírito Invisível (LP, Polygram, 1989).

Vinte anos depois, se é fácil reconhecer influências (nomeadamente a linguagem desenvolvida por Vaughan Oliver para a 4AD) também é possível identificar alguma identidade, resultante, muitas vezes, da combinação DIY de técnicas e meios, como forma de responder criativamente às limitações de orçamento.


Corpo Diplomático, Música Moderna (LP, Da Nova, 1979).


Manuela Moura Guedes, Foram Cardos, Foram Prosas (7’’, EMI-VC, 1981).


GNR, Defeitos Especiais (LP, EMI-VC, 1984).

Talvez o design gráfico das capas de muitos discos produzidos em Portugal nos anos 80 e início de 90 (produção notavelmente documentada no blogue Under Review ) ilustre melhor o que é o design (neste caso gráfico) português, melhor do que a exposição “Design & Circunstância”, a “Lusitânia” ou, mais próxima de nós, a primeira Experimentadesign. Há neste design DIY, por vezes anónimo, desapoiado, por vezes toscamente “trendy” outras vezes surpreendentemente original, um retrato muito aproximado do design português, que me parece, vinte anos decorridos, manter-se actual.


The Eye Decay Theory or When the Garden becomes a Time Lapse (LP, Johnny Blue, 1991).


Ocaso Épico, ao vivo, RTP.

1 comment:

Duran said...
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