Saturday, March 08, 2008



ALGUMAS NOTAS SOBRE O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Na Introdução de “A Woman’s Touch. Women in Design from 1860 to the present day”, Isabelle Anscombe recordava que “the history of major design movements since 1860s, when John Ruskin and William Morris put forward the theory that a nation’s design and architecture reflect its social and political health, has been told through countless books and monographs. But so far these publications have been almost exclusively about men’s role in these movements – despite tradicional belief that a woman’s touch transforms a house into a home.”

De facto, a cultura do design, desde as origens até meados dos século XX, envolveu instituições, práticas e visões do design nas quais o papel da mulher era, frequentemente, subvalorizado.



O livro de Isabelle Anscombe, publicado em 1984, representa um dos primeiros esforços historiográficos de “recontar” a história do design, recordando a acção de uma série de mulheres no desenvolvimento teórico e projectual do Design Moderno.





No cenário contemporâneo o protagonismo de mulheres que escrevem, investigam e praticam profissionalmente design é inquestionável. Parece-me sem sentido falar num “women’s touch”, essencialmente por considerar que a importância do trabalho de Katherine McCoy, Teal Triggs, Siân Cook, Dorothy Dunn, Amy Franceschini, Mieke Gerritzen, Jessica Helfand, Lucienne Roberts, Maria Ledesma ou Lizá Ramalho resulta de uma qualidade que não se explica por questões de género.

Embora confesse o meu progressivo desinteresse pela área dos “gender studies” (inclusivamente para aqueles mais focados no design, como os que resultam do trabalho da Women’s Design + Research Unit criada por Triggs e Siân Cook) creio ser importante que a defesa, muitas vezes politicamente correcta, dos discursos de igualdade não produza uma espécie de alienação do que, resultado de diferenças de género e de determinação social de género, podemos chamar de “tarefas específicas” que só a mulher pode levar a cabo.



Virginia Woolf falava em “matar o Anjo da Casa” – solitária e terrível tarefa, condição de possibilidade de uma certa “emancipação” – quando, nas “Professions for Women” (1931) escrevia que: “Matar o Anjo da Casa fazia parte as tarefas da mulher escritora. (…) O Anjo estava morto; o que restava agora? Poderíeis talvez dizer que o que restava era um objecto simples e comum – uma mulher jovem num quarto e um tinteiro. Por outras palavras, agora que ela se tinha livrado da falsidade, a mulher tinha apenas de ser ela própria. Ah! Mas o que significa “ser ela própria”? Isto é, o que significa ser mulher? Asseguro-vos que não sei. E tão pouco acredito que o saibais”.

À pergunta de Woolf, procuraram dar resposta, em belíssimos textos, tantas autoras - Adrienne Rich, Julia Kristeva, Luce Irigay, S. Sontag, Anne Rosalind Jones, Donna Haraway. Alguns deles merecem ser lidos e relidos. Não vejo melhor homenagem a este Dia Internacional da Mulher, do que a releitura de “Notas para uma política da localização” de Adrianne Rich: “Ao longo da curva do globo terrestre há mulheres a levantar-se de madrugada, na escuridão que precede a luz, no lusco-fusco que antecede o nascer do Sol; há mulheres a levantar-se mais cedo que os homens e que as crianças, para quebrar o gelo, acender o fogão, preparar a papa, o café, o arroz; para passar as calças, para fazer tranças, para tirar água do poço, para ferver a água para o chá, para preparar as crianças para ir para a escola, para colher os legumes e começar a caminhada para o Mercado, para correr e apanhar o autocarro para o trabalho, este remunerado. Eu não sei quando é que a maioria das mulheres dorme. Nas grandes cidades, na madrugada, há mulheres que regressam a casa de fazer a limpeza aos escritórios durante toda a noite, ou de encerar as enfermarias dos hospitais ou de fazer a vigília aos velhos e aos doentes, assustados com a hora em que a morte virá cumprir a sua missão”. Pesada tarefa esta, a de ter de matar “ o Anjo da Casa”.

Imagens: Charlotte Perriand na Longue Chaise desenhada por si e por Le Courbusier, 1928-29; Varvara Stepanova e o marido, Rodchenko, por volta de 1920; Fotomontagem e Candeiro "Touch" de Marianne Brandt, final dos anos 20; trabalho gráfico de Barbara Kruger, 2003.

1 comment:

Akinogal said...
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